Marielle Franco: deputados e policiais são condenados pelo assassinato 8 anos depois
Resumo
O episódio discute a condenação de Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 2018, destacando o significado político e simbólico do veredito após quase oito anos de cobrança pública por respostas. As apresentadoras analisam como o caso revela a “tríade” política–polícia–milícia no Rio de Janeiro, com milicianos inseridos nas instituições e na elite política, e como racismo, misoginia, homofobia e ódio político atravessaram a decisão de eliminar uma vereadora negra, favelada e lésbica que confrontava interesses econômicos e territoriais.
A conversa reconstrói a trajetória de Marielle — da Maré à Câmara Municipal — e o contexto de enfrentamento às milícias, passando pela CPI das Milícias na Alerj ligada ao trabalho de Marcelo Freixo. Em seguida, detalha a engrenagem do crime: monitoramento, logística, arma e carro clonados, execução com alta precisão por Ronnie Lessa e participação de aliados como o major Ronald, além das tentativas de obstrução e desvio da investigação, incluindo corrupção dentro da Polícia Civil. Por fim, enfatiza o caráter “agridoce” da condenação: a justiça possível não repara a perda e o sistema que permitiu o crime segue ativo; ao mesmo tempo, reconhece a força da família, de sobreviventes e de pessoas que transformaram o luto em luta.
Anotações
- 00:05:48 — Racismo e misoginia como base da violência política: Ao comentar o voto do ministro Alexandre de Moraes, as apresentadoras destacam que o assassinato de Marielle é tratado como um caso emblemático de violência política no Brasil, atravessada por racismo, misoginia e discriminação. Elas retomam a ideia de que Marielle, descrita como uma mulher negra e pobre, “peitava” interesses de milicianos e de homens brancos e ricos, e que os irmãos Brazão não apenas tinham ligação com milícias, mas eram parte delas, atuando como chefes políticos e dominando territórios para extorquir moradores com taxas de serviços como gás, TV a cabo e luz. Nesse contexto, reforçam que a morte de Marielle teve relação com ela atrapalhar os planos desses grupos e expor essa estrutura de poder.
- 00:11:02 — CPI das milícias e a oposição de Bolsonaro ao combate às milícias: Na reconstrução do histórico político, é lembrado que Marcelo Freixo criou a CPI das milícias na Alerj, que indiciou 266 pessoas, e que os irmãos Brazão aparecem no relatório como políticos eleitos por áreas dominadas pela milícia, com campanha permitida ali. Nesse ponto, as apresentadoras abrem um parêntese para citar que Flávio Bolsonaro foi o deputado estadual mais vocalmente contra Freixo e a CPI, e que ele chegou a conceder a medalha Tiradentes ao ex-policial Adriano da Nóbrega, apontado como miliciano e fundador do “escritório do crime”. Também mencionam que, quando Freixo apresentou em Brasília os resultados da CPI, Jair Bolsonaro pediu a palavra na tribuna para criticar a comissão, antes de a narrativa voltar ao Rio e aos movimentos posteriores de Domingos Brazão para se tornar conselheiro do TCE.
- 00:21:00 — O peso do luto e a força da família e de quem sobreviveu: Após falar da condenação, a conversa se volta para as pessoas diretamente afetadas pelo crime e para como elas sustentaram a busca por justiça. Marina menciona Fernanda Chaves, sobrevivente e melhor amiga de Marielle, dizendo que ela passou seis anos repetindo o que aconteceu naquela noite para evitar a impunidade e que só depois da condenação conseguiu começar a lembrar da amiga para além do dia do crime. Em seguida, elas citam Anielle Franco, que teria deixado sonhos de lado para transformar “luto em luta” e hoje é ministra da Igualdade Racial; Lu Yara, filha de Marielle, que dirige o Instituto Marielle Franco voltado à formação de mulheres negras na política; Mônica Benício, viúva de Marielle, que deixou a vida acadêmica, enfrentou depressão e hoje é vereadora; e os pais, Dona Marinete e Seu Antônio, vivendo a tragédia de perder uma filha para a violência, para a política e para a polícia corrupta, motivada por ódio a uma mulher negra, favelada e lésbica.
Linha do Tempo
- [00:00] — Abertura: condenação dos irmãos Brazão e lembrança do assassinato de Marielle e Anderson
- [00:02] — Julgamento e impacto da pergunta “Quem mandou matar Marielle?”
