O Rio e a Cargill - Quem manda no Tapajós?
Resumo
Gregório Duvivier e Bruno Torturra comentam, ao vivo, a revogação de um decreto do governo Lula ligado ao projeto de ampliação de hidrovias na Amazônia — vitória atribuída diretamente à ocupação de 33 dias feita por povos indígenas no terminal da Cargill no Tapajós. Eles detalham como a dragagem e o aumento de calado do rio favoreceriam o escoamento da soja do agronegócio, ameaçando modos de vida, pesca, memória, turismo e territórios de ao menos 14 povos que se articularam na mobilização. A conversa celebra a conquista, mas insiste que foi apenas uma batalha: o projeto pode retornar via Congresso, estados e pressões internas no próprio governo.
Em seguida, o episódio aprofunda o papel da Cargill: uma gigante global do agronegócio, maior empresa privada (de capital fechado) dos EUA, controlada por uma família bilionária, com enorme influência sobre cadeias como soja e cacau no Brasil. Os apresentadores discutem denúncias recorrentes envolvendo desmatamento, “lavagem de grãos”, terceirização de responsabilidades, violência e impactos sociais (drogas, prostituição, doenças e desestruturação comunitária) em regiões onde portos e infraestrutura se instalam. Também analisam a dinâmica política da revogação, atribuindo protagonismo a Guilherme Boulos e Sonia Guajajara no diálogo com o movimento indígena e apontando conflitos dentro do governo.
Por fim, a conversa conecta a luta territorial a uma dimensão existencial climática: citam um gráfico da NASA sobre aumento acelerado da retenção de calor na Terra e alertam para a possibilidade de antecipação do aquecimento de 2°C já para a década de 2030, com risco de “tipping points”. Discutem a dificuldade social de reagir a ameaças difusas (atmosfera e “ciberespaço”) e criticam a ideologia do “progresso” que naturaliza hidrovias, petróleo e megaobras como inevitáveis. O episódio termina com recomendações culturais e o anúncio do Clube de Cultura do Calma Urgente.
Anotações
- 00:06:40 — Sedimento como berço e memória: Ao falar da dragagem no Tapajós, Gregório diz que o sedimento visto como obstáculo para os navios é, para os povos da região, viveiro onde os peixes nascem e também um lugar de memória e de vida, ligado ao nascimento de uma civilização e a um sítio arqueológico. Ele lista impactos como mexer com turismo e com modos de sustento locais, reforçando que a obra não seria só uma intervenção técnica, mas algo que “atropela” povos inteiros.
- 00:06:54 — Vitória dos povos e Davi contra Golias: Gregório celebra a revogação como vitória das nações indígenas e do Brasil, destacando que a dragagem significaria “dragar uma nação”, mencionando que seriam muitos povos envolvidos. Ele ressalta o caráter inesperado da vitória por ser um embate desigual, “Davi contra Golias”, introduzindo a Cargill como o grande adversário e pedindo que Bruno explique o que é a empresa.
- 00:08:18 — Cargill: empresa fechada e familiar: Bruno explica que a Cargill é enorme e pouco transparente: a maior empresa privada dos Estados Unidos no sentido de não ter capital aberto. Ele diz que ela foi fundada no século 19, há mais de 150 anos, nunca abriu capital e permanece pertencendo à família Cargill, o que ajuda a entender para onde vão os lucros obtidos no Brasil.
- 00:08:44 — Bilionários por trás da Cargill: Bruno detalha a concentração de riqueza ligada à empresa: os lucros obtidos com rios, florestas e trabalho no Brasil vão para uma família americana, descrita como a 11ª mais rica do mundo. Ele afirma que entre herdeiros há 12 bilionários associados aos ganhos da companhia, usando isso para situar o poder econômico da Cargill.
- 00:09:18 — Faturamento no Brasil e presença global: Perguntado sobre quanto a empresa tira do Brasil, Bruno menciona um dado levantado pela equipe: algo em torno de 100 bilhões de reais, que ele ressalva ser provavelmente faturamento/receita no país. Em seguida ele reforça que a Cargill é uma das gigantes do agronegócio no mundo e está presente em muitos mercados.
- 00:09:42 — Entrada na ditadura e papel de trader: Bruno situa a chegada da Cargill ao Brasil em 1965, no início da ditadura, e descreve seu papel como grande compradora de matéria-prima brasileira. Ele enfatiza que a empresa atua como trader: compra a soja de fazendeiros e intermedeia contratos com grandes compradores internacionais, em vez de uma exportação direta do produtor para o exterior.
- 00:10:31 — Atravessadora da exportação de soja: Bruno insiste que muita gente imagina o produtor exportando por conta própria, mas que o modelo dominante envolve empresas como a Cargill comprando a produção e exportando. Ele chama a empresa de mediadora/atravessadora que fecha grandes contratos com China, Europa e outros mercados, e a partir daí os fazendeiros brasileiros vendem para ela.
- 00:11:00 — Infraestrutura portuária e avanço na Amazônia: Bruno descreve a estrutura econômica da Cargill: compra de fazendeiros e instalação de infraestrutura de exportação, incluindo instalações portuárias. Ele menciona porto na Bahia e a construção/expansão de terminais em rios amazônicos, conectando isso diretamente ao caso do Tapajós e ao interesse no escoamento crescente de soja.
- 00:11:34 — Interesse no calado e nas hidrovias: Bruno diz que a Cargill é possivelmente a empresa mais interessada economicamente na expansão da malha hidroviária e no aumento do calado dos rios, para permitir embarcações mais profundas e aumentar o volume de soja escoado. Ele explica a lógica: aprofundar o leito do rio para caber embarcações maiores e ampliar a capacidade dos portos.
- 00:13:39 — Jornalismo que investiga a Cargill: Bruno recomenda fontes que investigam a empresa, citando a Repórter Brasil (fundada pelo Leonardo Sakamoto) e o Joio e o Trigo como veículos que viram “pedra no sapato” da Cargill. Ele contrasta esse trabalho com o que chama de jornalismo industrial brasileiro, que, segundo ele, não faz esse tipo de apuração focada em “vilania”.
- 00:15:22 — 100 bilhões de receita vs 1 bilhão investido: Gregório retoma um dado apresentado: em 2021, a Cargill teria tirado 100 bilhões de reais de receita do Brasil e investido cerca de 1 bilhão no país. Ele usa a comparação para rebater a ideia de que a empresa “dá muito dinheiro” ao Brasil, destacando a desproporção entre o que ela aufere aqui e o que reinveste.
- 00:15:35 — Lavagem de grãos e mistura de soja: Bruno afirma que, segundo ativistas e ONGs que investigaram o setor, grandes traders como a Cargill praticam o que chamam de “lavagem de grãos”: misturar soja considerada legal com soja produzida em áreas de desmatamento, terras indígenas e áreas griladas, e depois emitir certificados que encobrem a parte irregular ao vender tudo junto.
- 00:16:08 — Soja ilegal junto da ‘legal’ e certificação: Bruno descreve o mecanismo: em grandes safras, junta-se soja “razoável” (que ele já diz não ser grande coisa) com soja de origem ilegal, e a venda ocorre como um volume único, permitindo que a soja “podre” vá junto. Ele cita fronteiras de terras indígenas e a lógica de certificação como forma de mascarar a origem.
- 00:17:18 — Distância jurídica e terceirização da culpa: Bruno diz que a vantagem de ser corporação atravessadora é conseguir se eximir: alegar que coerção veio da segurança privada contratada ou que trabalho escravo está nos fornecedores, não na empresa. Ele insiste que muitos fornecedores existem para servir exclusivamente a uma trader, criando distância jurídica por meio de PJs, advogados e terceirizações.
- 00:18:24 — Colocar a Cargill no centro do debate: Bruno defende que, mesmo com a revogação do decreto, é preciso lembrar que foi uma batalha e não o fim da guerra, e que o projeto pode voltar por outras vias. Ele propõe que, nos centros urbanos, o foco seja colocar a Cargill no centro do assunto, explicitando que se trata de uma família americana e de lucros indo para “12 bilionários”.
- 00:18:33 — Revogação não encerra o projeto das hidrovias: Bruno reforça que a vitória é importante, mas o projeto pode reaparecer via Congresso, governos estaduais e pressões internas no governo federal. Ele insiste na necessidade de tornar claros os dados sobre a empresa e o fluxo de dinheiro para fora, para evitar a narrativa de que se trata apenas de “geração de emprego” no Brasil.
- 00:20:20 — Pouco emprego para muito prejuízo: Após comparar faturamento e empregos, os dois destacam que a Cargill emprega 11 mil pessoas no Brasil, número visto como baixo diante dos 100 bilhões de reais de receita. Gregório e Bruno associam isso a um saldo negativo: prejuízos ambientais, étnicos e sociais, além de isenções, incentivos e lobby que ajudam a empresa a operar.
- 00:21:00 — Violência sexual e desestruturação comunitária: Gregório cita, com base em material da Repórter Brasil, que há aumento de violência sexual, prostituição e outros problemas em comunidades onde a empresa chega, mencionando casos como Itaituba e Campo Verde. Ele descreve o “estrago em volta” como surreal e horroroso, apontando que os impactos vão além do tema ambiental estrito.
- 00:21:43 — Portos trazem droga, crime e doenças: Bruno argumenta que a resistência indígena não é só espiritual: a instalação de um porto exige infraestrutura e atrai trabalhadores e povoados, o que, segundo ele, traz droga, prostituição, crime, grilagem e violência. Gregório acrescenta mudanças alimentares com comida industrializada e relata boom de hipertensão e diabetes em locais onde portos já se instalaram, além de famílias proibindo crianças de brincar sozinhas.
- 00:22:59 — Organização para ocupar por 33 dias: Gregório propõe mudar o foco para a organização dos povos que sustentaram 33 dias de acampamento na porta e depois dentro da Cargill. Ele sublinha a dificuldade prática de parar a própria vida e sustento para manter a ocupação, contrastando com outros acampamentos políticos que teriam apoio e estrutura, e lembra que ali havia risco real devido a histórico de coerção e segurança privada.
- 00:24:28 — Críticas de ‘fogo amigo’ e ano eleitoral: Gregório relata que houve gente, inclusive “da esquerda” ou do “nosso campo”, dizendo que não se devia criticar o governo porque isso seria fogo amigo em ano de eleição e abriria crise com agronegócio e Cargill. Ele critica a postura de colocar a “conjuntura” acima das pessoas que vivem no território e menciona o uso recorrente da frase sobre falta de correlação de forças.
- 00:26:08 — Motivo da revolta: promessa na COP e consulta: Gregório explica que os povos indígenas já haviam protestado no ano anterior e que, na COP, indígenas do baixo Tapajós demandaram audiência e obtiveram um compromisso: nada seria feito sem consulta e inclusão deles na negociação. Ele chama isso de “mínimo” e até conservador, e usa esse ponto para contextualizar a indignação com a decisão do governo.
- 00:26:19 — Decreto de licitação sem consulta: Gregório diz que, um mês depois da COP, o governo federal fez um decreto de licitação para escavar mais o Tapajós sem consulta. Isso teria levado ao novo ciclo de protestos para revogar o decreto, e, segundo ele, os indígenas foram além: não aceitaram apenas a revogação da licitação e passaram a demandar também a revogação do projeto de hidrovias.
- 00:27:41 — Boulos e Guajajara no diálogo com os indígenas: Bruno relata que Guilherme Boulos, secretário-geral da Presidência com status de ministério, e Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, foram conversar com os movimentos indígenas. Segundo a informação que ele diz ter da última hora, Boulos dialogou com Lula (que estaria na Ásia) e conseguiu a revogação, apontando o papel político desses interlocutores dentro do governo.
- 00:28:44 — Reação interna e ministros contrários: Bruno diz que já há ministros irritados com a revogação na imprensa, citando Rui Costa como um petista “mais de direita” com poder e mencionando também o ministro de Portos e Aeroportos, ligado ao Republicanos. Ele usa isso para mostrar que a decisão abre conflito dentro do governo Lula e que interesses pró-hidrovia vão além da Cargill.
- 00:29:53 — Vitória do movimento e dos seus representantes no governo: Gregório afirma que o resultado o surpreendeu por ser vitória do movimento social e também dos representantes desse movimento dentro do governo, citando Boulos e Guajajara. Ele contesta a ideia de que esses ministros seriam apenas “decorativos”, reconhece a desigualdade de poder e orçamento entre ministérios e conclui que, para quem mora no Tapajós, a decisão teve efeito concreto e decisivo.
- 00:32:56 — Decreto caiu, mas chantagens podem voltar: Bruno ressalta que a revogação não significa proteção definitiva dos rios: não houve emenda constitucional, consenso nacional ou blindagem institucional. Ele diz que a vitória pode ter servido para encerrar o protesto, mas alerta para pressões futuras quando Lula voltar ao país e conversar com ministros como Rui Costa e o titular de Portos, e sugere que a retomada pode vir por via legislativa.
- 00:34:03 — Vazamento na Foz do Amazonas e pouca repercussão: Bruno traz o tema da Foz do Amazonas, dizendo que houve vazamento de fluido na fase exploratória de pesquisa e que quase ninguém sabe. Gregório reage com indignação, e Bruno comenta a postura da CEO da Petrobras, Magda, que teria reclamado de uma foto usada por ONGs e pelo ClimaInfo, sem negar o vazamento e sem enfrentar a crítica principal.
- 00:35:14 — Falta de foto oficial e crítica à Petrobras: Bruno diz que a CEO reclama da imagem não ser do local, mas que isso ocorre porque a Petrobras não fotografou o vazamento e não forneceu imagens para a imprensa. Ele menciona a dificuldade de fotógrafos irem às correntes perigosas e ao escuro para registrar o dano, e reforça que a sede da Petrobras no Rio seria um alvo mais viável para protestos do que a própria Foz.
- 00:36:30 — Ibama autorizou e também fica na conta: Bruno afirma que o Ibama deu autorização e, portanto, o vazamento não é só responsabilidade da Petrobras: passa a estar na conta do Ibama também. Ele observa que o órgão ainda não se pronunciou muito e sugere um movimento de constrangimento e abafamento, enquanto a Petrobras teria paralisado temporariamente a fase exploratória, mas sinalizado retomada.
- 00:38:39 — Cobrança: medidas e revisão de licenças: Bruno diz que não quer mais apenas nota técnica do Ibama; quer saber o que será feito e se há como rever ou suspender licenças. Ele coloca como questão central se o episódio enterra ou não a ideia de explorar petróleo na Foz do Amazonas, lembrando que se trata de outro ponto amazônico de exploração econômica e conectando o tema ao Tapajós.
- 00:39:28 — Laudo sigiloso vazado e técnicos do Ibama: Bruno faz uma correção: a conclusão sobre toxicidade não teria sido publicada oficialmente pelo Ibama; seria um laudo sigiloso ao qual a DW teve acesso, vazado de dentro do órgão. Ele comenta que isso indica haver técnicos sérios no Ibama, mas reforça a necessidade de lembrar que o Ibama é um órgão de governo, não um aliado automático.
- 00:40:41 — Independência do Ibama e escolha pelo rio: Bruno argumenta que o presidente do Ibama pode sofrer pressão política e que, diante disso, teria que garantir independência, renunciar ou ceder; se cede, diz ele, não há motivo para empatia. Ele afirma que, entre o presidente do Ibama e o Rio Amazonas, escolhe o rio, especialmente depois do vazamento, e discute o risco ainda maior caso fosse petróleo.
- 00:42:11 — Indígenas já venceram antes: Alter do Chão: Gregório diz que não é a primeira luta vitoriosa e cita Alter do Chão, perguntando por que ainda é um paraíso: porque tentativas de resort e condomínio de luxo já ocorreram. Ele afirma que o muro de uma obra foi derrubado pelos Borari, com acampamento, briga e mobilização comunitária, mostrando como a defesa do território se dá na prática.
- 00:43:43 — Escola da Floresta e condomínio barrado: Gregório conta que, para construir um condomínio de luxo, retiraram a Escola da Floresta, descrita por ele como uma escola ambiental que mistura currículo tradicional e saberes indígenas, ligada aos Borari. Ele diz que removeram a escola com a promessa de reconstrução em outro lugar, mas que a reação foi direta: os indígenas derrubaram o muro, houve multa, e o Ibama intercedeu; ele conclui que havia várias irregularidades e que os indígenas venceram.
- 00:44:13 — Alter do Chão como santuário cultural e natural: Gregório descreve Alter do Chão como um santuário, destacando beleza do rio, da floresta, fauna e cultura. Ele cita a Flona dos Tapajós e o Sairé como festa marcante, além de música e danças, reforçando a combinação de biodiversidade e vida cultural que, segundo ele, continua existindo porque houve resistência a projetos de exploração.
- 00:45:02 — Capital já ‘descobriu’ tudo; resistência impede destruição: Gregório rejeita a ideia de que lugares se preservam por serem “longe” e diz que o capital já descobriu todos os lugares. Ele afirma que, se não foram explorados e destruídos, é porque há lideranças nativas que seguram a expansão, citando Moreré e os quilombolas, e argumentando que a preservação se dá por enfrentamento direto.
- 00:46:13 — Botar o corpo como barreira: Gregório conta o encontro com Bio, liderança quilombola em Moreré, que diz que não vão construir porque teria que passar por cima dele, que se deitaria na frente, tornando o custo político alto. Ele usa o exemplo para sustentar que derrotas de bilionários não vêm de consciência, mas de pessoas dispostas a colocar o corpo e gerar constrangimento e conflito.
