#242 – Além do Princípio do Pudor, com Jurandir Freire Costa
Resumo
Neste episódio do Filosofia Pop, o professor Jurandir Freire Costa discute seu livro ‘Além do Princípio do Pudor’, que parte do centenário da obra ‘Psicologia das Massas e Análise do Eu’ de Freud para analisar fenômenos sociais contemporâneos. Costa explora como Freud desenvolveu diferentes teorias sobre a cultura: desde a noção clássica de cultura como ordem que impede a fratria, passando pela ideia de cultura como resposta ao desamparo humano diante da natureza, da fragilidade do corpo e do sofrimento causado pelos outros, até chegar à análise das massas como formação que resolve o desamparo através da eleição de um líder onipotente.
O diálogo aborda três paixões que levam à minoridade: paixão por si mesmo, paixão por ser instrumento e paixão pela crueldade. Costa diferencia paixão de prazer, definindo paixão como algo monopolizador que encampa todos os movimentos mentais e impede o exercício da racionalidade e do julgamento. Ele argumenta que essas paixões não devem ser patologizadas, mas entendidas como modos de funcionamento psíquico com consequências graves para a normatividade psíquica ideal.
Costa analisa o contexto brasileiro atual, discutindo como o desenraizamento social - a experiência de se sentir sem chão, preterido e humilhado - gera reações de ódio e apoio a projetos autoritários. Ele examina a expansão das escolas militares como exemplo de pensamento regressivo que busca produzir cidadãos obedientes em vez de estimular singularidades. O professor também reflete sobre a religião, criticando a visão freudiana reducionista e defendendo uma compreensão mais plural que reconheça seu papel como fonte de sentido ético.
Finalmente, a conversa aborda a popularização da psicanálise no Brasil contemporâneo, relacionando-a com períodos de crise da esfera pública e com a percepção de que profissões que lidam com relacionamentos humanos permanecerão relevantes. Costa defende que a psicanálise pode e deve incorporar desafios decoloniais, mantendo seus fundamentos teóricos enquanto se abre para novas realidades sociais. O episódio encerra com uma reflexão sobre a natalidade e o amor ao mundo como motes para o recomeço.
Indicações
Books
- Além do Princípio do Pudor — Livro de Jurandir Freire Costa discutido no episódio, com introdução e três ensaios que dialogam com psicologia de massas e análise do eu.
- Psicologia das Massas e Análise do Eu — Obra de Freud de 1921 que serve como ponto de partida para a discussão, analisando como o desamparo leva à formação de massas e à eleição de líderes.
- Ética no Espelho da Cultura — Outro livro de Jurandir Freire Costa mencionado como complementar para entender sua abordagem da ética como reflexo cultural.
- O Soldado Antropofágico — Livro de Thaddeus Abyssalber resenhado por Costa, que mostra o peso psicológico da alienação em contextos coloniais.
- Iluminismo das Sombras — Livro recente de Arnon Miranda sobre neorreacionarismo, mencionado como análise contemporânea relevante.
- Variedades da Experiência Religiosa — Obra de William James referenciada por Costa como abordagem magistral e respeitosa da religiosidade.
Conceitos
- Desenraizamento — Conceito central discutido como experiência de se sentir sem chão, intruso, preterido e humilhado, gerando reações políticas específicas.
- Paixão (vs. Prazer) — Distinção elaborada por Costa: paixão como aspiração à satisfação absoluta que monopoliza a mente, diferente do prazer que tem começo, meio e fim.
Pessoas
- Georges Canguilhem — Historiador da ciência referenciado para definir normatividade como máximo de estabilidade, versatilidade e fecundidade.
- Hannah Arendt — Filósofa citada no encerramento, com sua ideia de que o homem não nasce para morrer mas para recomeçar, e o conceito de amor ao mundo.
- Paulo Freire — Educador mencionado em relação ao conceito de desenraizamento, com discussão sobre como ‘oprimido’ pode ser entendido como ‘desenraizado’.
- Cornel West — Pragmatista profético religioso com importância para América Latina, especialmente vinculado à teologia da libertação.
Linha do Tempo
- 00:02:00 — Introdução ao livro ‘Além do Princípio do Pudor’ e contexto freudiano — Jurandir Freire Costa explica que seu livro foi motivado pelos 100 anos de ‘Psicologia das Massas e Análise do Eu’ de Freud. Ele situa a obra no debate cultural contemporâneo e destaca como Freud desenvolveu diferentes teorias sobre cultura ao longo de sua trajetória, desde ‘Totem e Tabu’ até ‘O Futuro de uma Ilusão’ e ‘O Mal-Estar na Civilização’.
- 00:05:57 — A formação das massas como resposta ao desamparo — Costa detalha a teoria freudiana de que o estado de desamparo tende a ser resolvido quando os sujeitos se unem numa massa, sacrificando sua individualização e elegendo um líder (Führer) como depositário de todos os sonhos de impotência. Diferente das teorias anteriores de Freud sobre cultura, esta análise parte da observação de fenômenos reais na Europa do pós-guerra, onde o desalento e a impotência ganham formato onipotente através da massa.
- 00:08:50 — Escolas militares e produção de obediência na sociedade — O professor critica a expansão das escolas militares no Brasil como produto de um pensamento regressivo que sonha com uma ordem sociocultural baseada no autoritarismo. Ele argumenta que, em vez de estimular individualidades e singularidades para uma sociedade plural e criativa, esse modelo busca produzir cidadãos obedientes e nivelados, com os mesmos gostos e opiniões - o sonho do autoritarismo e totalitarismo.
- 00:12:19 — As três paixões que levam à minoridade — Costa explica os três capítulos de seu livro, nomeados a partir de paixões identificadas na psicologia das massas de Freud: paixão por si mesmo, paixão por ser instrumento e paixão pela crueldade. Ele diferencia paixão de prazer, definindo paixão como aspiração à satisfação absoluta que monopoliza a mente e impede o exercício da racionalidade e do julgamento, levando à desubjetivação.