- [00:03] — Perfil dos condenados e a tríade política–polícia–milícia no Rio
- [00:04] — Falas de Anielle Franco e menção ao caráter estrutural da violência política (racismo e misoginia)
- [00:06] — Como milícias operam: extorsão, grilagem, controle territorial e lucro com “regularizações”
- [00:08] — História de Marielle: origem na Maré, ascensão pela educação e entrada na política
- [00:09] — Marielle com Marcelo Freixo e a CPI das Milícias; menções a Flávio e Jair Bolsonaro criticando a CPI
- [00:11] — Domingos Brazão no TCE e embates políticos/judiciais envolvendo o PSOL
- [00:12] — Marielle eleita vereadora; infiltrado no PSOL e hostilidade no ambiente político (Carlos Bolsonaro e Chiquinho Brazão)
- [00:13] — Conflito direto: projeto para “regularizar” terras griladas e o avanço do plano para matar Marielle
- [00:14] — Execução e logística: Ronnie Lessa, promessas de poder territorial, arma, carro com placa clonada e Elcio Queiroz
- [00:16] — Obstrução e falhas no monitoramento: câmeras desligadas, sumiço de carro e armas
- [00:17] — Tentativa de culpar Curicica; delação ao MP e descoberta do “Escritório do Crime”
- [00:18] — Quebra de sigilos de Lessa, evidências digitais e delação apontando os irmãos Brazão
- [00:19] — Papel das promotoras e suspeitas de desvio na Polícia Civil; Rivaldo Barbosa condenado por obstrução e corrupção
- [00:20] — Força de quem ficou: Fernanda Chaves, Anielle, Luyara, Mônica Benício e os pais de Marielle
- [00:23] — Fechamento: sensação agridoce, justiça incompleta e permanência da estrutura miliciana no Rio
Dados do Episódio
- Podcast: Duas e Tanto
- Publicado: 2026-02-26
- Duração: 0h25m
- UUID Episódio: 164ff73a-1a22-4dd0-becd-c3f5a0bc90ae
Dados do Podcast
- Nome: Duas e Tanto
Transcrição
[00:00:00] Oi, amiga. Oi, amiga.
[00:00:03] Eu estou te ligando para a gente falar da condenação dos irmãos
[00:00:06] Chiquinho e Domingos Brazão pelo assassinato da Marielle Franco em 2018.
[00:00:11] Lembrando que ela e o motorista dela, o Anderson Gomes, foram mortos no centro
[00:00:16] do Rio de Janeiro em uma rajada de submetralhadora disparada pelo assassino
[00:00:20] de aluguel miliciano, o ex policial militar Rony Lessa.
[00:00:25] Ela foi assassinada amando os irmãos Brazão, motivados por racismo,
[00:00:29] misoginia, homofobia e ódio político e por vingança, porque ela liderou
[00:00:35] a oposição a um projeto deles de legalizar terras que tinham sido roubadas
[00:00:42] e vendidas por milicianos em Rio das Pedras e Jacarepaguá.
[00:00:46] Vamos falar sobre isso. Eu sou o Caralpires.
[00:00:49] Eu sou Marina Dias.
[00:00:52] E esse é o Duas e Tanto.
[00:00:53] Eu vou deixar cada uma falar uma vez.
[00:00:56] O Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio
[00:00:59] com distribuição do Estúdio Novelo.
[00:01:02] Todas as terças e quintas eu e a Carol a gente se liga
[00:01:06] para falar de um tema político que está bombando de um jeito acessível,
[00:01:10] fácil, divertido de vez em quando, como um papo entre amigas que somos.
[00:01:16] Sigam a gente no canal da Carol no YouTube e no Spotify
[00:01:21] e em todas as plataformas de áudio.
[00:01:24] Ah, não. E no Instagram agora.
[00:01:26] Ah, no Instagram.
[00:01:27] Não podemos esquecer.
[00:01:29] Sigam a gente a Arroba Duas e Tanto no Instagram,
[00:01:31] porque vem aí, hein, novidades vão ser anunciadas
[00:01:35] em breve no nosso perfil no Instagram.
[00:01:39] Se vocês forem lá hoje tem até um stories da Marina posando de gatinha,
[00:01:42] que já é preparativos para o que vem aí.
[00:01:46] Vamos lá, amiga. Hoje não é um episódio de forma alguma divertido.
[00:01:50] É um episódio muito, muito triste.
