O que acontece quando você reprime seus desejos? | Falando nIsso 524


Resumo

O episódio aborda a complexa questão das consequências de reprimir os desejos, partindo de uma pergunta de um ouvinte. O apresentador destaca que a pergunta envolve dois conceitos complicados: repressão e desejo. Ele explica que existem diferentes modos de repressão (como verdrängung, verneinung) e que cada um tem consequências distintas. A repressão não é um processo uniforme, mas uma família de mecanismos que podem se manifestar de diversas formas.

A discussão avança para o conceito de economia psíquica de Freud, onde o neurótico ou aquele que reprime excessivamente acaba vivendo uma “vida dupla”. De um lado, vive os desejos autorizados e compatíveis com o ego e a moral; do outro, gasta uma quantidade enorme de energia psíquica (libido, atenção, controle) para manter certos desejos reprimidos. A consequência principal é uma vida empobrecida, menos intensa, uma “meia-vida” dividida. O desejo é descrito como um circuito complexo de fios que se entrelaçam (bahnung), conectando passado, presente e futuro.

O episódio então problematiza a ideia simplista de que a solução seria “soltar a franga” e atender a todos os desejos. Isso, muitas vezes, pode ser apenas outro mecanismo repressivo, um deslocamento do muro da repressão. A medida da repressão é dada pela negociação entre prazer e negação, influenciada pela cultura, época, família, classe e ideais. A arte é apresentada como um exemplo de espaço onde essa negociação acontece, sendo ao mesmo tempo acessível e transgressiva.

São explorados casos onde o processo repressivo falha ou se transforma, como na depressão (uma inibição, um ajuste do eu ao recalcamento), ou em mecanismos como a racionalização (a fábula da raposa e as uvas), o isolamento, a repressão amnésica, a fobia (criar barreiras realísticas) e a esquiva. A propaganda e a economia da atenção são vistas como tentativas de capturar e redirecionar o desejo. A referência a Marcuse (“Eros e Civilização”) introduz a ideia paradoxal de que a civilização exige renúncia e autolimitação, que podem ser emancipatórias, mas também podem levar a uma “dessublimação repressiva”, onde atividades como arte e lazer se tornam mais repressão.

Por fim, é apresentado o conceito hegeliano de Aufhebung (negação, conservação e superação) usado por Freud para descrever um processo dialético saudável do desejo, que avança em espirais. O patológico, ou “pato-lógico”, ocorre quando o desejo fica girando em falso, sem progredir. A conclusão é que nem a repressão pura nem a liberação total são soluções. O caminho está em suportar a divisão subjetiva, colocar os conflitos na mesa e olhar para eles, num processo que é necessariamente lento e trabalhoso, como na psicanálise, e que pode levar a descobrir que o desejo inicial não era bem aquele que se imaginava.


Indicações

Books

  • Eros e Civilização — Texto de Herbert Marcuse mencionado como obrigatório para entender o paradoxo da civilização, que exige renúncia e autolimitação, mas pode levar a uma “dessublimação repressiva”.

