Como ter ESPERANÇA em 2026? | Falando nIsso 523


Resumo

O episódio parte de duas perguntas de ouvintes para construir uma reflexão profunda sobre esperança e humilhação sob a ótica psicanalítica, filosófica e social. A primeira pergunta pede um vídeo sobre psicanálise e humilhação; a segunda questiona como a psicanálise aborda a esperança sem cair no pensamento positivo banal ou em credos religiosos. O professor propõe unir os temas, argumentando que a humilhação é uma espécie de desistência do desejar, uma incapacidade causada por eventos traumáticos ou pela transmissão da desesperança.

A humilhação é apresentada como uma categoria eminentemente social, relacionada a dinâmicas de reconhecimento. Ela destrói a conexão temporal do desejo (presente-passado-futuro), comprimindo a identidade do indivíduo em um “tu és isso” definitivo, levando a uma expectativa de frustração permanente e a uma cultura do conformismo. Na modernidade, a humilhação se individualiza, sendo vivida como vergonha (do corpo, da origem, da educação), o que a torna perfeita para a alienação e dominação, pois impede que os humilhados partilhem sua condição e encontrem suas determinações históricas coletivas (classe, raça, gênero).

Diante disso, a esperança é tratada como um capítulo do desejo. O desafio é criar esperanças que não sejam apenas o prolongamento do estado de coisas, como ufanismos nacionalistas ou a negação meritocrática das condições objetivas. A esperança mais forte é definida como a capacidade de sonhar não apenas com o que está à mão, mas com o legado para os que virão depois. Para restaurar essa capacidade, o episódio recorre a uma extensa tradição intelectual: a teoria do reconhecimento de Hegel e Axel Honneth; a psicanálise de Freud, Lacan e Winnicott (que restaura o sonho na transferência); e autores literários como Dostoiévski e Beckett.

A discussão também mergulha na psicologia social brasileira, citando Ecléa Bosi (humilhação dos velhos), José Gonçalves Moura e o experimento etnográfico de Fernando Braga da Costa, que se vestiu de gari para vivenciar a invisibilidade e a objetificação. A pobreza é analisada não como fato necessário, mas como fato de cultura que traz consigo a humilhação social. Padre Júlio é mencionado como voz que singulariza o pobre, combatendo a aprofobia (horror à pobreza).

O episódio conclui com uma reflexão sobre a necessidade de uma “oniropolítica” - uma política do sonho para repensar o Brasil após um período de regressão. O professor revela seu desejo (e ato falho que condensou os autores Ernest Bloch e Mark Fisher em “Mark Bloch”) de escrever sobre o tema, juntando esses pensadores marxistas que trabalham com psicanálise. A mensagem final é um chamado a esperançar, no sentido freireano, sem renunciar ao desejo.


Indicações

Authors

  • Sigmund Freud — Fundador da psicanálise, referência central. Seus textos sobre ilusão, valor da vida, mal-estar e a estrutura temporal do desejo (no trabalho do sonho e do luto) são a base da discussão.
  • Georg Wilhelm Friedrich Hegel — Filosofo cuja teoria do reconhecimento, especialmente a dialética do senhor e do escravo, é apresentada como a cena primária da humilhação e o início da reflexão sobre o tema.
  • Axel Honneth — Filósofo social contemporâneo que usa a psicanálise para desenvolver uma teoria das três gramáticas do reconhecimento (amor, direito/direitos e estima social), crucial para entender a defesa contra a humilhação.
  • Donald Winnicott — Psicanalista destacado por seu trabalho com crianças privadas, focando na perda da possibilidade de sonhar e na restauração dessa capacidade através da relação transferencial.
  • Baruch Spinoza — Filósofo do século XVII citado por definir a essência do homem como desejo e a esperança como expressão do conatus (vontade de vida), sempre em par com o medo.
  • Friedrich Nietzsche — Mencionado em relação ao conceito de ressentimento, um processo que avoluma a humilhação que muitas vezes a gente mesmo se impõe.
  • Paulo Freire — Educador brasileiro lembrado pela ideia de “esperançar”, ligado à tradição nacional de reflexão sobre humilhação e esperança.
  • Mark Fisher — Pensador marxista contemporâneo, autor da famosa frase “é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo”. Citado no contexto da dificuldade de imaginar futuros alternativos e como parte do projeto do professor de uma “oniropolítica”.