- 00:16:53 — Normatividade psíquica e critérios de Canguilhem — O professor discute como evita patologizar crenças sociais, preferindo analisar modos de funcionamento psíquico. Ele referencia o historiador da ciência Georges Canguilhem para definir normatividade como o máximo de estabilidade, versatilidade e fecundidade. Em termos psicológicos, isso se traduz como mínimo de sofrimento com máximo de autonomia, onde a autorrealização não prejudica o ideal de justiça da coletividade.
- 00:21:12 — Desenraizamento social e suas consequências políticas — Costa explora o conceito de desenraizamento como experiência de se sentir sem chão, intruso, preterido e humilhado. Ele relaciona isso ao comportamento político retrógrado no Brasil contemporâneo, onde pessoas que se sentem destituídas de valor reagem com raiva e vontade de exterminar quem é porta-voz dessa mudança. O professor menciona como Paulo Freire poderia ser entendido através dessa lente do desenraizamento.
- 00:25:01 — A crise identitária da classe média brasileira — O professor analisa como a classe média brasileira acordou para descobrir que tudo que acreditava representar - normas morais, físicas e comportamentais - foi contestado. Seu tipo físico autodeclarado branco, sua moralidade familiar e seus valores foram desafiados, gerando um sentimento de despojamento que alimenta reações políticas extremas e a busca por um Brasil mítico que nunca existiu.
- 00:31:10 — Religião: crítica à visão freudiana e defesa do pluralismo — Costa apresenta uma visão diferenciada sobre religião, discordando da perspectiva reducionista de Freud. Ele argumenta que a espiritualidade religiosa não é apenas consolação, mas também fonte de sentido ético e experiência do invisível. Referenciando William James e Merleau-Ponty, defende que o impulso para construir um duplo do mundo é universal nas coletividades humanas e deve ser respeitado em sua pluralidade.
- 00:45:53 — Popularização da psicanálise e desafios contemporâneos — O diálogo aborda a explosão de interesse pela psicanálise após a pandemia, incluindo ofertas comerciais questionáveis como cursos com desconto de Black Friday. Costa relaciona esse fenômeno a períodos de crise da esfera pública, onde há retorno sobre si mesmo quando as vias para ação política estão obstruídas. Ele também discute o desafio decolonial na psicanálise e a necessidade de incorporar novas perspectivas sem perder os fundamentos teóricos.
- 00:57:00 — Indicações de leitura e reflexão final sobre natalidade — Jurandir Freire Costa recomenda obras como ‘O Soldado Antropofágico’ de Thaddeus Abyssalber, ‘Iluminismo das Sombras’ de Arnon Miller, produções de Christian Dunker e Vladimir Safat, além de seu próprio livro ‘Ética no Espelho da Cultura’. Ele encerra com uma citação de Hannah Arendt sobre natalidade - que o homem não nasce para morrer, mas para recomeçar - destacando o amor ao mundo como motivação fundamental.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Pop
- Autor: Filosofia Pop
- Categoria: Society & Culture Philosophy Education Arts Books
- Publicado: 2026-03-02T03:20:08Z
- Duração: 01:00:59
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/filosofia-pop/56aa96e0-d74d-0132-0356-059c869cc4eb/242-al%C3%A9m-do-princ%C3%ADpio-do-pudor-com-jurandir-freire-costa/5eb7b7e6-8dc2-4595-b3ad-7f6dfee139f8
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Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Pop
- Tipo: episodic
- Site: https://filosofiapop.com.br/inicial/
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Transcrição
[00:00:00] Tchau, tchau.
[00:00:30] Discutimos a formação das massas, o papel das paixões na política,
[00:00:33] o sentimento de desenraizamento social e os desafios contemporâneos da democracia.
[00:00:38] O Filosofia Pop é um projeto dedicado a pensar a filosofia como parte da cultura.
[00:00:42] A cada 15 dias, sempre às segundas-feiras, publicamos novos episódios.
[00:00:46] O episódio de hoje é uma parceria com o projeto de extensão
[00:00:49] Filosofia, Cultura Popular e Ética, desenvolvido na Universidade Federal de Itaí.
[00:00:53] Vamos então para a nossa conversa com o Joandir Fericosta sobre Além do Princípio do Pudor.
[00:01:00] O Filosofia Pop é um projeto dedicado a pensar a filosofia como parte da cultura.
[00:01:10] Hoje a gente recebe novamente o professor Joandir Fericosta.
[00:01:13] Eu sempre destaco a honra de conversar com ele.
[00:01:16] Já conversei com ele uma vez aqui no podcast sobre amor romântico.
[00:01:20] Hoje a gente vai mostrar nossa conversa ao livro chamado Além do Princípio do Pudor.
[00:01:25] Esse livro tem uma introdução e três ensaios.
[00:01:29] E esses três ensaios, de alguma forma, dialogam com psicologia de massas e análise do eu.
[00:01:35] E dialogam com a ideia de esclarecimento, iluminismo, não sei qual a palavra que a gente pode utilizar.
[00:01:41] Toda vez que a gente vai na espera pública para conversar, de alguma forma a gente vai repetindo Kant.
[00:01:45] Tentando responder o que é, o que seria esse esclarecimento.
[00:01:49] Eu acho que um passo anterior que o senhor faz, que é importante,
[00:01:53] é situar a noção de cultura que o senhor está trabalhando a partir desse livro do Freud.
[00:01:58] Obrigado.
[00:01:59] Obrigado aí pelo convite.
[00:02:00] Com esse livro, eu fui feito tendo como motor, em primeiro lugar, os 100 anos de Psicologia das Massas e Análise do Eu.
[00:02:15] Foi escrito em 1921 e na comunidade analítica é um livro de referência, é um livro importante.
[00:02:25] Em segundo lugar, um pouco a situação.
