Saiba quem são os 4 milhões de brasileiros que podem decidir a eleição de 2026
Resumo
Carol Pires e Marina Dias conversam com Maurício Moura, diretor do Ideia Big Data, para entender como episódios “de bolha” podem ter impacto real na eleição de 2026. Maurício argumenta que, por se tratar de uma reeleição, a pergunta central é simples: “Lula merece continuar ou não?”. As pesquisas indicariam um país dividido, com ligeira maioria dizendo que não, e uma disputa que pode ser decidida por 3 a 4 pontos percentuais — cerca de quatro milhões de votos.
O foco da conversa é justamente esse grupo decisivo, descrito como mais conservador, mais religioso e pouco engajado em noticiário político, além de concentrado nas periferias metropolitanas do Sudeste, com renda em torno de 2 a 5 salários mínimos e presença feminina e empreendedora forte. Nesse contexto, o desfile de Carnaval em homenagem ao Lula (mencionado no episódio anterior) teria sido eleitoralmente ruim não pelo debate jurídico ou por “propaganda antecipada”, mas porque foi percebido por esse público como sinal de intolerância religiosa, ampliando a sensação de distância do governo.
Por fim, Maurício sustenta que democracia tende a permanecer como tema de bolhas, enquanto economia será o principal motor do voto desse eleitor em disputa. Ele também avalia cenários de segundo turno: Lula teria mais chances contra um Bolsonaro (pela rejeição à memória do governo anterior), mas enfrentaria maior risco contra um nome de direita menos rejeitado. A conversa termina com um alerta sobre a eleição do Senado em 2026: baixo engajamento, confusão por serem duas vagas e possibilidade de campanhas explorarem a promessa de impeachment de ministros do Supremo.
Anotações
- 00:02:07 — Eleição como referendo do incumbente: Mauricio enquadra a próxima disputa como uma eleição de reeleição, em que a pergunta central fica mais simples: se o presidente “merece continuar ou não”. Ele compara com 2022, quando essa foi a chave para o julgamento do governo Bolsonaro, e diz que hoje, ao olhar a mesma pergunta aplicada ao Lula, o país aparece muito dividido nas pesquisas, com vantagem pequena para quem diz que ele não merece continuar.
- 00:05:54 — Três desafios do Lula e o eleitor conservador em disputa: Ele lista três desafios para Lula: recuperar uma pequena parcela de gente que votou nele e hoje acha que o governo não merece continuar; lidar com a abstenção, que ele descreve como mais comum na baixa renda e baixa escolaridade; e o mais difícil, tentar trazer para seu lado eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022. Mauricio argumenta que esse público é mais conservador e que o episódio do desfile “pouquíssimo contribuiu” para aproximá-los, porque o efeito principal foi de afastamento.
- 00:07:09 — Contexto do desfile e narrativa de ofensa religiosa: Marina contextualiza o desfile citado no episódio anterior: uma ala chamada “família em conserva”, com pessoas vestidas de latas e a imagem de uma “família tradicional brasileira”, com mofo sugerindo algo ultrapassado. Ela diz que, como a direita domina as redes, a narrativa que se impôs foi a de ofensa às famílias evangélicas, com líderes e Silas Malafaia impulsionando a ideia de “conservada por Deus”. Para ela, isso mostra como “a história contada” é decisiva — e pergunta se essa versão de intolerância religiosa de fato emplacou.
- 00:09:44 — Perfil dos quatro milhões decisivos: Mauricio descreve o grupo que pode decidir a eleição: pessoas religiosas (evangélicas e católicas) que frequentam cultos, com renda de dois a cinco salários mínimos, concentradas nas periferias metropolitanas do Sudeste. Ele afirma que esse público foi importante na vitória do Lula nas grandes regiões metropolitanas (Grande São Paulo, Grande Rio e Grande BH) e destaca características como ser mais feminino e empreendedor, com duas ou três atividades de renda, o que reduz o tempo de engajamento no noticiário político; a religião aparece também como senso de comunidade e até lazer.
- 00:11:33 — Democracia não é o tema central para esse público: Ao discutir o que pesa na decisão de voto, Mauricio diz que, para esse eleitorado em disputa, questões concretas do cotidiano definem o voto, e que o tema “democracia” tende a ficar restrito às bolhas. Ele faz um paralelo com eleitores americanos que priorizaram a administração da própria vida, e sustenta que, na conta dessas pessoas, o julgamento vira algo como “quem vai dar uma chance de melhorar de vida”, com a economia reaparecendo como preocupação recorrente.
- 00:13:05 — Oposição alternativa e peso da memória do bolsonarismo: Mauricio avalia que, com os dados atuais, um segundo turno Lula versus Flávio Bolsonaro seria acirrado porque a memória do governo Bolsonaro é ruim para esse público, e isso carrega rejeição. Ele acrescenta que, se o adversário fosse “qualquer outro” nome contra o governo atual, esse grupo poderia votar massivamente na oposição, já que o governo é mal avaliado por eles; como a alternativa discutida é Flávio, entra a lembrança negativa da gestão anterior, enquanto o “dia a dia do bolso” segue como elemento decisivo.
- 00:14:03 — Por que temas como 6x1 não mobilizam esse grupo: Ele cita pautas econômicas que circulam no debate público, mas diz que parte delas não alcança esse eleitor: imposto de renda tem efeito incerto porque muitos operam na informalidade, e a discussão sobre jornada 6x1 “nem passa na cabeça” dessas pessoas. Mauricio relata uma fala ouvida em grupo focal em que alguém diz trabalhar 16 horas por dia, indicando que o tema não se conecta à realidade percebida. Ele volta a afirmar que, para esse público, a economia é o centro da decisão do voto presidencial.