- 00:47:32 — Ocupação física antes da internet: Gregório afirma que a internet ajuda e é necessária, mas que o corpo vem em primeiro lugar: presença física, ocupação e a ideia de “daqui não saio”. Ele liga isso diretamente ao que os manifestantes fizeram na Cargill e ao ensinamento de que a resistência é feita com o corpo no lugar, não apenas online.
- 00:48:20 — Risco e assassinatos de ativistas ambientais: Gregório fala da gratidão pela coragem, lembrando que a profissão que mais morre assassinada no Brasil seria a de ativista ambiental, e que muitas mortes nem viram notícia. Ele menciona uma “lista de mártires” indígenas e diz que, muitas vezes, assassinatos acontecem meses depois, quando a pauta esfria, com a contratação de pistoleiros para “resolver a situação”.
- 00:49:56 — Luta existencial vs ativismo urbano: Bruno diz que não se deve fazer equivalência direta entre resistência indígena e ativismo urbano progressista: ali é uma luta existencial, de sobrevivência. Ele contrapõe isso a pautas urbanas importantes, mas diferentes, e afirma que progressismo branco e classe média de esquerda, incluindo ele próprio, raramente lutam por sobrevivência como movimentos indígenas, negros, quilombolas e periféricos.
- 00:50:48 — Ambientalismo como sobrevivência de todos: Bruno argumenta que a luta ambiental não é só para a sobrevivência local dos povos indígenas: eles estariam “salvando a nossa vida”, tentando impedir exploração de petróleo na Amazônia e a expansão da soja. Ele amplia o enquadramento, dizendo que já não se trata de 14 ou 17 povos, mas da espécie humana, e chama isso de questão de sobrevivência e de urgência na forma de encarar a política ambiental.
- 00:51:45 — Raiva e gravidade diante de fósseis e transição: Bruno defende que o campo progressista deveria encarar com mais gravidade e revolta as escolhas do governo e de governos anteriores: exploração de combustível fóssil, termoelétricas, petróleo na Foz do Amazonas, consumo e crescimento sem responsabilidade ambiental e empurrar compromissos de transição energética. Ele conecta isso à noção de luta existencial que ainda não foi internalizada por muitos setores urbanos.
- 00:52:36 — Entender a emergência e agir antes que seja tarde: Bruno diz que é mais “natural” colocar o corpo em risco quando o risco de não agir é maior, e que os povos indígenas escolhem enfrentar a Cargill para não deixá-la avançar até suas casas. Ele afirma que a sociedade urbana está em situação cada vez mais parecida por motivos climáticos, mas ainda não consegue reconhecer isso plenamente.
- 00:53:41 — Gráfico da NASA e retenção de calor: Bruno introduz um gráfico feito pela NASA sobre quanto calor/luz do Sol a Terra está retendo, dizendo que um cientista o chamou de “o gráfico mais importante de todos os tempos” e que quase ninguém noticiou. Ele explica que o gráfico compara a energia que chega e a que volta ao espaço, relacionando isso ao efeito estufa e afirmando que há um aumento exponencial recente não proporcional ao crescimento do CO2.
- 00:54:56 — Ponto de virada e aceleração inesperada: Bruno diz que teria ocorrido um tipping point nos últimos dois anos, com retenção de calor por metro quadrado muito maior do que o esperado. Ele afirma que, se isso estiver correto, a meta de evitar 2°C até o fim do século se rompe, com possibilidade de chegar a 2°C já na década de 2030, e que isso torna a questão literalmente existencial.
- 00:55:32 — Aquecimento de 2°C na década de 30: Bruno afirma que, com a aceleração mostrada no gráfico, a Terra pode chegar a dois graus de aquecimento na primeira metade da década de 30, algo que o Acordo de Paris tratava como trágico e que deveria ficar para o fim do século. Ele diz que “a água bateu na narina”, indicando que a emergência já está em curso e exigiria manchete global.
- 00:57:38 — Inspiração indígena: coragem existencial: Bruno propõe que o movimento indígena inspire pela clareza e coragem existencial. Ele critica a relativização, por Lula, da exploração na Foz do Amazonas, e a CEO da Petrobras por se preocupar com foto; critica também setores do campo progressista que defendem petróleo por soberania. Ele cita a ideia de Ailton Krenak de “povo da mercadoria” e diz que a esquerda ainda não se libertou desse pensamento.
- 00:59:54 — Choque de civilizações e regras além da mercadoria: Gregório concorda que a força indígena vem não só do corpo na linha de frente, mas também de uma dimensão simbólica: representam outra maneira de viver, regida por regras que não são as da mercadoria. Ele descreve isso como um choque de civilizações e diz que essa disputa estava em jogo na ocupação contra a Cargill e continua em jogo no Brasil.
- 01:00:10 — Crítica ao Lula: concessões e ideologia capitalista: Bruno afirma que, apesar das vantagens em relação ao governo anterior, o governo Lula segue fazendo muitas concessões — ou mais que concessões, por ideologia — ao acreditar em um capitalismo distributivo, com “face humana”. Ele sugere que existe uma aposta de que bilionários podem ser “legais” se forem alinhados ao projeto do governo, citando exemplos como Joesley e Ike Batista.
- 01:00:46 — Cargill e o boom das commodities: Bruno argumenta que, no caso da Cargill, nem dá para fingir que é “nossa”, porque é empresa fechada sem sócios brasileiros. Ele diz que, para o governo, a Cargill representa o boom das commodities e a entrada de dólar na balança comercial, garantindo indicadores como superávit e sustentando o tripé macroeconômico, mais do que um projeto de desenvolvimento.
- 01:02:05 — Superávit, PIB e dependência colonial: Bruno descreve a Cargill como exemplo do capitalismo primário e dependente: a soja vendida para uma família americana entra como exportação, mas o ganho estrutural fica fora. Ele diz que isso é “colonialismo” ainda mercantil e compara com ciclos históricos como pau-brasil e cana, em que traders estrangeiros levavam o filé sem arcar com o dano local.
- 01:02:46 — Nem a soja é soberana: Bruno insiste que a dependência é tão grande que “nem a soja brasileira” seria soberana, porque passa pela Cargill. Ele enfatiza que a empresa foi fundada em 1865 e permanece na mesma família, usando isso para ilustrar a persistência do modelo colonial e a captura do valor por intermediários estrangeiros.
- 01:03:33 — Progresso como ideologia desenvolvimentista: Gregório responde dizendo que, além de PIB e superávit, há uma concepção entranhada de progresso: hidrovia como progresso, floresta e povo originário como atraso; aumentar calado do rio como bem em si. Ele cita exemplos como exploração de petróleo na Foz do Amazonas e Belo Monte, e afirma que essa visão não é só do PT, mas um problema histórico do país.
- 01:04:01 — Linha do tempo: indígenas como ‘passado’: Gregório descreve a ideia de uma linha do tempo que vai do atraso ao progresso, colocando indígenas “lá atrás” e obras como usinas “na frente”. Ele diz que isso aparece explicitamente no Bolsonaro, mas também estaria presente no PT de alguma forma, com a noção de que o progresso é inevitável e que resistir seria ingenuidade, quando no fundo seria outro nome para capital e dinheiro.
- 01:05:31 — Dificuldade de encarar o colapso: Gregório diz que o dado climático apresentado por Bruno é forte e que ele mesmo tem dificuldade de entender e pensar nisso, porque, se começar a pensar, não vive. Ele chama de “apocalipse” e Bruno corrige, dizendo que não é apocalipse como palavra exagerada, mas condições drásticas e cada vez mais hostis de vida na Terra, chegando à ideia de inabitabilidade.
- 01:06:54 — Crise climática não é só meteorologia: Bruno afirma que se engana quem pensa crise climática como só mais chuva, calor, enchente ou seca: isso seria sintoma inicial. Para ele, a doença atinge a capacidade do sistema se autorreproduzir, biologicamente e economicamente, porque cadeias de produção dependem de alguma homeostase, e a sociedade estaria “no cheque especial” há muito tempo.
- 01:07:39 — Quebra das cadeias de produção e agricultura de chuva: Bruno diz que a crise vai quebrar cadeias de produção da economia capitalista e que isso afetaria até a safra da Cargill. Ele lembra que a agricultura brasileira não é de irrigação profissional, mas depende de chuva, e que o Brasil é um país quente e fértil, reforçando a vulnerabilidade do modelo produtivo diante de alterações rápidas no clima.
- 01:08:42 — Mesmo quem lê não incorpora no dia a dia: Bruno admite que, mesmo sendo alguém que lê sobre clima, ele não consegue incorporar isso plenamente no cotidiano: continua trabalhando, cuidando dos filhos e vivendo. Ele comenta a crítica de Gregório sobre colocar indígenas no passado e identifica um fatalismo ocidental de que há uma marcha rumo a um futuro único, citando a frase de Mark Fisher sobre ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
- 01:10:18 — Não sabe onde ‘botar o corpo’ na cidade: Bruno diz que, do ponto de vista urbano, ele não sabe onde colocar o corpo como barreira: o que parar, qual máquina enfrentar. Ainda assim, defende que é necessário um grau de radicalidade na visão de esquerda e, em seguida, liga a superação do capitalismo a um imperativo de sobrevivência, não apenas moral.
- 01:10:57 — Socialismo como sobrevivência: Bruno afirma que destruir o sistema capitalista não seria mais apenas um imperativo moral de dignidade humana, mas de sobrevivência. Ele usa a formulação “socialismo ou morte” e emenda uma crítica aos bilionários, dizendo que eles caminham para eugenia aberta, robôs e substituição de pessoas, caracterizando o momento como de inflexão.
- 01:11:59 — Raiva do ‘projeto Marte’ de Elon Musk: Gregório e Bruno entram numa digressão sobre Elon Musk: Gregório diz ter visto que ele desistiu de Marte e reclama que isso dá raiva porque alguém poderia ter dito antes que não fazia sentido. Ele ironiza a imagem de Musk como gênio, critica o gasto de bilhões e provoca dizendo para ele ir logo, parar de anunciar e simplesmente ir.
- 01:12:52 — Nova civilização e eugenia: o plano na Terra: Bruno diz que o projeto de Musk não depende de Marte: ele se vê como fundador de uma nova civilização e quer refundá-la aqui, com IA, exércitos de robôs e eugenia biotecnológica. Ele sugere que o colapso ecológico faria o “trabalho sujo”, enquanto os ricos se fechariam e militarizariam, transformando a Terra no que Musk imaginava para Marte.
- 01:13:44 — Controle dos meios de comunicação: Bruno e Gregório comentam que, além do poder econômico, essa elite controla meios de comunicação e plataformas: Bruno cita Musk e Zuckerberg. Ele chama isso de “Arca de Noé” e diz que é uma loucura em que alguém escolhe quem fica, associando o cenário distópico ao controle informacional.
- 01:15:07 — Starlink na Amazônia: acesso e dependência: Bruno relata ter visto Starlink em lugares remotos da Amazônia, como palafitas isoladas, e reconhece o lado positivo de a internet chegar onde antes não chegaria. Em seguida, aponta o lado problemático: a conexão estaria nas mãos de Musk, e populações que dependem da internet para trabalhar, denunciar e existir ficam vulneráveis a chantagem, como ele afirma que já ocorreu no contexto da Ucrânia.
- 01:15:54 — Internet como subsistência, não só entretenimento: Gregório brinca que pensa na internet como algo superfluo, mas Bruno insiste que cada vez mais é meio de sustento e comunicação. Eles discutem o poder de Musk de desligar o serviço e usam o exemplo da Ucrânia, em que ele teria cortado sinal quando a internet foi usada para atacar território russo, para ilustrar o poder geopolítico concentrado.
- 01:18:52 — Ciberespaço, tecnofeudalismo e donos do ‘lugar’ político: Bruno desenvolve a ideia de que a internet criou um “ciberespaço” sem fronteiras tradicionais, onde se organiza grande parte da vida social, econômica e política. Ele afirma que esse espaço é hoje altamente político e que seus donos legislam nele; por isso se fala em tecnofeudalismo, já que tudo tem proprietário, e esses magnatas querem também dominar a política no espaço físico.
- 01:20:33 — Problema atmosférico e mentalidade do século XIX: Bruno diz que vivemos simultaneamente um mundo mais “etéreo”: o problema climático é atmosférico e não territorial, e o ciberespaço também funciona como um ambiente invisível que governa a vida. Ele conclui que há uma bateção de cabeça com uma mentalidade ainda do século XIX, ligada a mapas, fronteiras e Estado-nação.
- 01:22:23 — Febre do planeta e limites biológicos: Bruno usa a analogia da febre no corpo humano para explicar que existem limites: há febre de 39, 40, 42, mas não de 45 porque se morre antes, com desnaturação de proteínas. Ele diz que não sabemos quais colapsos sistêmicos podem ocorrer se a Terra aquecer 2 ou 3 graus, porque a espécie não viveu isso, e que há hipóteses, mas pouca convicção.
- 01:23:18 — Modelos erraram: 2°C pode chegar em 2035: Bruno afirma que os modelos do Acordo de Paris (2015) previam evitar 1,5°C até o final do século e que 2°C era inadmissível, mas que, se o gráfico estiver correto, poderíamos atingir 2°C por volta de 2035. Ele atribui isso a tipping points e feedbacks não capturados, e Gregório reage dizendo que o programa era para comemorar uma vitória e que a conversa acabou “estragando” o século.
- 01:25:04 — Conclusão com indicação: Ricardo Aleixo: Gregório encaminha o encerramento dizendo que vai concluir com leituras e celebra o poeta Ricardo Aleixo. Ele comenta ter recebido obras e destaca o livro novo “Dendori”, da coleção Círculo de Poemas, como reflexões curtas sobre escrita e uma arte poética, além de citar outros títulos e recomendar que as pessoas leiam e conheçam o autor.
- 01:26:16 — Livros e entrevistas do poeta: Gregório menciona obras específicas de Ricardo Aleixo, elogia a qualidade do material e cita também um livro de entrevistas publicado pela Zog. Ele reforça Aleixo como intelectual e poeta importante, comenta sobre performance e diz que é alguém a ser celebrado, agradecendo pelo recebimento das obras.
- 01:26:57 — Anúncio: Clube de Cultura do Calma Urgente: Bruno anuncia a estreia do Clube de Cultura do Calma Urgente, dizendo que ele, Gregório e Alessandra vão se encontrar para a primeira sessão. Ele informa que o primeiro livro será “Viva o Povo Brasileiro”, que também vão ouvir “Tropicália ou Panis et Circencis” e assistir ao filme “Vazante”, com discussões semanais e possibilidade de inscrição.
- 01:27:42 — Debates, entrevistas e financiamento do podcast: Bruno explica que haverá conversas às quartas-feiras, lives e entrevista com Daniela Thomas, e que a comunidade vai levantar temas para aprofundar. Ele diz que o clube e as inscrições (no site do programa) são uma forma de viabilizar financeiramente o podcast e a equipe, agradecendo a quem participa.
- 01:28:56 — Despedida e homenagem aos manifestantes: Na despedida, Gregório agradece a conversa e Bruno parabeniza os manifestantes que ocuparam a Cargill e colocaram o corpo em risco. Ele também parabeniza os povos indígenas pela resistência histórica, e os dois encerram o episódio com agradecimentos ao público.
- 01:30:40 — Créditos da produção: Nos créditos finais, o programa lista as produtoras e a equipe: Peri Produções e Estúdio Fluxo, apresentadores (Alessandra Orofino, Gregório Duvivier e Bruno Torturra), produção, pesquisa e roteiro, captação/edição/mixagem, ilustrações, sonoplastia, edição de cortes, redes sociais, gestão de comunidade, identidade visual e consultoria de comunicação.
Indicações
Livros
- Dendori (Ricardo Aleixo) — Gregório recomenda como livro novo/reflexão sobre o fazer poético do autor.
- Tornei-me um copo e Extraquadro (Ricardo Aleixo) — Citados como “livraços” para quem quiser ler a poesia do poeta.
- Viva o Povo Brasileiro (João Ubaldo Ribeiro) — Anunciado como o primeiro livro do Clube de Cultura do Calma Urgente.
Filmes / Series
- Vazante (Daniela Thomas) — Filme escolhido para o Clube de Cultura; haverá discussão e entrevista com a diretora.
- Apocalipse nos Trópicos — Mencionado por estar relacionado à participação de Alessandra Orofino no BAFTA.