Books

  • O Futuro de uma Ilusão e O Valor da Vida — Textos de Freud onde ele toca lateralmente na questão da esperança. São mencionados pelo ouvinte e confirmados pelo professor como referências iniciais.
  • Mal-Estar na Civilização (segunda parte) — O professor acrescenta esta obra de Freud, especificamente a parte onde ele fala das técnicas de felicidade, como um texto relevante para pensar os artifícios que criamos em relação ao desejo e à esperança.
  • O Princípio da Esperança — Tratado em três volumes de Ernest Bloch, autor da Escola de Frankfurt. A obra é recomendada como um “calhamaço” para quem quer reaprender a sonhar, entender como se formam as utopias e como a cultura ensina a desejar.
  • Memórias do Subsolo — Obra de Fiódor Dostoiévski citada como exemplo literário que passa pela questão da humilhação e da desesperança.
  • Esperando Godot — Peça de Samuel Beckett mencionada no contexto da literatura que trabalha com a espera, a falta e a esperança.
  • Trabalhos de Thales Absaber — Livro do autor (não nomeado) que é descrito como bem importante na matéria de restaurar o sonho através da abordagem psicanalítica.

People

  • Ecléa Bosi — Psicóloga social brasileira citada por seus estudos sobre a humilhação que recai sobre os velhos e a expectativa social de que eles se demitam do desejo.
  • José Gonçalves Moura (Zeca) — Amigo do professor, pesquisador cujo trabalho aborda a humilhação social como um problema político em psicologia.
  • Fernando Braga da Costa — Aluno de José Gonçalves Moura que realizou um experimento etnográfico notável: vestiu-se de gari por seis meses para vivenciar e estudar a humilhação social da invisibilidade e da não-recepção de um simples “bom dia”.
  • Padre Júlio — Figura contemporânea apresentada como “voz da esperança” no Brasil por singularizar o pobre, combatendo a visão que o trata como uma figura apenas de necessidades, sem gostos ou singularidade.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução e apresentação das duas perguntas dos ouvintes — O episódio começa como um especial de fim de ano. São apresentadas duas perguntas que guiarão a discussão: uma sobre psicanálise e humilhação (de Ricardo Felipe) e outra sobre como a psicanálise aborda a esperança ou a falta dela, sem banalização (de Lucas Ricardo). O professor anuncia que vai juntar os dois temas, pois estão intrinsicamente relacionados.
  • 00:01:58Unindo os temas: esperança como desejo e humilhação como desistência — O professor define a esperança como um nome, entre outros (como saudade, inveja, ambição), para o que a psicanálise chama de desejo. Ele então conecta com a humilhação, explicando que esta é uma espécie de desistência do desejar, uma incapacidade causada por eventos traumáticos ou pela transmissão/aniquilação da esperança. Ambos os fenômenos decolam das dinâmicas de reconhecimento social.
  • 00:03:26Como a humilhação destrói a temporalidade do desejo — A humilhação é descrita como algo que destrói o arco temporal do desejo (presente-passado-futuro). Ela comprime a identidade em um “tu és isso” definitivo, dizendo que você é e sempre será o que foi. Isso leva a uma expectativa de frustração permanente e a uma “solução” ética de focar apenas na fuga do desprazer e na diminuição do eu e dos desejos para se decepcionar menos, gerando uma cultura do conformismo.
  • 00:05:13A individualização da humilhação na modernidade — Na modernidade, a humilhação se torna um processo de individualização, simétrico à divisão social do trabalho. Embora haja uma promessa coletiva de emancipação e direito ao desejo para todos, na prática alguns são incitados a desejar mais do que outros. A humilhação é vivida individualmente como vergonha (do corpo, da origem, da educação), um processo social vivido como falha pessoal, o que é perfeito para a alienação e dominação.
  • 00:07:02O desafio: criar esperanças que não prolonguem o estado de coisas — Diante da humilhação individualizada, surgem duas questões: como olhar para a história e repensar a narrativa de fracasso? E como criar sonhos e esperanças que não sejam apenas o prolongamento desse estado de coisas, como ufanismos nacionalistas ou a negação meritocrática? A esperança forte é definida como a capacidade de sonhar não só com o que está à mão, mas com o legado para as futuras gerações.
  • 00:09:09Teoria do reconhecimento: de Hegel a Axel Honneth — A discussão entra na extensa teoria do reconhecimento, começando com a cena primária da humilhação em Hegel (senhor e escravo). A tradição continua na Escola de Frankfurt e em psicanalistas como Erich Fromm. O professor destaca Axel Honneth, que usa a psicanálise para argumentar que adquirimos segurança contra a humilhação e o desamparo existencial através de três gramáticas de reconhecimento: amor/família, política e cultura.
  • 00:11:08A contribuição da psicanálise: restaurar o sonho na transferência — A tradição psicanalítica de Freud, Lacan e, principalmente, Winnicott é evocada. Winnicott, ao escutar crianças privadas, trabalhou com a perda da possibilidade de sonhar. A abordagem psicanalítica, no espaço artificial da transferência, permite recapitular e recriar, pegando as pontas do desejo fraturado (em sonhos, atos falhos) e restaurando a capacidade de sonhar, como discutido no livro de Thales Absaber.
  • 00:12:01A perspectiva literária e filosófica: de Dostoiévski ao pessimismo — A reflexão se amplia para a literatura e a filosofia. São citados Dostoiévski (Memórias do Subsolo), autores contemporâneos como Jean-Yernon e Édouard Louis, o sul-africano Katze, e Samuel Beckett (Esperando Godot). Também são mencionados os filósofos pessimistas e estoicos, como Cioran, que propõem admitir e se amigar do desamparo para não ser presa fácil de esperanças falsas que oferecem amparo ilusório (como credos ou o Estado).
  • 00:13:26A psicologia social brasileira e a humilhação como problema político — O professor destaca a tradição da psicologia social brasileira no estudo da humilhação, citando Dante Moreira Leite, Ecléa Bosi (sobre a humilhação dos velhos) e José Gonçalves Moura. Um caso emblemático é o experimento do aluno Fernando Braga da Costa, que se vestiu de gari por seis meses para vivenciar a invisibilidade, a falta de reconhecimento e a objetificação que constituem a humilhação social cotidiana.
  • 00:14:47Pobreza, aprofobia e a voz de Padre Júlio — A discussão conecta pobreza e humilhação social, que não é um fato necessário, mas um fato de cultura. Padre Júlio é citado como uma voz da esperança por singularizar o pobre, combatendo a aprofobia (horor à pobreza) que trata o pobre como uma figura alegórica, apenas de necessidades, sem gostos ou singularidade. A tradição de pensamento sobre isso vem de Simone Weil, Hannah Arendt e Walter Benjamin.
  • 00:15:56Ernest Bloch e o Princípio da Esperança — Um autor central é apresentado: Ernest Bloch, da Escola de Frankfurt, autor da obra em três volumes “O Princípio da Esperança”. Bloch reinventou a história ao escrever um tratado sobre como se formam as utopias (da saúde, da nação), como os sonhos são específicos de classe e como a cultura (arte, música, literatura) ensina as pessoas a desejar. É um autor para quem quer reaprender a sonhar.
  • 00:17:41Spinoza: esperança, medo e a vontade de vida — Recuando ao século XVII, Spinoza é evocado para pensar a esperança como figura do desejo. Para ele, a essência do homem é o desejo, e a esperança é a expressão do conatus, a nossa vontade de vida. No entanto, a esperança está sempre acompanhada do medo (medo de se arrebentar, de se apaixonar). O medo faz a gente voltar atrás, e o ponto final desse retorno é a humilhação, muitas vezes autoimposta pelo ressentimento (conceito nietzschiano).
  • 00:18:46Ato falho e o desejo por uma Oniropolítica — O professor comete um ato falho, dizendo “Mark Bloch” ao invés de Ernest Bloch ou Mark Fisher. Ele analisa esse lapso como condensação de dois autores e expressão de seu desejo laborioso: escrever sobre uma “oniropolítica” para o Brasil, uma política do sonho para repensar o país após um período de regressão. Revela que está escrevendo um livro que junta Ernest Bloch, Mark Fisher (autor da frase “é mais fácil imaginar o fim do mundo…”) e a psicanálise.