- 00:16:09 — Nem pobres nem ricos: dificuldade de diálogo político: Mauricio explica que esse público não se encaixa nas narrativas clássicas: não se considera pobre a ponto de precisar de Bolsa Família e critica a ideia de que quem recebe “não faz nada”, mas também não adere ao discurso de meritocracia ou Estado mínimo porque depende de educação, hospital e transporte públicos. Ele conclui que nenhum dos lados oferece uma “utopia” convincente para esse segmento, que quer um governo que não atrapalhe o empreendedorismo, mas ajude em serviços essenciais.
- 00:17:32 — Religião como comunidade e pertencimento: Na conversa, a religião aparece como algo central porque oferece senso de comunidade e pertencimento nas periferias metropolitanas. Mauricio diz ter aprendido como esse pertencimento pode empoderar mulheres, e Carol e Marina associam isso ao fato de ser um momento de convivência, lazer e relaxamento, uma vida para além de ser mãe e trabalhadora. A ideia é que, quando algo é percebido como ataque à religião, atinge uma dimensão de identidade dessas pessoas.
- 00:18:00 — Participação na igreja e autonomia das mulheres: Mauricio aprofunda que, especialmente entre mulheres evangélicas, participar da igreja pode significar fortalecimento pessoal: ele menciona depoimentos de mulheres que passaram a frequentar e sentir maior controle sobre a própria vida por causa do convívio e do senso de comunidade. Na conversa, isso é descrito como um espaço de socialização e pertencimento que funciona como “lazer” e como uma forma de existir para além do trabalho e das responsabilidades familiares.
- 00:19:27 — Pandemia, “dar uma chance” ao Lula e novo distanciamento: Eles retomam como a gestão da pandemia por Bolsonaro afastou esse público, com relatos recorrentes de sentimento de abandono. Mauricio diz que ouviu falas do tipo: “a gente sabe que o Lula é corrupto, que já foi preso, e resolveu dar uma chance porque a situação… tinha abandonado”, destacando o caráter pragmático do voto. Agora, segundo ele, a percepção é de que o governo segue distante e a vida continua difícil; quando entra um episódio lido como intolerância religiosa, isso aumenta ainda mais essa distância.
- 00:24:26 — Senado: engajamento tardio e decisão de véspera: Mauricio afirma que a eleição para o Senado é especialmente difícil de prever e explica que a redução do tempo de campanha (de 12 semanas para 6) atrapalha o engajamento do eleitor, que foca primeiro na presidencial e só muito tarde em governador e senador. Ele dá um dado de 2022 em São Paulo: na véspera do primeiro turno, 55% não sabiam dizer espontaneamente um nome para senador. Com isso, o voto para o Senado tende a ficar mais correlacionado ao voto presidencial, com eleitores perguntando “quem é o senador do Lula” ou “do Bolsonaro”.
- 00:25:38 — Duas vagas, segundo voto e desigualdade de informação: Ele destaca que, desta vez, serão duas vagas ao Senado e que há muito voto branco no segundo voto porque as pessoas não sabem que precisam votar duas vezes; segundo ele, só um terço sabe que serão eleitos dois senadores. Mauricio diz que isso se relaciona a zonas de baixa renda e escolaridade, onde é mais comum não completar os dois votos, enquanto quem tem maior renda e escolaridade tende a votar duas vezes — e ele observa que esse perfil também se associa mais à reprovação do governo.
- 00:27:10 — Recall e chapa forte: limite de apresentar nomes novos: Mauricio argumenta que, com apenas seis semanas, é muito difícil apresentar ao eleitor um nome novo para o Senado, por isso a necessidade de candidatos com “recall”. Ele também diz que o segundo voto pode decidir a eleição e que uma chapa estadual bem-sucedida precisaria de dois candidatos relevantes. No quadro de baixo engajamento e baixa informação, ele reforça que a importância institucional do Senado é alta, apesar de o eleitor muitas vezes não acompanhar a disputa.
- 00:27:29 — Campanha ao Senado e promessa de impeachment no Supremo: Mauricio prevê que um tema forte na campanha para o Senado será candidato se apresentando com o argumento de que, eleito, vai “fazer o impeachment de um ministro do Supremo”. Ele liga essa possibilidade ao peso do Senado nesses processos e ao ambiente de radicalização que pode crescer com uma maioria bolsonarista. As apresentadoras reagem com preocupação e encerram reconhecendo o impacto do cenário descrito.
Linha do Tempo
- [00:01] — Apresentação de Maurício Moura e a motivação: olhar além das bolhas
- [00:01] — Eleição como referendo da reeleição: “merece continuar ou não?” e país dividido
- [00:03] — Quem decide a eleição: 3–4 pontos percentuais e perfil mais conservador/religioso
- [00:03] — Desfile do Carnaval e reação fora das bolhas: percepção de intolerância religiosa
- [00:06] — Contexto do episódio do desfile e como a narrativa se fixou nas redes
- [00:08] — Retrato do grupo decisivo: renda, região, gênero, empreendedorismo e pouca politização
- [00:10] — Por que votaram no Lula em 2022 e por que hoje se frustram: pandemia, distância e economia
- [00:11] — Democracia não como tema central para esse eleitor; economia como determinante do voto
- [00:12] — Cenários de segundo turno: Lula x Flávio Bolsonaro vs Lula x outra direita “menos rejeitada”
- [00:14] — Segurança pública: tema crônico e mais associado a governos estaduais
- [00:15] — Falta de “utopia” política para o eleitor intermediário (nem pobre nem rico) e papel da religião
- [00:23] — Eleição para o Senado: imprevisibilidade, pouco engajamento e impacto de duas vagas
- [00:27] — Risco de campanha ao Senado focar em impeachment de ministro do STF e encerramento
Dados do Episódio
- Podcast: Duas e Tanto
- Autor: Carol Pires e Estúdio Novelo
- Categoria: News / Politics
- Publicado: 2026-02-25
- Duração: 0h28m
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/duas-e-tanto/bbba0d00-1c7f-013e-8aec-0e8fd7e33bcf/saiba-quem-s%C3%A3o-os-4-milh%C3%B5es-de-brasileiros-que-podem-decidir-a-elei%C3%A7%C3%A3o-de-2026/5c9a7ddd-ff98-4154-bcbc-724246cd568e
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Dados do Podcast
- Nome: Duas e Tanto
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Transcrição
[00:00:00] Oi amiga, hoje eu estou te ligando para a gente ligar para outra pessoa, que é para o Mauricio Moura.