[00:01:52] Ontem foi um dia muito triste,
[00:01:53] apesar de a gente ter chegado nesse momento de justiça, justiça possível.
[00:01:59] Eu acho que você pode começar falando um pouco do julgamento
[00:02:02] e depois eu vou querer organizar os fatos, a ordem dos fatos
[00:02:08] para todo mundo entender como eles planejaram e executaram o assassinato da Marielle.
[00:02:13] Foram tantos anos de investigação, investigação da investigação
[00:02:17] que às vezes eu sinto que fica tudo muito solto
[00:02:19] e é um caso que do dia um eu acompanho, pari passo, tudo o que eu posso.
[00:02:25] É um caso que me toca muito fundo. Então vamos lá, amiga.
[00:02:29] Vamos lá. O julgamento que terminou ontem, amiga,
[00:02:32] e que condenou os irmãos Brazão a 76 anos e três meses de prisão,
[00:02:38] encerra uma fase, um capítulo,
[00:02:43] porque isso reverbera muito. Ainda vamos falar de Marielle,
[00:02:47] mas encerra esse capítulo que precisava responder
[00:02:51] a uma pergunta que foi feita no Brasil e no mundo todo por quase oito anos.
[00:02:56] Quem mandou matar Marielle?
[00:02:58] O nome da Marielle, o rosto da Marielle e a busca por respostas
[00:03:03] sobre o assassinato dela viraram esse grito de resistência
[00:03:07] que a gente viu em protestos no mundo todo, estampados em muro,
[00:03:12] camiseta, nome de rua, até nome de praça em Paris, a Marielle virou.
[00:03:18] Mas eu queria chamar a atenção, amiga,
[00:03:20] para o fato de que os condenados,
[00:03:24] por serem os mandantes e responsáveis pelo plano e pela logística
[00:03:29] desse assassinato brutal, eles são expoliciais, milicianos e políticos.
[00:03:36] O Chiquinho Brazão era deputado federal
[00:03:39] pelo União Brasil, um partido de direito aliado ao Bolsonaro.
[00:03:43] O irmão dele, o Domingos Brazão, já tinha sido deputado
[00:03:47] e era conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, um órgão que fiscaliza
[00:03:52] os gastos públicos do Rio de Janeiro, ou seja,
[00:03:56] eles eram da elite política do Estado do Rio de Janeiro.
[00:04:00] Então esse julgamento escancara o funcionamento de uma triade
[00:04:05] formada por política, polícia e milícia
[00:04:09] para cometer crime e conseguir poder político, econômico
[00:04:14] e influência nessas cúpulas que dominam boa parte do Rio de Janeiro.
[00:04:20] E eu conversei com a Anielle Franco, irmã da Marielle
[00:04:24] e ministra da igualdade racial,
[00:04:27] e ela me disse que esse julgamento, para ela,
[00:04:30] abre a tampa de um bueiro, aspas dela,
[00:04:34] para mostrar o que há de pior no Rio.
[00:04:38] E ela me disse, amiga, que com o fim desse julgamento,
[00:04:42] com a condenação dessas pessoas, ela tem a impressão
[00:04:45] que a justiça começou a ser feita e ela descomeçou
[00:04:50] porque a Marielle é um exemplo muito simbólico, muito forte, claro,
[00:04:55] mas é um exemplo da violência política que existe no Brasil,
[00:05:00] essa violência política que tem como base racismo e misoginia.
[00:05:06] Ela é um caso de muitos e a Anielle falou isso.
[00:05:10] A Anielle tem, claro, toda a consciência
[00:05:14] de que isso é um exemplo simbólico, mas é um caso em muitos.
[00:05:19] E o ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal,
[00:05:22] que era o relator do caso da Marielle lá no Supremo,
[00:05:25] ele fez menção a isso durante o voto dele.
[00:05:28] E eu queria repetir aqui uma frase
[00:05:30] que eu achei bastante simbólica nesse contexto.
[00:05:33] Ele falou, Marielle era uma mulher negra, pobre,
[00:05:37] que ousou ir de encontro aos interesses de homens brancos e ricos.
[00:05:43] Se juntou a questão política com a misoginia,
[00:05:47] com o racismo, com a discriminação,
[00:05:53] Marielle Franco era uma mulher preta, pobre.
[00:05:58] Estava, digamos, no popular,
[00:06:02] peitando os interesses de milicianos.