Dados do Episódio

  • Podcast: Falando nIsso
  • Autor: Christian Dunker
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2026-02-24T14:45:01Z
  • Duração: 00:21:02

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Bem-vindos ao nosso canal YouTube, nesse Falando Nisso de hoje, especial da virada, ano novo.

[00:00:07] Duas perguntas que captam esse espírito da dezembrite, da síndrome do final de ano,

[00:00:15] que a gente vem brincando aí já há algum tempo.

[00:00:19] A primeira diz o seguinte, olá professor, é do Ricardo Felipe Nardi Fernandes Ribe.

[00:00:24] Olá professor, poderia fazer um vídeo sobre psicanálise e humilhação?

[00:00:30] E a segunda, que a gente vai juntar, é do Lucas Ricardo, dizendo, sugestão de tema ou questão para o vídeo?

[00:00:36] Professor, poderia fazer um vídeo abordando a esperança ou a falta dela?

[00:00:42] Como a psicanálise aborda esse sentimento, esse afeto tão delicado na vida e na clínica,

[00:00:47] sem incorrer na banalização do pensamento positivo, uma idealização impossível,

[00:00:52] ou em um credo para uma vida além dessa vida?

[00:00:56] Se possível, recomende bibliografias acerca do assunto.

[00:00:59] Ao que me vem à memória.

[00:01:00] Ao que me vem à memória, o Freud toca lateralmente nessa questão e o futuro de uma ilusão,

[00:01:04] e na sua entrevista, o valor da vida.

[00:01:06] Você tem toda a razão, de fato a esperança não é um tema central no Freud,

[00:01:12] e eu levantaria aí nesses dois textos que você menciona, acrescentaria,

[00:01:17] a segunda parte do Mal-Estar na Civilização, onde o Freud fala das técnicas de felicidade.