Artigos / Links
Linha do Tempo
- [00:01] — Notícia de última hora: revogação do decreto sobre hidrovias/dragagem e clima de “dia de festa”
- [00:02] — Explicação dos decretos (licitação e decreto das hidrovias) e relação com agronegócio/soja no Tapajós
- [00:04] — Ocupação indígena de 33 dias no terminal da Cargill e como a pressão forçou o governo a agir
- [00:07] — Quem é a Cargill: escala global, empresa familiar bilionária, operação no Brasil e lógica de “trader”
- [00:12] — Denúncias e impactos: trabalho análogo à escravidão, “lavagem de grãos”, desmatamento e violência
- [00:21] — Efeitos sociais dos portos/hidrovias nas comunidades: drogas, prostituição, crime, doenças e mudança cultural
- [00:23] — Organização e risco da mobilização: decisões judiciais, ameaças e críticas de “fogo amigo” no campo progressista
- [00:26] — Quebra de compromisso de consulta pós-COP e bastidores da revogação com Boulos e Sonia Guajajara
- [00:33] — Mudança de foco: vazamento de fluido de perfuração na Foz do Amazonas e responsabilidades (Petrobras/Ibama)
- [00:53] — Alerta climático: gráfico da NASA, retenção de calor, tipping points e risco de 2°C já na década de 2030
- [01:12] — Bilionários, tecnofeudalismo e poder no “ciberespaço”: Musk, Starlink e controle de infraestrutura de comunicação
- [01:25] — Encerramento com indicações de leitura e anúncio do Clube de Cultura (livro, disco e filme)
Dados do Episódio
- Podcast: Calma Urgente
- Autor: Calma Urgente
- Categoria: News / Politics
- Publicado: 2026-02-24
- Duração: 1h32m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/calma-urgente/2a566eb0-ddce-013c-5d0d-0acc26574db2/o-rio-e-a-cargill-quem-manda-no-tapaj%C3%B3s/355c9b44-028b-4376-acd7-823b81a0992d
- UUID Episódio: 355c9b44-028b-4376-acd7-823b81a0992d
Dados do Podcast
- Nome: Calma Urgente
- Tipo: episodic
- Site: https://calmaurgente.com
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Transcrição
[00:00:00] Olá, boa noite, queridos ouvintes do Calma Urgente, aqui é Gregório do Vivier e estamos
[00:00:08] ao vivo hoje, com o Calma Urgente, ao vivaço, agora são 8 horas e 37 minutos provando que
[00:00:16] estamos de fato ao vivo, sim, e queria chamar aqui Bruno Torturra, sem isso, sem enrolações,
[00:00:24] que alegria tá ao vivo né Bruno?
[00:00:26] Salve Greg, faz tempo que a gente não entra ao vivo.
[00:00:29] Faz tempo, faz muito tempo.
[00:00:30] Eu tive até que fazer uma gambiarra de luz aqui, porque eu tava acostumado a gravar
[00:00:33] com luz do dia, então desculpem essa luz estourada pra quem tá assistindo.
[00:00:37] E tamo sem a Alessandra hoje, infelizmente.
[00:00:39] Estamos sem a Alessandra.
[00:00:40] Ela tá pegando uma nevásca lascada, é.
[00:00:43] Lascada na nevásca, é um belo verso, ela tá se lascando, tadinho, na nevásca depois
[00:00:53] do bafta, se lasca no bafta, infelizmente o Brasil não levou nada no bafta, a Alessandra
[00:00:58] tava concorrendo lá com o Apocalipse nos Trópicos, infelizmente nos garfaram o bafta,
[00:01:04] assim como garfaram também o Agente Secreto, o Brasil de modo geral saiu de mãos abarando,
[00:01:10] o que é uma pena, porque são dois filmes muito bons, então lamentamos ainda por cima,
[00:01:14] garfaram nossa Alessandra Orofino, que ficou presa lá e tá lá em meio a neve, e é uma
[00:01:21] pena, mas vamos seguir nós, afinal hoje é um dia de festa, não é Bruno?
[00:01:27] É raro isso, a gente tem um motivo pra festejar.
[00:01:30] A gente ia falar do decreto do Lula que permitia a dragagem do rio Tapajós, a privatização,
[00:01:40] vamos ser sinceros, a privatização não só do Tapajós, mas dos três rios do Brasil,
[00:01:45] e a gente ia falar disso, ia falar da luta dos povos indígenas lá, e eis que o decreto
[00:01:52] é revogado depois de mais de um mês de protesto dos povos indígenas, agora, a uma hora atrás
[00:02:01] foi revogado, que sorte que a gente tá ao vivo, porque a gente ia gravar de manhã,
[00:02:05] se gravasse de manhã o programa ia ficar velho, então a gente ainda vai conseguir
[00:02:08] falar disso.
[00:02:09] Um momento raro e, sim, único talvez esse ano, até agora com certeza, mas assim, uns
[00:02:17] poucos momentos da história recente do Brasil em que a gente viu uma vitória da luta popular
[00:02:23] nas ruas mesmo, da moda antiga, de ocupação, não foi uma luta de internet, foi uma luta
[00:02:28] de ocupação.
[00:02:29] Resumindo rapidamente, eu vou resumir, Bruno, me diz se eu estiver falando besteira, mas
[00:02:34] o Lula assinou um decreto que permitia a dragagem desses rios pra tornar eles mais navegáveis,
[00:02:40] afinal, são rios que…
[00:02:41] São dois decretos, não é Greg?
[00:02:44] Fala, fala pra eu falar melhor teu.
[00:02:46] O mais recente é o de uma elicitação pra fazer a dragagem do rio Oetapajós, como parte
[00:02:54] de um projeto que vem de um outro decreto, que esse sim é o que caiu hoje, porque o
[00:03:00] da elicitação já tava revogado e é também por conta da luta indígena.
[00:03:08] Mas o decreto mais importante é o de agosto do ano passado, quando o Lula…
[00:03:14] E a gente falou um pouco dele em algum calma, é urgente, a gente não se aprofundou muito,
[00:03:19] que é o das hidrovias, que é um decreto pra ampliação da capacidade hidroviária, especialmente
[00:03:27] nos rios reamazônicos.
[00:03:29] E acho que um dos rios mais afetados, junto com o Tocantins, se eu não me engano, é
[00:03:33] o rio Tapajós, basicamente atendendo interesses industriais, particularmente do agronegócio
[00:03:40] de soja, que tem cada vez mais essas hidrovias amazônicas como uma forma prioritária de
[00:03:48] escoamento da sua mega produção de soja, o que também é um sintoma de que a soja
[00:03:55] tem avançado cada vez mais fundo dentro do próprio território amazônico, porque eles
[00:04:01] já desmataram o que tava mais fácil de fazer por rodovias e agora estão entrando mais
[00:04:07] fundo no território.
[00:04:09] E agora, o que aconteceu hoje, depois de uma luta heroica, de mais de um mês dos povos
[00:04:16] indígenas, que ocuparam o terminal de carga e descarga da Cargill, que daqui a pouco
[00:04:25] a gente vai entrar um pouco mais fundo nessa empresa.
[00:04:28] Mas vamos lá.
[00:04:29] Foram 33 dias em que eles não arredaram o pé de lá, a justiça decretou que a ocupação
[00:04:34] era ilegal, mandaram-o sair, o que eles fizeram, foram além, entraram lá dentro, passaram
[00:04:39] a ocupar não só a porta da Cargill, mas também entraram lá dentro, dentro da Cargill
[00:04:45] e dobraram a aposta e obrigaram todo mundo a falar disso.
[00:04:50] A princípio, o governo evitava falar disso, quando o governo, eu não tô falando só do
[00:04:55] Lula, mas Guilherme Bolo disse um negócio à Jara, que estavam provavelmente fazendo
[00:04:58] alguma articulação interna, eu imagino, porque a pressão tava muito em cima deles,
[00:05:04] eles vieram depois de 33 dias anunciar a revogação desse decreto, que eu tenho certeza que não
[00:05:10] teria acontecido, não fosse essa ocupação.
[00:05:12] Então é uma ocupação mesmo heroica, heroica e assim, de luta mesmo e o que eu acho bonito,
[00:05:21] que uniu uma porrada de povos, não era só quem tava ali, pelo menos 14 povos que eu
[00:05:25] vi, então tinha munduruku, tinha os tapajós, claro, tinha os borari, tinha uma porrada
[00:05:30] de nações indígenas representadas.
[00:05:32] Tupinambás, né, a gente confunde a gente porque era também o povo que morava no Rio
[00:05:37] de Janeiro quando os portugueses chegaram, eles moravam geral na costa, mas tem o mesmo
[00:05:41] nome, mas são outro povo, são os tupinambás do baixo tapajós, são heroicos também,
[00:05:47] um povo de luta, de resistência, enfim, muita gente, os apiacais também, um monte
[00:05:52] de gente, de guerreira pra cacete, que falaram assim, amigo, isso daqui, pra gente, vocês
[00:05:57] tão chamando de hidrovia, tão chamando de estrada, isso pra gente, eu vi um texto bonito,
[00:06:03] se eu não me engano, de uma liderança que é a Alessandra Corado, que é a munduruku,
[00:06:09] e ela falou uma coisa assim, a gente não tem terra, a gente é terra, achei isso muito
[00:06:14] bonito, a gente é esse rio, tanto é que não todo nome dele é tapajós, né, é o
[00:06:19] nome de um povo, eles são aquilo ali, então assim, é a lenda da riqueza, do peixe que
[00:06:23] se pesca ali, é identidade, é memória, é um sítio arqueológico, é tudo que você
[00:06:28] quiser, então o sedimento que tá atrapalhando o navio passar, ele é viveiros de peixe,
[00:06:34] onde os peixes nascem, mas ele também é um lugar de memória, de vida, onde uma civilização
[00:06:40] nasceu, e você vai tá lidando com o sítio arqueológico, com todo tipo de coisa, vai
[00:06:44] tá mexendo o turismo, obviamente, que muitas povos também vivem do turismo, ajuda, enfim,
[00:06:51] você vai atropelar e dragar uma nação, cara, não uma, 14 pelo visto, então assim,
[00:06:59] cara, vitória dessas nações, vitória desses povos, vitória do Brasil, e que loucura,
[00:07:07] que inesperado por um lado, porque é Davi contra Golias, que a gente tá falando, da
[00:07:13] Cargill, e eu queria que você falasse mais da Cargill, Bruno, o que que é a Cargill,
[00:07:20] explica pra quem tá ouvindo agora.
[00:07:22] Então, eu acho que a Cargill é um buraco sem fundo, né, a gente vai falar, eu mesmo,
[00:07:27] já não tinha nenhuma boa vontade com essa empresa, sempre soube que ela era uma das
[00:07:31] maiores vilãs ambientais do mundo, mas hoje, com a nossa apuração, feita a toque de caixa
[00:07:38] pela Luísa, mas a Luísa levantou uma pesquisa relâmpago hoje, eu não tinha ideia de que
[00:07:47] a Cargill, pra vocês terem só um dado bem seco, ela é a maior empresa privada dos Estados
[00:07:55] Unidos, o que não é pouca coisa, a maior empresa é privada que não é de capital
[00:08:00] aberto. Então, a Cargill é uma empresa que foi fundada há mais de 150 anos, do século 19,
[00:08:09] então vocês imaginem o tipo de legado que essa empresa traz nela, e ela nunca abriu o capital,
[00:08:16] nunca foi pra bolsa de Nova Iorque, então ela permanece sendo da família Cargill.
[00:08:21] Então, antes de qualquer coisa, lembre-se desse dado bastante simples, esses lucros
[00:08:26] inacreditáveis que eles obtêm no nosso território, com os nossos rios, com as nossas florestas,
[00:08:33] com o trabalho extremamente explorado do nosso povo, vai pra uma família americana que é a maior
[00:08:45] empresa privada do país, maior empresa de capital fechada do país, e é a 11ª família mais rica do
[00:08:52] mundo, entre seus herdeiros, que são os que hoje tocam a empresa ou o lucro delas, tem 12 bilionários,
[00:09:01] 12 bilionários, sócios privados dessa empresa, então essa é a Cargill pra começo de conversa.
[00:09:08] E quantos bilhões eles tiram do Brasil todo ano? Você tem isso aí?
[00:09:11] A gente tem esse dado aqui levantado, acho que a Luisa vai trazer pra gente, eu acho que é uma coisa de 100 bilhões de reais,
[00:09:18] e eu acho que deve ser faturamento, é algo que eles levantam aqui no país.
[00:09:23] Mas o que é importante falar da Cargill, ela tá presente no mundo todo, é uma das gigantes do agronegócio no planeta Terra,
[00:09:31] tem alguns dados pra gente entender, ela entrou no nosso país no auspicioso ano de 1965,
[00:09:39] é ditadura com um aninho de ditadura, a Cargill se instala no nosso país,
[00:09:49] e começa a ser uma das maiores compradoras de vários insumos de matéria-prima brasileira.
[00:09:55] Então pra você ter uma ideia, a Cargill hoje no país, ela controla uma quantidade absurda da nossa soja,
[00:10:03] que muita gente não se dá conta, mas ela é uma trader.
[00:10:06] O que significa isso? Ela compra soja de todos esses fazendeiros.
[00:10:11] Então quando a gente fala que nós somos um grande país exportador de soja,
[00:10:15] não é exatamente direto do produtor pra o comprador.
[00:10:20] Muita gente imagina, eu mesmo imagino, que você é um fazendeiro de soja,
[00:10:23] você produz a soja, você exporta ela no porto com um contêiner, não é bem assim.
[00:10:28] É a Cargill que compra, é a Cargill e algumas outras empresas, mas a Cargill é a maior delas aqui,
[00:10:35] que é uma trader, ela é a mediadora, a atravessadora,
[00:10:40] a que faz esses grandes contratos com os grandes compradores de soja no mundo,
[00:10:44] o China, a Europa, o próprio Estados Unidos em alguns mercados,
[00:10:49] e eles encomendam, eles têm esses contratos com esses fornecedores.
[00:10:54] E aí de muitas maneiras os fazendeiros de soja brasileiros,
[00:10:59] eles vendem pra a Cargill e a Cargill exporta.
[00:11:03] A Cargill faz esse trabalho. Então entre a sua estrutura econômica,
[00:11:09] eles compram de fazendeiros e eles instalam instalações e portuárias de exportação.
[00:11:18] Eles construíram um porto na Bahia e eles estão construindo, e aí vem a questão do Tapajós,
[00:11:24] eles vêm construindo várias estações portuárias nos rios amazônicos.
[00:11:31] Então nos últimos 10, 15 anos eles expandiram muito a construção de novos
[00:11:39] terminais de carga e estão ampliando os que já existiam.
[00:11:43] Então ela é possivelmente a empresa mais interessada, economicamente falando,
[00:11:49] nesse projeto de expansão da malha hidroviária brasileira e, mais importante,
[00:11:54] no aumento de calado desses rios, que é pra caber barcas mais profundas
[00:12:04] e esses portos possam escoar uma quantidade maior ainda de soja por dia e por ano.
[00:12:12] Então o que é calado?
[00:12:14] Calado é a profundidade dos barcos.
[00:12:18] Os barcos e o rio podem ter um calado mais fundo pra caber a embarcação.
[00:12:24] Então o leito do rio é a fonda pra atender embarcações de calado mais amplo.
[00:12:31] Então essa é a Cargill que, só pra ter uma outra ideia, não sabia disso.
[00:12:38] Ela e mais duas empresas, que também são grandes traders que atendem no nosso país,
[00:12:44] eles controlam 97% da nossa produção de cacau. 97%.
[00:12:52] Então toda a produção de cacau brasileira, que é particularmente dada
[00:12:58] a trabalho infantil barra escravo, é a Cargill que é compra.
[00:13:06] Então tem processos em que a Cargill já foi condenada em 2023 por trabalho análogo à escravidão,
[00:13:14] que é um grande eufemismo pra dizer o que está acontecendo lá,
[00:13:18] e como indenização eles pagaram a bagatela de 600 mil reais como multa de trabalho escravo.
[00:13:24] Mas são denúncias e denúncias e denúncias que não vale a pena a gente ficar enumerando,
[00:13:29] mas eu recomendo muito aqui o trabalho da Repórter Brasil, da ONG Repórter Brasil,
[00:13:34] que foi fundada pelo Leonardo Sakamoto, grande repórter,
[00:13:40] e do Joio e o Trigo, que são, como jornalistas, a pedra no sapato da Cargill,
[00:13:46] que é coisa que o jornalismo industrial brasileiro não faz.
[00:13:50] Então precisa desse jornalismo mais focado nesse tipo de vilania.
[00:13:56] Exatamente. Dois portais importantíssimos.
[00:14:00] Tem um caso que é muito marcante, que é o caso da família Lucion,
[00:14:04] que tem fazendas, um monte de área embargada por queimada de matamento irregular,
[00:14:09] várias fazendas, isso é notório, se a gente sabe, a Cargill certamente sabia,
[00:14:16] e continuou comprando. Tem mais de 235 hectares onde é proibido plantar.
[00:14:24] E ainda assim é de lá que sai.
[00:14:26] Inclusive em áreas indígenas, que é uma questão.
[00:14:29] Não é à toa que a Cargill é particularmente odiada pelos povos indígenas,
[00:14:34] porque eles estão na fronteira, exatamente, não digo nem é territorial,
[00:14:38] mas essa fronteira que você colocou antes muito bem, que é uma fronteira de uma cosmovisão.
[00:14:43] É a ideia de que a floresta é uma mercadoria ou ela é uma casa.
[00:14:50] Ela é um patrimônio natural e é humano intangível,
[00:14:55] ou ela é uma commodity para atender quem? Uma família.
[00:15:00] Vamos lembrar que isso aqui não tem nem justificativa de bolsa de valores,
[00:15:04] de crescimento do PIB, a gente está falando da família Cargill.
[00:15:08] Há mais de 150 anos no negócio.
[00:15:11] E o dado que a gente citou por alto, a gente falou 100 bilhões, é exatamente isso.
[00:15:15] Se você pegar um ano específico de 2021, foram 100 bilhões que eles tiraram do Brasil de receita
[00:15:22] contra 1 bilhão investido no país.
[00:15:25] Essa é mais ou menos a proporção.
[00:15:27] Para quem disser que é muito dinheiro, eles dão muito dinheiro para o Brasil.
[00:15:30] Essa é a proporção mais ou menos.
[00:15:32] Esculpa, pode seguir, Bruno.
[00:15:33] Não, é isso.