[00:06:06] E ele deixou bem claro, amiga, que essas pessoas, esses políticos,
[00:06:12] eles eram parte da milícia.
[00:06:14] Então não é que eles tinham relação com a milícia,
[00:06:18] eles eram da milícia.
[00:06:20] Eles eram chefes políticos da milícia.
[00:06:23] Eles dominavam territórios em regiões do rio.
[00:06:26] Eles extorquiam boa parte da população com taxas de serviços básicos
[00:06:31] como gás, TV a cabo, luz e ganham poder, dinheiro, muito dinheiro com isso.
[00:06:37] E como você falou, eles resolveram matar Marielle
[00:06:40] para que ela parasse de atrapalhar os planos deles.
[00:06:44] Sim.
[00:06:46] Porque as milícias, inclusive, elas começam…
[00:06:49] Milícia é polícia.
[00:06:51] É polícia que é treinada pelo Estado e, em vez de combater crime,
[00:06:55] se alia aos criminosos.
[00:06:58] E aí, como você falou, começa lá atrás, anos 80, 90,
[00:07:03] cobrando taxas de segurança,
[00:07:06] levando esses serviços não regularizados,
[00:07:10] de gás, internet e outros serviços.
[00:07:13] E depois eles entendem que o mais lucrativo é roubar terras,
[00:07:18] lotear essas terras roubadas, se chama grilagem,
[00:07:21] construir empreendimentos muitos sem nenhuma fiscalização,
[00:07:25] prédios perigosos que podem cair.
[00:07:29] Alguns já caíram e eles vendiam ilegalmente isso para as pessoas,
[00:07:32] cobravam dinheiro e depois tentavam, como deputados,
[00:07:36] legalizar por projeto de lei, dizendo que era um projeto social.
[00:07:40] As pessoas estão ali querendo suas casas,
[00:07:42] vão entregar esses terrenos para elas,
[00:07:44] sendo que eles já tinham recebido ilegalmente por esses terrenos.
[00:07:47] Então, quando eles entendem que essa verticalização das favelas,
[00:07:53] que eles vão promovendo e expandindo as favelas para construir mais prédios,
[00:07:58] é uma fonte de dinheiro inesgotável.
[00:08:00] E em cima desses territórios, eles também controlam com violência armada.
[00:08:07] Então, eles são donos de grandes territórios
[00:08:10] na periferia do Rio de Janeiro, usando a violência e a corrupção.
[00:08:14] Então, amiga, para dar espaço atrás, falar um pouco também da Marielle.
[00:08:19] Eu acho a Marielle a cara do Brasil, não é só eu que acho,
[00:08:24] a Marielle é a cara do Brasil.
[00:08:26] Ela nasceu na favela da Maré, no Rio.
[00:08:28] Os pais dela, Dona Marinete e seu Antônio, são migrantes da Paraíba,
[00:08:33] que chegaram e se instalaram ali na favela da Maré.
[00:08:37] Eles começaram morando numa casa de palafita
[00:08:40] e foram, através do trabalho, dos estudos, crescendo.
[00:08:44] A Marielle acendeu socialmente através da educação.
[00:08:48] Ela fez cursinho pré-vestibular ali na Maré,
[00:08:52] no Seasme, que é de onde saiu, amiga, o primeiro que eles chamavam de bonde
[00:08:57] dos intelectuais da Maré, porque foram os primeiros moradores da Maré
[00:09:01] a ter ensino superior e, assim, acender economicamente
[00:09:06] através da educação.
[00:09:11] Nesse contexto, a Marielle perde uma amiga do cursinho
[00:09:16] que foi morta numa troca de tiros dentro da favela por uma bala perdida.
[00:09:21] Ali, ela entende que só através da política
[00:09:25] é possível mudar aquela realidade deles que ficam no meio dessa guerra,
[00:09:29] numa guerra sem fim, que não tem dado resultados,
[00:09:32] a guerra às drogas até hoje, morrem inocentes nas comunidades.
[00:09:37] E aí, ela se interessa pela política, começa
[00:09:41] como assessora do então deputado estadual Marcelo Freixo.
[00:09:45] E aí, eu acho que a partir desse contexto, as pessoas vão conseguir entender melhor
[00:09:50] como que a Marielle chega nesse lugar de ser um empecilho
[00:09:56] para os irmãos brasão.