Concepts

  • Aufhebung — Conceito hegeliano usado por Freud para descrever o processo dialético de uma boa interpretação ou do movimento saudável do desejo, envolvendo negação, conservação e superação.
  • Economia psíquica — Termo freudiano mencionado para se referir aos efeitos quantitativos da repressão no psiquismo, onde energia é gasta para manter desejos reprimidos.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução à pergunta sobre reprimir desejos — O episódio começa com a pergunta de um ouvinte: “Quais são as consequências de reprimir os desejos?” O apresentador imediatamente aponta a complexidade da questão, destacando que envolve dois conceitos complicados: repressão e desejo. Ele problematiza a ideia de que todo mundo acha que entende o que é reprimir desejos, mas na verdade existem diferentes modos e termos para isso.
  • 00:02:25Economia psíquica e a vida dupla do neurótico — O apresentador introduz o conceito freudiano de economia psíquica para explicar os efeitos quantitativos da repressão. Quem reprime excessivamente vive uma vida dupla: uma com os desejos autorizados e outra onde gasta energia para manter outros desejos reprimidos. A consequência é uma vida empobrecida, menos intensa, uma “meia-vida”.
  • 00:05:19O custo da repressão e a questão do quanto vale a pena — A pergunta se transforma em: “Quanto vale a pena reprimir?” O apresentador contrapõe o medo de se tornar um “criminoso” ou “besta fera” ao liberar todos os desejos, com a ideia de que essa própria liberação pode ser um mecanismo de mais repressão. A medida da repressão é uma negociação influenciada por cultura, família, classe e ideais.
  • 00:07:58Casos onde a repressão falha ou se transforma: depressão e racionalização — São apresentados exemplos de falha ou transformação do processo repressivo. Na depressão, há uma inibição, um ajuste do eu que evita situações que induzem ao desejo. Na racionalização, ilustrada pela fábula da raposa e as uvas, o sujeito se convence de que não queria aquilo que era inatingível, diminuindo o desejo.
  • 00:09:54Diversos mecanismos de repressão: isolamento, amnésia, fobias — O apresentador lista vários mecanismos de repressão: isolar um problema (“casos isolados”), a repressão por falar excessivamente (como descrito por Foucault), a repressão amnésica (esquecer), a reconstrução da memória, a criação de fobias e barreiras realísticas, a esquiva de situações e a substituição por trabalho excessivo.
  • 00:12:24Marcuse, civilização e a dessublimação repressiva — É citado o texto “Eros e Civilização” de Herbert Marcuse. Ele discute o paradoxo de que a civilização exige renúncia e autolimitação, o que pode ser emancipatório. No entanto, na sociedade contemporânea, há um excesso: a busca por mais desempenho leva a uma “dessublimação repressiva”, onde áreas como arte e lazer se tornam mais um campo de repressão do que de sublimação.
  • 00:13:14Aufhebung: o processo dialético saudável do desejo — O apresentador explica o conceito hegeliano de Aufhebung, usado por Freud, que envolve três movimentos: negação, conservação e superação. Este é o processo dialético saudável onde o desejo avança em espirais, retornando a pontos ligeiramente deslocados. O patológico ocorre quando esse processo para e o desejo fica “girando em falso”.
  • 00:19:03A conclusão reforça que nem reprimir totalmente nem liberar totalmente os desejos são boas soluções. A questão central está no que se faz no espaço entre um e outro: como se suporta a divisão subjetiva e os conflitos. O processo analítico é lento justamente porque visa não uma repressão mais eficiente, mas uma compreensão que pode levar a descobrir que o desejo real era outro. — Conclusão: nem repressão pura, nem liberação total

Dados do Episódio

  • Podcast: Falando nIsso
  • Autor: Christian Dunker
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2026-02-27T14:45:00Z
  • Duração: 00:20:49

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Bem-vindos a nós falando nisso de hoje, nesse canal YouTube, com uma pergunta traiçoeira,

[00:00:08] de Pedro H.

[00:00:10] Quais são as consequências de reprimir os desejos?

[00:00:14] Claro que também não é uma boa ideia atender a todos os desejos, pois a pessoa pode acabar

[00:00:20] cometendo algum disparate.

[00:00:22] Então, quando reprimir e quando não?

[00:00:25] Essa pergunta é super complexa, mas ela tem um problema, que é quando você enuncia

[00:00:33] todo mundo entende.

[00:00:35] Ah, eu sei muito bem o que é reprimir desejos.

[00:00:39] É que aqui você tem dois conceitos, e dois conceitos complicados, que é o conceito de

[00:00:45] repressão e o conceito de desejo.

[00:00:47] Pra começar, a gente pode dizer assim, entenda o que você quer chamar de repressão.

[00:00:52] Mas, por exemplo, tem duas palavras em alemão.

[00:00:55] Tem uma palavra em alemão pra esse termo, repression e verdrango.

[00:00:58] Qual das duas você tá falando?

[00:01:00] Tem uma terceira ainda, chama untadrucum.

[00:01:03] Qual das três você tá falando?

[00:01:05] Tem uma quarta ainda, que chama verneinung, que é a negação.

[00:01:10] Qual das quatro você tá falando?

[00:01:12] Ou seja, tem uma família longa de modos, e aí a negação eu lembrei aqui porque ela

[00:01:20] é talvez o modo mais genérico, né?