[00:15:35] E é importante colocar que a Cargill você colocou que eles compraram de famílias e terras,
[00:15:42] tudo muito mal explicado, a gente não pode afirmar coisas que ainda não estão transitando,
[00:15:47] que ainda não estão transitando em julgado,
[00:15:50] mas o que se sabe de ativismo, de pessoas que conhecem esse negócio melhor,
[00:15:55] de todas as ONGs brasileiras que já investigaram ela,
[00:15:58] não só a Cargill, mas outras grandes traders fazem o que chamam de lavagem de grãos,
[00:16:07] que é você misturar em grandes quantidades, em grandes safras soja legal,
[00:16:17] que está produzida dentro do que se considera razoável,
[00:16:21] que já não é grandes coisas no país,
[00:16:23] com soja feita em áreas de desmatamento, terras indígenas, áreas agriladas.
[00:16:29] Então eles juntam tudo numa coisa só, emitem um certificado de que uma boa parte,
[00:16:34] talvez a maioria dessa soja não foi produzida de maneira ilegal,
[00:16:38] mas eles vendem junto com a soja, digamos, podre,
[00:16:41] que foi produzida pelo agronegócio que a gente conhece bem,
[00:16:45] que é o legalizado terrível, às vezes é legalizado porque veio de terra
[00:16:52] que há 20, 30 anos foi invadida, mas já foi legalizada,
[00:16:55] e do que tem sido feito hoje nas fronteiras de terras indígenas.
[00:17:00] Para não falar de outros grandes escândalos
[00:17:03] que a Cargill já se envolveu tanto no cacau, na soja e em outros insumos,
[00:17:08] que é de violência.
[00:17:10] Violência com uso de segurança privada, com imunícias privadas,
[00:17:15] com ameaça…
[00:17:17] E aí entra a vantagem de você ser uma corporação e você ser um atravessador,
[00:17:24] porque é isso que eles são.
[00:17:25] De modo geral, são atravessadores, eles estão entre o produtor e o portador.
[00:17:29] E a vantagem disso é que eles conseguem sempre se eximir dizendo assim
[00:17:33] não, não fomos nós que praticamos coação, ou coerção,
[00:17:37] foi a empresa de segurança que a gente contratou, entendeu?
[00:17:40] Ou não fomos nós que, ah, o trabalho escravo não é da Cargill, é nos fornecedores.
[00:17:45] Que só fornece para a Cargill.
[00:17:48] Então isso é uma coisa importante de falar.
[00:17:51] A gente não está falando que a Cargill compra soja de um cara que vende para todo mundo.
[00:17:57] Esses fornecedores só existem porque eles servem a Cargill.
[00:18:01] Senão a fazenda não existiria.
[00:18:03] O único contrato que a maioria desses fornecedores tem
[00:18:06] é exclusivamente com uma trader, duas no máximo.
[00:18:09] Então assim, é o terceirizado.
[00:18:12] É o PJ da Cargill.
[00:18:15] Para não ter 100% da fazenda e plantar em cada um desses grãos,
[00:18:21] cria-se esse monte de distância jurídica, de ser PJs, advogados,
[00:18:26] e aí você se isenta de responsabilidade imediata.
[00:18:30] Mas não há dúvida de quem essa empresa é.
[00:18:33] E o que eu acho, e acho muito bom a gente estar fazendo esse programa hoje,
[00:18:37] e acho que deveria ser um foco nosso aqui nos centros urbanos,
[00:18:42] já que a gente não está lá na ponta fazendo a luta física existencial,
[00:18:47] de pôr a Cargill no centro disso.
[00:18:50] Especialmente agora que o decreto é revogado,
[00:18:55] é bom a gente lembrar que não ganhou a guerra,
[00:18:58] ganhou uma batalha super importante.
[00:19:00] Mas vamos lembrar que esse projeto de hidrovia brasileira
[00:19:05] foi por um decreto presidencial,
[00:19:07] mas ele ainda pode vir de muitas outras formas,
[00:19:10] dentro do nosso Congresso Nacional,
[00:19:12] estados brasileiros interessados nisso,
[00:19:15] e pressão política dentro do próprio governo federal.
[00:19:18] Então é importante a gente colocar muito claro
[00:19:21] esses dados que a gente está falando,
[00:19:23] porque é uma empresa de uma família americana,
[00:19:28] que é um dinheiro que vai direto pro bolso desses 12 bilionários.
[00:19:32] Exatamente.
[00:19:34] Para ninguém imaginar que isso é geração de emprego brasileiro.
[00:19:38] Porque, vamos falar, eles faturam 100 bilhões de reais no nosso país.
[00:19:43] Eles empregam no Brasil 11 mil pessoas.
[00:19:47] 11 mil pessoas, Greg?
[00:19:49] 11 mil pessoas.
[00:19:51] 11 mil pessoas é o quê? Meia…
[00:19:54] Meia é uruguaiana?
[00:19:56] Pois é.
[00:19:57] Para quem tira 100 bilhões…
[00:19:59] Para quem tira 100 bilhões,
[00:20:01] a 25 de março deve ter uns 40 mil funcionários
[00:20:05] na rede e-mail direta dela.
[00:20:08] Tá falando de 11 mil pessoas, não é tanto emprego…
[00:20:11] A Sapucaí deve empregar 11 mil pessoas, pelo menos.
[00:20:15] Ou muito mais.
[00:20:17] Ou muito mais.
[00:20:18] A gente está falando de muito pouco emprego,
[00:20:20] pro tipo de prejuízo que ele gera pro nosso país,
[00:20:23] ambiental, étnico, social.
[00:20:26] Isso.
[00:20:27] E com muita isenção, né? E muito incentivo.
[00:20:30] E, obviamente, muito lobby pra que esse incentivo continue.
[00:20:33] É uma empresa bem para-estatal, com o tamanho dela.
[00:20:35] Ela não funcionaria sozinha.
[00:20:37] Não dá muito pra falar de livre-mercado, não.
[00:20:39] Não.
[00:20:40] Enfim…
[00:20:41] E tem um ponto aí, Greg, fala. Desculpa, tô te derrubando.
[00:20:43] Não, não. É que é tudo horrível.
[00:20:45] Graças ao Repórter Brasil, dá pra saber de tudo.
[00:20:47] Eles podem pesquisar lá, tá?
[00:20:48] Mas aumento de violência sexual de prostituição
[00:20:51] nas comunidades em que eles entram é um negócio surreal, tá?
[00:20:54] É bizarro a coisa Itaituba, lá de Campo Verde e tal.
[00:20:58] É uma coisa horrorosa, assim.
[00:21:00] O que faz de estrago em volta…
[00:21:04] Pesquisa lá Campo Verde também, se quiserem ver.
[00:21:07] É uma coisa horrorosa, horrorosa, assim.
[00:21:10] E nas próprias hidrovias.
[00:21:12] Nas próprias hidrovias, né?
[00:21:13] Vamos falar aqui que os povos indígenas estão falando isso
[00:21:17] porque afeta o rio deles, a pesca deles, o modo de vida deles.
[00:21:22] Mas também tem algo que não é meramente etéreo, espiritual, ingênuo.
[00:21:28] Tem uma questão que é…
[00:21:29] Se você faz um porto em um rio,
[00:21:32] a infraestrutura que ele demanda de novos trabalhadores, novos povoados,
[00:21:38] é o que traz droga, é o que traz prostituição,
[00:21:41] é o que traz crime, é o que abre a fronteira para outros tipos de produção,
[00:21:48] de invasão de território, de grilagem, de violência, de droga…
[00:21:53] De comida industrializada.
[00:21:55] Comida industrializada.
[00:21:56] Parece besteira, mas é verdade, tá?
[00:21:58] Tem um boom de hipertensão e diabetes já.
[00:22:02] Na praia do Mangue, onde eles já se instalaram.
[00:22:05] Muitas famílias, ouvindo aqui, pra ouvir o relato caro Munduruku,
[00:22:10] muitas famílias proibiram os crianças a brincarem sozinhas de tapajós.
[00:22:13] As coisas pioraram bastante.
[00:22:14] Tem muito assalto, muita morte, drogas e prostituição,
[00:22:16] por conta da chegada das empresas.
[00:22:18] Então a gente tá falando de coisas assim…
[00:22:20] São efeitos muito colaterais.
[00:22:23] Não é só a poluição.
[00:22:24] Não tem a ver com…
[00:22:25] Ah, estão profanando o sagrado do rio, que já seria horroroso.
[00:22:29] A gente tá falando de prostituição, de morte de diabetes, no caso,
[00:22:32] porque eles vêm junto com consuntos refrigerantes, salgadinhos, enlatados.
[00:22:36] Muda radicalmente a cultura do lugar.
[00:22:38] E já teve esse boom mesmo de novas doenças por causa de todo lugar
[00:22:42] em que se instala um porto novo desse.
[00:22:44] É uma coisa assim, horrorosa.
[00:22:46] É um desastre.
[00:22:48] Sem tamanho.
[00:22:50] Não dá pra dimensionar o estrago que faria o negócio desse.
[00:22:55] Maior do que já está fazendo, onde eles já estão.
[00:22:58] É uma coisa realmente horrorosa.
[00:23:00] Mas eu acho que o mais importante aqui…
[00:23:02] Já falou muito da Cargil, talvez.
[00:23:04] E eu acho que vale entrar num outro lado da coisa,
[00:23:07] que é a organização desses povos.
[00:23:10] Que…
[00:23:12] Sim, não é fácil, pensa bem, você parar sua vida
[00:23:15] pra ficar 33 dias acampado na porta e depois dentro da Cargil.
[00:23:23] Por mil motivos.
[00:23:24] O primeiro deles é que você vai parar sua vida, seu sustento, tudo o que quer que você faça.
[00:23:28] Vai mudar, vai se mudar pra ficar na porta de um negócio.
[00:23:32] Eles não são, que eu saiba o maioria deles,
[00:23:34] filho de coronel de general,
[00:23:36] como era o caso da maioria das pessoas que eu imagino,
[00:23:38] ficasse acampado em porta de quartel
[00:23:40] ou que tivesse alguma pensão da vida pra ficar lá.
[00:23:42] Que era uma população…
[00:23:44] Que o Exército ia mandar a marmita todo dia.
[00:23:46] Exatamente, porque a gente sabe que o Exército
[00:23:48] tava adorando aquele povo lá na frente
[00:23:50] e muita gente foi sustentada e incentivada a ficar lá.
[00:23:54] Com visitas, inclusive, do vice-presidente na época.
[00:23:58] Agora, é…
[00:24:00] E da esposa do vice-presidente, se não me engano.
[00:24:02] Do vice-presidente não, perdão, do Braga Neto.
[00:24:04] Não é? Do Braga Neto, é isso.
[00:24:06] Vilas Boas.
[00:24:08] Não teve a Braga Neto, mas foi a mulher do Vilas Boas.
[00:24:10] Então, é outro tipo de acampamento.
[00:24:12] Já estávamos no acampamento e as pessoas estão correndo risco de vida.
[00:24:14] Porque, como a gente viu, eles trabalham com segurança privada,
[00:24:17] ameaçam, tem coerção e todo esse tipo de coisa.
[00:24:20] Teve decisão judicial pra eles saírem de lá.
[00:24:23] Teve, imagina, toda a sorte de ameaças por debaixo do pano que também tiveram.
[00:24:27] Então, você está lidando, você está acampando dentro de uma corporação
[00:24:32] constórico de acusações, pra usar o termo aqui juridicamente,
[00:24:37] de violência e de coerção.
[00:24:41] Com gente, inclusive, na esquerda, é bom citar isso,
[00:24:44] ou, pelo menos, se dizendo de esquerda, gente do nosso campo,
[00:24:46] dizendo que não era pra criticar o governo,
[00:24:49] porque isso é fogo amigo, porque é ano de eleição.
[00:24:53] Vocês querem abrir uma crise do governo com a Cargill,
[00:24:56] com agronegócio, é isso que vocês querem?
[00:24:59] Gente que se diz vendo a conjuntura,
[00:25:03] e tem gente que é assim, que vê o que está acontecendo
[00:25:07] e foda-se o povo lá que mora.
[00:25:09] Pelo amor de Deus, tem que pensar na conjuntura,
[00:25:11] tem que pensar no ano de que a gente está, que é o ano de eleição,
[00:25:14] e foda-se.
[00:25:16] E nessa frase terrível que eles sempre usam,
[00:25:18] a gente não tem uma correlação de forças a nosso favor.
[00:25:22] E aí a gente vê que força não é algo que existe solto no universo,
[00:25:27] ela é algo organizado.
[00:25:28] Então você vê que a correlação de forças muda
[00:25:31] exatamente na hora que o movimento social faz a força existir.
[00:25:36] Ele vira a força que ele tem e ele exerce ela.
[00:25:39] E aí a gente vê que a correlação de forças muda em um mês,
[00:25:43] que é muito tempo pra ficar acampado,
[00:25:45] mas politicamente é muito rápido ter uma vitória dessa dimensão,
[00:25:50] é considerando os bilhões do outro lado,
[00:25:53] a passividade e política da nossa casa civil, por exemplo,
[00:25:57] que foi possível fazer isso.
[00:26:00] Mas aí só pra dar o histórico, pra entender como é que isso foi revogado hoje,
[00:26:05] acho que tem dois fatores super importantes.
[00:26:07] Um é qual o motivo os indígenas ficaram tão revoltados,
[00:26:11] porque eles já tinham protestado no ano passado com esse decreto,
[00:26:15] que foi feito novamente em agosto de 25.
[00:26:18] Mas na COP, a gente viu aqueles grandes protestos que aconteceram
[00:26:25] lá na COP dos munduruku, dos indígenas, não sei o quê,
[00:26:29] e uma das questões que eles estavam demandando lá tinha a ver com o Tapajós.
[00:26:32] Foram os indígenas do baixo Tapajós que pediram audiência com a turma lá
[00:26:36] e houve um compromisso com eles.
[00:26:38] Nenhuma hidrovia, nada vai ser feito sem a consulta com eles,
[00:26:42] sem que eles estejam incluídos nessa negociação do que vai ser feito.
[00:26:46] É o mínimo, já é uma coisa conservadora.
[00:26:49] E aí o que aconteceu é que o nosso governo, um mês depois da COP,
[00:26:54] e uma iniciativa totalmente do governo federal, o governo Lula,
[00:26:58] fez esse decreto de uma licitação de escavar mais o Tapajós, sem consulta.
[00:27:08] E aí que os indígenas voltaram a esse protesto pra revogar esse decreto,
[00:27:13] e no final eles não aceitaram que fosse só a licitação.
[00:27:16] Como eles não pararam de confiar, demandaram a revogação do projeto de hidrovias.
[00:27:22] E aí o que aconteceu hoje?
[00:27:24] Acho que tem uma questão política bem importante da gente conversar, Greg,
[00:27:27] que é o Guilherme Boulos, que é o secretaria-geral da presidência hoje, status de ministério,
[00:27:36] e a Sonia Guajajara foram conversar, que é a ministra dos povos indígenas,
[00:27:42] foram conversar com os movimentos sociais indígenas.
[00:27:48] E pela notícia que a gente tem da última hora e meia,
[00:27:52] foi o Boulos, que em diálogo com o Lula, que está na Ásia,
[00:27:58] ele conseguiu essa revogação.
[00:28:02] Então também acho que tem um mérito importante,
[00:28:09] da gente ver a diferença que faz você ter dois ministros que vêm de movimento social
[00:28:14] e que devem, não só a sua carreira política aos movimentos,
[00:28:19] mas devem um compromisso de vida com esse tipo de luta.
[00:28:25] O Boulos vende ocupações, a Sonia Guajajara vende ocupações.
[00:28:30] Com todas as críticas que vocês possam ter que nós possamos ter a eles como ministros,
[00:28:35] porque viram instituições muito mais conservadoras do que a sua natureza,
[00:28:40] acho que faz muita diferença e você vê na própria reação do Ministério Lula.
[00:28:45] Já na imprensa já tem ministro puto da vida com essa revogação.
[00:28:50] Entre eles o Rui Costa, que é o petista mais de direita,
[00:28:56] com poder hoje no país, na minha opinião.
[00:29:01] Mas tem também o nobelíssimo ministro dos aeroportos e aeroportos,
[00:29:06] só para não falar o nome dele errado aqui,
[00:29:10] que também é um Costa, Silva Costa, se não me engano.
[00:29:15] Isso, mas você repetiu aeroportos e aeroportos.
[00:29:19] Portos e aeroportos, enfim.
[00:29:21] Portos e aeroportos, que é o ministro de que partido?
[00:29:26] Republicanas, o partido do Tarcísio.
[00:29:31] Só para a gente ter uma ideia de que tipo de conflito
[00:29:35] o epolítico se abre dentro do Ministério Lula.
[00:29:39] E é o que eu falo, essa batalha não está…
[00:29:42] Essa de hoje a gente ganhou, mas não é que essa guerra vai parar por aqui.
[00:29:47] Esses interesses vão muito além da própria Cargill.
[00:29:50] É um modelo de desenvolvimento epolítico e econômico
[00:29:55] que elege muita gente no território amazônico,
[00:29:58] que controla as câmeras estaduais e está profundamente
[00:30:03] dentro da produção de soja, do agronegócio brasileiro,
[00:30:08] que tem uma bancada que novamente é cachorrinho da Cargill.
[00:30:13] Até porque é a Cargill que paga o capilé de todo mundo.
[00:30:20] Exatamente.
[00:30:22] Agora, isso daí realmente foi o que mais me surpreendeu,
[00:30:26] porque é uma vitória do movimento social, sim,
[00:30:29] mas também é uma vitória dos representantes do movimento social
[00:30:33] no governo Lula, que estava numa situação horrorosa
[00:30:37] e que provaram que não são decorativos, ao contrário do que você ouve
[00:30:42] em termos de algumas críticas assim.