[00:09:58] O Freixo, amiga, ele teve um irmão morto pela milícia
[00:10:03] no ano que ele estava se candidatando a deputado estadual
[00:10:06] e ele cria a CPI das milícias na alerge, na Assembleia Legislativa do Rio,
[00:10:12] que foi uma grande novidade, foi muito corajoso da parte dele.
[00:10:16] A CPI terminou indiciando 266 pessoas,
[00:10:21] entre elas políticos eleitos.
[00:10:23] Os irmãos brasão já estão ali no relatório não como indiciados,
[00:10:27] mas eles são apontados como os políticos eleitos
[00:10:30] por essas áreas de domínio da milícia.
[00:10:33] Eles eram os únicos autorizados a fazer campanha ali dentro.
[00:10:36] A Marielle, como eu disse, era assessora do Freixo.
[00:10:39] E aí, eu vou fazer um parênteses só para comentar que quando você
[00:10:43] olha o que acontecia nessa CPI, os debates,
[00:10:48] o deputado estadual mais vocalmente contra o Freixo,
[00:10:52] a CPI das milícias era o então deputado estadual Flávio Bolsonaro.
[00:10:57] Que ele chegou e na cadeia dá uma medalha Tiradentes,
[00:11:00] que é a maior honraria que a alerge pode dar, ao ex policial Adriano da Nóbrega,
[00:11:06] que é um miliciano, que criou, fundou o principal grupo de assassinos de aluguel
[00:11:10] do Rio, o escritório do crime.
[00:11:12] E quando o Freixo terminou a CPI, foi a Câmara dos Deputados em Brasília
[00:11:16] apresentar os resultados.
[00:11:17] Quem pediu a palavra na tribuna para criticar a CPI foi o então deputado federal
[00:11:21] Jair Bolsonaro.
[00:11:23] Fecho parênteses voltando para o Rio.
[00:11:26] Anos depois, o Domingos, Brazão quis virar conselheiro do TCE,
[00:11:30] que é um cargo vitalício com um foro privilegiado,
[00:11:34] como você falou, que fiscaliza as contas públicas do Rio de Janeiro.
[00:11:39] E mais uma vez, o PSOL, partido da Marielle,
[00:11:42] estavam ali liderando essa oposição ao Brazão,
[00:11:45] tentaram fazer com que ele não conseguisse ser indicado,
[00:11:48] não conseguiram, Brazão foi nomeado.
[00:11:50] E anos depois, o Brazão tentou levar mais três aliados dele
[00:11:55] para o TCE e dessa vez o PSOL conseguiu entrar na justiça.
[00:12:00] Eles não conseguiram tomar posse e com isso a polícia, que já estava fazendo
[00:12:04] uma investigação contra eles, conseguiu prendê-los
[00:12:07] antes que eles ganhassem foro privilegiado.
[00:12:10] E é nesse contexto que a Marielle é eleita para a Câmara dos Vereadores.
[00:12:13] Ela decide se candidatar para começar a ganhar essa experiência
[00:12:18] em campanha eleitoral e ela acaba sendo eleita como a quinta mais votada
[00:12:22] do Rio de Janeiro.
[00:12:23] A única vereadora negra do Rio de Janeiro.
[00:12:27] E ela, quando entra ali, os Brazão colocam um infiltrado no PSOL
[00:12:33] para vigiar as atividades da Marielle, para entender o que ela estava fazendo,
[00:12:37] se ela ia se colocar na frente deles e o que a Marielle encontra ali
[00:12:41] na Câmara de Vereadores são os mesmos adversários,
[00:12:46] não exatamente os mesmos, mas os mesmos sobrenomes.
[00:12:49] Então ela tinha como colega de vereança o vereador Carlos Bolsonaro,
[00:12:55] que se recusava até entrar no elevador quando encontrava a equipe da Marielle,
[00:13:00] que era formada por uma maioria de mulheres negros.
[00:13:03] A primeira servidora trans da Câmara de Vereadores a conseguir, a Marielle,
[00:13:07] brigou para ela ter o nome social no crachá.
[00:13:10] E também estava lá o vereador Chiquinho Brazão,
[00:13:14] que depois foi eleito deputado federal, depois da Marielle ser assassinada,
[00:13:17] ele foi eleito deputado federal, na época ele era vereador.
[00:13:21] E ele apresenta esse projeto que eu falei de regularizar as terras,
[00:13:25] que ele mesmo grilou em Rio das Pedras, o grupo miliciano dele.