[00:00:07] Inédito no Duas e Tanto, pra quem que a gente vai ligar?
[00:00:11] Para o Mauricio Moura.
[00:00:13] Bom, você conhece o Mauricio, nós duas conhecemos que ele é diretor do Ideia Big Data,
[00:00:17] que é um instituto especializado em consultoria de opinião pública, cenário político eleitoral.
[00:00:23] Ele é uma fonte excelente, tem mestrado, doutorado, especializações no tema.
[00:00:28] Ele faz bingo de universidade, amiga, porque ele tem mestrado e doutorado pela University of Chicago,
[00:00:36] Georgetown, a George Washington University, que é mais, Stanford, Harvard, enfim.
[00:00:43] E o Mauricio, amiga, ele foi o primeiro a dizer que o Bolsonaro ia ser eleito em 2018.
[00:00:50] Ele é o, ele anunciou o Apocalipse e eu entrevistei ele para o Retrato Narrado,
[00:00:55] que é a série do Spotify que eu fiz sobre a vida do Bolsonaro.
[00:00:58] E aí, desde então, eu quero ouvi-lo sempre para não comer bola.
[00:01:03] E aí ele escreveu para a gente semana passada, depois do episódio que a gente falou do desfile
[00:01:08] da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao Lula.
[00:01:11] E aí o Mauricio falou, amiga, que a gente está olhando muito para as bolhas.
[00:01:15] E aí eu acho que a gente tem que ouvir ele sobre isso.
[00:01:18] Vamos começar diferente?
[00:01:19] Eu vou chamar ele aqui.
[00:01:21] Mas então eu sou a Carol Pires.
[00:01:23] Eu sou a Marina Dias.
[00:01:25] E esse é o Dois e Tanto.
[00:01:28] Vamos lá. Oi, Mauricio.
[00:01:30] Olá, Carol, Marina, prazer estar aqui com vocês.
[00:01:32] Sou ouvinte aí do podcast de vocês.
[00:01:34] Eu achei luxuoso isso.
[00:01:36] Eu também. Obrigada, Mauricio, por aceitar nosso convite.
[00:01:39] Mauricio, começa falando um pouco do episódio.
[00:01:42] Vamos começar daí? Você viu o episódio e falou, hum, elas não estão olhando para o lugar certo.
[00:01:46] Não, vamos lá. Posso dar um passo atrás para entender?
[00:01:49] Essa eleição, ela tem um componente muito concreto, que é uma reeleição.
[00:01:55] A gente tem um incumbente.
[00:01:57] E quando a gente tem um incumbente, é muito fácil para as pessoas imaginarem a pergunta central da eleição.
[00:02:03] Qual é? Se ele merece continuar ou não?
[00:02:05] Essa era a pergunta que, por exemplo, os brasileiros responderam em relação ao Bolsonaro.
[00:02:10] Se ele merecia continuar ou não?
[00:02:12] E quando a gente olha, porque isso é muito mais fácil do que a gente ficar explorando o candidato A, B, ou C, ou cenário X ou Y.
[00:02:19] E hoje, quando a gente tem essa pergunta, se o Lula merece continuar ou não, o país está muito dividido.
[00:02:25] A gente tem, na maioria das pesquisas, 50% dizendo que ele não merece continuar,
[00:02:30] e 47%, 48%, 46%, dependendo da pesquisa, dizendo que ele merece continuar.
[00:02:34] Ou seja, é uma diferença muito pequena. O país está realmente dividido em relação a essa pergunta.
[00:02:39] Só que esse governo tem uma dificuldade concreta.
[00:02:44] Ninguém que votou no Bolsonaro, no segundo turno de 2022, aprovou esse governo em nenhum momento.
[00:02:50] Então, ele basicamente, desde o começo, ele tem um muro de popularidade muito alto.
[00:02:57] Assim, é um teto muito baixo, depende do perspectivo.
[00:03:01] E a gente está falando de uma eleição que vai ser decidida por três, quatro pontos percentuais.
[00:03:07] Que são, justamente, muito similares com a condição em 2022.
[00:03:11] A eleição foi decidida por muito pouco por gente que votou no Bolsonaro em 18, que mudou de lado.
[00:03:16] Que votou no Lula em 22.
[00:03:18] E esses três, quatro porcento, eles têm uma característica mais conservadora.
[00:03:24] Eles são mais religiosos, não somente evangélicos. Eles frequentam mais os cultos.
[00:03:30] Eles são mais apolíticos. Eles estão fora da…
[00:03:34] E aí eu entro no episódio respondendo a sua pergunta.
[00:03:37] Esse episódio do Carnaval, em primeira instância, ele entra em qualquer episódio da política atual.
[00:03:43] Ele tem uma sensação de uma bolha e outra sensação na outra bolha.
[00:03:48] E, obviamente, isso é uma coisa meio comum.
[00:03:51] Qualquer tema vira tema apolitizado.
[00:03:53] Só que para esse grupo, que é um grupo apolitizado, que vai decidir a eleição,
[00:03:58] a gente até fez uma pesquisa só com evangélicos.