[00:01:24] E entre elas a gente vai encontrar alguns artifícios que a gente se cria

[00:01:30] e a gente pensa, e a gente pensa, e a gente pensa, e a gente pensa.

[00:01:33] Então, a gente pode começar dizendo assim, esperança é um nome, entre outros,

[00:01:36] para o que, conceitualmente, a psicanálise chama de desejo.

[00:01:39] Saudade é outro nome, inveja é outro nome para isso,

[00:01:43] a arrogância é outro nome para isso, a ambição é outro nome para isso,

[00:01:47] os sete pecados capitais, luxúria, ira, gulas, é um outro nome para isso.

[00:01:54] Então, a gente tem a esperança como um capítulo do desejo.

[00:01:58] E eu estou juntando as duas perguntas porque a humilhação, de certa forma, é uma espécie de desistência,

[00:02:07] ela traz consigo esse efeito que é uma desistência com o desejar.

[00:02:12] Ou, como a gente vem tematizando, uma incapacidade causada, às vezes, por eventos traumáticos,

[00:02:20] ou pela transmissão da desesperança, ou pela aniquilação da esperança, que vem junto com a humilhação,

[00:02:28] que é uma categoria social, eminentemente social, e que tem que ver, até na sua reflexão filosófica, psicanalítica e literária,

[00:02:39] com o que a gente poderia chamar de dinâmicas de reconhecimento.

[00:02:43] Então, tanto a esperança quanto a desesperança gerada pela humilhação,

[00:02:49] elas decolam.

[00:02:50] Correm de como a gente se reconhece, como a gente é reconhecido pelo outro,

[00:02:56] como a gente reconhece o reconhecimento que o outro nos dispensa,

[00:03:01] e como, nesse processo, nós vamos ir criando esse fluxo, esse arco histórico, mini histórico,

[00:03:08] que é partir do presente, ir ao passado e projetar no futuro.

[00:03:13] É o arco que o Freud descreveu na interpretação dos sonhos, como o trabalho do sonho.

[00:03:18] É um arco que a gente vai encontrar no trabalho do luto,

[00:03:20] é o arco que corresponde à estrutura temporal do desejo.

[00:03:25] Então, o que faz a humilhação?

[00:03:26] Ela destrói essa conexão.

[00:03:29] Ela diz, você é e continuará sendo sempre isso que você foi.

[00:03:35] Ou seja, comprimiu tudo e disse, olha, tu és isso.

[00:03:39] E aí você tem o quê?

[00:03:40] Toda uma teoria da história para dizer, olha, e confirmar, né?

[00:03:44] Esse é o seu destino, esse é o seu lugar no mundo.

[00:03:48] E o que você pode…

[00:03:50] Pode desejar, né?

[00:03:52] Já foi desejado e já foi destruído.

[00:03:56] Já foi desejado e foi decepcionado.

[00:03:59] Então, no fundo, você é levado a uma expectativa de frustração permanente, né?

[00:04:04] De inadequação permanente.

[00:04:05] O seu passado só confirma quem você é e você não pode aspirar, senão,

[00:04:11] à reprodução daquilo que você é.

[00:04:13] Qual a maneira mais simples da gente, do ponto de vista ético, resolver esse impasse, né?

[00:04:18] Dizer assim, olha, a minha vida…

[00:04:20] Ela tem que se orientar pela fuga do desprazer, né?

[00:04:24] Ou seja, não preciso procurar os meus sonhos, não preciso procurar o que eu quero,

[00:04:29] eu preciso sobreviver, né?

[00:04:31] Isso é, sim, a minha tarefa vital.

[00:04:34] E, em segundo lugar, né?

[00:04:36] Eu vou apenas diminuir o meu eu, diminuir os meus desejos,

[00:04:42] diminuir as minhas pretensões para poder me decepcionar menos, né?

[00:04:47] Para poder, assim, deixar de desejar.

[00:04:50] E isso é péssimo, né?

[00:04:53] Isso é péssimo porque isso gera uma cultura do conformismo.

[00:04:57] Antigamente se falava uma cultura da pobreza, né?

[00:05:00] Ou seja, a pobreza, né?

[00:05:01] Enquanto humilhação social, não só como você está desprovido de posses,

[00:05:05] de propriedades ou de bens simbólicos, né?

[00:05:07] Mas uma verdadeira cultura que se reproduz em torno da reprodução da humilhação.

[00:05:13] E isso é muito importante, né?

[00:05:14] A humilhação, ela aparece como um processo de individualização, né?

[00:05:19] Na modernidade.

[00:05:20] Na modernidade, porque no fundo a gente já está prometendo, né?