[00:13:29] E a partir daí, por ódio de uma mulher negra favelada
[00:13:34] que não tinha medo de subir na tribuna e dizer que a palavra dela ia ser respeitada, sim.
[00:13:40] Não serei interrompida, não aturo o interrompimento dos vereadores desta casa,
[00:13:45] não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita,
[00:13:52] presidente da Comissão da Mulher Nessa Casa.
[00:14:00] Eles vão e chamam o Rony Lessa, que é esse ex-policial,
[00:14:04] que foi expulso da Polícia Militar depois de se envolver
[00:14:07] em 23 operações com mortes suspeitas.
[00:14:11] O Lessa era conhecido entre a milícia como o melhor atirador entre eles,
[00:14:18] pela precisão, por não deixar vestígios.
[00:14:21] E foi prometido para o Lessa, não só dinheiro,
[00:14:25] porque esses assassinatos de aluguel eles pagam até 300 mil reais
[00:14:30] por esses assassinatos, mas o que foi prometido a ele foi mais que isso,
[00:14:34] foi além do dinheiro, ele ganhar o domínio de uma área
[00:14:39] de Jacarepaguá, Rio das Pedras, aquela região, para ele mesmo controlar.
[00:14:43] Então ele não seria mais só um capanga, ele seria um chefe de milícia.
[00:14:47] E o Lessa é a cara do que você começou falando dessa aliança,
[00:14:53] dessa triade tão perversa que é política, milícia, polícia corrupta,
[00:15:00] porque ele é um cara que entrou na Polícia Militar, ao mesmo tempo
[00:15:03] ele tinha carteirinha de filiação a um grupo de extermínio antigo
[00:15:07] que vem desde a ditadura, que é a escuderia Lecoque.
[00:15:11] Ele depois é formado pelo Estado, ele é um atirador de elite formado pelo Estado
[00:15:18] e depois ele é emprestado como adido para a Polícia Civil.
[00:15:22] Então ele junta o conhecimento de combate
[00:15:26] com operação de inteligência, que é a Polícia Civil.
[00:15:28] Então ele tinha total domínio de como matar sem deixar vestígio.
[00:15:33] Então eles contratam o Roni Lessa e ele começa a monitorar a Marielle
[00:15:38] com a ajuda do Major Ronald.
[00:15:40] Esse Major, amiga, ele era sócio do escritório do crime.
[00:15:44] Ele ajudou o Adriano da Nóbrega, aquele que foi condecorado pelo Flávio Bolsonaro,
[00:15:50] a criar esse consórcio de matadores de aluguéis,
[00:15:53] ex-policiais que matavam por dinheiro, por contrato.
[00:15:58] Então o Ronald era um aliado do Brazão.
[00:16:01] Ele ajuda o Roni Lessa a monitorar a Marielle com a ajuda daquele cara infiltrado.
[00:16:07] O Major Ronald também foi condenado ontem.
[00:16:10] Um outro miliciano aliado do Brazão chamado Macalé, que conseguiu a submetralhadora.
[00:16:15] Um amigo do Roni consegue o carro com a placa clonada que foi usada no crime.
[00:16:20] E o Lessa chama esse Elcio Queiroz, também um ex-policial, para dirigir o carro.
[00:16:26] E aí ele atira contra o carro da Marielle com o carro dele em movimento.
[00:16:30] E o carro da Marielle em movimento e ele consegue matá-la com quatro tiros na cabeça.
[00:16:35] Foi um crime de alta precisão.
[00:16:37] Esse carro foi mandado para desmanche, nunca foi encontrado.
[00:16:39] As armas foram jogadas em alto mar, nunca foram encontradas.
[00:16:43] Eles cruzaram linhas de telefone num raio enorme no rio de 11 ou 12 câmeras.
[00:16:49] Acho que 11 câmeras no trajeto que a Marielle foi perseguida
[00:16:53] da Casa das Pretas na Lapa até onde ela foi assassinada.
[00:16:57] Das 11 câmeras, 5 estavam desligadas, 5 câmeras da prefeitura.
[00:17:02] Então essa investigação teve que ficar batendo em prédio e padaria
[00:17:06] para pedir câmera de segurança para tentar descobrir alguma coisa.
[00:17:11] E por fim, quando a família Brazão tenta,
[00:17:15] como ele diz, virar o canhão da investigação para outro lado,
[00:17:19] para não chegar até eles, eles cometem um deslize bem descarado,
[00:17:23] bem típico de quem tem garantia de impunidade,
[00:17:26] quer tentar colocar a culpa em outro miliciano rival deles, o Orlando Curecica.