[00:04:02] E aí quando a gente quebra por esse grupo, que realmente pode ir para um lado ou ir para o outro,
[00:04:08] que é um grupo cada vez menor, a gente está falando de três, quatro pontos percentuais,
[00:04:11] o evento foi muito ofensivo.
[00:04:15] Então, para esse grupo, fora da discussão, fora daquilo que já está definido do ponto de vista,
[00:04:21] esse evento foi ofensivo, porque ele justamente ataca algumas crenças.
[00:04:27] E nos nossos dados, o principal ataque foi a intolerância religiosa.
[00:04:32] Foi menos se a homenagem era legal ou não, foi menos se a homenagem era propaganda antecipada ou não.
[00:04:39] Acho que esse é um tema marginal.
[00:04:43] Acho que o que pegou mesmo foi essa questão da intolerância.
[00:04:46] E a gente está falando de uma eleição que vai ser decidida por quatro milhões de votos.
[00:04:50] Então, quando eu falei para vocês que eu achei que foi ruim do ponto de vista eleitoral,
[00:04:55] porque a gente está numa coisa que um ponto percentual para cá ou para baixo pode fazer toda a diferença.
[00:05:02] E esse evento, ele justamente não contribuiu num público que está fora dessa coisa.
[00:05:08] Esse não é um público que está preocupado se o governo é corrupto ou não.
[00:05:12] Enfim, é o público que justamente ficou incomodado com esse aspecto de intolerância religiosa,
[00:05:18] que na maneira que eles perceberam o desfile, é isso que ficou.
[00:05:23] Menos importante se o Lula estava lá ou não, se estava fazendo propaganda ou não.
[00:05:28] Essa associação de intolerância, no momento que…
[00:05:32] Porque o presidente Lula tem três desafios.
[00:05:36] Ele precisa recuperar esse grupo que votou nele e hoje acha que o governo não merece continuar.
[00:05:40] A gente está falando de três pontos percentuais.
[00:05:42] Tem um desafio adicional que o PT sempre sofre com a abstenção,
[00:05:46] porque a abstenção é uma abstenção de baixa renda e baixa escolaridade.
[00:05:50] E tem um desafio que eu acho que esta vez seja o mais difícil,
[00:05:52] que obviamente esse evento pouquíssimo contribuiu,
[00:05:55] de eventualmente trazer eleitores que votaram no Bolsonaro no segundo turno em 2022
[00:05:59] para votar no presidente esse ano.
[00:06:02] E esses eleitores, obviamente, são um perfil mais conservador.
[00:06:04] Então, na minha leitura, não teve muita divisão.
[00:06:07] O evento foi péssimo, porque nas bolhas ele teve as reações que qualquer evento político costuma ter,
[00:06:14] que cada lado vai construir a narrativa que ele é favorável,
[00:06:20] mas no público concreto, que é o público que está em disputa, foi muito ruim.
[00:06:25] Eu queria só dar uma contextualizadinha rápida para os nossos ouvintes que estão chegando nesse episódio
[00:06:32] e, por algum motivo, não escutaram o episódio passado, que é sobre o desfile.
[00:06:37] Só para a gente entender do que está falando, esse desfile em homenagem ao Lula,
[00:06:42] tinha uma ala específica que chamava família em conserva, que eram pessoas vestidas como latas,
[00:06:50] e tinha uma foto de uma família tradicional brasileira, e ali seria um homem, uma mulher e dois filhos.
[00:06:59] Tinha um pouquinho de mofo na lata, então a ideia talvez fosse de que essa ideia de família tradicional
[00:07:07] é ultrapassada, mofada, etc., mas como a direita domina as redes sociais, a narrativa emplacada ali
[00:07:16] foi que era uma ofensa às famílias evangélicas. Vários líderes evangélicos tentaram até fazer
[00:07:22] uma trend nas redes sociais. O Silas Malafaia, que é um aliado de primeira ordem do Bolsonaro,
[00:07:28] também começou a fazer fotos das famílias deles, mesmo de inteligência artificial,
[00:07:34] dizendo conservada por Deus. Então essa narrativa emplacou de que era um ataque aos evangélicos,
[00:07:41] e portanto essa questão de intolerância religiosa, só para dar esse contexto de que a história contada
[00:07:49] é muito importante. Essa história contada, pelo visto, emplacou, não é, Maurício?
[00:07:54] Sim, emplacou muito mais do que se era um tema de TRE ou de TSE, ou mesmo da presença dele,
[00:08:00] se ele desfilou, se ele não desfilou. Inclusive, ninguém sabe dizer se ele desfilou ou não,
[00:08:04] ou se a Jânia desfilou ou não. O que marcou foi justamente esse tema, porque as pessoas sentiram,
[00:08:11] pessoas que inclusive votaram Lula, tá? Só pra, a gente não tá falando de gente que não votou,
[00:08:15] a gente tá falando de gente que votou nele e que hoje tá nessa fronteira aí de que o governo
[00:08:20] merece ou não continuar. Por isso que eu acho que esse episódio, o saldo desse episódio foi negativo.
[00:08:26] E quem são esses quatro milhões, assim, mais ou menos? Como é que você, quando vai estudá-los,
[00:08:31] como é que você divide em faixa de renda, religião, região? O que que a gente sabe sobre eles?