[00:02:29] No debate cultural no Brasil, no mundo como um todo, mas é a noção de cultura que Freud diz aí,
[00:02:39] como eu destaco, e é um ponto de ruptura, porque até então a noção de cultura de Freud
[00:02:48] era uma noção que eu diria bastante clássica e convencional do Robespierre de Niro.
[00:02:57] É a cultura…
[00:02:59] A cultura é a luta de todos contra todos.
[00:03:01] Ele inventou o mito do tótem e do tabu, da ordem primordial, do assassinato do pai,
[00:03:10] da culpa e da instituição da lei que impedia a fratria de se exterminar.
[00:03:17] Os irmãos se matarem entre eles.
[00:03:20] Então, a primeira cultura.
[00:03:21] Ele tem um terceiro texto de cultura que é feito em duas obras,
[00:03:29] O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar da Civilização, o Mal-Estar da Cultura,
[00:03:34] em que ele acentua outra coisa, acentua a ideia de desamparo,
[00:03:43] a ideia de que nós estamos inevitavelmente entregues a três grandes tipos de sofrimento.
[00:03:51] Ele descrevia como as forças indomáveis da natureza,
[00:03:58] sofrimento…
[00:03:59] Sofrimento vindo da caducidade, da semelhidade, da fragilidade do corpo
[00:04:03] e o sofrimento vindo dos outros.
[00:04:08] E é, dizia ele, o sofrimento mais tenaz e mais difícil,
[00:04:13] porque nós sempre temos a esperança de conseguir driblar, superar esse sofrimento,
[00:04:21] mudando a nós próprios, mudando os outros.
[00:04:23] E ele diz que esse descompasso é inevitável e vai ser.
[00:04:29] Outra forma de sofrimento.
[00:04:30] A cultura seria uma espécie de ponto, uma maneira que a gente teria de preencher
[00:04:39] com uma espécie de suporte, de suplência, que seriam os dados culturais.
[00:04:49] Ele falava em particular da arte, do trabalho também, de maneira geral.
[00:04:57] E é uma forma de você suprir essa lacuna, que é uma lacuna intransponível.
[00:05:05] Que é esse mal-estar que ele chamava, que nós sabemos,
[00:05:09] que somos impotentes para resolver em última instância o sofrimento que vem dos outros,
[00:05:16] a motividade do corpo e as forças da natureza.
[00:05:21] Bem, entre esses dois polos de tese sobre cultura,
[00:05:27] Freud elabora essa tese muito original, que é a de Psicologia das Massas e Análise do Eu.
[00:05:36] Nela, o que é que ele diz?
[00:05:39] Ele diz que esse estado de desamparo, quando existe,
[00:05:45] esse estado de desamparo tende a ser resolvido quando os sujeitos se unem numa massa.
[00:05:57] Eles sacrificam a individualização de cada um
[00:06:02] e elegem um líder, um condutor, um Führer, que é o nome que ele dá,
[00:06:13] como sendo depositário de todos os sonhos da impotência deles.
[00:06:18] Então, aquilo que é impotência é resolvido pela lei, em Totem e Tabu,
[00:06:25] Aquilo que é impotência…
[00:06:27] resolvido com artefato artístico, científico, laboral,
[00:06:32] que a gente queira, em futuro de ilusão,
[00:06:36] mal estar na cultura,
[00:06:37] nesse texto ele é resolvido por essa espécie de criação
[00:06:43] dessa figura que é a figura do líder,
[00:06:46] que encarna a onipotência de todos os nossos desejos.
[00:06:50] São limitados.
[00:06:51] A outra diferença é que,
[00:06:54] tanto na teoria da cultura da horda de Totem e Tabu,
[00:07:00] quanto na teoria da cultura desses últimos textos,
[00:07:04] que acabei de falar,
[00:07:05] em futuro de ilusão, mal estar na cultura,
[00:07:08] são sociedades hipotéticas, são sociedades abstratas.
[00:07:13] A sociedade de psicologia das massas, não.
[00:07:16] Freud estava testemunhando esses fenômenos de massa
[00:07:20] na Europa do Paz-Guerra,
[00:07:22] em particular na Europa Central,
[00:07:24] e também na Áustria.
[00:07:26] E isso também era comum na Itália e na Alemanha.
[00:07:30] Então ele estava descrevendo uma realidade de fato,
[00:07:33] o que torna interessante,
[00:07:35] porque ele vê ao vivo como é o desamparo.
[00:07:40] A ideia de descrença, desalento, impotência
[00:07:44] pode ganhar esse formato onipotente, megalomaníaco,
[00:07:50] que é uma massa indistinta que se vê representada,
[00:07:54] não lida, infalível.
[00:07:58] Então, isso é uma característica, a meu ver,
[00:08:02] da teoria de cultura,
[00:08:04] de psicologia das massas é mais doente.
[00:08:07] Acho interessante que o senhor destaque também
[00:08:10] como essa construção de massa não é uma exceção,
[00:08:14] mas é algo que a cultura produz, por exemplo, na igreja
[00:08:16] e no exército.
[00:08:19] Eu acho isso um ponto muito relevante,
[00:08:21] porque, por exemplo,
[00:08:22] agora se fosse multiplicar
[00:08:24] as escolas militares,
[00:08:26] e o significado dessas escolas militares,
[00:08:30] para quem estuda história da pedagogia mesmo,
[00:08:33] a Grécia era militarizada,
[00:08:35] depois tem que romper com a imagem militar do ideal do eu
[00:08:40] para construir a democracia.
[00:08:43] Quando a gente multiplica escolas militares,
[00:08:46] o que a gente está produzindo em termos de percepção de massa?
[00:08:50] A gente coloca a massa naturalizada.
[00:08:54] Como que o senhor vê essa vontade?