[00:17:31] Então eles pensaram assim, vamos fazer uma denúncia falsa,
[00:17:35] dizendo que foi o Curecica e aí ele fica com esse crime nas costas dele.
[00:17:39] O Curecica já estava preso em Bangu por outro crime nesse momento
[00:17:43] e ele fala, não, não, eu não vou pagar pelo que eu não fiz.
[00:17:46] Então ele pede para dar um depoimento, não a polícia civil,
[00:17:49] ele pede para dar um depoimento para o Ministério Público.
[00:17:53] Duas promotoras ouvem o Curecica e ele fala, olha, eu não fiz isso,
[00:17:59] a polícia civil é corrupta, os investigadores desse caso são corruptos,
[00:18:03] eles vieram aqui tentar me obrigar a assumir a culpa por esse crime.
[00:18:09] Existe uma coisa chamada escritório do crime, a gente sabe hoje
[00:18:11] que esse escritório do crime existia porque o Curecica falou isso para essas promotoras
[00:18:18] e eles falaram para elas, procurem esse homem, Rony Lessa.
[00:18:23] E é a partir dessa delação do Curecica
[00:18:28] que as promotoras quebram o sigilo telemático do Rony Lessa
[00:18:31] e aí sim, e-mail, internet, buscas no Google e encontram que ele fazia
[00:18:36] pesquisas obsessivas sobre a Marielle, sobre outras mulheres negras,
[00:18:41] sobre personagens da esquerda, líderes políticos da esquerda.
[00:18:47] E a partir disso elas começam a montar o quebra-cabeça
[00:18:51] que chegou até o Rony Lessa como assassino.
[00:18:54] Ele passou quatro anos em silêncio, ele não delatou quem tinha mandado
[00:18:59] ele matar a Marielle até que na hora do julgamento dele
[00:19:02] ele decide contar que foram os irmãos brasão.
[00:19:06] E aí amiga, só para frisar, fechar falando que os mandantes,
[00:19:11] os assassinos e os mandantes do assassinato da Marielle
[00:19:16] e do Anderson, eles só foram presos porque essas duas promotoras
[00:19:20] entraram na investigação e mantiveram essas descobertas
[00:19:24] em segredo da Polícia Civil, porque a Polícia Civil estava
[00:19:28] o tempo todo tentando desviar essa investigação,
[00:19:32] não fazer essa investigação, não chegar aos culpados.
[00:19:36] E por isso ontem o Rivaldo Barbosa, que era o chefe da Polícia Civil
[00:19:40] do Rio de Janeiro, um cara que recebeu a família da Marielle
[00:19:43] no dia seguinte de manhã, abraçou cada um deles, disse
[00:19:47] que era uma questão de honra resolver esse crime.
[00:19:50] E o que o Rony Lessa diz é que antes mesmo da Marielle ser morta,
[00:19:54] os brasão falaram com o Rivaldo, disseram que iriam matá-la
[00:19:59] e ele só pediu para não matá-la no caminho, nos arredores da Câmara de Vereadores
[00:20:04] para que esse crime não fosse entendido como um crime político
[00:20:08] e que a Polícia Federal não entrasse nesse crime.
[00:20:11] Então ontem ele não foi condenado como mandante,
[00:20:14] como arquiteto intelectual do crime, mas ele foi porque não tinham provas
[00:20:18] além da delação do Rony Lessa, mas ele foi condenado
[00:20:24] por obstrução de justiça e algum outro crime, né amiga?
[00:20:27] Corrupção passiva. Corrupção passiva, certo.
[00:20:30] Para fechar eu queria só falar da força das pessoas
[00:20:36] envolvidas nesse caso, falar da Fernanda Chaves,
[00:20:39] que foi a única sobrevivente, que era a melhor amiga da Marielle.
[00:20:44] Marielle era a madrinha da filha dela, da Rosa,
[00:20:47] e que passou seis anos repetindo o que aconteceu na pior noite da vida dela,
[00:20:53] da vida dela e da história do país, né amiga?
[00:20:57] Para não deixar esse caso impune.
[00:20:59] E aí a Fernanda estava me falando o quanto só depois
[00:21:05] desses caras serem condenados é que ela
[00:21:09] conseguiu começar a pensar na amiga dela como a amiga que ela foi e lembrar de coisas
[00:21:15] que ela já nem lembrava de tanto que a memória dela ficou condicionada
[00:21:20] a só falar do dia do crime, né?