[00:08:39] É, eles são, além de ser evangélicos e católicos, mas muito importantes, são pessoas que costumam
[00:08:45] frequentar os cultos, né? Porque tem vários níveis de, principalmente quem se declara católico no
[00:08:51] Brasil, tem vários níveis de participação, de engajamento com o culto, né? E eles são
[00:08:56] o pessoal que costuma frequentar culto. A gente tá falando de gente que dois a cinco salários mínimos,
[00:09:00] né? A gente tá falando de gente que tá muito concentrada nas regiões periféricas metropolitanas
[00:09:07] do sudeste. Então a gente tá falando de, inclusive esse pessoal foi muito importante
[00:09:11] pra vitória do Lula, né? Quando você pega a votação que ele teve na Grande São Paulo,
[00:09:15] na Grande Rio de Janeiro, na Grande BH, ele basicamente construiu 60% da vitória dele
[00:09:19] no segundo turno nesses três locais, graças a esse público. E esse público é o público mais feminino,
[00:09:25] mais empreendedor. São pessoas que geralmente têm duas a três atividades de renda, ou seja,
[00:09:31] eles não têm tempo de se engajar no noticiário político, porque eles têm, inclusive a religião,
[00:09:38] de alguma maneira, traz pra eles um senso de comunidade e um senso de lazer, inclusive,
[00:09:43] porque é uma ocupação fora das atividades que são, principalmente no caso das mulheres,
[00:09:48] eles têm um turno contínuo, né? Então a religião é uma coisa importante ali. Então esse público,
[00:09:54] ele tá, inclusive, quando a gente ouve em grupo focal, o dia que você puder participar, você vai ver,
[00:10:02] eles falam que realmente, por que que votaram no Lula? Porque se sentiram muito decepcionados
[00:10:07] com o Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia. Sabem que a gestão da pandemia, ele
[00:10:10] praticamente largou essas pessoas à própria sorte, né? Mas que esse governo do Lula tá distante
[00:10:19] deles, tá distante tanto na vida deles não melhorou, assim, em termos práticos, né? Principalmente o
[00:10:24] tema que é recorrente é sobre o tema de economia. As pessoas continuam achando que tá tudo muito
[00:10:30] difícil, que a renda não consegue contemplar os gastos básicos, né? E essa questão da religião é uma
[00:10:38] coisa que já distancia, né? Esse governo deles. E esse foi mais um evento de distanciamento aí,
[00:10:45] de… Então, assim, é um público que ele vai ter uma dificuldade, eventualmente, num eventual segundo
[00:10:52] o turno entre o Lula e o Flávio, são duas, são dois nomes que têm rejeição nesse momento, né?
[00:10:57] O Flávio tem chance? Muita, muita chance. Inclusive, porque é importante dizer que pra esse
[00:11:06] público, essas questões concretas, elas vão definir o voto. Então, por exemplo, uma coisa que eu achei
[00:11:11] que vocês debateram bem foi a questão se nessa eleição a questão da democracia vai ser relevante
[00:11:17] ou não. Eu não sei se eu tô muito viazado, porque eu ouço muito esse público, né? Que a gente tenta,
[00:11:23] mas não vai ser… Esse não é o tema. Esse não é o tema. Então, eles vão… Assim como fazendo um
[00:11:30] paralelo, os eleitores americanos votaram, no último época, a expectativa de que ele administrasse o
[00:11:35] governo da vida. Não estavam preocupados se ele tava tentando derrubar o governo, né? Eu acho que a gente
[00:11:41] vai ter o mesmo tipo de processo de pensamento ali. Eles vão olhar pra um, tá condenado por dar um
[00:11:48] golpe de estado, mas o outro já foi preso também, então, assim, na conta deles, quem vai poder dar
[00:11:54] uma chance pra melhorar de vida? Então, esse tema da democracia, ele vai continuar nas bolhas, né?
[00:12:00] O debate de cada lago com seus argumentos. Então, no fim, é sobre a economia de novo, e de novo,
[00:12:07] e de novo, e de novo, e pra sempre, né? A gente sabe que tem muitos outros temas que vão permeando
[00:12:13] as eleições conforme a sociedade se moderniza, se globaliza, enfim, mas no fim, então, vai ser,
[00:12:22] de novo, sobre a economia, o principal fator, o principal tema de preocupação dessas pessoas,
[00:12:28] principalmente esse grupo, que é o grupo definidor da eleição no Brasil esse ano.
[00:12:33] Não, totalmente. E a minha sensação é que, assim, hoje, né, aos dados de hoje, claro que a gente tá
[00:12:39] acompanhando e tem muito tempo ainda pra eleição, a eleição vai ser acirrada se a gente tiver o Flávio
[00:12:46] Bolsonaro no segundo turno com o Lula, porque vai carregar a rejeição que a memória do governo
[00:12:51] Bolsonaro é ruim pra esse público. Se tiver qualquer outro contra esse governo, provavelmente,
[00:12:56] esse grupo vai massivamente votar na oposição, porque esse é um governo mal avaliado pra esse
[00:13:02] grupo, né, e é um grupo que votou no Lula, né, é um grupo que, tipo, a gente não tá olhando gente
[00:13:07] que nunca vota, que tem essa dificuldade, né, que o governo largou com metade do país que de maneira
[00:13:12] nenhuma vai votar, mas esse é um grupo que votou, então, assim, se tivesse uma alternativa de
[00:13:18] oposição no segundo turno, esse grupo massivamente ia votar na oposição, mas como é o Flávio
[00:13:22] Bolsonaro, como eu falei, a memória é muito ruim do governo Bolsonaro, da gestão Bolsonaro,
[00:13:27] mas aí essa coisa do dia a dia do bolso, assim, é recorrente, né, as histórias são recorrentes,
[00:13:37] então isso vai ser decisivo lá na frente, a gente obviamente não sabe como é que vai chegar a
[00:13:42] economia pra esse público, né, lembrando que esse público, ele meio que passa de lado a temas que
[00:13:47] a gente está atrás, por exemplo, tem a questão do imposto de renda, esse pessoal é muito informal,
[00:13:51] né, então, eles operam na informalidade, então, se o imposto de renda vai ajudar os clientes desse
[00:13:58] público, que ele vende, que empresta serviço, é uma questão que tá aberta, eu não sei responder, tem a
[00:14:03] questão dos Jornadas 6x1, isso nem passa na cabeça das pessoas, porque as pessoas já têm uma jornada,
[00:14:08] eu tava até ontem ouvindo num grupo local a seguinte frase, tá, mas o que você acha dos 6x1?