[00:05:25] Ó a esperança coletiva, ó o reverso da humilhação, que todos nós podemos, né?

[00:05:29] Todos nós podemos nos emancipar, todos nós podemos prosperar,

[00:05:34] todos nós podemos e temos direito ao desejo.

[00:05:36] Ah, legal, mas você vai ali e você diz alguns mais do que outros, né?

[00:05:41] Alguns é melhor não incitar demais o desejo porque isso vai gerar mais decepção.

[00:05:47] E essa individualização da humilhação,

[00:05:50] ela fragmenta, ela dissocia, ela é simétrica à divisão social do trabalho, né?

[00:05:57] Quer dizer, você vai dividindo o trabalho e você vai dividindo também o desejo.

[00:06:01] E o fracasso do desejo e a humilhação.

[00:06:04] Daí a humilhação se tornar não só melancolizante, mas hiperindividualizante.

[00:06:10] Ela é vivida como com vergonha.

[00:06:12] Vergonha do meu corpo, vergonha dos meus modos,

[00:06:16] vergonha da minha educação, vergonha da minha origem.

[00:06:18] Ou seja, ela é um processo social vivido como individual.

[00:06:22] Perfeito para a alienação, perfeito para a dominação.

[00:06:26] Porque aí, aqueles que estão humilhados, eles não partilham sua humilhação,

[00:06:31] revertem a sua humilhação naquilo que seria o tratamento mais óbvio, né?

[00:06:37] Que é encontrar dentro da humilhação as suas verdadeiras razões históricas.

[00:06:42] Ou seja, as suas determinações que ultrapassam aquele indivíduo.

[00:06:46] Que tem que ver, sei lá, com classe.

[00:06:48] Tem que ver com raça, tem que ver com gênero,

[00:06:50] tem que ver com as opressões que foram criando a verdadeira cultura

[00:06:54] da individualização, da humilhação.

[00:06:57] Por outro lado, então, portanto, olhar para a história e repensar essa narrativa.

[00:07:02] Segundo lugar, como criar sonhos?

[00:07:04] Como criar esperanças que não sejam justamente o prolongamento desse estado de coisas?

[00:07:11] Que é o que aparece aí na pergunta como o quê?

[00:07:14] Como o ufanismo, que é a expressão nacionalista,

[00:07:18] desse sentimento social, né?

[00:07:20] Então, nós vamos crescer, vamos nos tornar grandes de novo.

[00:07:24] Nós temos o quê? Um destino.

[00:07:26] Só que ele não é o destino dessa classe, dessa pessoa, dessa família.

[00:07:29] É um destino nacional.

[00:07:31] É um destino dos brasileiros, ou dos argentinos,

[00:07:34] ou dos franceses, ou dos nigerianos.

[00:07:38] Resultado.

[00:07:39] Você tem aí essa ideia de que é preciso reinventar formas e criar futuros

[00:07:46] que não sejam exageradas e falsas.

[00:07:49] Que não sejam assim simétricas com objetivos, com metas, com tudo aquilo que você pode

[00:07:54] forrant, dizia o Heidegger, né?

[00:07:56] Está à mão.

[00:07:57] Eu só consigo sonhar com o que está à mão.

[00:07:59] Eu não vou sonhar aquilo que, por exemplo, eu não consigo conseguir.

[00:08:05] Ruim.

[00:08:06] Ou seja, você não vai sonhar com seus descendentes.

[00:08:08] Você não vai sonhar com o seu legado.

[00:08:10] Você não vai reconhecer que tem coisas que a gente não consegue fazer,

[00:08:13] mas que aqueles que virão depois de nós podem ser que consigam.

[00:08:17] E isso é…

[00:08:18] A definição mais forte de esperança.

[00:08:22] Então, o meritocracia.

[00:08:24] A ideia de que é trabalho é que você vence.

[00:08:27] Certos discursos sobre prosperidade.

[00:08:29] Eles vão estar inflando essa ideia de que você tudo pode.

[00:08:34] Negação.

[00:08:35] Negação da posição onde você está.

[00:08:37] De que você trabalhando vai se tornar milionário simplesmente.

[00:08:41] Negação.

[00:08:42] Negação das condições objetivas pelas quais alguém se torna milionário.

[00:08:46] Ou então, vamos pensar positivo?

[00:08:48] Porque o pensamento e idealização também é uma forma de a gente não olhar para o presente

[00:08:54] e criar um futuro diferente do passado que gerou esse presente.

[00:08:59] Resultado, a esperança é, no fundo, um tratamento para a humilhação.

[00:09:03] Agora, vamos entrar um pouco mais na extensa teoria do reconhecimento,

[00:09:09] que começa lá com o Hegel,

[00:09:11] que começa com as relações do capítulo 4 entre senhor e escravo.