[00:30:44] Porque é muito fácil, o Lula bota os ministros que mandam, bota de direita,
[00:30:49] os ministérios com orçamento, os ministérios com poder
[00:30:52] e os ministérios sem poder, os ministérios decorativos,
[00:30:55] ele dá para asquer.
[00:30:56] Foi o que eu já ouvi algumas vezes como crítica.
[00:30:59] E faz algum sentido de verdade.
[00:31:01] Tem uma desproporção ali entre poder e lugar no espectro político
[00:31:06] no governo Lula.
[00:31:07] De fato, os ministros mais asques,
[00:31:10] o Ministério do Sol tem menos orçamento, por exemplo.
[00:31:12] Mas não quer dizer que eles sejam inúteis,
[00:31:14] e a maior prova disso foi o que aconteceu hoje.
[00:31:16] A utilidade, a importância de você ter lá Boulos e Guajajara,
[00:31:19] os dois ministros do PSOL.
[00:31:23] Perdão, Boulos é secretário, o que chama, né?
[00:31:25] Secretário de…
[00:31:26] Não, mas ele é status de ministro, que é a secretaria de governo.
[00:31:30] Isso, são dois ministros do PSOL.
[00:31:32] E aí você vê a importância de você ter pessoas do PSOL dentro desse governo.
[00:31:36] Imposições.
[00:31:38] É verdade, é verdade.
[00:31:39] Qualquer um tem menor dúvida disso.
[00:31:41] Que não são decorativas, muito pelo contrário.
[00:31:44] Pra quem mora no Tapajós hoje, essa decisão não foi decorativa.
[00:31:47] Não foi festiva, não foi…
[00:31:49] Ah, mas isso daí é um detalhe, gente.
[00:31:51] Porque talvez alguém pense isso.
[00:31:52] Alguém queira dizer assim…
[00:31:54] Ah, mas isso daí, gente, não foi nada.
[00:31:56] Isso daí a Kargil vai ganhar aqui, perdeu aqui, vai ganhar ali.
[00:31:58] Pra quem mora no Tapajós, tá?
[00:32:01] Isso daí é uma vitória, que é a vitória de uma vida.
[00:32:04] E acho que essa dimensão que a gente precisa ter, sei lá.
[00:32:08] Tem que entender isso.
[00:32:09] Eu acho que…
[00:32:10] Eu tenho certeza que a ideia de ampliar a capacidade hidroviária brasileira
[00:32:17] não foi enterrada com esse decreto.
[00:32:20] Esse decreto caiu até como forma de falar assim…
[00:32:25] Esse protesto acabou.
[00:32:28] Vamos voltar pra casa com uma vitória na mão.
[00:32:31] Mas não é que os nossos rios estão defendidos por uma nova emenda constitucional.
[00:32:37] Não é que houve um consenso nacional e o STF está de acordo com o Senado
[00:32:42] e agora a gente vai preservar os rios com ele.
[00:32:44] Não é isso que aconteceu hoje.
[00:32:46] Foi uma batalha linda que foi ganhada hoje,
[00:32:49] que o Boulos aparentemente, pelo que a gente entendeu,
[00:32:52] pela cobertura precoce disso, convenceu o Lula que nem no país está.
[00:32:57] Então a gente não sabe o que vai acontecer quando o Lula botar o pé dele aqui.
[00:33:02] Qual vai ser a conversa com o Rui Costa?
[00:33:04] Qual vai ser a conversa com o ministro de Portos?
[00:33:07] Qual vai ser a chantagem que virá de todos os lados para que isso seja retomado?
[00:33:12] Possivelmente agora não com um decreto, mas com um amparo legislativo,
[00:33:17] com um Congresso que vai entrar em cena, não tenha dúvida.
[00:33:20] E o Boulos também provavelmente teve essa inteligência política
[00:33:27] e a oportunidade de fazer isso com o presidente,
[00:33:30] porque também na visão dele, acho que ele está certo disso,
[00:33:34] que vai ter um peso eleitoral, que vai queimar o filme do Lula
[00:33:40] que já está com o filme dele totalmente chamuscado em outras questões ambientais.
[00:33:47] Porque vamos lembrar de que tem um monte de coisa que ninguém está na rua se imobilizando,
[00:33:53] até porque é coral, não faz passeata,
[00:33:57] mas houve um vazamento de fluido no comecinho da pesquisa de exploração
[00:34:04] e fase exploratória da pesquisa lá na Foz do Amazonas,
[00:34:08] já vazou 18 mililitros de fluido na Foz do Amazonas.
[00:34:13] Está de sacanagem.
[00:34:14] Agora, vazou, ninguém sabe, quase ninguém sabe.
[00:34:17] Mas vazou, vazou, vazou.
[00:34:21] E para você ter uma ideia, o único posicionamento que a CEO da Petrobras teve,
[00:34:26] a Magda teve, foi pra reclamar do Clima Info e das ONGs
[00:34:33] que usaram uma foto que não é totalmente precisa pra falar sobre o vazamento.
[00:34:38] Ela não nega o vazamento, ela não lida com a crítica principal,
[00:34:44] a única reclamação dela é que a foto não é uma foto do lugar.
[00:34:50] Que foi pra ilustrar.
[00:34:52] Então assim, esse vazamento está lá.
[00:34:55] Olha, tem fotos muito melhores do vazamento,
[00:34:58] em que vocês poderiam ver o estrago que foi feito.
[00:35:01] E vocês me põem umas fotos tão ruins, com uma definição baixa?
[00:35:04] Não, o ponto não é nem esse.
[00:35:06] Que absurdo!
[00:35:07] O ponto é pior do que você imagina, Greg.
[00:35:09] O ponto é que ela está reclamando que a foto que foi utilizada não é local lá.
[00:35:14] Mas sabe o motivo que não foi utilizada uma foto ou é local?
[00:35:18] Porque a Petrobras não fotografou o vazamento e forneceu pra imprensa.
[00:35:22] E boa sorte pro fotógrafo que tentar ir nas correntezas terríveis,
[00:35:27] onde não dá nem pra explorar, é petróleo com nenhuma segurança,
[00:35:30] pra fazer uma foto lá no escuro do estrago biológico
[00:35:34] que está sendo feito nessas áreas extremamente sensíveis.
[00:35:37] Então ela está reclamando…
[00:35:39] Onde é que a gente acampa?
[00:35:41] Na Foz da Amazonas é que não vai dar.
[00:35:44] A Petrobras tem escritórios no país inteiro, inclusive a sede da Petrobras,
[00:35:49] aí no Rio de Janeiro, que é onde a Magda trabalha.
[00:35:54] E aí sim, pra isso é uma prioridade do governo federal muito maior do que até as hidrovias.
[00:36:01] E o ponto é que o Ibama deu autorização.
[00:36:07] Então seja por pressão política ou por análise técnica,
[00:36:11] de qualquer jeito o Ibama hoje lamenta dizer isso.
[00:36:14] Que a gente entende o Ibama como nosso aliado, como uma ONG ambientalista,
[00:36:19] mas ele é um órgão governamental que assinou a autorização.
[00:36:24] Tradicionalmente tem independência.
[00:36:26] Então, uma coisa que nosso campo pouco fala,
[00:36:28] mas a partir de agora o vazamento está na conta do Ibama também.
[00:36:33] Que falou alguma coisa?
[00:36:35] Não está na conta da Petrobras só.
[00:36:36] O Ibama falou algo.
[00:36:38] O Ibama não se pronunciou muito ainda,
[00:36:41] até porque a coisa não está sendo muito cobrado.
[00:36:45] Então acho que há uma operação de constrangimento e de abafo,
[00:36:48] de vamos ver o que vamos fazer.
[00:36:50] A Petrobras paralisou essa fase exploratória,
[00:36:53] mas hoje disse que já logo vai retomá-la.
[00:36:57] Que é essa de pesquisa.
[00:36:59] Então o que vazou não foi nem petróleo ainda,
[00:37:01] foi o fluido de perfuração.
[00:37:04] Então isso é importante de a gente falar,
[00:37:06] porque se o Ibama cedeu por pressão epolítica,
[00:37:11] o Augustinho tem muita responsabilidade,
[00:37:14] porque ele não deveria,
[00:37:16] porque deveria ser uma análise técnica e ambiental.
[00:37:19] Então se foi por pressão epolítica,
[00:37:22] o Eibama é politicamente irresponsável.
[00:37:25] E se foi por uma análise técnica,
[00:37:28] ele é tecnicamente irresponsável,
[00:37:30] porque já vazou.
[00:37:31] Então tem uma questão aí que o governo agora em amplo espectro
[00:37:35] não pode mais alegar que há uma batalha
[00:37:37] entre o Ibama e a Petrobras nesse caso.
[00:37:40] E é nosso papel agora, por exemplo,
[00:37:43] constranger o Lula em anda litoral
[00:37:46] para que isso não seja feito.
[00:37:48] Para que isso seja interrompido.
[00:37:50] Os 18 mil litros do fluido de perfuração
[00:37:53] que escaparam durante a perfuração
[00:37:55] no bloco FZAM59,
[00:37:57] na bacia marítima da Foz do Amazonas,
[00:37:59] contém substância tóxica o suficiente
[00:38:03] para impactar animais marinhos
[00:38:05] e o meio ambiente até a sua degradação completa.
[00:38:08] A conclusão está no lado técnico assinado pelo Eibama mesmo,
[00:38:11] segundo nossa repórter.
[00:38:13] Hoje.
[00:38:14] Isso foi hoje.
[00:38:15] Que ótimo que o Eibama se pronunciou em relação a isso.
[00:38:17] Mas o que eu quero saber do Eibama,
[00:38:19] que essa é uma análise que não precisa do Eibama para fazer,
[00:38:23] esse é um departamento de biologia marinha da USP
[00:38:26] que também é capaz de produzir.
[00:38:28] O que eu quero saber é se o Eibama tem como rever
[00:38:31] as outras licenças.
[00:38:33] Se tem como suspender essa ou se não cabe isso mais.
[00:38:36] Eu não quero mais ver uma nota técnica do Eibama.
[00:38:39] Eu quero ver o que vai ser feito em relação a isso.
[00:38:42] E se, e isso é o grande se,
[00:38:45] se isso enterra ou não a ideia de explorar
[00:38:50] a Petróleo na Foz do Amazonas.
[00:38:52] Que, vamos lembrar, é outro rio amazônico, não é, pessoal?
[00:38:56] Então o Tapajós está sendo salvo pelo movimento indígena,
[00:39:00] mas a Foz do rio Amazonas também segue sendo um ponto
[00:39:04] de exploração econômica inviável, é dos 2026.
[00:39:08] Uma breve correção, essa conclusão que eu li
[00:39:11] não foi publicada pelo Eibama, não, tá?
[00:39:14] Isso é um laudo técnico que vazou.
[00:39:17] O DW, Doite Valley, teve acesso.
[00:39:20] Isso é um laudo sigiloso.
[00:39:22] Alguém vazou do Eibama.
[00:39:25] Então temos técnicos que sabem o que estão fazendo lá.
[00:39:30] Como tem muita gente séria no Eibama mesmo.
[00:39:33] Mas eu só queria falar isso porque eu acho que a gente esquece
[00:39:38] que o Eibama é um órgão de governo.
[00:39:41] Ele não é o nosso companheiro.
[00:39:43] Mas ele tem muita independência, Bruno.
[00:39:46] Desculpa, ele tem autonomia e ele tem independência.
[00:39:49] Ele tem a forma de estabilidade, o fiscal do Eibama, não é?
[00:39:52] O fiscal sim, mas o presidente não.
[00:39:55] O presidente não, o presidente não.
[00:39:58] E é o que tudo indica, pelo que o jornalismo todo é cobrido
[00:40:01] e a gente sabe de informação de bastidores,
[00:40:03] é que o Augustinho sofreu muita pressão política,
[00:40:09] privada e pública.
[00:40:11] O Lula tratando o Eibama falando inimigo do progresso brasileiro,
[00:40:16] parece que quer atrapalhar, aquelas coisas clássicas.
[00:40:19] Eu lamento.
[00:40:20] Ou o presidente do Eibama se mata a bola no peito
[00:40:25] e garante a sua independência,
[00:40:27] ou você renuncia de acordo com a pressão política,
[00:40:31] ou você cede a pressão política.
[00:40:33] E se você cede, a gente já não tem porquê mais ter muita empatia.
[00:40:41] Porque entre o presidente do Eibama e o Rio Amazonas,
[00:40:45] eu vou sempre escolher o Rio Amazonas e não o presidente do Eibama.
[00:40:48] Em relação a que lado fica, especialmente quando já vazou.
[00:40:52] Então você imagina, se fosse petróleo, porque são 18 mil litros.
[00:40:57] Não é nada, gente. É pouca coisa.
[00:41:00] É quatro caixas d’água aí, entendeu?
[00:41:04] É pouca coisa. A gente está falando de se vazar.
[00:41:10] E tem provavelmente a ver com as correntes subaquáticas ali
[00:41:15] de encontro do rio com o mar, o maior rio do mundo,
[00:41:19] que não deveria permitir um tipo de maquinário com líquidos tão perigosos
[00:41:24] em uma foce tão diversa quanto o do Rio Amazonas.
[00:41:27] Então pra falar sobre cosmologia, visão, o que é o que,
[00:41:33] não só de tapajós nosso modelo de negócio vive.
[00:41:40] Então tem isso também.
[00:41:42] Mas voltando ao lado um pouco bom,
[00:41:44] desculpa se for olhando aqui,
[00:41:46] é o fato de que a gente teve finalmente uma manifestação bem sucedida,
[00:41:50] pelo menos temporariamente.
[00:41:52] Eu acho que tem algo a gente a aprender.
[00:41:55] Eu queria entender com você o que você acha,
[00:41:57] porque você acha que ela foi bem sucedida.
[00:41:59] E mais, é a manifestação e a ocupação.
[00:42:04] E mais, porque é que eu tenho a impressão,
[00:42:08] não sei se você concorda,
[00:42:10] de que os indígenas lutam melhor do que os brancos de modo geral.
[00:42:18] Só um breve parêntese.
[00:42:20] Não é a primeira luta vitoriosa deles.
[00:42:23] Isso acontece pelo Brasil há muito tempo.
[00:42:27] Pra quem conhece a Alteira do Chão, por exemplo.
[00:42:29] Por que a Alteira do Chão ainda é um paraíso?
[00:42:31] Nunca ninguém teve ideia de fazer um resort lá?
[00:42:35] Nunca ninguém teve ideia de fazer um comínio de luxo?
[00:42:37] Sim, não só tiveram ideia.
[00:42:39] Como já tentaram, como já começaram a construir.
[00:42:42] E sabe o que aconteceu?
[00:42:43] O muro foi derrubado pelos borari.
[00:42:46] Foi derrubado.
[00:42:48] Com acampamento, com porrada, com briga
[00:42:50] e com mobilização de uma comunidade que não é gigante.
[00:42:54] Não é que eles são um milhão.
[00:42:56] Não.
[00:42:57] São mil ou dez mil no máximo.
[00:42:59] Mas que são bastante pra ter uma capacidade de luta, de força.
[00:43:05] Porque afinal de contas, a vida deles é o rio.
[00:43:07] A vida deles é o território.
[00:43:09] A vida deles é aquele lugar.
[00:43:11] Então, estou citando um caso que é a Quinta…
[00:43:13] Acho que chama Quinta da Vila.
[00:43:15] É um nome com dois L’s.
[00:43:17] Quinta da Vila tentaram fazer um condomínio de luxo
[00:43:20] chamado Quinta da Vila, no Tapajós, em Alteira do Chão.
[00:43:23] Pra isso, inclusive, tiraram de lá…
[00:43:26] E é isso aí que eles se fuderam.
[00:43:29] Eles tiraram de lá a Escola da Floresta.
[00:43:32] Que é um dos negócios mais espetaculares que tem no Brasil.
[00:43:34] A gente fala pouco disso.
[00:43:35] A Escola da Floresta é uma escola ambiental.
[00:43:37] É uma escola mista, assim, que tem o currículo tradicional,
[00:43:42] mas também mistura com o currículo indígena.
[00:43:44] É uma escola borari, na verdade.
[00:43:47] É uma escola em que os professores muito são boraris.
[00:43:50] A turma é borari.
[00:43:52] Não só, claro.
[00:43:53] Mas é uma escola que mistura os saberes ancestrais,
[00:43:57] os saberes indígenas, com o currículo tradicional do MEC e tal.
[00:44:01] E é um negócio muito bem sucedido.
[00:44:03] É um negócio espetacular mesmo.
[00:44:06] Essa escola, por acaso, era um modelo da Escola Borari.
[00:44:09] Escola da Floresta.
[00:44:11] E removeram a escola.
[00:44:13] E falaram assim, não, a gente tá construindo em outro lugar.
[00:44:16] Pra fazer um condomínio de luxo.
[00:44:17] E aí, meu amigo?
[00:44:19] Aí os caras foram lá e literalmente derrubaram o muro.
[00:44:24] Derrubaram o muro do cara.
[00:44:25] O cara teve que pagar uma multa.
[00:44:27] Aí sim o IBAMA intercedeu a favor dos caras.
[00:44:30] Porque não é só que é um território sagrado pra eles.
[00:44:32] É que é um…
[00:44:34] Tem a ver com um árvore.
[00:44:36] É uma pepeira.
[00:44:37] Uma área de preservação.
[00:44:38] É tudo errado.
[00:44:39] Mas os indígenas venceram.
[00:44:41] Então se você vai ao Terra do Chão, não sei se você já foi.
[00:44:44] Eu recomendo.