[00:01:22] Modos muito diferentes.

[00:01:25] Negar o desejo.

[00:01:26] Cada um deles tem consequências um pouquinho diferentes.

[00:01:30] Quando a gente conta uma piada, né?

[00:01:33] E aparece ali uma verdade que tava o quê?

[00:01:36] Reprimida.

[00:01:37] Que tava não falada.

[00:01:38] Você vai dizer, ah, é um desejo que você deixou aparecer.

[00:01:42] Ah, legal.

[00:01:43] Isso é muito diferente de, olha, eu tenho aqui uma ideia fixa, um pensamento obsessivo,

[00:01:48] que é um sintoma gravíssimo, que torna a minha vida meio incapacitante, porque eu

[00:01:53] tenho que viver a minha vida.

[00:01:54] E ao mesmo tempo pensar quantos ladrilhos tem na parede do banheiro.

[00:01:58] Porra, e quantas vezes eu espirrei nessa noite.

[00:02:02] E quantas vezes a minha filha espirrou.

[00:02:04] Caso real, tá, gente?

[00:02:05] De uma pessoa conhecida que vai gostar que eu mencionei, porque ninguém vai ligar com

[00:02:10] a pessoa com a coisa.

[00:02:12] Mas é a coisa mais trivial que tem.

[00:02:14] Ou seja, viver e reprimir.

[00:02:17] Levar a vida e custar, trabalhar, pagar para reprimir o desejo.

[00:02:22] Então vamos pôr aqui numa…

[00:02:24] Chave, né?

[00:02:25] Que é da economia.

[00:02:27] Freud falava em economia psíquica para se referir aos efeitos quantitativos no psiquismo.

[00:02:33] É como se o neurótico, ou aquele que reprime, no sentido da tua pergunta, tivesse levando

[00:02:39] uma vida dupla.

[00:02:40] Então, de um lado, ela está vivendo a vida dos desejos que ele autoriza, que ele reconhece,

[00:02:46] que ele deixa aparecer.

[00:02:48] Por quê?

[00:02:48] Porque são convenientes com o ego.

[00:02:50] Porque são convergentes com a moral.

[00:02:52] Porque são compatíveis com a…

[00:02:54] Constelação familiar ou cultural onde ele vive.

[00:02:56] Ah, tá.

[00:02:57] Então, aí eu estou, assim, egocintônico.

[00:03:01] Os desejos, eles não são sempre inteiramente incompatíveis com o eu.

[00:03:07] Às vezes eles têm um equivalente, né?

[00:03:10] Na consciência, né?

[00:03:11] Daí são desejos que a gente vai dizer assim, todos os desejos são inconscientes?

[00:03:17] Sim e não.

[00:03:18] Tem desejos que chegam à consciência.

[00:03:20] Mas todo desejo consciente, ele se conecta com o desejo inconsciente.

[00:03:24] Então, tem um sistema de dupla transcrição.

[00:03:27] Ou seja, nós passamos para a complexidade do que a gente chama de desejo.

[00:03:31] Mas, continuando na alegoria aqui que eu estou propondo, né?

[00:03:34] O neurótico, ou aquele que sofre com o seu excesso de repressão,

[00:03:40] ele vai gastar uma quantidade de libido, de interesse, de atenção, de disposição,

[00:03:47] de investimento, de controle, aqui, e a sua vida vai ficar, assim, um pouco empobrecida.

[00:03:53] Né?

[00:03:54] Então, é essa a resposta inicial para a tua pergunta, né?

[00:03:59] Quais são as consequências de reprimir os desejos?

[00:04:01] Sua vida vai ficar menor, amigo.

[00:04:03] Sua vida vai ficar mais boba.

[00:04:05] Sua vida vai ficar menos intensa.

[00:04:07] Sua vida vai ficar mais pobre, no sentido alegórico de, assim, pobre de espírito.

[00:04:12] Por quê?

[00:04:13] Porque é uma meia-vida.

[00:04:14] Porque é uma vida dividida.

[00:04:17] Mas aí, a pergunta é…

[00:04:19] Ah, o Cristo está falando os desejos como se fosse, sim, o desejo.

[00:04:24] É verdade.