[00:14:13] Eu trabalho 16 horas por dia, assim, 6x1 passa longe da minha realidade, assim, então, eu preciso ficar bem
[00:14:20] atento porque como é que esse grupo vai endereçar esses principais temas de economia, mas eu não tenho
[00:14:25] dúvida, que a economia é o tema central pra decisão de voto presidencial deles.
[00:14:29] E segurança pública?
[00:14:31] Segurança pública, assim, é interessante a segurança pública pra esse público, em primeiro lugar,
[00:14:35] que esse pessoal sempre se sentiu inseguro, então, essas regiões, essas regiões metropolitanas são
[00:14:41] a questão da segurança sempre foi um tema, ou seja, tem uma coisa meio não tem solução, sabe, temos que
[00:14:46] viver assim, mas eles também têm uma associação muito grande com a com a com a gestão estadual,
[00:14:51] né, porque a relação que eles têm com a polícia militar é uma relação ruim, né, é uma relação que
[00:14:56] não se sentem seguros ali com a polícia, enfim, mas eles têm uma associação da polícia a um tema
[00:15:01] de governo de estado.
[00:15:04] E o que que esse público está procurando? Eu sei que vai ser essa, né, mudou, o governo
[00:15:10] conseguiu ajudar minha vida cotidiana, pagar as contas e tal, mas que outras propostas você
[00:15:18] acha que eles estão esperando ouvir?
[00:15:21] Ou é só um referendo do que já passou?
[00:15:24] Não, eu acho que eles estão sendo bem concreto, tá, assim, quando a gente ouve, a gente faz
[00:15:30] exatamente essa pergunta, né, o que que o presidente pode fazer, né?
[00:15:34] Assim, são questões que passam muito pela pela questão da economia, né, e aí é interessante,
[00:15:39] porque nenhum dos lados hoje consegue oferecer uma utopia para esse público, né?
[00:15:44] Vou te qualificar o que eu tô falando. O PT ganhou várias eleições presidenciais com
[00:15:50] uma narrativa muito clara, a gente defende os pobres e o outro lado defende os ricos,
[00:15:55] eu não tô atribuindo valor, tô falando como é que as pessoas assim, a gente tem, e essas
[00:16:00] pessoas elas não se consideram nem pobres nem ricos, eles não acham que precisam de
[00:16:06] assistência de Bolsa Família, então eles acham errado porque eles têm que se matar
[00:16:12] para conseguir renda enquanto alguém do Bolsa Família não faz nada, eles têm essa coisa,
[00:16:17] mas também eles não entram na narrativa da oposição de que da meritocracia ou de
[00:16:22] que o Estado mínimo vai resolver os problemas deles, porque eles precisam da educação
[00:16:26] pública, eles precisam do hospital público, eles são do transporte público, então é
[00:16:30] interessante porque nenhum dos lados consegue dialogar com essa utopia de que basicamente o
[00:16:37] que eles gostariam, um governo que não atrapalha eles é empreender, mas que ajude nos temas de
[00:16:43] educação, de saúde e os dois lados estão distantes, né? Assim, obviamente o discurso do Paulo Guedes
[00:16:48] é totalmente distante desse público para a economia e esse discurso de que a gente vai ajudar
[00:16:55] aos pobres eles também não se qualificam porque são pessoas que moram em regiões
[00:16:58] metropolitanas que a pobreza extrema não está presente, né? Ele está batalhando
[00:17:03] ali para sobreviver, mas ele não se considera pobre, né? Deve ser uma situação horrível
[00:17:08] o que você pensa, um é corrupto, outro é corrupto, vamos ver o que ele faz pro meu
[00:17:12] bem-estar financeiro, mas também não sou rico, também não sou pobre, preciso empreender,
[00:17:17] mas também preciso do serviço público. Passa por aí também o porquê o tema religioso é tão
[00:17:24] importante no sentido de, olha, eu não tenho utopia para nada disso, pelo menos não se meta na
[00:17:29] minha religião e na minha forma de viver? Não, totalmente. Primeiro porque essa religião desses
[00:17:35] locais, ela traz um senso de comunidade, um senso de pertencimento, né? Que é uma coisa muito
[00:17:40] importante para essas pessoas, é uma coisa que inclusive eu aprendi muito, eu não tinha noção
[00:17:46] de como esse senso de pertencimento até empodera as próprias mulheres. Pertencei a um grupo
[00:17:52] religioso ter um senso de empoderamento feminino nessas regiões muito forte, que é uma coisa que eu
[00:17:57] aprendi, eu não tinha essa noção de como era importante. Porque é o único momento de convivência
[00:18:04] e de lazer e de relaxamento, uma coisa assim. Exatamente, de alguma maneira é o lazer.
[00:18:12] Eu tenho vida para além de ser mãe e trabalhadora, né? Então eu pertenço ao mundo de outra forma, além de ser
[00:18:19] mãe e trabalhadora. Isso nas mulheres evangélicas é muito forte, né? Muito forte, muito forte. Inclusive
[00:18:24] eu vi vários depoimentos de que mulheres que não participavam da igreja passaram a participar,
[00:18:29] depoimentos que elas passaram a ter o maior controle da vida delas em função desse convívio, desse
[00:18:36] senso de comunidade. Então, de alguma maneira atacar isso é quase que atacar uma identidade.