[00:44:45] Qualquer pessoa vá.
[00:44:46] Cara, é um santuário.
[00:44:48] É o lugar mais bonito que eu já fui na vida, assim.
[00:44:50] Em termos de diversidade, de beleza.
[00:44:54] Porque tem a beleza do rio, que parece um mar, que é gigante.
[00:44:57] Tem a beleza da floresta amazônica pujante.
[00:45:00] A flona dos tapajós.
[00:45:02] Tem a fauna vastíssima.
[00:45:04] E tem a cultura.
[00:45:05] Porque tem o Sairé, que é uma festa gigantesca, linda.
[00:45:08] Que tem em setembro, se eu não me engano.
[00:45:11] Festa lindíssima.
[00:45:12] Do povo borari, justamente.
[00:45:13] Mas não só.
[00:45:15] Tem o…
[00:45:16] Claro.
[00:45:17] Tem toda a música espetacular que você vai ouvir.
[00:45:21] Tem um tempo todo festas e músicas.
[00:45:23] Tem uma cultura muito grande.
[00:45:25] Das piracaias e com dança.
[00:45:27] É a coisa mais bonita do mundo.
[00:45:29] Do mundo de assistir, de ver, de participar.
[00:45:31] Enfim, estou falando isso tudo por quê?
[00:45:33] Porque eles conseguem…
[00:45:35] Se aquilo lá continua bonito.
[00:45:37] Se você vai pra lá e fica deslumbrado.
[00:45:39] Não é porque ninguém teve ideia de explorar.
[00:45:42] De fazer um turismo exploratório.
[00:45:44] Aliás, qualquer lugar que você vá no Brasil.
[00:45:47] Você gosta de Moreré.
[00:45:48] Moreré é outro exemplo.
[00:45:49] O nosso Moré é paraíso, né?
[00:45:50] Isso aqui vai estragar qualquer dia.
[00:45:52] Por quê?
[00:45:53] Porque…
[00:45:54] Vamos chegar aí, né?
[00:45:55] O Grana vai descobrir isso aqui.
[00:45:57] Amigo, já descobriu há muito tempo.
[00:45:59] Todo lugar do Brasil já foi descoberto pelo capital.
[00:46:02] Se não for explorado, se não for destruído,
[00:46:04] é porque tem lideranças nativas.
[00:46:07] É porque tem, no caso de Moreré, os quilombolas.
[00:46:10] Entre eles, pessoas como o maravilhoso Bio,
[00:46:12] que eu conheci, que é um cara que fala assim…
[00:46:14] Não, não vai.
[00:46:15] Eles não vão construir aqui, não.
[00:46:16] Eu falei, cara, Bio, em algum momento os caras vão vencer.
[00:46:18] Desculpa.
[00:46:19] E o Bio, B-I-O, um grande liderança, fala assim…
[00:46:21] Não, não vão, não.
[00:46:22] Gregório, você não está entendendo.
[00:46:24] Porque para fazer, vai ter que passar por cima de mim,
[00:46:27] que eu vou deitar ali, aí vai ser chato para caramba.
[00:46:29] Entendeu?
[00:46:30] Porque vai ter esse vídeo do Arminio Fraga,
[00:46:33] não sei quem é o dono daquilo, é uma das pessoas.
[00:46:35] Vai ter o vídeo do cara passando um trator em cima da minha cabeça, entendeu?
[00:46:39] E aí vai ser chato para caralho para os caras.
[00:46:42] E assim, é verdade.
[00:46:43] Eu sei que o cara é capaz disso.
[00:46:44] Assim como eles são, de modo geral.
[00:46:45] E todo lugar em que você vê a derrota de um bilionário
[00:46:50] não é porque o cara teve um surto de consciência.
[00:46:54] Não é porque ele dá muito trabalho construir lá, é longe.
[00:46:59] Porque as pessoas falam isso.
[00:47:00] Moré ainda está salvo porque é longe.
[00:47:02] Não.
[00:47:03] Não, não, não.
[00:47:04] É porque tem gente botando o corpo como barreira.
[00:47:07] Então, qualquer lugar do Brasil é isso, cara.
[00:47:09] Você vê, isso, é moré, mas é o terra do chão.
[00:47:11] Todo lugar que resiste é graças aos corpos dessas pessoas que se põe na frente.
[00:47:17] Então, acho que é isso que eles têm a nos ensinar mesmo.
[00:47:21] Que é uma liderança que é feita.
[00:47:22] Não é na internet.
[00:47:23] Na internet também.
[00:47:24] Muita gente está usando a internet muito bem nesse caso.
[00:47:26] Precisa da internet para isso funcionar.
[00:47:29] Também.
[00:47:30] Mas o corpo vem em primeiro lugar.
[00:47:32] Claro.
[00:47:33] O corpo físico, no lugar físico.
[00:47:35] O modo de ocupação.
[00:47:37] Vamos lá e vamos derrubar o muro.
[00:47:39] Eu vou assentar aqui.
[00:47:41] O famoso daqui não sai e daqui ninguém me tira.
[00:47:43] Ficar ao pé.
[00:47:44] E foi isso que os caras fizeram.
[00:47:46] Acho bonito pra caralho de ver aí, sei lá, uma gratidão infinita.
[00:47:51] Porque morre gente o tempo todo.
[00:47:53] A profissão que mais morre assassinada no Brasil é ativista ambiental.
[00:47:58] É a profissão que morre assim.
[00:48:01] Nem vira notícia.
[00:48:03] Nem vira notícia se morre uma pessoa indígena numa manifestação dessas.
[00:48:09] Os caras sabem fazer isso.
[00:48:11] É uma lista de mártires que tem de ativistas indígenas no país.
[00:48:15] E que, em geral, morrem depois de alguns meses de alguma vitória ou de alguma briga.
[00:48:20] Ele morre quando a pauta está um pouco mais fria.
[00:48:23] Vai lá um pistoleiro.
[00:48:25] Alguém é contratado em alta mira e já resolve a situação.
[00:48:31] Mas eu acho que você…
[00:48:33] Enfim, você falou coisas que eu concordo muito.
[00:48:37] Acho que tem uma dimensão que eu acho que é importante falar.
[00:48:42] Eles têm 500 anos de experiência.
[00:48:45] Que não é pouca experiência com ativismo de resistência.
[00:48:50] É verdade.
[00:48:51] Então é um conhecimento e algo que está entranhado na maneira de existir mesmo nesse país.
[00:48:58] Que é o único jeito deles existirem ainda.
[00:49:01] E de uma população que foi quase exterminada na sua totalidade.
[00:49:06] Eu acho que hoje, aos trancos e barrancos, apesar do capitalismo indo para cima dos últimos territórios que faltam.
[00:49:14] Eles estão com uma população em expansão.
[00:49:17] Tem mais indígenas no país hoje do que tinha há 50 anos.
[00:49:21] Do que tinha na ditadura militar.
[00:49:23] Que exterminam muito indígenas também.
[00:49:25] Isso é uma coisa.
[00:49:26] Outro que eu acho que é importante a gente lembrar aqui.
[00:49:31] A gente não pode confundir e achar que tem uma equivalência muito direta entre o ativismo indígena.
[00:49:39] Entre a resistência indígena e o ativismo urbano progressista.
[00:49:43] Porque, como a gente falou várias vezes, ali a resistência é por uma questão existencial mesmo.
[00:49:52] Eles não estão falando aqui de mudar uma tarifa de juros.
[00:49:57] Pedir um veto numa política que a gente não gosta.
[00:50:00] Que é super importante, legítimo, que é o que a gente faz.
[00:50:03] Mas é muito raro que o progressismo, especialmente o progressismo branco.
[00:50:07] A classe média de esquerda e tudo mais.
[00:50:10] Na qual eu me incluo sem nenhum constrangimento de assumir.
[00:50:17] Eu me constranjo por várias coisas.
[00:50:19] Mas não me constranjo de assumir que é um campo de onde eu fui formado de algum jeito.
[00:50:25] Mas a gente não luta por questões de sobrevivência.
[00:50:29] Como o movimento indígena é um movimento negro brasileiro.
[00:50:32] Muitas vezes luta.
[00:50:33] Movimento quilombola, luta.
[00:50:34] Movimento periférico, luta.
[00:50:35] É uma luta mais existencial.
[00:50:37] E acho que essa luta existencial é algo que a gente não é conhece.
[00:50:44] Mas que o movimento indígena, na minha cabeça, deveria inspirar.
[00:50:48] Para além da tática, da coragem e da resistência insistente.
[00:50:53] A gente não se deu conta, como campo progressista, como população urbana remediada,
[00:50:59] que a nossa luta também está existencial.
[00:51:01] A gente não percebeu ainda.
[00:51:03] Que a luta ambiental hoje não é uma luta de sobrevivência local de populações indígenas.
[00:51:09] Porque o que a gente tem que agradecer a esses povos indígenas hoje
[00:51:14] é que eles estão salvando a nossa vida, não a vida deles.
[00:51:18] Só.
[00:51:19] Não é uma luta que eu admiro de longe porque eu quero eles preservados pura e simplesmente.
[00:51:24] Que eu quero.
[00:51:25] Mas o ponto é que eles são os caras que estão tentando impedir a exploração de petróleo dentro da Amazônia.
[00:51:31] Colocando os seus corpos, as suas vidas em risco.
[00:51:34] Eles são os caras que estão falando.
[00:51:36] Chega de soja dentro da Amazônia.
[00:51:39] Esse rio faz parte do nosso patrimônio de sobrevivência da espécie.
[00:51:46] Já não se trata mais de 17 povos, 14 povos indígenas.
[00:51:50] Se trata da raça humana, entendeu?
[00:51:53] E eu acho que é aí que a gente deveria começar a olhar um pouco mais
[00:51:57] para a política ambiental do nosso país.
[00:52:00] E de que maneira que a gente deveria encarar de uma maneira muito mais grave,
[00:52:04] muito mais tensa, muito mais revoltada, muito mais raivosa mesmo
[00:52:09] para o que esse governo e outros governos muito piores do que o governo Lula
[00:52:14] está fazendo com exploração de combustível fóssil, termo elétrico,
[00:52:19] petróleo na Foz da Amazônia, consumo e crescimento econômico sem nenhuma responsabilidade ambiental,
[00:52:26] tacando para frente qualquer tipo de compromisso assertivo sobre transição energética e por aí vai.
[00:52:34] Então essa questão existencial, que eu acho que é exatamente isso,
[00:52:40] é mais natural, digamos assim, mais natural você pôr o seu corpo em risco
[00:52:48] quando o seu corpo vai estar em mais risco se você não colocar ele agora, entendeu?
[00:52:54] Colocar na frente da Hecargill é a sua melhor opção do que deixar a Hecargill ir até onde seu corpo está dormindo.
[00:53:05] Mas a gente não consegue ainda entender que a gente está numa situação cada vez mais parecida.
[00:53:12] Por outros motivos.
[00:53:13] Por motivos de sobrevivência mesmo, de climática.
[00:53:16] Mas será que estamos, Bruno?
[00:53:18] Olha, Greg, lamento, eu nem queria trazer essa notícia hoje.
[00:53:24] Ih, vai trazer. Eu também não queria que você trouxesse.
[00:53:27] Eu não queria.
[00:53:28] Não, vai trazer, estraga a vida.
[00:53:30] Mas é que foi você que questionou.
[00:53:32] Foi eu que pedi.
[00:53:33] Que falou assim, será mesmo que a gente está mesmo?
[00:53:35] Estraga a nossa vida, que é por isso que o povo assiste também.
[00:53:38] É isso que o povo gosta. Eu ganho pra isso.
[00:53:43] Tem um gráfico que saiu nessa semana que eu concordo com o cientista que publicou ele e falou a seguinte frase.
[00:53:53] Ele falou assim, provavelmente esse é o gráfico mais importante de todos os tempos e ninguém vai dar muita bola.
[00:53:59] E de fato não saiu nenhuma notícia.
[00:54:01] Não vi em nenhum lugar, não vi se traduzido em português.
[00:54:03] Eu só vi nos climatologistas que eu infelizmente sigo.
[00:54:09] Que é um gráfico sobre quanto que a Terra está retendo de luz do Sol dentro da sua superfície.
[00:54:22] De ondas curtas do Sol.
[00:54:26] E se você for olhar, eu vou te pegar aqui o gráfico, porque eu já posso até compartilhar, infelizmente.
[00:54:32] Esse gráfico daqui é um gráfico que a NASA fez esses últimos dias.
[00:54:37] E se você ver aqui, ele começa em 2001, não faz muito tempo.
[00:54:43] E isso daqui, esse abismo que está levantado aqui é a quantidade de Sol que bate na Terra
[00:54:52] versus a quantidade de Sol que a gente manda de volta para o espaço sideral, basicamente.
[00:55:00] Simplificando, é o efeito estufa.
[00:55:04] Porque idealmente você recebe radiação do Sol, ela vai ser utilizada como energia,
[00:55:11] mas a própria entropia faz com que essa energia seja totalmente dissipada,
[00:55:17] porque se ficasse aqui na Terra, a gente ia ferver muito rápido.
[00:55:22] Então o equilíbrio de homeostase no nosso planeta meio que depende que a gente não vire uma estufa.
[00:55:28] E antes de falar mudança climática, aquecimento global, eu fui educado com a expressão efeito estufa.
[00:55:35] E o que a gente está vendo, que os cientistas não tinham previsto,
[00:55:40] que é um aumento exponencial da retenção de calor no planeta que não corresponde
[00:55:46] e é perfeitamente a quantidade de gás carbônico.
[00:55:49] Então não é que a gente está colocando 1% a mais de CO2 e ele acumula 1% a mais.
[00:55:55] Tem algum tipping point, algum ponto de virada que acabou de acontecer nos últimos dois anos
[00:56:02] que a gente está retendo muito mais calor por metro quadrado no planeta e não devolvendo ele para o espaço.
[00:56:09] E aí o que esse climatologista está falando, basicamente ninguém está discordando dele abertamente,
[00:56:16] é que se isso é verdade, e é a NASA que está dizendo, a gente vai chegar em dois graus de aquecimento,
[00:56:24] que era um objetivo trágico que Paris não permitia para o final do século,
[00:56:29] vai chegar na década de 30 agora e provavelmente na primeira metade da década de 30
[00:56:36] e ninguém tem ideia de como é que vai estar em 2050 se isso continuar.
[00:56:40] Então literalmente a questão é existencial.
[00:56:42] Literalmente a gente está todo mundo no tapajós da Cargill.
[00:56:46] Agora não é mais uma questão de neto, no futuro vamos ver porque a China vai dar um jeito.
[00:56:53] A água bateu na narina, rolou, ligou o tipping point.
[00:57:01] Então tem um modo emergência que deveria um gráfico como esse,
[00:57:07] secapa de todos os jornais do mundo, não como um evento meteorológico,
[00:57:13] que a gente fica falando da chuva, da temperatura, de Nova York,
[00:57:17] mas como uma nova condição que vai afetar a capacidade de resiliência ecossistêmica mesmo.
[00:57:24] Porque se esquentar dois graus tão rápido assim e a gente estiver abrindo,
[00:57:31] e a hidrovia da Cargill não estiver nem pronta,
[00:57:34] estiver cavando o tapajós e abrir nova fronteira na Amazônia e legalizando mais soja,
[00:57:40] gente, está todo mundo na mesma balsa furada.
[00:57:45] Então se tem algo que eu acho que esse movimento indígena deveria nos inspirar um pouco,
[00:57:51] é de ter a clareza e a coragem existencial que o nosso presente demanda.
[00:57:56] Vê o Lula ainda relativizando a exploração de petróleo na Foz do Amazonas,
[00:58:03] vê a CEO da Petrobras mais preocupada com uma foto imprecisa,
[00:58:08] se não há nem a foto real do lugar que ela vazou,
[00:58:11] dizendo que não tinha a chance disso acontecer e não se desculpar,
[00:58:16] vendo o nosso campo, fica falando porque vive o petróleo nosso, soberania brasileira,
[00:58:22] vive os povos indígenas.
[00:58:24] E aí o que eu lembro aqui é que a grande parte dos povos indígenas aqui,
[00:58:29] quando o Krenak fala isso bem,
[00:58:34] que eles não chamavam a gente de branco, não chamavam os colonizadores de branco,
[00:58:38] o povo da mercadoria.
[00:58:40] O povo da mercadoria, o povo que vem aqui fazer e é comércio.
[00:58:45] E mesmo a nossa esquerda, nosso campo progressista,
[00:58:48] a gente é povo da mercadoria ainda, a gente não conseguiu se libertar desse pensamento.
[00:58:52] A gente ainda não conseguiu como campo viável, como esquerda, organizada,
[00:58:58] Presidente Lula, campo eleitoral, sistema econômico, não sei o quê,
[00:59:01] de entender que a economia deveria estar submetida a outros interesses.
[00:59:08] E é essa clareza que os indígenas têm.
[00:59:11] A prioridade para o indígena não é econômica, é ecológica.
[00:59:16] Essa é a diferença que muda completamente a clareza existencial que eles têm
[00:59:23] e a clareza existencial que a gente resiste diante do problema da mercadoria
[00:59:31] que está aí na cara de todo mundo.
[00:59:33] Sim, porque eles têm essa força, claro, do fato de colocarem o corpo à disposição ali na frente,
[00:59:40] o corpo como barreira, coragem essa que nós, por não sentimos que nosso corpo está em jogo,
[00:59:46] não colocamos, mas eles também têm uma força simbólica de representarem uma outra maneira
[00:59:51] de estar no mundo, de viver no mundo, regido assim por outras regras que não são a regra da mercadoria.