[00:04:25] Porque há um pressuposto de que os desejos, eles se conectam.

[00:04:31] E o problema é que eles se conectam todos com todos.

[00:04:34] E daí a gente vai dizer, assim, imagina um novelo, assim, um monte de fios entrando num lado da máquina

[00:04:40] e do outro lado sai um tapete lindo.

[00:04:45] Parece, só que eles são feitos nos mesmos entranhamentos.

[00:04:49] Em alemão, bahnung, né?

[00:04:51] Que é uma viagem…

[00:04:54] Vias que se entrecruzam, né?

[00:04:56] A gente diz vias férreas, né?

[00:04:59] Avenidas, ruas, né?

[00:05:01] Imagina que o desejo é um circuito desses fios.

[00:05:06] É o fio do desejo.

[00:05:07] Vai do presente, passa para o passado, vai ao futuro.

[00:05:10] Respondendo, assim, do geral para o específico, né?

[00:05:13] Reprimir desejos é super, vamos dizer assim, custoso.

[00:05:19] Aí a pergunta vira…

[00:05:20] Quanto vale a pena?

[00:05:22] Quanto vale a pena?

[00:05:24] Reprimir.

[00:05:25] Você vai dizer, como a tua pergunta apontou.

[00:05:28] Não, se eu solto os desejos, se eu vivo todos os desejos,

[00:05:32] eu vou me tornar um imoral, eu vou me tornar um criminoso,

[00:05:36] eu vou me tornar um anticivilizatório, eu vou virar uma besta fera.

[00:05:41] Que como as pessoas entendem essa pergunta, né?

[00:05:44] Assim, nos seus termos, quando elas se relacionam aproximadamente com a psicanálise.

[00:05:51] Sim, a ideia da psicanálise é…

[00:05:53] Vamos trazer…

[00:05:54] Dá repressão para o desejo, certo.

[00:05:56] Mas o que isso significa?

[00:05:57] É soltar a franga?

[00:05:59] É virar a franga elétrica, que eu adoro, né?

[00:06:03] É virar a porra louca?

[00:06:05] Não, não.

[00:06:07] Porque isso, no fundo, e muitas vezes,

[00:06:10] corresponde a mecanismos de mais repressão.

[00:06:15] De deslocar o seu muro de repressão mais para o lado.

[00:06:22] Às vezes, não.

[00:06:24] Qual é a diferença?

[00:06:25] Ah, isso tem que ver com o processo civilizatório.

[00:06:28] Isso tem que ver com a cultura que você está, a época que você está, a família que você está,

[00:06:31] a classe que você está, a raça que você está.

[00:06:33] Isso tem que ver com tudo, né?

[00:06:34] Com tudo que define qual é a vida que se espera para você.

[00:06:40] Ou seja, como é que você se relaciona com os seus ideais, com o seu narcisismo,

[00:06:44] com o seu ego, com as suas expectativas sociais, com tudo isso, né?

[00:06:48] Tudo isso é que vai dar a medida e a extensão de quanto de repressão você aplica.

[00:06:54] Quer dizer, tem isso, né?

[00:06:55] Que é o quê?

[00:06:55] Interiorizado pelo eu.

[00:06:58] Que forma o eu, né?

[00:07:00] Ou seja, é uma zona de negociação.

[00:07:03] Entre prazer, vamos chamar assim, e negação do prazer.

[00:07:08] Qual é a solução para isso?

[00:07:10] Ah, é como os dois se encontram.

[00:07:13] Onde eles se encontram?

[00:07:14] Você pode dizer na cultura, você pode dizer na lei,

[00:07:17] você pode dizer nas mediações, você pode dizer nos compromissos,

[00:07:20] você pode dizer na arte, dizer…

[00:07:22] Ah, olha só que interessante, a arte, ela é uma linguagem,

[00:07:26] todo mundo pode ter acesso, tá lá nos museus, tá fora dos museus,

[00:07:30] mas ela, por outro lado, é transgressiva.

[00:07:32] Ela diz aquilo que a gente não tá conseguindo ver.

[00:07:35] Ela tem um compromisso com a verdade, né?

[00:07:37] Ah, então o artista, ele é alguém que se muda pra esse lugar entre as duas coisas.