[00:08:59] Eu vejo isso como uma coisa,
[00:09:02] uma decisão extremamente infeliz
[00:09:05] e produto de um pensamento, a meu ver, regressivo,
[00:09:09] que é esse pensamento atual,
[00:09:12] que é um pensamento milista
[00:09:15] que, eu acredito,
[00:09:20] começou a descrever
[00:09:24] todos os valores humanistas,
[00:09:26] neles incluído a democracia representativa,
[00:09:31] e que sonha com uma ordem sociocultural
[00:09:35] baseada no autoritarismo.
[00:09:38] E a característica central do autoritarismo
[00:09:42] é que os sujeitos, os cidadãos da democracia,
[00:09:47] eles sejam todos nivelados
[00:09:50] e tenham todos o mesmo tipo de aspiração e de conduta.
[00:09:54] Em suma,
[00:09:56] em vez de você estimular, como regime democrático,
[00:10:00] as individualidades, as singularidades,
[00:10:04] para ter uma cultura e uma sociedade plurais,
[00:10:08] diversificadas, criativas, inovadoras,
[00:10:12] que prossigam com a tradição humanista do iluminismo,
[00:10:19] em vez de produzir esse cidadão,
[00:10:22] você quer produzir aquilo que o Indicott chama de obediência.
[00:10:28] O cidadão correto é o cidadão obediente.
[00:10:31] Bater continência, fazer ordem unida,
[00:10:34] entrar na posição de sentido,
[00:10:36] sair da posição de sentido,
[00:10:38] ter o mesmo gosto, a mesma opinião,
[00:10:41] é o sonho do autoritarismo e do totalitarismo.
[00:10:46] E uma escola como essa,
[00:10:48] vocês já viram os primeiros exemplos funcionando,
[00:10:52] ela, lastimavelmente, acarreta isso.
[00:10:57] Você não vê?
[00:10:58] Basta comparar os resultados.
[00:11:00] Você já teve mais ou menos um ano de experiência como esse
[00:11:04] e não se pode dizer que o resultado,
[00:11:10] mesmo mais utilitário, didático,
[00:11:13] em matéria de rendimento,
[00:11:15] chegue nem aos pés das escolas leigas que tem por aí.
[00:11:20] Entende?
[00:11:21] Quando são boas e de qualidade,
[00:11:23] produzem, dão chance a que os alunos
[00:11:26] excelenciem e se mostrem
[00:11:30] alunos extremamente criativos
[00:11:33] e que se destacam no panorama
[00:11:37] das ciências ou do saberes narrativos ou das artes.
[00:11:43] Então, eu acho uma ideia infeliz
[00:11:47] e são esses sonhos,
[00:11:49] que eu acho que é grande.
[00:11:51] Então, vamos começar mal.
[00:11:53] Eu acho que o que eu tenho a dizer
[00:11:55] é que eu sei que o que eu quero fazer
[00:11:57] e o que eu quero fazer
[00:11:58] antes de fazer
[00:11:59] é entender todo o que tenho,
[00:12:01] porque eu sei que o que eu quero fazer
[00:12:04] é realmente o que eu quero fazer,
[00:12:06] e assim eu consigo.
[00:12:08] Isso me ajuda muito
[00:12:10] e me ajuda a aprender.
[00:12:12] Eu acho que o que eu gosto,
[00:12:13] eu acho que o que eu faço,
[00:12:15] e é parte das minhas carreiras,
[00:12:16] é que eu preciso fazer tudo aquilo em uma forma
[00:12:17] Parece que esse termo, paixão,
[00:12:19] dá nome aos capítulos.
[00:12:21] Você coloca a paixão por si mesmo,
[00:12:24] a paixão por ser instrumento
[00:12:26] e a paixão pela crueldade.
[00:12:28] Como na paixão está
[00:12:30] a vontade de minoridade.
[00:12:32] É aquilo que te leva
[00:12:33] para a minoridade.
[00:12:36] Seria isso. O anti-iluminismo
[00:12:38] expresso na paixão,
[00:12:40] na forma como isso se interpreta nesse texto.
[00:12:42] É isso.
[00:12:44] É porque eu uso paixão
[00:12:46] dentro do
[00:12:48] vocabulário de Freud.
[00:12:50] Paixão é uma forma daquilo
[00:12:52] que a gente chama de gozo. Gozo é o quê?
[00:12:54] É a aspiração à satisfação
[00:12:56] absoluta que nós
[00:12:58] carregamos com a gente.
[00:13:00] E o espectro do gozo
[00:13:01] tem, digamos, na paixão
[00:13:04] a fronteira mais próxima
[00:13:06] da fantasia de plenitude.
[00:13:09] Pelo contrário,
[00:13:10] o prazer
[00:13:11] da qualquer coisa é do outro aspecto.
[00:13:14] Eu defino de maneira
[00:13:16] simples, porque é para um público leigo,
[00:13:18] eu digo o que é prazer.
[00:13:20] Prazer é tudo aquilo
[00:13:21] que traz um tipo de regozijo,
[00:13:24] um tipo de satisfação,
[00:13:26] não de necessidades,
[00:13:30] mas de algo
[00:13:30] supérfluo, que é de erotismo.
[00:13:32] Prazer é todo tipo de satisfação
[00:13:34] que tem começo, meio e fim.
[00:13:38] A paixão, não.
[00:13:39] A paixão é monopolizadora.
[00:13:42] Ela encampa, digamos,
[00:13:44] todos os seus
[00:13:46] movimentos mentais.
[00:13:48] Ela lhe toma de tal forma
[00:13:50] que o exercício
[00:13:52] de outras capacidades,
[00:13:54] por exemplo, a racionalidade,
[00:13:58] a capacidade
[00:13:59] de julgamento, de servimento,
[00:14:01] de consentimento de dúvida,
[00:14:03] ela se torna impossível.
[00:14:05] E, em geral,
[00:14:06] a paixão é ocupada por um só
[00:14:08] objeto.
[00:14:10] E ocupa o lugar do sujeito.