[00:09:16] Ou seja, com a cena primária da humilhação,

[00:09:18] um tem medo da morte, porque tem menos recursos,

[00:09:21] e outro se impõe ao outro e domina o seu trabalho.

[00:09:24] Ele domina a natureza, você domina o escravo.

[00:09:26] E, assim, a gente acha que a escravidão acabou, mas ela continua.

[00:09:30] Ela continua dentro dessa nova figura sociológica, é o indivíduo.

[00:09:35] Problema.

[00:09:36] Então, armado o problema lá com o Hegel.

[00:09:39] E a gente vai ter uma continuação disso na tradição hegeliana.

[00:09:45] Então, a gente vai encontrar ali na Escola de França,

[00:09:48] na Escola de Frankfurt, o Benjamin, do Adorno, do Horkheimer,

[00:09:52] mas também de psicanalistas como Erich Fromm,

[00:09:54] a gente fez um vídeo sobre isso, né?

[00:09:56] E, mais contemporaneamente, num autor chamado Axel Honneth,

[00:10:01] que usa a psicanálise para dizer, olha,

[00:10:03] a gente adquire uma certa segurança que nos defende da humilhação,

[00:10:09] que nos defende do quê?

[00:10:10] De um estado que aí não é exatamente sociológico,

[00:10:15] mas é o estado existencial, que é o desamparo.

[00:10:18] Ah, mas o desamparo tem que…

[00:10:20] Por que ele é existencial?

[00:10:21] Porque a gente nasce desamparado.

[00:10:23] Porque as nossas relações sociais, elas precisam de cuidado,

[00:10:28] elas precisam do outro, elas precisam de vinculação.

[00:10:31] Que a gente não nasce em indivíduo, olha lá.

[00:10:33] É uma negação dessa ideia de que somos indivíduos todos poderosos,

[00:10:37] soberanos e suzeranos, né?

[00:10:39] Bom, então, a partir disso, o Honneth vai argumentar

[00:10:43] que a gente tem três gramáticas de reconhecimento.

[00:10:47] Aquela do amor e da família,

[00:10:49] aquela da política e da confrontação de interesses

[00:10:53] e, entre elas, o reconhecimento pela cultura, pela linguagem,

[00:10:57] pela história, pelas narrativas, pela arte.

[00:11:01] Então, fundamentalmente, três coisas que a gente precisa articular.

[00:11:05] Mas a gente tem ainda, então, a tradição psicanalítica,

[00:11:08] que eu já mencionei aqui, do Freud, do Lacan,

[00:11:10] do Ínico, muito importante nessa matéria.

[00:11:13] Ele escutou muitas crianças submetidas à privação,

[00:11:17] à deprivação, como se traduziu,

[00:11:19] e à perda da esperança,

[00:11:21] como à perda da possibilidade de sonhar,

[00:11:25] que é restaurada, então, pela abordagem psicanalítica

[00:11:28] em que você, ali naquele espaço artificial da transferência,

[00:11:32] vai recapitulando e vai recriando,

[00:11:34] vai pegando as pontas do desejo fraturado,

[00:11:37] num sonho, num ato falho, num fragmento genealógico

[00:11:42] e reforçado, suportado ali pela experiência da transferência,

[00:11:47] que é uma experiência restauradora,

[00:11:50] no sentido de restaurar o sonho,

[00:11:52] como o nosso Thales Absaber escreveu

[00:11:55] num livro bem importante nessa matéria.

[00:11:58] Mas, além da filosofia e da psicanálise,

[00:12:01] a gente tem os escritores.

[00:12:03] A gente tem a Memórias do Subsolo,

[00:12:07] do Dostoiévski, que passa sobre isso,

[00:12:10] a gente tem os escritos mais contemporâneos,

[00:12:14] do Jean-Yernon, do Édouard Louis,

[00:12:17] a gente tem o Katze, o escritor sul-africano

[00:12:20] que trabalha muito sobre isso,

[00:12:22] a gente tem o Beckett, Esperando Godot,

[00:12:25] In Company, vários trabalhos.

[00:12:28] A gente tem a filosofia do Sioran,

[00:12:30] a gente tem a filosofia de, vamos dizer assim,

[00:12:32] os autores pessimistas,

[00:12:34] que vão dar uma outra resposta,

[00:12:36] no fundo, uma resposta um pouco estoica,

[00:12:39] por aproximação, que é admitir o desamparo.

[00:12:43] E admitir e se amigar do seu desamparo,

[00:12:47] e se aproximar do seu desamparo,

[00:12:49] para quê?

[00:12:50] Para que você não seja presa fácil

[00:12:53] das esperanças que vão se aproveitar

[00:12:56] do seu desamparo, oferecendo amparo.

[00:12:59] Que é o quê?

[00:13:00] Acredita no Papis, que ele vai resolver para você.