[00:18:43] Então, isso é uma dificuldade que a esquerda tem como um todo no Brasil, né? Não é uma coisa dessa
[00:18:52] eleição, não é um desafio muito maior. Mas, por outro lado, elas, e principalmente a gente viu isso em
[00:18:59] 2022, a maneira com que o Bolsonaro fez a gestão da pandemia afastou muito esse público, né? Porque
[00:19:05] viram que eles se sentiram abandonados, né? É recorrente eles falarem que ele abandonou
[00:19:12] na pandemia. E eu já vi muitas falas, a gente sabe que o Lula, como você falou, a gente sabe que o
[00:19:17] Lula não é, a gente sabe que o Lula é corrupto, a gente sabe que ele já foi preso, e a gente resolveu dar uma
[00:19:23] chance porque a situação, a gente tinha abandonado. Isso foi assim, foi recorrente essa essa essa
[00:19:30] fala. E agora a sensação é de que o governo continuou distante, que a vida continua com as mesmas
[00:19:36] dificuldades. E aí, quando tem esse episódio da intolerância, isso, obviamente, aumenta a distância.
[00:19:44] Claro. Eu ia voltar só num ponto que eu achei interessante, Maurício, porque os aliados do Lula
[00:19:50] sempre dizem que eles preferem mesmo Flávio no segundo turno. Então, só para ficar claro aqui
[00:19:56] para os nossos ouvintes, o candidato do Bolsonaro indicado pelo Bolsonaro da cadeia é o Flávio
[00:20:04] mas pode aí ter um candidato de direita que seja um governador, como o governador do Paraná, o
[00:20:10] governador de Minas, existem outras possibilidades também no campo conservador de direita, mas que
[00:20:17] não seja uma pessoa com o sobrenome Bolsonaro. Então, esse segundo turno, Lula versus Flávio
[00:20:23] Bolsonaro, os aliados do Lula acham que seria mais fácil para o Lula, justamente por conta da rejeição
[00:20:31] do sobrenome ao sobrenome Bolsonaro. Agora, se for um outro candidato da direita, um desses
[00:20:38] governadores, por exemplo, o Ratinho Júnior, que vem de um estado aí, o Paraná, que é um estado
[00:20:43] visto como bem cuidado, ele é jovem, enfim, a rejeição ainda não é muito alta, mas ele também
[00:20:50] não é conhecido nacionalmente ainda, mas esse segundo turno, com outro nome da direita que
[00:20:57] não fosse o Flávio, seria mais difícil para o Lula, segundo esses aliados do Lula. Então,
[00:21:02] eles têm essa percepção que, pelo que eu estou entendendo, é isso mesmo que você está vendo nas
[00:21:07] pesquisas. Não, totalmente. Se a gente tirar os nomes, como eu falei, essa é uma eleição de
[00:21:12] oposição, porque a gente tem mais gente que desaprova o governo do que aprova. De uma maneira
[00:21:17] bem simples. Essa é uma eleição de oposição. O problema é quando a gente coloca os nomes,
[00:21:23] obviamente a gente está na nuance do nível de rejeição. O problema do Flávio é que ele vai ter
[00:21:28] que responder durante toda a campanha do governo do pai, claramente. E o que eu falei, esse público
[00:21:34] que vai descer de eleição, ele rejeitou o governo, tanto é que ele votou pro Lula, ele rejeitou o
[00:21:40] governo passado. Então, na verdade, a melhor, numa eleição de oposição, o melhor cenário
[00:21:46] para a situação é ter um candidato de oposição com altíssimo índice de rejeição, porque se a gente
[00:21:51] tiver, eu tenho, assim, a dados de hoje, né, qualquer um que tiver no segundo ano que não tivesse
[00:21:57] o governo Bolsonaro teria muita chance, porque esse público tá, esses quatro milhões, quatro milhões
[00:22:02] e meio de pessoas que a gente está falando de três, quatro pontos percentuais, ele é massivamente
[00:22:06] insatisfeito com o governo. E a gente tem aqueles que não vão votar no PT de jeito nenhum, que é o pessoal
[00:22:12] que já em 2022 não votou e que em nenhum momento aprovou esse governo. É muito diferente dos outros
[00:22:18] governos do PT, né, porque o PT ganhou em 2002, 2006, 2010, nessas três eleições, gente que votou no
[00:22:25] PSTB aprovou o governo. A gente teve gente que votou no Alckmin em 2006 que massivamente avaliava o
[00:22:30] segundo mandato do governo Lula como positivo. Tanto é que ele saiu com 80% de avaliação positiva aqui,
[00:22:36] são números inimagináveis hoje, né. Agora, em 22 para 26 a gente não tem esse fenômeno, a gente tem
[00:22:41] todo mundo que votou contra, continuou contra. Então a gente tá até uma base instalada de rejeição
[00:22:47] e aí esse ganho marginal que ajuda muito o governo se tiver uma pessoa que seja rejeitada por esse
[00:22:55] grupo. E eu acho que a campanha, não sei qual é a estratégia que eles vão usar, mas naturalmente
[00:23:03] acho que eles vão tentar associar o Flávio ao Jair e principalmente ao governo do Jair, né.
[00:23:07] Eu acho que isso é o mais natural. Sim, acho que eu tenho uma talvez última pergunta, a última vez que a gente
[00:23:15] se viu, Maurício, virtualmente, eu te perguntei sobre eleição para o Senado. Eu fico sempre repetindo
[00:23:23] aqui que tem essa primeira grande questão eleitoral que é a presidencial, mas que também, uma vez
[00:23:29] eleito, como a gente tem visto em todos os últimos governos, o presidente fica refém da Câmara e do
[00:23:34] Senado e nos últimos anos o Senado foi um pouco a casa moderada que segurou as propostas mais
[00:23:43] radicais, escalafobéticas, malucas da Câmara. E o que a gente está vendo é que, possivelmente,
[00:23:51] o Senado pode ganhar uma maioria bolsonarista e a gente sabe que o Senado é quem passa impeachment
[00:23:57] de ministro do Supremo, então poderia, com essa nova casa também radicalizada, começar a alterar
[00:24:04] a balança de forças entre os poderes. Mas você me disse que é a eleição mais difícil de prever, né.