[00:14:13] Quer dizer,
[00:14:14] há uma desubjetivação da paixão.
[00:14:17] Eu fiz questão
[00:14:18] de matizar a história
[00:14:21] e dizer logo
[00:14:22] que sempre que a gente pensa em paixão,
[00:14:24] pensa em paixão amorosa.
[00:14:26] Mas não é dessa paixão que se torna.
[00:14:29] Essa paixão tem começo,
[00:14:30] meio e fim.
[00:14:32] Quando ela não tem começo,
[00:14:34] meio e fim, ela se torna
[00:14:36] a erotomania ou paranoia.
[00:14:40] Uma paixão que não termine nunca
[00:14:43] termina sempre com trajeto.
[00:14:44] Quando o outro
[00:14:46] não pode dispersar o objeto,
[00:14:48] parece que ele é o oxigênio
[00:14:50] da vida,
[00:14:53] que é o entubamento
[00:14:54] que é dentro de sua respiração
[00:14:56] emocional,
[00:14:58] o que ocorre é trajeto.
[00:15:00] Você destrói o outro.
[00:15:03] Você não pode viver
[00:15:04] sem ele.
[00:15:05] Isso é que eu falo
[00:15:08] como sendo a paixão,
[00:15:10] que é por ser instrumento,
[00:15:12] a paixão por si mesmo,
[00:15:14] e a outra
[00:15:17] é a paixão pela crueldade,
[00:15:21] que são
[00:15:23] uma espécie de
[00:15:24] leve emocional,
[00:15:27] de funcionamento mental
[00:15:29] em que o indivíduo
[00:15:31] se aliena completamente
[00:15:32] daquilo que é
[00:15:35] o seu centro ou equilíbrio.
[00:15:37] Que é saber
[00:15:38] exatamente combinar
[00:15:40] a ação
[00:15:42] com o que é o seu centro ou equilíbrio.
[00:15:44] A cognição e a emoção.
[00:15:46] É só chamar a atenção
[00:15:48] que o senhor pega esses três caminhos
[00:15:49] a partir da análise da psicologia de massas
[00:15:51] e a análise do eu.
[00:15:53] São três caminhos,
[00:15:55] três trilhas abertas pelo Freud
[00:15:57] e elas nomeiam os capítulos
[00:15:59] desse livro.
[00:16:01] Então, é como se fosse
[00:16:03] a transposição
[00:16:05] para o nosso cenário.
[00:16:07] Eu vou dizer assim,
[00:16:10] é o seu medo à liberdade.
[00:16:14] Do Eric Fromm, é perfeito.
[00:16:17] Eu fiz isso
[00:16:18] e eu faço sempre com muito cuidado
[00:16:20] porque eu penso
[00:16:22] que é uma coisa desonesta
[00:16:24] você
[00:16:26] patologizar
[00:16:28] crenças sociais.
[00:16:32] Então, eu em um momento
[00:16:34] chamo isso de patologia,
[00:16:36] eu acho incorreto.
[00:16:39] Eu acho que é um
[00:16:40] modo de funcionamento psíquico
[00:16:42] que tem
[00:16:44] consequências que eu acho
[00:16:46] muito graves para o que a gente
[00:16:48] considera a normatividade
[00:16:50] psíquica, quer dizer, como ideal.
[00:16:53] É uma normatividade
[00:16:55] que estabelece
[00:16:56] o máximo de
[00:16:57] estabilidade,
[00:17:00] versatilidade
[00:17:01] e fecundidade.
[00:17:05] São critérios
[00:17:06] do historiador da ciência
[00:17:08] Canguilhem,
[00:17:09] Jorge Canguilhem,
[00:17:11] em que a gente aplica.
[00:17:14] Traduzido em termos psicológicos,
[00:17:17] a gente
[00:17:17] entende como normatividade
[00:17:19] de maneira muito genérica
[00:17:21] o mínimo de sofrimento
[00:17:24] com o máximo
[00:17:25] de autonomia
[00:17:27] e que essa autorealização não
[00:17:29] complementa a realização do outro.
[00:17:32] Em suma,
[00:17:33] uma aplicação um pouco
[00:17:35] diversificada do princípio
[00:17:37] rostiano, que poderia ser
[00:17:40] um bem comum,
[00:17:41] quer dizer, a autorealização,
[00:17:44] não pode prejudicar
[00:17:45] o ideal de justiça e decência
[00:17:47] da coletividade.
[00:17:49] Então, a gente diria
[00:17:51] o máximo de autonomia
[00:17:53] com o mínimo de sofrimento
[00:17:55] e que não comprometa a mesma
[00:17:57] capacidade, o mesmo exercício
[00:17:59] da mesma capacidade
[00:18:01] no outro.
[00:18:04] Quando você
[00:18:05] analisa
[00:18:08] fenômenos como esse,
[00:18:10] em que, por exemplo,
[00:18:11] não há,
[00:18:14] nem um princípio
[00:18:15] que você possa se colocar de acordo
[00:18:18] para chegar
[00:18:20] à convergência, à divergência,
[00:18:23] porque todo princípio
[00:18:24] é automaticamente
[00:18:26] descartado
[00:18:27] em nome de uma paixão que essa não pode
[00:18:30] ser mudada.
[00:18:33] Então,
[00:18:34] se você diz, bom, não, mas por isso
[00:18:36] eu sou solidário, e eu digo,
[00:18:38] vem cá, você acredita na solidariedade?
[00:18:40] Então, por que
[00:18:42] você,
[00:18:44] defende ou pratica isso?
[00:18:46] Ele vai e troca.
[00:18:48] Não, mas por que eu defendo a liberdade?
[00:18:50] Defende a liberdade?
[00:18:52] Mas se defende a liberdade, por que
[00:18:54] então essa conduta?
[00:18:56] Não, é porque eu defendo
[00:18:58] a igualdade e assim por diante.