[00:59:56] Então eu acho que também tem isso, tem um choque, que é um choque de civilizações,
[01:00:03] mesmo um choque de maneira de existir.
[01:00:07] E é isso que estava em jogo ali também na Cargill.
[01:00:10] E segue em jogo hoje no Brasil. E segue em jogo.
[01:00:13] E o governo Lula com todas as suas vantagens em relação ao governo anterior,
[01:00:17] todos os seus vantagens em relação aos governos anteriores do Brasil,
[01:00:21] segue sendo um governo que faz muito mais concessões, e a palavra não é nem concessão não,
[01:00:27] porque não tem a ver com concessão, tem a ver com ideologia mesmo,
[01:00:31] com fazer um capitalismo, acreditar no capitalismo, um capitalismo distributivo e tal,
[01:00:37] um capitalismo com a face humana, sei qual é o termo que usam,
[01:00:43] mas assim, vendo o Lula, tem uma aposta de que os bilionários podem ser legais
[01:00:49] se eles forem nossos bilionários.
[01:00:51] Essa é a grande aposta do Lula 1, do Lula 2.
[01:00:53] O Joesley.
[01:00:54] O Joesley.
[01:00:55] O Joesley.
[01:00:56] Ele é nosso, ele é um bilionário nosso, o Joesley.
[01:00:58] O Ike, o Ike foi uma aposta.
[01:01:01] Ele é nosso, ele é nosso.
[01:01:03] E a Cargill provavelmente dispensa isso, gente, a Cargill é nossa.
[01:01:07] Não, eu acho que a Cargill, a Cargill no caso, não dá nem para fingir que é nossa,
[01:01:11] não tem nem ação na bolsa, então assim, não tem nenhum sócio brasileiro da Cargill.
[01:01:15] Nem o Joesley tem uma parte da Cargill.
[01:01:17] Você acha que não tem um seu brasileiro que é um brother pra caralho dos caras que falam assim,
[01:01:26] gente, a Cargill tá aqui botando um bilhão no governo e tal,
[01:01:30] a Cargill tá trazendo desenvolvimento, tem uma aposta, não é que eles são bonzinhos,
[01:01:35] mas que eles vão trazer desenvolvimento.
[01:01:38] Eu nem acho que a Cargill tá nesse ponto, eu acho que a Cargill, pro Lula, é o boom das commodities.
[01:01:47] O que a Cargill faz para o nosso país é enfiar dólar na nossa balança comercial.
[01:01:56] O que ela faz é garantir o superávit primário ali que não é nem desenvolvimento.
[01:02:03] É garantir o tripé macroeconômico criado no governo FHC.
[01:02:07] É isso que é.
[01:02:08] Isso é o sinônimo de bom.
[01:02:10] É isso que é.
[01:02:11] O que é um governo bom?
[01:02:12] É um governo com superávit primário.
[01:02:14] É um governo com crescimento de PIB.
[01:02:16] É isso que é um governo bom.
[01:02:18] O que tem reserva de dólar pra controlar o câmbio, pra jogar aqui e pra jogar aí sim,
[01:02:26] aonde esse dólar bate mesmo.
[01:02:29] O dólar bate mesmo no bolso do agronegócio brasileiro que plantou.
[01:02:33] A soja vendeu pra Cargill.
[01:02:35] E aí você vê, a Cargill é a descrição perfeita de como a gente ainda tá num capitalismo primário brasileiro.
[01:02:45] De um capitalismo de dependência que não é sequer soberano.
[01:02:49] Nem a nossa soja é soberana.
[01:02:52] Nem a merda da soja brasileira a gente pode bater no peito e falar isso aqui é a obra nossa, entendeu?
[01:02:57] A gente vende pra gringo que não é nem gringo, é uma família, entendeu?
[01:03:04] De uma empresa que foi fundada em 1865 nos Estados Unidos e ainda tá na mesma família, mesmo sobrenome.
[01:03:12] Olha o nível do colonialismo que a gente vive, entendeu?
[01:03:17] Não é 2.0 não, é 1.0.
[01:03:20] O nosso colonialismo é muito ainda mercantil.
[01:03:23] E aí esse o dinheiro que a Cargill paga pela mercadoria que o Brasil produz como matéria-prima,
[01:03:30] como sempre foi, pau-brasil, câmera de açúcar, sempre tinha um trader inglês, holandês, americano,
[01:03:38] que é o cara que leva pra fora e faz os negócios, assinou o contrato e fica com o filé sem ter que fazer o quê?
[01:03:46] Envenenar o próprio rio, matar a própria floresta.
[01:03:50] Mas sabe, Bruno, eu entendo o que você diz, que a Cargill ainda é só grana, grana, grana,
[01:03:55] mas eu acho que no governo do PT tem algo que vai além, claro, tem o PIB, tem a preocupação superar os primários,
[01:04:00] mas tem também, e acho que é mais grave ainda talvez, uma concepção de progresso muito entranhada.
[01:04:06] Diz que hidrovia é progresso, diz que floresta não é progresso, diz que povo originário não é progresso,
[01:04:13] diz que progresso é aumentar o calado do rio, isso é progresso.
[01:04:19] E tá na nossa bandeira, ordem e progresso.
[01:04:23] Então, assim, você explorar petróleo na Forja Rio Amazonas é progresso.
[01:04:30] Belo Monte é progresso. Belo Monte é progresso.
[01:04:35] Então, onde tinha uma floresta agora tem uma usina hidroelétrica, progresso.
[01:04:39] Então tem a ideia de que o progresso é um bem por si só, e tudo que traga progresso é bom.
[01:04:46] E que no fundo é um problema muito anterior, que não é só do PT.
[01:04:50] É um problema muito entranhado na nossa alma, que é a ideia de que existe uma linha do tempo
[01:04:56] em que a gente vai do atraso ao progresso. E os indígenas estão lá atrás,
[01:05:00] eles estão atrás nessa linha do tempo, e a usina tá na frente.
[01:05:06] E como a gente caminha pra lá, é olhar pra trás, olhar pros indígenas, é olhar pro atraso.
[01:05:13] Como assim? Eles um dia vão chegar lá.
[01:05:15] Porque o indígena e o Bolsonaro falavam isso de maneira muito clara, literalmente,
[01:05:20] mas isso também tá presente, de certa forma, no PT,
[01:05:23] é a ideia de que o progresso é inevitável, porque a gente tá caminhando pra lá.
[01:05:28] Então você pode segurar um mês ou outro, mas fatalmente vai chegar.
[01:05:34] Então, sabe, você é um saudosista, você é um ludista, você é um bobo, você é um ingênuo
[01:05:40] se você acha que o progresso vai lutar contra a força inadiável do progresso, que é o Deus.
[01:05:50] E que, na verdade, é um dos nomes do capitalismo, na verdade,
[01:05:53] do capital, da grana, é isso que eles querem dizer.
[01:05:56] Mas acho que tem algo que é um desenvolvimentismo, um progressismo,
[01:05:59] um sonho do bem maior, é asfaltar mesmo, atravessar, atropelar.
[01:06:07] E eu acho que as pessoas não… Sabe, esse dado que você deu, Bruno, é muito forte,
[01:06:11] eu tô ainda meio em negação, e eu acho que as pessoas não…
[01:06:15] As pessoas, eu digo por as pessoas, eu digo eu, incluído, tá?
[01:06:18] A gente tem uma dificuldade muito grande de entender isso.
[01:06:22] Eu não aprendo, eu não entendo isso, eu não penso nisso, porque senão eu não vivo,
[01:06:26] se eu começar a pensar nisso, entendeu?
[01:06:28] Quando eu digo isso, é o apocalipse mesmo.
[01:06:31] É, mas aí que tá…
[01:06:33] Não é o apocalipse, você exagera a palavra, não é o apocalipse.
[01:06:36] É a pior, a drástica das condições de vida na Terra.
[01:06:41] A Terra se tornando um ambiente cada vez mais hostil.
[01:06:47] Inabitável.
[01:06:48] Então você fala, é a terra inabitável lá do Wells.
[01:06:51] O que é interessante é que a cobra vai morder o próprio rabo, o capitalismo.
[01:07:00] A primeira coisa que essa crise ambiental vai provocar em massa,
[01:07:06] quando a gente sentir esse choque mesmo,
[01:07:09] que eu acho que a gente se engana que a crise climática é uma crise meteorológica.
[01:07:14] A gente sente, a gente é educado a achar que a gente vai ter mais chuva, mais calor, mais frio, mais enchente, mais seca.
[01:07:20] Isso é o sintoma inicial.
[01:07:22] Mas a doença mesmo é na capacidade do sistema se autorreproduzir.
[01:07:28] Biologicamente falando, mas economicamente falando.
[01:07:32] Porque todas as nossas cadeias de produção são dependentes de alguma homeostase biológica.
[01:07:39] E a gente tá no cartão, no cheque especial faz muito tempo.
[01:07:44] É vermelho desde que o capitalismo descobriu que dá pra ir tocando o bonde.
[01:07:52] E é desde que famílias começaram a ficar bilionárias e falaram
[01:07:56] que com esse bilhão aqui eu não posso comprar só uma casa,
[01:07:59] consigo comprar um político, consigo comprar um canal de TV e por aí vai.
[01:08:06] Mas o que eu acho que a gente não tá se dando conta é que o que vai quebrar é a cadeia de produção da economia capitalista.
[01:08:15] Vai quebrar a safra da cajil.
[01:08:18] A agricultura brasileira não é de irrigação profissional, ela é de chuva.
[01:08:24] A gente é um país que tá entre o Equador e os Trópicos, basicamente.
[01:08:30] É um lugar muito quente, fértil, mas é muito quente.
[01:08:34] É isso que eu acho que a gente não se dá conta mesmo.
[01:08:38] Não cabe na nossa cabeça.
[01:08:40] Eu mesmo, Greg, que sou mais dado a ler esse tipo de coisa,
[01:08:45] não é que eu leio isso e me incorpore, levanto daqui e vou fazer alguma coisa objetiva sobre essa questão.
[01:08:51] Também não cabe no meu modelo cultural, no modelo psicológico interno.
[01:08:55] Eu também vou fazer a nossa live, vou fazer o meu trabalho, vou cuidar dos meus filhos, vou comer, vou tocar a minha vida.
[01:09:04] Eu só sei que isso tá em curso, mas o que eu acho importante de falar é que
[01:09:08] do mesmo jeito que você fez essa crítica agora, que eu acho que tá certa,
[01:09:12] mesmo a esquerda sem admitir publicamente, ou até sem perceber, bota os indígenas nesse lugar do passado,
[01:09:26] eu também sinto essa questão de que há uma inevitabilidade do caminho,
[01:09:31] de que existe um certo fatalismo histórico ontológico.
[01:09:36] E acho que é muito ocidental isso, é muito capitalista isso, essa mentalidade capitalista
[01:09:42] de que estamos numa marcha rumo ao futuro, e ela é inexorável, e o futuro é um só.
[01:09:49] Por isso que o Mark Fisher fala, é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo.
[01:09:55] Mas a gente tem tempo, não de evitar o efeito estufa,
[01:10:03] mas a gente tem tempo de, antes do colapso econômico e ambiental,
[01:10:09] criar pelo menos a capacidade de saber que a gente tem como recriar um sistema econômico diferente
[01:10:17] que não dependa da destruição para chegar nesse ponto.
[01:10:21] E realmente, do ponto de vista urbano que a gente tem, eu não sei nem onde botar o meu corpo agora.
[01:10:27] Vou parar o quê? Com a máquina que eu vou pôr o meu corpo à frente? Eu não sei.
[01:10:31] Mas cara, a gente precisa, e nosso público é mais fácil de falar isso abertamente assim,
[01:10:37] de uma certa radicalidade na nossa visão de esquerda hoje em dia.
[01:10:41] A gente precisa realmente introjetar a ideia de que socialismo hoje em dia,
[01:10:46] de que a destruição do sistema capitalista hoje em dia,
[01:10:50] não é mais um imperativo moral da dignidade humana para todos.
[01:10:55] Ele é o imperativo de sobrevivência, cara. Entendeu?
[01:10:59] É socialismo ou morte mesmo agora. A gente não está falando mais de tipo…
[01:11:06] E é isso, enfim, já estou me enrolando aqui.
[01:11:09] Mas esses capitalistas bilionários hoje em dia, a gente vê o que os bilionários de hoje em dia acham.
[01:11:15] Eles estão indo para eugenia aberta, estão indo para criar robô, para substituir a gente.
[01:11:24] Entendeu? A gente está num momento de inflicção.
[01:11:27] Se bem que eu acho que é o alumante que desistiu de Marte, viu isso?
[01:11:29] Ele existiu de Marte.
[01:11:31] Caralho, isso daí, sabe o que me dá muita raiva, cara?
[01:11:34] Se ele tivesse me perguntado, tu acha que vale a pena esse Marte?
[01:11:38] Eu ia ter falado não, ia ter economizado alguns bilhões de dólares pra ele.
[01:11:41] Mas o maluco é supostamente um gênio, supostamente. Um gênio.
[01:11:45] E ele gasta bilhões pra ter a conclusão que qualquer imbecil, eu tô me incluindo aí,
[01:11:51] eu falaria pra ele assim, o seu imbecil não faz isso, deixa de ser burro.
[01:11:55] O que vai que Marte, meu irmão?
[01:11:57] Sabe, tipo, então isso dá muita raiva.
[01:12:00] E ele não deixa de ser considerado uma porra de um gênio pelos fãs dele,
[01:12:04] porque a maioria da população acho que sabe que ele é um imbecil.
[01:12:06] Mas enfim, tem essa aposta e agora parece que é a lua, né?
[01:12:10] Ele tá agora em compensação com a lua.
[01:12:12] Ele quer ir pra lua. Mas você sabe que…
[01:12:14] Então assim, cara, vai, meu irmão, né? Vai, caralho.
[01:12:17] Mas vai logo. Vai logo. Para de anunciar e vai. Só vai.
[01:12:23] Mas você sabe que, pensando no Elon Musk mesmo,
[01:12:26] eu acho que assim, Greg, não é que ele desistiu de ir pra Marte.
[01:12:30] Mas o projeto do Elon Musk segue em curso.
[01:12:34] Porque Marte pra ele era só um meio pra fazer uma coisa.
[01:12:38] O que o Elon Musk queria, ele quer ainda,
[01:12:41] ele se vê como o fundador de uma nova civilização.
[01:12:45] Ele não gosta porque ele se acha tão gênio…
[01:12:49] Porque não é que ele se acha um gênio igual o Einstein, igual o Picasso, sei lá, igual…
[01:12:56] Não, ele se vê num lugar muito mais de um ponto de inflexão evolutivo da nossa espécie.
[01:13:04] E ele não gosta da humanidade que vem antes dele.
[01:13:09] Ele e o Peter Thiel também não gostam, que era sócio dele, sócio da mesma máfia.
[01:13:14] E essa turma toda, eles acham a gente daqui de quinta.
[01:13:19] Gente, um monte de raça inferior mesmo.
[01:13:24] O que o Elon Musk está vendo hoje é que ele não precisa ir pra Marte
[01:13:28] pra refundar uma civilização eugênica nos moldes que ele acredita e ter um planeta só pra ele.
[01:13:34] Ele está vendo que o jeito é fazer aqui,
[01:13:38] com inteligência artificial, com a criação de exércitos de robôs,
[01:13:42] com a eugenia biotecnológica e com entender que o colapso
[01:13:47] ecológico vai fazer o trabalho sujo que eles não vão precisar fazer um a um, entendeu?
[01:13:54] Deixa a natureza ser o carrasco de Auschwitz, entendeu?
[01:13:59] E eles se fecham, militariza, bota drone e sobrevive.
[01:14:05] O plano é esse.
[01:14:07] O plano é fazer Terra ser o que ele imaginava que Marte ia ser, ser aqui.
[01:14:12] É dar uma limpada aqui, uma purificada aqui mesmo.
[01:14:16] É o que esses caras acham? Eles estão falando, eles falam.
[01:14:19] É o Marca de Noé, né?
[01:14:21] É o Marca de Noé.
[01:14:24] É uma loucura total.
[01:14:25] Em que ele está escolhendo os casazinhos que vão ficar.
[01:14:28] É uma loucura total.
[01:14:30] E a parte mais louca, e acho que é aí que a distopia fica mais grave,
[01:14:35] ele tem o controle dos meios de comunicação hoje.
[01:14:39] Ele junto com Zuckerberg.
[01:14:42] Aliás, uma das coisas mais preocupantes pra mim da Amazônia,
[01:14:45] a última visita à Amazônia que fiz, é uma coisa que por um lado é incrível,
[01:14:52] em que chegou a internet em qualquer lugar da Amazônia.
[01:14:56] Se você for pegar o Rio Negro, o Rio Tapajós pra cima,
[01:15:00] você vai ver palafitas isoladas.
[01:15:04] Tem muitas vezes luz elétrica, a não ser por eventualmente um gerador,
[01:15:09] ou assim, com uma Starlink lá no alto.
[01:15:14] Você vai ver a Starlink em lugares que nunca, nunca chegaria a uma internet
[01:15:20] se não fosse assim.
[01:15:22] Então, tem um lado muito legal, claro, a internet chegando.
[01:15:25] Por outro, a internet do ela ou mancha está nas mãos dele.
[01:15:28] E são pessoas que hoje vivem, muitas vezes dependem da internet pra trabalhar,
[01:15:33] pra se comunicar, pra denunciar, pra existir.
[01:15:36] Basicamente no mundo que a gente está hoje.