[00:07:43] Daí a boa resposta não é assim, ou o desejo ou a repressão, né?

[00:07:49] É, inclusive, porque tem muitos casos

[00:07:52] que é exatamente o processo repressivo que fracassa.

[00:07:56] Então, a gente vai ter pessoas…

[00:07:58] Por exemplo, a depressão, né?

[00:08:00] Na depressão, a gente tem um processo que não é bem de recalcamento direto do desejo.

[00:08:07] É um efeito secundário do recalcamento.

[00:08:09] É um ajuste do eu ao recalcamento.

[00:08:12] É uma inibição.

[00:08:13] Olha, em vez de desejar, eu vou me inibir a situações que induzem a causa do desejo.

[00:08:20] Eu não vou levantar de manhã.

[00:08:22] Eu não vou trabalhar.

[00:08:23] Eu não vou me apaixonar.

[00:08:25] Eu vou ir me reduzindo.

[00:08:27] Porque assim eu consigo deixar o desejo assim em espera, né?

[00:08:33] É uma outra tática.

[00:08:35] Eu acho que entra no que se tá chamando de repressão,

[00:08:37] mas não é tecnicamente uma repressão.

[00:08:39] É uma inibição, uma transformação do eu.

[00:08:41] Do tipo, olha, eu queria muito essas uvas.

[00:08:44] Essas uvas são deliciosas.

[00:08:45] Hum, eu tô morrendo de fome.

[00:08:48] Eu vou comer as uvas.

[00:08:49] Eu não alcanço as uvas.

[00:08:51] As uvas são muito altas.

[00:08:52] Daí o que que eu faço?

[00:08:54] Eu começo a me convencer de que eu não queria essas uvas.

[00:08:57] Essas uvas, elas estão…

[00:08:59] Olha só, elas estão verdes.

[00:09:01] Elas são azedas.

[00:09:03] Elas devem ser péssimas.

[00:09:04] Não, no fundo, eu não queria.

[00:09:07] Ou seja, é como se fosse um engano que o sujeito vai se criando

[00:09:11] pra tornar aquele desejo diminuído.

[00:09:15] Há ainda o caso em que a repressão fracassa.

[00:09:18] Tem pessoas que têm dificuldade pra reprimir,

[00:09:20] pra se controlar, pra mediar, pra fazer esse processo, né?

[00:09:27] Em que você tem formações do inconsciente.

[00:09:29] Formação quer dizer compromisso, né?

[00:09:31] Quer dizer híbrido.

[00:09:32] Quer dizer assim, entre um e outro.

[00:09:34] Não, comigo não.

[00:09:35] Comigo é uma coisa ou outra coisa.

[00:09:37] Vai reprimir.

[00:09:38] Isso é uma forma de reprimir.

[00:09:39] O outro vai dizer assim, não, não, não, não, não.

[00:09:41] Vamos isolar.

[00:09:42] Isola esse problema.

[00:09:43] É um caso particular.

[00:09:44] Elas estão se matando há anos.

[00:09:46] Cada vez mais gente atirando dentro dessa escola.

[00:09:48] Mas são lobos solitários.

[00:09:50] São pessoas problemáticas.

[00:09:51] São casos isolados.

[00:09:52] O que é isso?

[00:09:53] Repressão.

[00:09:54] Nem toda repressão tem a mesma visibilidade.

[00:09:59] Foucault descreveu um tipo de repressão incrível, que é…

[00:10:02] Vamos falar de sexo?

[00:10:03] Mais sexo.

[00:10:04] Mais sexo.

[00:10:05] Quanto mais a gente falar de sexo, mais libertado a gente está.

[00:10:08] Não.

[00:10:09] Mais reprimido por fale e não faça.

[00:10:13] Fale e não explore.

[00:10:15] Fale e represente.

[00:10:17] Fale e se reprima falando.

[00:10:20] Aí vocês vão dizer assim, não, é verdade?

[00:10:22] É.

[00:10:23] Tem gente que faz sexo pra se defender do desejo.

[00:10:25] Não.

[00:10:27] É sim.

[00:10:28] Sexo sem envolvimento, sexo sem amor.