[00:19:01] De forma
[00:19:01] que você chega àquele
[00:19:04] impasse que o Freud diz,
[00:19:06] que o
[00:19:08] lobo, ou, aliás,
[00:19:10] o urso e a baleia polar, não tem como
[00:19:12] se entender.
[00:19:14] Isso é parte de jogos de linguagens
[00:19:16] completamente diferentes, de mundos de vida.
[00:19:19] De maneira de perceber
[00:19:21] qual é o valor
[00:19:24] do comportamento
[00:19:26] cooperativo e do comportamento
[00:19:28] competitivo.
[00:19:30] De entender quando esse equilíbrio
[00:19:32] está caminhando
[00:19:34] para a destruição de todos.
[00:19:37] Para a privação
[00:19:38] de todos, da autonomia,
[00:19:40] da similaridade.
[00:19:41] Então, esse tipo de comportamento
[00:19:44] eu evito chamar
[00:19:46] de patológico.
[00:19:48] Eu não quis
[00:19:50] que esse trabalho fosse tomado
[00:19:52] dessa maneira.
[00:19:54] Você tem
[00:19:55] experiências catastróficas
[00:19:58] quando você começa a patologizar
[00:20:00] coisas sociais.
[00:20:02] E que acaba que,
[00:20:04] com o tempo, você tem
[00:20:07] uma imagem desastrosa.
[00:20:08] Foi essa tentativa.
[00:20:10] Dá um exemplo clássico na literatura psiquiátrica,
[00:20:13] psicanalítica,
[00:20:14] brasileira.
[00:20:15] Em 1964,
[00:20:17] um analista de origem austríaca,
[00:20:19] irmão do pintor,
[00:20:20] do escultor, do artista Franz Weissmann,
[00:20:25] o Carl Weissmann,
[00:20:27] ele era analista.
[00:20:28] Em 1964, ele escreveu um livro
[00:20:30] chamado
[00:20:31] Masoquismo e Comunismo.
[00:20:36] Para dizer que todos os adeptos
[00:20:39] da teoria marxista,
[00:20:42] versátil,
[00:20:44] são comunistas,
[00:20:45] eram masoquistas.
[00:20:50] Em absoluto.
[00:20:51] Meu interesse é dizer, olha só
[00:20:52] como as pessoas estão se comportando.
[00:20:54] Freud viu isso aqui,
[00:20:55] viu que é um modo
[00:20:57] de a gente usar os recursos psíquicos
[00:21:00] para enfrentar
[00:21:02] momentos,
[00:21:05] aí sim,
[00:21:07] é uma afirmação minha,
[00:21:08] momentos de isolamento
[00:21:10] e desenraizamento social.
[00:21:12] Essa palavra
[00:21:13] desenraizamento,
[00:21:13] desenraizamento também me chamou
[00:21:15] atenção, porque
[00:21:16] o Paulo Gualdelli,
[00:21:19] ele disse que a melhor tradução para a gente
[00:21:21] entender Paulo Freire na palavra oprimido
[00:21:23] é a palavra desenraizado.
[00:21:26] E eu acho que vocês
[00:21:27] concordariam muito nisso.
[00:21:31] Também.
[00:21:32] Porque…
[00:21:33] É uma experiência
[00:21:38] extremamente difícil.
[00:21:41] É uma experiência
[00:21:43] extremamente difícil.
[00:21:44] Você se achar sem chão,
[00:21:46] se achar intruso,
[00:21:48] sem direito,
[00:21:49] preterido, humilhado,
[00:21:51] desprezado,
[00:21:53] é uma coisa pavorosa.
[00:21:55] Eu sinto o Terry Eagle, por exemplo,
[00:21:57] ele diz que raras vezes
[00:22:00] a gente é tão
[00:22:02] levado,
[00:22:04] digamos,
[00:22:06] a cometer atos de atrocidade,
[00:22:08] a matar,
[00:22:10] raras vezes,
[00:22:13] com
[00:22:13] como quando se trata
[00:22:15] de defender nossa identidade.
[00:22:18] A gente sente isso
[00:22:19] como uma morte na alma.
[00:22:22] E uma das teses
[00:22:23] que eu justamente defendo,
[00:22:26] quer dizer, para mim,
[00:22:27] é que boa parte da população
[00:22:29] brasileira, que hoje em dia
[00:22:31] tem esse comportamento retrógrado,
[00:22:33] que eu não sei como chamá-lo,
[00:22:36] certamente conservador não é,
[00:22:37] não é apenas isso.
[00:22:40] Bom, eu acho que
[00:22:42] o Arnon Miller,
[00:22:43] que a Miranda está falando
[00:22:45] do neorreacionarismo,
[00:22:48] nesse livro dele agora,
[00:22:50] Iluminismo das Sombras,
[00:22:53] um livro recém-lançado.
[00:22:58] Então,
[00:22:59] eu acho que
[00:23:02] eu acho que
[00:23:05] quando as pessoas
[00:23:07] têm essa experiência
[00:23:08] e perceberem que
[00:23:11] aquilo que era completamente
[00:23:13] inútil,
[00:23:13] que era completamente inútil,
[00:23:13] que aquilo que era totalmente familiar
[00:23:14] se torna absolutamente estranho,
[00:23:18] é aquela experiência
[00:23:19] do que Freud chama do infamiliar,
[00:23:21] daí que é tanta estranheza.
[00:23:23] Eles não sabem mais
[00:23:24] em que pista estão andando.
[00:23:27] Você pega, por exemplo,
[00:23:29] a imensa maioria da classe média,
[00:23:31] eu já não falo
[00:23:33] dos privilegiados,
[00:23:36] quer dizer, dos donos do poder,
[00:23:38] porque esse sempre
[00:23:39] tem uma moralidade
[00:23:41] e um nível,
[00:23:43] um nicho geográfico,
[00:23:45] um usufruto de bens e prazeres
[00:23:47] que toda a vida
[00:23:48] foi mundial.