[01:15:38] Porque a internet não é só um meio de ver meme, né?
[01:15:42] Vocês sabem, claro.
[01:15:44] Ela é um meio de sustento.
[01:15:46] Ver meme é ótimo.
[01:15:48] Prioritariamente.
[01:15:50] Prioritariamente é meme, claro.
[01:15:52] Mas não é só.
[01:15:54] Não, porque realmente quando a gente pensa em internet…
[01:15:56] Pra mim, gravar podcast, né?
[01:15:58] A primeira coisa que a gente pensa, talvez seja só eu, desculpem.
[01:16:01] É superfluo.
[01:16:02] Nosso uso 99% dos meu…
[01:16:04] É meio assim, é.
[01:16:06] Superfluo.
[01:16:07] Agora não é mais.
[01:16:10] Sobretudo cada vez menos.
[01:16:12] É a subsistência, enfim.
[01:16:14] Então, isso aí está na mão desse filho da puta, com o perdão do termo,
[01:16:18] que pode desligar e pode usar isso como chantagem.
[01:16:21] Pode falar assim, e não, com esse ministro aí, sei lá quem, eu não quero.
[01:16:25] Eu vou desligar aqui o botão.
[01:16:27] Ele tem um poder de fogo gigantesco.
[01:16:29] Ele fez na Ucrânia.
[01:16:30] Não chegou a tirar, não.
[01:16:31] Mas ele fez na Ucrânia?
[01:16:32] Ele fez na Ucrânia.
[01:16:33] Ele liberou o sinal pra Ucrânia no começo da guerra, da invasão russa,
[01:16:38] pra ajudar a Ucrânia a se comunicar, ter os satélites e tudo mais.
[01:16:42] E aí quando a Ucrânia usou a internet pra atacar o território russo dentro da Rússia,
[01:16:48] ele deu uma cortada, depois voltou, porque teve uma crise diplomática,
[01:16:51] mas ele cortou porque ele falou não, é só pra se defender, não é pra atacar a Rússia, não.
[01:16:55] Caralho, eu não vi isso, não.
[01:16:57] É, foi logo no começo.
[01:16:58] Que cruzão, puta que pariu.
[01:17:00] Mas enfim, esse cara tem, ele tem o meio de conexão,
[01:17:04] que é uma população gigantesca do mundo cada vez maior, todo dia aumenta.
[01:17:07] Ele tem o meio de conexão, o outro tem os meios de socialização,
[01:17:13] de redes sociais, que não são sociais, mas são também fontes de conteúdo.
[01:17:17] Eles são magnatas que têm poder nunca antes, nunca antes juntos numa pessoa só.
[01:17:24] Não é o que o Zuckerberg tem com a meta, é algo que nunca existiu na história da humanidade,
[01:17:28] não é um imperador mundial com esse poder.
[01:17:31] É, não.
[01:17:32] É, e eu acho que a gente tá passando por um momento que é interessante pensar,
[01:17:37] essa mentalidade capitalista que a gente tem, ela é muito fruto do Estado-nação,
[01:17:45] desse mundo dos mapas, das fronteiras, das nacionalidades,
[01:17:49] que o capitalismo inventou, que é o mundo bidimensional.
[01:17:53] Ele é o mundo do território.
[01:17:56] E o que a internet fez, que também é um termo que não se usa mais,
[01:18:01] mas para mim é um termo muito melhor do que falar internet,
[01:18:04] ela criou o ciberespaço, que é um espaço não fronteiriço,
[01:18:10] é um espaço não bidimensional, é um espaço multidimensional,
[01:18:16] você não sabe nem onde ele tá direito, mas é o ciberespaço,
[01:18:19] é um espaço cibernético onde a gente ocupa ele quase que exclusivamente
[01:18:23] com a nossa cognição, com a nossa presença projetada no lugar,
[01:18:27] mas a gente não existe fisicamente nesse espaço que de fato organiza
[01:18:32] a nossa vida social, econômica e política,
[01:18:35] e a gente enterrou uma parte cada vez maior da nossa vida objetiva
[01:18:42] dentro desse espaço não dimensionável mais,
[01:18:45] dimensionável com bits, com dados e tudo mais.
[01:18:47] E esse espaço, o ciberespaço, ele é o espaço mais político de hoje em dia,
[01:18:52] dá para argumentar que ele é muito mais social do que o espaço físico
[01:18:56] e com consequências políticas muito mais determinantes do que a rua,
[01:19:00] apesar dos indígenas terem ganho, mas a formação informacional do mundo
[01:19:05] hoje se dá nesse lugar e eles são donos desse lugar.
[01:19:08] A República, como a gente conhece, bidimensional das fronteiras,
[01:19:14] do passaporte, do documento, dos impostos e tal,
[01:19:19] a gente não conseguiu penetrar no ciberespaço, eles legislam lá.
[01:19:23] Não é à toa que falam que é tecnofeudalismo,
[01:19:25] porque dentro desse espaço onde a gente vive hoje é tudo feudo, tudo tem dono.
[01:19:31] E porque eles criaram esse espaço e se tornaram os homens mais ricos da história
[01:19:36] e esse espaço está governando o espaço físico,
[01:19:39] hoje eles querem ser donos da política do espaço físico também.
[01:19:43] Por isso que eu estou indo para cima de pensamento filosófico sobre fronteira,
[01:19:47] sobre não sei o quê.
[01:19:48] Então assim, tem esse lugar novo, que é um lugar que existe mesmo,
[01:19:54] mas a gente não vê, não pega ele.
[01:19:57] E é louco, porque isso está se dando simultaneamente com o fato de que o problema
[01:20:03] que a gente vive hoje é atmosférico, ele não é mais territorial,
[01:20:07] ele não é um problema que se resolve com guerra de fronteira,
[01:20:11] quem invadiu quem, quem pegou o território.
[01:20:14] Então a gente está vivendo um mundo muito mais etéreo,
[01:20:17] é uma mistura de efeito estufa na atmosfera, que pega o ar,
[01:20:23] que ninguém vê, que ninguém pega, ninguém entende, ninguém sente bem,
[01:20:26] a gente só respira, com o ciberespaço, que é mais atmosférico ainda.
[01:20:32] E a gente fica nessa bateção de cabeça com essa mentalidade do século XIX ainda.
[01:20:38] É desesperador.
[01:20:40] É foda, falta visão.
[01:20:42] Eu mesmo tenho uma dificuldade gigantesca de entender, de fato,
[01:20:46] esse gráfico que você mostrou.
[01:20:48] Eu entendo ele, óbvio, mas eu não entendo.
[01:20:50] É, não, eu expliquei ele de maneira confusa.
[01:20:53] Não, não, não, perdão, mas eu não estou dizendo que eu não entendi
[01:20:55] a sua explicação, muito simples.
[01:20:57] Aumentar os gases de efeito estufa vai aumentar a temperatura muito mais
[01:21:00] rápido do que a gente imaginava, isso sim.
[01:21:02] Mas o que significa na prática é que eu não consigo entender,
[01:21:05] eu não quero entender, entendeu?
[01:21:07] É, não, ninguém quer entender.
[01:21:09] E eu não quero, ninguém sabe exatamente.
[01:21:12] Mas aí é que tá, a gente toma essa falta de convicção científica,
[01:21:20] que os cientistas são muito cautelosos em afirmar coisas,
[01:21:24] porque tudo é, veja bem as estatísticas e tal.
[01:21:27] Mas ninguém sabe o que acontece em um sistema tão complexo quanto o clima.
[01:21:32] Agora, o que se sabe é que mais tranquilo não vai ficar, só vai pirar.
[01:21:37] E tem questões de termodinâmica mesmo e de viabilidade biológica,
[01:21:42] que quando passa de certas temperaturas,
[01:21:45] certas reações químicas vão acontecer de maneira diferente,
[01:21:50] outras vão deixar de acontecer e certas formas de vida não se viabilizam mais.
[01:21:54] É que nem uma coisa fácil de explicar no corpo é humano.
[01:21:59] Tem febre de 39, tem febre de 40, tem febre de 42.
[01:22:05] Mas não tem febre de 45, porque você morre antes.
[01:22:09] Quando a temperatura passa de 43, você começa a desnaturar as suas proteínas.
[01:22:16] O corpo para de funcionar porque a sua reação química não é mais viável naquele negócio.
[01:22:21] E se a gente esquenta a Terra mais dois graus, três graus,
[01:22:26] porque a gente nunca fez isso enquanto a gente era vivo,
[01:22:30] a gente não sabe qual colapso sistêmico deve acontecer.
[01:22:36] Tem várias hipóteses, mas ninguém tem convicção.
[01:22:39] E a prova disso é que os modelos que orientaram o acordo de Paris de 2015,
[01:22:45] que determinava que a gente não deveria atingir um grau e meio até o final do século,
[01:22:50] e se desse muito errado, ia chegar em dois, mas dois não era admissível,
[01:22:55] mas os economistas falavam, vai ter que ser dois porque não vai dar para parar antes, não sei o quê,
[01:22:59] a gente vai atingir em 2035. Dois.
[01:23:04] Caralho, Bruno.
[01:23:05] Se esse gráfico for verdade.
[01:23:07] E por quê? Porque os cientistas estavam errados,
[01:23:10] no sentido de que eles não tinham conhecimento para ver que existem tipping points e feedbacks
[01:23:16] que aceleram muito esse processo para além da média emissão de carbono.
[01:23:21] Gente, isso era um programa que a gente ia comemorar uma vitória.
[01:23:26] E o Bruno conseguiu o que ele queria, estragar a sua semana.
[01:23:34] Mentira, tá certo, Bruno.
[01:23:36] Não, não, estragar a sua semana não, estragar o seu século.
[01:23:40] Semana, a semana tá salva.
[01:23:42] A semana tá salva.
[01:23:44] Guilherme Bollos, Sonia Guajajara, agora é semana, mas eu quero saber do século.
[01:23:50] Nós ganhamos uma batalha, mas a guerra tá perdida.
[01:23:54] A guerra tá sempre perdida.
[01:23:56] É só uma questão se a gente vai perder ganhando
[01:23:58] ou vai perder de cabeça baixa pra esses bilionários de merda.
[01:24:01] O que eu fico inconformado é o seguinte,
[01:24:03] se tiver que acabar o mundo, lamento, a gente vai acabar, vai ser uma desgraça.
[01:24:08] Eu só não quero olhar pra cima e falar assim,
[01:24:11] puta que pariu, a gente perdeu pra esses bostas, pra família Cargill.
[01:24:18] Quem é a família Cargill na fila do pão pra determinar o destino, entendeu?
[01:24:22] Da Amazônia, sabe?
[01:24:24] Vamos perder pra coisas mais dignas, vamos perder pra um meteoro,
[01:24:28] vamos perder pra um vírus imprevisível, pra alguma coisa.
[01:24:35] Mas não pra Elon Musk, Peter Thiel, pra esses caras que foi falta de bullying na escola.
[01:24:41] Aliás, pra esse tipo de gente tinha que ter mais bullying, não menos.
[01:24:45] Não sei não, Bruno, porque eu acho que teve um bullying ali.
[01:24:49] Teve um bullying, claro que teve.
[01:24:51] Sabe, nem o Elon Musk, nem o Epstein queria chamar ele pra ilha, tá?
[01:24:56] Ele foi, ele até sofria bullying do Epstein.
[01:25:01] Se é o quanto, ele é um merda.
[01:25:03] Ele sofria bullying do pai, mas é muito louco quando você vê a coisa masculina do pai,
[01:25:10] escroto, vilão, rico.
[01:25:13] O Elon Musk e o Trump, a mesma síndrome, né?
[01:25:17] O pai nunca vai ser o suficiente porque o pai disse isso pra ele, né?
[01:25:23] Caralho.
[01:25:24] Bom, mas eu tenho que concluir aqui, e eu vou concluir com leituras.
[01:25:28] Que eu recebi um tesouro, obra de Ricardo Aleixo.
[01:25:33] Eu sou fã pra cacete do Ricardo Aleixo, um dos maiores poetas desse país.
[01:25:38] Sou muito fã desse cara.
[01:25:40] Juntos com quem?
[01:25:41] Paulo Henrique Esbrito, Ana Martins Marques.
[01:25:44] Quem são os nossos grandes poetas vivos?
[01:25:46] Tá aí, esses três já me bastam pra ser feliz falando português.
[01:25:51] Mas, sério, eu sou muito fã do Ricardo Aleixo.
[01:25:53] O livro novo, Dendori, dessa coleção muito boa que é o Círculo de Poemas.
[01:25:57] São ou poemas ou livros sobre poemas.
[01:26:00] Esse aqui é um livro sobre o fazer poético dele, que é nosso grande poeta.
[01:26:04] Como é bom, são capítulos curtos sobre escrita, uma arte poética dele.
[01:26:10] Bonito pra cacete.
[01:26:11] Acaba sendo também a biografia através da escrita.
[01:26:14] E claro, os livros do próprio.
[01:26:16] Quem quiser ler o próprio, a poesia em si.
[01:26:19] Tornei-me diluando um cota e extraquadro livraço.
[01:26:24] Que alegria.
[01:26:25] E claro, isso aqui também, da Zog, de entrevistas dele.
[01:26:28] Muito boa.
[01:26:29] Ricardo é um puta intelectual brasileiro.
[01:26:32] Poeta da vida mesmo, da performer, que também fala muito bem poesia.
[01:26:37] Essa palavra performer é horrível, acho que ele também não deve gostar.
[01:26:40] Mas é um grande poeta que vale a pena ser celebrado esse cara aí hoje.
[01:26:47] Então é bom também lembrar disso.
[01:26:48] Fiquei feliz, à besta, de receber suas obras quase completas, que são muito grandes.
[01:26:52] Então, obrigado, Ricardo.
[01:26:53] E leiam o Ricardo Aleixo.
[01:26:55] Você não conhece?
[01:26:56] Conheça, leia.
[01:26:58] Tem um monte de coisa na internet.
[01:26:59] Grande poeta brasileiro.
[01:27:01] Que sorte estar no mesmo país que ele.
[01:27:03] Diga, Bruno.
[01:27:04] Maravilha.
[01:27:05] Eu ainda estou estudando a estreia do Clube de Cultura do Calmo de Gente, que vai ser
[01:27:11] na semana que vem.
[01:27:13] Então, Greg, Alessandra e eu vamos nos encontrar pessoalmente pra fazer a primeira sessão
[01:27:19] do Clube de Cultura na segunda que vem, pra falar sobre Viva o Povo Brasileiro, que é
[01:27:23] o primeiro livro que a gente vai ler junto esse ano, com todos os membros e membras
[01:27:27] do Clube de Cultura.
[01:27:28] Ainda dá pra se inscrever.
[01:27:30] CalmoGente.com.
[01:27:31] A gente vai escutar juntos o Etropicalha, o Panizete e Assis Senses, o grande disco
[01:27:39] seminal da Etropicalha brasileira.
[01:27:41] E vai assistir Vazante, o excelente filme da Daniela Thomas, pra inaugurar o nosso
[01:27:49] ano discutindo identidade brasileira e esse conflito tão bem expresso nas palavras do
[01:27:59] Simas entre o Brasil e a Brasilidade, duas forças antagônicas que se encontram diariamente
[01:28:08] nesse nosso latifúndio cheio de gente e magias interessantíssimas e riquezas intangíveis
[01:28:16] e metais viz até hoje dando do chão.
[01:28:20] Então a gente vai falar sobre essas três obras importantíssimas, conversar com todo
[01:28:25] mundo toda quarta-feira.
[01:28:26] Então a partir da quarta que vem vai ter a primeira conversa nossa sobre essas coisas
[01:28:31] e depois vai ter entrevista com a Daniela Thomas, vão ter lives que a gente vai discutir
[01:28:35] mais em profundidade os temas que a nossa comunidade levantar.
[01:28:39] Pra quem quiser fazer parte, calmourgente.com, vaga sempre abertas e é a única maneira
[01:28:47] como a gente viabiliza esse podcast e a nossa maravilhosa equipe que bota esse podcast e
[01:28:55] essa comunidade em pé.
[01:28:56] Muito obrigado, não deixe a gente passar lá calmourgente.com pra estar junto esse
[01:29:01] ano.
[01:29:02] Então obrigado a todos vocês e obrigado Bruno pela conversa, adorei.
[01:29:06] Beijo Greg.
[01:29:07] Beijo e parabéns a todos os manifestantes que estavam dentro da Cargill, a todos que
[01:29:14] colocaram o seu corpo lá dentro.
[01:29:16] Parabéns aos povos indígenas desse país que seguem resistindo há 526 anos pelo menos.
[01:29:23] Então muito obrigado mesmo a todos vocês e tamo junto.
[01:29:27] Até já.
[01:29:29] Beijo, Bruno.
[01:29:31] O Calmourgente é uma produção da Peri Produções e do Estúdio Fluxo.
[01:29:37] Na apresentação, Alessandra Orofino, Gregório Duvivier e Bruno Torturra.
[01:29:41] Na produção, Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo.
[01:29:45] Na pesquisa e roteiro, Luisa Miguez.
[01:29:47] Na captação de som, edição e mixagem, Vitor Bernardes.
[01:29:51] Ilustrações, Ana Brandão.
[01:29:53] Na sonoplastia, Felipe Croco.
[01:29:55] Na edição de cortes, Julia Leite.
[01:29:57] Nas redes sociais, Bruna Messina.
[01:29:59] Gestão de comunidade, Marcela Brandes.
[01:30:01] A identidade visual, Pedro Inoi.
[01:30:03] E consultoria de comunicação, Luna Costa.