[00:13:03] Acredita na ideia X, que isso vai te amparar.

[00:13:08] Acredite no Estado,

[00:13:10] que ele vai resolver tudo para você.

[00:13:12] Ou seja,

[00:13:13] narrativas, no fundo,

[00:13:15] que estão negando esse desamparo.

[00:13:17] Daí a força e a pujança dessa literatura,

[00:13:21] que vai se infiltrar também na psicologia social.

[00:13:26] Eu queria mencionar aqui a psicologia social brasileira,

[00:13:29] que tem uma tradição importante de estudos sobre isso,

[00:13:32] que passam lá pelo Dante Moreira Leite,

[00:13:35] mas chegam na Ecleia Bose,

[00:13:37] onde ela vai estudar o que é a humilhação

[00:13:39] que recai sobre os velhos.

[00:13:42] A maneira como a gente espera que o quê?

[00:13:45] Que os velhos não tenham esperança mais,

[00:13:47] que eles vão se demitindo do desejo.

[00:13:49] E não, que há outras formas de reinventar o desejo nessa condição.

[00:13:55] Aí eu mencionaria também os trabalhos do meu amigo Zeca,

[00:13:58] o José Gonçalves Moura.

[00:14:01] Humilhação social é um problema político em psicologia.

[00:14:04] E um aluno dele, que fez um experimento incrível,

[00:14:08] que é o Fernando Braga da Costa,

[00:14:11] que se vestiu de gari durante seis meses

[00:14:14] e foi ver o que acontece quando você está exposto.

[00:14:16] Alguém da classe média, estudante de psicologia da Argentina USP,

[00:14:20] e que vai viver o que é a humilhação

[00:14:23] de você não receber um simples bom dia,

[00:14:26] de você não ser percebido,

[00:14:29] de você ser invisibilizado mesmo,

[00:14:32] de você ser atravessado pelo olhar do outro,

[00:14:35] de você ser objetificado,

[00:14:37] você é parte da mobília,

[00:14:39] você não tem gostos,

[00:14:40] como fala também Padre Júlio,

[00:14:43] que está agora nessa situação dramática e inaceitável,

[00:14:47] de não poder transmitir a sua mensagem,

[00:14:50] de não poder gravar suas missas.

[00:14:53] Ou seja, alguém que é claramente a voz da esperança nesse país.

[00:14:58] Porque ele vai lá e vai dizer,

[00:15:00] olha, não trate o pobre como uma figura alegórica,

[00:15:04] como uma pessoa tipo,

[00:15:06] como alguém que pensa igual,

[00:15:08] que ele é um ser de necessidade.

[00:15:09] Então qualquer coisa, qualquer resto,

[00:15:11] qualquer roupa, qualquer brinquedo usado,

[00:15:13] você dá para ele,

[00:15:14] e ele virou alguém que é só necessidade,

[00:15:17] ele não tem gosto,

[00:15:18] ele não gosta mais de uma roupa ou de uma comida.

[00:15:21] Ou seja, singularizar para tratar a aprofobia.

[00:15:25] O horror que a gente tem é a pobreza.

[00:15:27] Por quê?

[00:15:28] Porque a pobreza vem com a humilhação social.

[00:15:31] Isto não é um fato necessário.

[00:15:33] Isso é um fato de cultura.

[00:15:35] E é um fato de cultura que tem uma expressão no Brasil.

[00:15:39] Então essa tradição vem da Simone Weil,

[00:15:42] vem de pensadores católicos e cristãos,

[00:15:45] mas também a gente vai encontrar isso na Hannah Arendt,

[00:15:47] uma pensadora judia,

[00:15:49] a gente vai encontrar isso no Walter Benjamin,

[00:15:52] a gente vai encontrar isso num autor que precisa ser retomado,

[00:15:56] um autor da história chamado Ernest Bloch.

[00:15:59] O princípio da esperança.

[00:16:01] Três, um, dois, três volumes.

[00:16:05] É o cara da Escola dos Análises,

[00:16:07] reinventou a história,

[00:16:09] e que escreveu um tratado triplo sobre como é que se formam as utopias,

[00:16:15] o que é a nossa utopia da saúde,

[00:16:18] o que é a nossa utopia da nação,

[00:16:21] o que é a maneira como a gente reinventa sonhos,

[00:16:26] a maneira como os sonhos são classe específico,

[00:16:29] a maneira como alguns podem sonhar mais, outros menos,

[00:16:33] como a gente vai encontrar isso na arte,

[00:16:36] no sonho acordado,

[00:16:38] na literatura,

[00:16:40] nas formas culturais da música, da arte,

[00:16:43] que ensinam a gente a desejar.

[00:16:45] É o que a gente tá falando nesse canal aqui há dez anos.