[00:23:51] Nunca houve fronteira para a gente.
[00:23:53] Não é de transito.
[00:23:55] Quem duvida,
[00:23:57] que leia os autores europeus,
[00:23:58] que começaram por isso.
[00:24:00] Nós, colonizados, não,
[00:24:03] porque não temos muita esperança
[00:24:05] de muita experiência.
[00:24:08] Pegue Proust,
[00:24:09] pegue Henry James,
[00:24:11] pegue Fitzgerald, pegue o que você quiser,
[00:24:13] e você vai ver
[00:24:15] o que é a experiência
[00:24:17] desse grupo internacional.
[00:24:20] Eu evito chamar elite,
[00:24:22] porque eu acho que elite,
[00:24:23] correndo a área, são os melhores.
[00:24:24] Eu não acho que essas pessoas são os melhores.
[00:24:28] Elite é um bom maçaneiro,
[00:24:30] um bom pensador,
[00:24:31] um bom químico, uma boa padeira,
[00:24:33] um padre que faz bem
[00:24:35] e entende.
[00:24:37] Então, eu me controlo
[00:24:39] e me cessei,
[00:24:42] mas não uso,
[00:24:43] porque eu sou elite para isso.
[00:24:44] É uma questão de militância.
[00:24:45] As pessoas que não pertencem a esse grupo,
[00:24:50] da plutocracia,
[00:24:51] desse pequeno dono do poder,
[00:24:56] como o Fauron dizia,
[00:24:58] essas pessoas,
[00:24:59] um belo dia, de repente,
[00:25:01] acordaram
[00:25:02] vendo que tudo aquilo
[00:25:05] que elas acreditaram
[00:25:07] que elas representavam,
[00:25:09] ou seja,
[00:25:10] elas eram a norma
[00:25:12] moral,
[00:25:14] a norma física
[00:25:16] e a norma comportamental
[00:25:18] de um país que começou a dizer
[00:25:19] que não é nada disso.
[00:25:22] O seu tipo físico,
[00:25:25] você achava
[00:25:26] que era superior entre aspas,
[00:25:29] que se autodeclarava branco
[00:25:30] e se imaginava colonizador,
[00:25:33] foi contestado.
[00:25:35] A sua moralidade também.
[00:25:38] A família que você diz
[00:25:40] que defendia
[00:25:41] e que, de fato, não mais existe.
[00:25:42] Teve uma tapa na cara,
[00:25:44] mostrou
[00:25:45] que você troca
[00:25:47] com a maneira de viver,
[00:25:50] com a cultura do narcisismo,
[00:25:52] como dizia Leste, destruída.
[00:25:54] Você ensinou a seus filhos
[00:25:56] a não lhe respeitarem.
[00:25:58] Você ensinou a ver
[00:25:59] que ele passa por cima de qualquer um
[00:26:01] contando que ele alcança o poder.
[00:26:04] Você ensinou a ele que só admire
[00:26:06] quem tem riqueza,
[00:26:08] visibilidade.
[00:26:09] Em suma,
[00:26:11] você começou,
[00:26:12] você começou a fazer isso
[00:26:13] e um belo dia você se olhou
[00:26:15] nesse espelho da cultura
[00:26:17] e se viu completamente despojado,
[00:26:21] destituído
[00:26:22] de qualquer valor humano.
[00:26:27] Eu não minimizo isso.
[00:26:30] Eu acho que isso
[00:26:31] é um sentimento de uma potência.
[00:26:35] Isso gera
[00:26:36] uma vontade de exterminar
[00:26:38] quem é porta-voz
[00:26:40] disso gigantesco.
[00:26:42] Gera muita raiva.
[00:26:44] Gera muito ataque.
[00:26:46] Então você começa a aterrorizar,
[00:26:49] a dizer que isso é governo de ninguém,
[00:26:52] a inventar mentiras.
[00:26:53] Você sabe muito bem,
[00:26:55] dá males
[00:26:56] com aquela história
[00:26:58] das crianças em Marajó,
[00:27:01] a história
[00:27:02] e a idade da Kit Gay
[00:27:04] e a história toda
[00:27:07] de racismo e dizer que
[00:27:09] é esse grupo
[00:27:11] que,
[00:27:11] de contestadores,
[00:27:13] de esquerdistas,
[00:27:15] de comunistas,
[00:27:16] de depravados,
[00:27:17] que estão querendo criar racismo no Brasil.
[00:27:20] O Brasil nunca houve,
[00:27:21] sempre foi uma democracia racial.
[00:27:23] E agora esses privilégios todos
[00:27:26] que você dá,
[00:27:27] como cotas,
[00:27:28] emprego,
[00:27:29] tudo isso
[00:27:30] desenraizou essas pessoas.
[00:27:32] Depois eles viram o Brasil,
[00:27:35] está longe daqui,
[00:27:36] o Brasil deles,
[00:27:37] eles querem o Brasil de novo.
[00:27:38] E o Brasil novo deles
[00:27:39] é um Brasil mítico, é um Brasil mítico.
[00:27:40] É um Brasil mítico, é um Brasil mítico, é um Brasil mítico.
[00:27:40] É um Brasil que nunca houve.
[00:27:43] É um Brasil de ordem,
[00:27:45] de supremacia cristã
[00:27:47] e na cabeça deles branca
[00:27:50] e discriminadora.
[00:27:52] E para poucos.
[00:27:53] Não querem perder as babás.
[00:27:56] Não querem ter pessoas que querem trabalhar para eles.
[00:27:59] O Dave Miranda,
[00:28:02] que era um rapaz,
[00:28:03] que era um deputado aqui do Rio,
[00:28:05] que morreu jovem,
[00:28:08] ele dizia uma coisa que para eu ver,
[00:28:10] ele sintetiza isso muito bem,
[00:28:12] que ele era garoto que tinha morrido.