[00:24:11] Não, totalmente. O Senado é um negócio complexo. Primeiro lugar, que quando houve uma mudança de 12
[00:24:18] semanas de campanha para 6, isso gerou um problema na cabeça do eleitor porque as pessoas elas se
[00:24:23] engajam muito na presidencial, até porque é uma avalanche de informação de presidencial. Depois
[00:24:28] elas se engajavam na de governador, depois o senador e todo mundo sabe que a eleição de deputado é
[00:24:32] praticamente uma decisão de véspera, né. Só que agora o Senado passou a ser uma decisão de véspera,
[00:24:37] porque agora com seis semanas de campanha as pessoas se engajam muito tarde na eleição de
[00:24:40] governador e na de senador. Então, eu sempre dou esse número, na véspera do primeiro turno de 22,
[00:24:46] sábado à tarde, a gente tinha uma pesquisa no estado de São Paulo e tinha uns 55% das pessoas
[00:24:52] que, espontaneamente, quando a gente perguntava espontaneamente quem você vai votar para senador,
[00:24:55] sem dar nenhuma opção, 55 não sabiam dizer o nome de um candidato na véspera. E aí que aconteceu na
[00:25:02] prática, não só aconteceu em São Paulo, aconteceu no Brasil inteiro. As pessoas voltaram para
[00:25:08] muito correlacionados ao voto para presidente. Então, o cara chegou no dia e falou quem é o
[00:25:12] candidato senador do Lula? Quem é o candidato senador do Bolsonaro? E aí, em estados que o
[00:25:16] Bolsonaro teve mais voto, os candidatos para o senador tiveram mais voto. Então, assim,
[00:25:20] as pessoas estão com isso. É uma eleição de pouco engajamento, baixo engajamento. Para complicar,
[00:25:28] esse ano são duas vagas. E aí, uma coisa que é um outro dado concreto é que tem muito voto branco
[00:25:34] no segundo voto para o Senado. Então, as pessoas não sabem que tem que votar duas vezes. A gente
[00:25:39] cansa de perguntar quantas pessoas, quantos senadores vão eleger em 2026. Acho que só um terço dos
[00:25:44] brasileiros conseguem dizer que vão eleger dois. Então, as pessoas não sabem. E, obviamente, tem uma
[00:25:48] correlação de zonas eleitorais de baixa renda e baixa escolaridade. Ou seja, quanto mais baixo,
[00:25:52] menos você faz os dois votos. E aí que acontece? Quem que mais faz dois votos? Quem tem maior renda
[00:25:58] é a escolaridade. Aí tem uma correlação também com a oposição. Quanto maior renda e escolaridade,
[00:26:03] se reprova esse governo, enfim. Então, essa eleição é uma eleição complexíssima. É uma eleição que
[00:26:10] as pessoas não entendem o sistema de votação. Acho que tem um trabalho a ser feito, acho que da
[00:26:14] sociedade como um todo, de explicar que vai se votar duas vezes. Na maioria dos casos, o eleito,
[00:26:21] geralmente, ele é a segunda opção de todo mundo. Então, o que eu quero dizer com isso? Se você
[00:26:26] tivesse votado em um só, ele dificilmente ficaria entre os dois primeiros. Mas como você tem que
[00:26:32] em dois diferentes, ele passa a ser a segunda opção de todo mundo e acaba ganhando mais voto. A gente
[00:26:36] teve vários exemplos assim. São Paulo, por exemplo, a Mara Gabrilha não era a primeira opção, era a
[00:26:43] segunda opção de todo mundo e ela acabou sendo eleita. Aconteceu isso, a Dilma não foi eleita em
[00:26:47] 2018 em Minas, porque a segunda opção passou na frente dela. Então, tem essa coisa de ficar muito
[00:26:53] atento, porque o segundo voto acaba decidindo eleição. Por isso que, geralmente, uma chapa
[00:27:00] de sucesso nos Estados, ela vai ter que ter dois candidatos com relevância. E aí tem que ser um
[00:27:07] candidato com recall, porque é impossível para o eleitor ser apresentado a um nome novo durante
[00:27:12] seis semanas de campanha ao Senado. Então, é muito interessante que o nível de engajamento é
[00:27:16] baixíssimo, o nível de informação sobre eleição é baixíssimo. E, claro, como você falava, a
[00:27:21] importância do Senado é alta. E eu acredito que esse ano um tema da eleição do Senado vai ser
[00:27:28] um candidato se apresentando como vote em mim que eu vou fazer o impeachment de um ministro do
[00:27:32] Supremo. Eu acredito muito nesse argumento que vai ser usado nessa campanha.
[00:27:36] Uau. Me deu um pouco de medo agora. Quando não estamos com medo, amiga? Quando? Nós e Regina Duarte.
[00:27:47] Só foi boa. Só foi boa. Tá vendo? Uma pessoa valoriza a minha piada.
[00:27:56] Obrigada. Eu sempre valorizo a sua piada. Quer perguntar mais alguma coisa, amiga?
[00:28:01] Não, eu acho que é isso. Acho que foi ótimo, foi esclarecedor a gente conseguir entender o perfil
[00:28:08] desse grupo que vai decidir uma eleição disputadíssima no Brasil. Então, foi muito,
[00:28:14] muito legal mergulhar em quem são essas pessoas, o que elas fazem e em que elas estão interessadas.
[00:28:21] Tá ótimo. Obrigada, Maurício. Parabéns pelo podcast. Muito legal. Obrigada,
[00:28:27] Maurício. Tchau, amigos. Tchau, amigos.