[00:21:23] Falar da Annie também.
[00:21:26] Danielle Franco, irmã da Marielle, que…
[00:21:30] Desculpa amiga.
[00:21:34] Eu vi como a Annie teve que
[00:21:37] deixar todos os sonhos dela de lado
[00:21:41] para transformar esse luto em luta, né?
[00:21:44] E da Lu Yara, cara, que perdeu a mãe
[00:21:48] tão cedo e também teve que
[00:21:51] tirar forças eu nem consigo imaginar de onde.
[00:21:53] A Annie é ministra da igualdade racial.
[00:21:56] A Lu Yara é uma mulher maravilhosa, dirige o Instituto Marielle Franco,
[00:22:03] que é de formação de mulheres negras que querem entrar na política.
[00:22:07] A Mônica Benicio, viúva da Marielle, que também deixou a profissão de arquiteta,
[00:22:11] a vida acadêmica, superou uma depressão
[00:22:14] depois que a Marielle foi morta para seguir as ideias dela, hoje é vereadora.
[00:22:19] E a Dona Marinette, o seu Antônio, pais da Marielle,
[00:22:22] que como muitos pais no Brasil vivem a maior tragédia
[00:22:27] da experiência humana, quer perder um filho,
[00:22:30] perder um filho para a violência urbana, para a política,
[00:22:33] para a polícia corrupta e por ódio, né?
[00:22:37] Ódio de uma mulher preta, favelada, negra, lésbica.
[00:22:43] Encarar eles numa tribuna para fazer uma disputa de ideias.
[00:22:48] Então acho que é isso, amiga.
[00:22:51] É isso, amiga, que bom que você falou tudo isso.
[00:22:54] A gente aprendeu muito com você.
[00:22:56] Eu acompanho você acompanhando essa história tão de perto.
[00:23:00] Não tem como não ficar envolvido, né?
[00:23:03] Mas você tem todas as precisões, todos os detalhes,
[00:23:07] você leu tudo sobre isso, você entrevistou todas as pessoas,
[00:23:11] você leu os documentos, você sabe tudo sobre esse caso
[00:23:16] e é muito bom ver você destrinchando tudo.
[00:23:19] E eu acho que para quem não entendeu, não tinha entendido ainda essa confusão,
[00:23:25] essa investigação foi feita para não ser concluída, né?
[00:23:28] E agora as coisas são mais claras assim. Obrigada por explicar.
[00:23:34] Ontem foi um dia muito agridoce, né?
[00:23:37] Na verdade, eu achei um dia, apesar de ter sido finalmente a condenação,
[00:23:42] mas um dia muito triste de saber que
[00:23:47] olha o quão difícil foi chegar nesses caras e condenar esses caras,
[00:23:51] sendo que a gente já sabia o nome deles há tanto tempo
[00:23:56] e metade do Brasil cobrando durante anos uma resposta, né?
[00:24:02] E o que que não acontece com tanta gente,
[00:24:04] tantas lideranças políticas e ativistas pelo Brasil
[00:24:09] que nunca tem a morte investigada
[00:24:13] e triste por saber que esse sistema continua aí, né?
[00:24:18] A milícia continua aí, a milícia se infiltrou na política,
[00:24:23] se infiltrou na política, na polícia e a gente não vê
[00:24:29] vontade política que seja para acabar com essa estrutura, né?
[00:24:35] E de saber que a Mari nunca, que não vai voltar, né?
[00:24:38] Que essa é uma justiça muito incompleta.
[00:24:41] Mas é isso, amiga.
[00:24:43] Um beijo e até semana que vem.
[00:24:46] Nesse dia de luta, de resistência,
[00:24:50] aonde uma palavra de ordem para a nossa vida
[00:24:54] em meio a essa crise é que nós possamos viver com respeito a todas,
[00:25:00] cada um com seus corpos, cada uma com seus corpos,
[00:25:03] cada uma a sua maneira, cada uma na sua forma de resistência diária.
[00:25:10] As rosas da resistência nascem do asfalto, a gente recebe rosa,
[00:25:14] mas a gente vai estar com o punho cerrado também,
[00:25:17] falando do nosso lugar de vida e resistência
[00:25:20] contra os mandos e desmandos que afetam as nossas vidas, né?