[00:10:30] Olha lá, isolamento.

[00:10:32] É uma forma de negação.

[00:10:33] Tem outros que vão dizer assim, olha, se eu esquecer, daí não aconteceu.

[00:10:38] Se eu passar borracha, aí não aconteceu.

[00:10:41] Que é a repressão amnésica.

[00:10:43] Ou seja, não existiu.

[00:10:45] Tem outros que vão dizer assim, existiu, mas eles reconstroem de tal maneira

[00:10:50] aquilo que aconteceu que você não se reconhece mais ali.

[00:10:54] É outra forma de repressão.

[00:10:56] Tem outros que vão, diante do fracasso do recalcamento, vão recorrer a barreiras realísticas.

[00:11:05] Eu tenho medo de rato.

[00:11:06] Então eu não vou ali onde tem rato.

[00:11:08] Tenho medo de elevador.

[00:11:09] Eu não moro em apartamento.

[00:11:12] Eu tenho medo de altura.

[00:11:13] Eu vou pelas escadas.

[00:11:15] Não mudou o seu medo.

[00:11:17] Você continua lá.

[00:11:18] Eu contorno.

[00:11:21] Tem outros que se esquivam.

[00:11:23] Então eu não vou na festa, porque na festa eu vou ser confrontado com o meu desejo.

[00:11:27] Eu vou ficar olhando, vou ficar querendo coisas.

[00:11:30] É melhor não ir.

[00:11:32] Tem outros que vão reprimir, né?

[00:11:35] Na forma assim, substitui por outra coisa.

[00:11:38] Trabalha, trabalha muito.

[00:11:41] Quando o desejo a gente vê depois.

[00:11:43] Trabalha que passa.

[00:11:45] Você perdeu uma pessoa, tá triste.

[00:11:46] Não, não, não.

[00:11:47] Mente vazia, oficina do diabo.

[00:11:50] Diabo é o secretário-geral do desejo, né, gente?

[00:11:53] É o organizador da paçoca.

[00:11:55] Então não pode ter espaço vazio, ócio, períodos de intervalo.

[00:12:00] Por quê?

[00:12:00] Porque aí vem o desejo.

[00:12:01] Então veja, o desejo, ele é cobiçado pela ideologia, né?

[00:12:08] O que é o marketing, a propaganda, o que é a economia da atenção?

[00:12:12] É uma tentativa de pegar o seu desejo e usar ele pra comprar,

[00:12:17] se ocupa, nega, reprime, né?

[00:12:20] Marcuse, Eros e Civilização, um texto obrigatório sobre isso.

[00:12:24] Onde ele vai dizer assim, é paradoxal, porque a civilização que a gente se cria,

[00:12:31] ela exige sacrifício, ela exige renúncia, ela exige perspectivação de futuro,

[00:12:38] ela exige que a gente interiorize, né?

[00:12:41] E se autolimite, né?

[00:12:43] Isso é emancipação, gente.

[00:12:45] Autolimitar-se.

[00:12:46] Então, é a repressão.

[00:12:49] É a repressão, mas sujeitos políticos, eles surgem desta limitação.

[00:12:56] Ah, mas então tem uma limitação muito específica que é do processo civilizacional que não é o geral,

[00:13:02] é aquele que a gente pode conceber como justamente crítico.

[00:13:05] Ah, então eu aceito e nego.

[00:13:08] Não diga.

[00:13:09] É por isso que o Freud usa a mesma palavra do Hegel pra definir o que acontece

[00:13:14] quando acontece uma boa interpretação.

[00:13:16] Aufhebung.

[00:13:18] Dialética.

[00:13:19] Toda dialética acontece por Aufhebung.

[00:13:22] Que que é Aufhebung?

[00:13:23] Três movimentos numa palavra só.

[00:13:25] Primeiro, negar.

[00:13:27] Hum, negar, reprimir.

[00:13:29] Hum, tá bom.

[00:13:31] São as negações patológicas.

[00:13:33] Segundo, conservar.

[00:13:35] Hum, já é um pouco menos patológico, né?

[00:13:39] Porque eu nego, mas eu admito.

[00:13:41] Eu digo no sonho, olha, não era a minha mãe, viu?