[00:16:49] Vamos ler, vamos reler aqui o Marc Bloch,

[00:16:53] que é um autor, pode ser marxista, eles fizeram essas coisas aqui,

[00:16:57] vai voltar lá no Marc Fischer.

[00:16:59] Quer dizer, é mais fácil imaginar o fim do mundo

[00:17:02] que imaginar outra forma de vida, outro mundo.

[00:17:05] Então vamos ler Marc Bloch,

[00:17:07] nesse começo de ano,

[00:17:10] um calha-maço pra quem quer reaprender a sonhar,

[00:17:15] pra quem quer entender que essa relação entre humilhação e esperança,

[00:17:20] e desesperança, e falsa esperança, ela não começou agora.

[00:17:24] Quem quiser vai buscar lá no Spinoza,

[00:17:26] esperança como figura do desejo.

[00:17:28] Esse autor, século XVII, que dizia

[00:17:30] a essência do homem é o desejo, ele dizia também,

[00:17:32] a esperança é o nosso cônatus,

[00:17:35] onde a nossa vontade de vida,

[00:17:38] ela vai se expressar melhor.

[00:17:41] Mas aí tem o medo.

[00:17:43] A esperança e o medo, então o medo tá entre

[00:17:46] se eu quiser demais vou me arrebentar,

[00:17:48] se eu me apaixonar, onde eu vou parar?

[00:17:50] Não, não quero, volta.

[00:17:52] Medo faz a gente voltar.

[00:17:54] E o ponto final desse retorno é a humilhação.

[00:17:58] A humilhação que muitas vezes os outros nos impõem,

[00:18:01] voltando ao Hegel, mas muitas vezes a gente se impõe.

[00:18:04] A gente se multiplica, a gente avoluma essa humilhação

[00:18:11] por um processo que Nietzsche também já descreveu,

[00:18:14] tá aí o meu debate com o querido amigo Vladimir Safatle sobre isso,

[00:18:17] que é o processo do ressentimento.

[00:18:21] Nesse novo ano, que seja um ano novo,

[00:18:24] que sejam, enfim, esperanças,

[00:18:27] esperanças que estejam à altura do nosso desejo,

[00:18:30] esperanças das quais a gente não renuncie,

[00:18:32] esperanças que sejam esperançar, como falava o Paulo Freire,

[00:18:36] outro autor ligado a essa tradição brasileira

[00:18:39] de reflexão sobre a humilhação e sobre a esperança.

[00:18:42] E o Acheronta tá me lembrando aqui que…

[00:18:46] Ah, tá, tá, eu fiz um ato falho.

[00:18:49] Eu fiz um ato falho que é a expressão, no fundo, de um desejo,

[00:18:54] um desejo laborioso.

[00:18:56] Eu não sei se vocês perceberam, eu juntei Ernest Bloch com Mark Fisher.

[00:19:02] E eu criei a figura do Mark Bloch.

[00:19:05] Olha só como funciona o ato falho como condensação de dois autores.

[00:19:11] Quem quer um exemplo de condensação está aqui, ao vivo, em ato.

[00:19:15] Agora, a pergunta de fundo é por que o Cris foi fazer essa troca.

[00:19:19] Bom, porque eu estou, já há algum tempo, escrevendo,

[00:19:22] pensando o que seria uma oniropolítica para este país.

[00:19:26] Uma política do sonho.

[00:19:28] Na nossa capacidade de reinventar, de repensar o Brasil,

[00:19:31] depois da convulsão, depois da regressão que a gente passou.

[00:19:38] Então, olha aí, o meu desejo de pensar, de escrever,

[00:19:41] de publicar um livro que estou escrevendo sobre oniropolítica,

[00:19:45] juntando Mark Bloch, Ernest Bloch e Mark Fisher,

[00:19:52] que nos deixou recentemente…

[00:19:54] Aliás, fiz a orelha do livro com os últimos escritos do Mark Fisher,

[00:20:00] muito legal, que vai sair aí nos próximos meses,

[00:20:05] onde ele fala do estranho.

[00:20:07] Ele fala do Heimlich, do Freud e tal.

[00:20:09] É um debate.

[00:20:11] Tanto Ernest Bloch como Mark Fisher são autores marxistas

[00:20:15] que trabalham com a psicanálise.

[00:20:17] Então é isso aí, gente.

[00:20:19] Beijo, abraço, aperto de mão.

[00:20:20] Aqueronta, tudo certo aí?

[00:20:21] Tudo certo?

[00:20:22] Ano que vem você está com a gente?

[00:20:23] Está com a gente.

[00:20:24] Continua remando?

[00:20:25] Remando rumo aos 500 mil inscritos

[00:20:29] no nosso super canal.

[00:20:31] É sonhar demais?

[00:20:32] Você decide.

[00:20:33] Inscreva-se.

[00:20:36] Cortei.

[00:20:59] Tchau.