[00:13:44] Não vai pensar que é a minha mãe.

[00:13:46] Do outro lado, é a sua mãe, mas você não tá querendo aceitar.

[00:13:49] Mas o fato de você me dizer isso dessa forma significa que temos negação e conservação.

[00:13:54] Negação como uma espécie de admissão preliminar, de aceitação prévia.

[00:13:59] Então negação, conservação, superação.

[00:14:04] Ou seja, eu consigo deixar isso pra trás.

[00:14:08] Eu consigo fazer o quê?

[00:14:10] O desejo se movimentar em uma próxima laçada.

[00:14:13] Em uma próxima volta.

[00:14:15] Imagina o desejo como um processo assim, em que ele vai, ele vai pra vender, depois ele volta.

[00:14:22] Afirmação, negação, né?

[00:14:25] Ele volta no mesmo ponto, não, ele volta um pouquinho deslocado.

[00:14:28] Aí ele vai pra outra viagem desejante.

[00:14:32] Daí ela volta.

[00:14:34] A memória, o passado.

[00:14:36] Ele se liga com desejos anteriores, com os desejos desejados.

[00:14:39] Nenhum desejo começa do nada, ele sempre vem de algum lugar.

[00:14:42] E daí ele se projeta à frente.

[00:14:44] O que acontece com os seres patológicos?

[00:14:49] Como dizia o falecido Magno, né?

[00:14:52] Nós somos pato-lógicos.

[00:14:55] Patos e lógicos.

[00:14:57] Racionais, logos, pensamento.

[00:15:00] E juntos os dois viram o quê? Fica patológico.

[00:15:03] Então esse negócio de despatologizar, eu entendo, mas eu acho que tem que ter um pouquinho mais de dedicação.

[00:15:12] É uma matéria pra não sair falando bobagens, né?

[00:15:15] Patológico não é doença.

[00:15:18] Mas eu vou voltar aqui.

[00:15:19] Então a gente já tem o patológico do desejo, que é interno ao desejo.

[00:15:25] É que tem que ver com negar, conservar e ir à frente.

[00:15:30] O que que faz o neurótico, né?

[00:15:36] Ele fica ali espiralando, ele fica ali, né?

[00:15:39] A TCC inventou uma coisa que é assim, o pensamento espiralado, circular, o pensamento que não progride.

[00:15:47] E nem regride, ele fica ali, né?

[00:15:50] Queimando, fritando e etc.

[00:15:53] Totalmente de acordo com essa ideia de que ali o que acontece, né?

[00:15:58] É como se ele tivesse parado, né?

[00:16:00] O desejo fica girando em falso.

[00:16:03] Ele não vai pra o próximo o quê? Objeto?

[00:16:07] É boba, mas novas.

[00:16:09] O próximo objeto é uma espécie de ilusão, né?

[00:16:11] É uma espécie de alienação do desejo na próxima estação.

[00:16:15] E depois na próxima estação, depois na próxima estação.

[00:16:17] É verdade.

[00:16:18] Até que você comece a ter uma relação um pouquinho diferente com o objeto que você acha,

[00:16:23] que é o que você quer, mas na verdade ele está causando o seu desejo em outro lugar diferente daquele que você localiza.

[00:16:29] Então, problema.

[00:16:31] Se você tem uma política de recalcar, né?

[00:16:34] De reprimir, de negar o desejo.

[00:16:36] Você vai se tornar em alguma medida um grande conservador, né?

[00:16:40] Você não vai querer saber de sexualidade, você não vai querer saber de nenhuma novidade.

[00:16:44] Você vai achar que legal é morar lá no século XVI ou então nos anos 60.

[00:16:49] Você vai ser um sujeito que está se defendendo do mundo, está se defendendo dos prazeres.

[00:16:54] Porque no fundo você entendeu que o que se espera de você é ser, como dizia o Reich, um Zé Ninguém.

[00:17:00] Um Zé Mané, como eu gosto de dizer.

[00:17:02] Ou seja, alguém que não é capaz de confrontar, desafiar,

[00:17:06] entrar pro clinch, brigar, brigar pelos seus desejos.

[00:17:09] Não, não, não, não.

[00:17:11] Isso é coisa de gente inculta e civilizada e feia, suja.

[00:17:16] Então, você vê, todos os ideais higienistas, os ideais civilizatórios, eles têm um exagero.

[00:17:22] O Marcuse, voltando à era da civilização, dizia

[00:17:25] a gente já fez o que dava pra ter um estado mínimo de bem-estar pra todo mundo.

[00:17:32] Mas aí a gente começa com mais repressão. Por quê?

[00:17:35] Porque a gente quer mais desempenho, porque a gente quer mais velocidade,

[00:17:40] porque a gente quer mais aceleração, porque a gente quer mais.

[00:17:42] Aquilo lá que a gente chamou de mais de gozar.

[00:17:44] E aí você tem o quê? Uma dessublimação repressiva.

[00:17:48] Aquilo que devia ser o campo da arte, da cultura, do lazer, do amor,

[00:17:55] das novas formas de experiência vitais, tudo isso se torna não mais sublimação, mas mais repressão.

[00:18:04] Ah, é? Não, mas então essa música não pode, hein? Essa música é cafona, né? É cringe.

[00:18:10] Cringe. Um cara fez um comentário outro dia num vídeo meu, ele escreveu um comentário, é cringe.

[00:18:16] Cringe é cafona. É uma coisa fora de moda. Vá reprimir a sua tia, entendeu?

[00:18:22] Enfia o cringe no seu fringe, entende? Faz outro negócio, mais divertido, mais humorado, menos repressivo.

[00:18:33] Aprenda a fazer expressões e comentários de juízo menos repressivos.

[00:18:41] Ah, mas então você vai aceitar coisas inaceitáveis.

[00:18:45] Essa é a moral da nossa época, higienista, repressiva e cada vez mais querendo o quê?

[00:18:51] Reprimir o outro para mais produção, mais ideal, mais condomínio.

[00:18:58] Então é isso aí, gente. Reprimir o desejo, não bom, dá ruim.

[00:19:03] Soltar o desejo também é assim, né? O outro está me reprimindo.

[00:19:08] Então agora, também não bom. A questão toda está ali no que você faz entre um e outro.

[00:19:16] Como é que você suporta sua divisão subjetiva, seus conflitos, né?

[00:19:21] Como é que você cria e coloca, consegue pôr os conflitos na mesa, olhar para eles, né?

[00:19:28] Não resolvê-los rápido demais.

[00:19:31] Muita gente pergunta, o que é que a psiquiatra demora tanto?

[00:19:33] Porque enxuga isso aí, vamos direto ao assunto.

[00:19:36] Demorou para criar, vai demorar para descriar.

[00:19:39] É uma vida fazendo assim, você vai fazer outra coisa.

[00:19:42] Você quer uma coisa, dois minutos do conselho, faz um coach que eu resolvo, vai ficar merdio.

[00:19:49] Mas é o que você está pedindo. Você está pedindo para…

[00:19:54] Me ajuda a eu me reprimir melhor? Me ajuda a eu me adequar mais?

[00:19:58] Me ajuda a eu me conformar mais?

[00:20:01] Ajudo, mas vai demorar, entendeu?

[00:20:04] E é capaz que no fim você descubra que isso que você estava querendo não é bem o seu desejo.

[00:20:11] O seu desejo era outro.

[00:20:13] Vamos nessa, querota?

[00:20:15] Vamos lá, embarca aí, rema, dá trabalho, sacrifício, auto-limitação, conflito.

[00:20:21] No final às vezes dá certo, às vezes não dá.

[00:20:24] É isso aí.

[00:20:31] Claro, mas eu digo aí, em relação a isso, em relação a isso,

[00:20:35] eu quero trabalhar mais.

[00:20:38] De fato eu não tenho esse desejo, eu quero trabalhar.

[00:20:41] É isso aí.

[00:20:43] Tudo bem, gostei.

[00:20:45] Bom, vamos lá.

[00:20:47] É isso aí, meu amigo.

[00:20:49] Agora, vamos lá.

[00:20:51] Fala, fala, fala, fala.

[00:20:53] Fala, fala.

[00:20:55] Fala, fala, fala.

[00:20:57] Fala, fala, fala.