[00:28:17] Num país
[00:28:20] em que muitos
[00:28:22] limpam as privadas de poucos,
[00:28:27] esse é o país
[00:28:30] em que se mata por uma bicicleta ou um celular.
[00:28:35] A gente, a meu ver,
[00:28:41] nós estamos lidando com coisas sérias
[00:28:43] que são essa espécie de nômades simbólicos.
[00:28:47] Não são apenas nômades sociais
[00:28:50] que estão atravessando a precariedade.
[00:28:52] Muitos deles estão mais velhos,
[00:28:54] não tem mais condição de entrar dentro do trabalho,
[00:28:56] não tem mais condição de produtividade.
[00:28:58] Eles se acham obsoletos
[00:29:00] do ponto de vista profissional,
[00:29:02] obsoletos do ponto de vista espiritual,
[00:29:04] obsoletos do ponto de vista cultural, religião, etc.
[00:29:09] Não.
[00:29:10] A reação de ódio quando você vê filmes
[00:29:14] feito do Walter Salles e do Cleber Mendonça,
[00:29:17] é quem diz como aquela cultura ali
[00:29:22] pode ser apreciada.
[00:29:24] E a minha não.
[00:29:26] Como é que estou aí?
[00:29:29] É uma cultura,
[00:29:32] e um dos livros resenhados,
[00:29:35] e que eu gosto muito, muito, muito,
[00:29:38] é o livro do Thaddeus Abyssalber,
[00:29:42] O Soldado Antropofágico.
[00:29:44] É imotável como ele mostra
[00:29:47] o peso psicológico dessa alienação.
[00:29:50] É você desmentir o tempo inteiro,
[00:29:53] o tempo inteiro, o tempo inteiro,
[00:29:54] querer ser igual a alguém
[00:29:56] que está o tempo todo lhe chutando,
[00:29:58] que são os colonizadores,
[00:30:00] que são os brancos.
[00:30:02] Os europeus, os americanos.
[00:30:05] Querendo ser igual,
[00:30:06] querendo se distinguir do resto.
[00:30:08] E ao mesmo tempo,
[00:30:10] que é o resto que lhe dá a única identidade.
[00:30:15] A identidade que ele rejeita
[00:30:17] e que ele ainda tem,
[00:30:18] é a identidade que ele não quer.
[00:30:21] Eles queriam estar em San Germán,
[00:30:23] queriam estar em Belgrade,
[00:30:26] queriam ser, está entendendo?
[00:30:29] Visto como habitantes lá,
[00:30:31] eles têm dois fortes meios de fio,
[00:30:36] assim como o Equador.
[00:30:37] E não são.
[00:30:38] São discriminados,
[00:30:39] vivem indignados quando estão lá.
[00:30:41] E isso é uma coisa que é muito pesada.
[00:30:44] Você está vendo agora essas pessoas
[00:30:47] que estão a favor do presidente americano,
[00:30:50] que acreditam que o presidente americano
[00:30:52] reconhece eles como um dos padres.
[00:30:55] E tendo a amarga experiência
[00:30:57] de serem chutados, presos, deportados, etc.
[00:31:01] Tal é o mundo mágico, vou dizer, a zero.
[00:31:10] Eu acho que tem um tópico,
[00:31:12] que o senhor tem uma visão um pouco diferente
[00:31:15] da maior parte dos psicanalistas,
[00:31:17] que é a questão da religião, da religiosidade.
[00:31:20] A gente falou antes do exército,
[00:31:22] mas não falou da religião.
[00:31:24] Como que o senhor vê a questão da religião nesse contexto?
[00:31:27] Não é um tema que está no foco aqui,
[00:31:29] mas eu acho que faz parte da nossa conversa.
[00:31:31] Olha, eu tenho um problema com essa ideia de religião.
[00:31:39] Como Derrida, quando ele dizia,
[00:31:41] quando a gente fala de religião,
[00:31:43] eu pergunto, o Barthes perguntava sobre outras coisas,
[00:31:48] de que plural é feito.
[00:31:50] Porque, evidentemente,
[00:31:54] quando a gente pensa na religião,
[00:31:56] eu estou familiarizado com a cristianismo,
[00:31:58] a maioria dos brasileiros.
[00:32:01] Mas você vê, por exemplo,
[00:32:04] você tem, do lado do catolicismo,
[00:32:13] uma apreciação.
[00:32:15] Do lado do protestantismo evangélico,
[00:32:19] desse criado por Kenneth Hagin,
[00:32:21] sobretudo na fonte apostal,
[00:32:23] uma outra coisa.
[00:32:25] Isso aí é um fenômeno mais recente,
[00:32:28] do início do século XX.
[00:32:31] Ele estava encarregado com essa cultura
[00:32:35] do retorno ao passado.
[00:32:39] Todas as palavras de ordem dele,
[00:32:41] guerra cultural, domínio, prosperidade,
[00:32:45] são traduções, entre aspas, teológicas,
[00:32:49] porque teologia tem muito pouco,
[00:32:51] são traduções teológicas de injunções culturais,
[00:32:56] dessa injunção que, sobretudo,
[00:32:59] é uma origem anglo-saxônica,
[00:33:01] isso é inglês e americano, basicamente.
[00:33:05] Pois bem, esse, tirando o neopentecostalismo,
[00:33:11] que eu não vou falar,
[00:33:13] mas que eu conheço muito,
[00:33:15] isso é de leitura.
[00:33:17] Eu citei alguns exemplos deles lá no texto,
[00:33:19] mas para mostrar que tem algo de excessivo,
[00:33:23] de desmedido nisso.
[00:33:25] Pois bem, mas no catolicismo, por exemplo,
[00:33:27] eu acho que, quando Freud fala,
[00:33:31] ele tem em mente uma religiosidade muito específica.
[00:33:34] A igreja que ele fala
[00:33:36] é o catolicismo da Europa Central.
[00:33:39] É um catolicismo, tradicionalmente,
[00:33:43] se você quiser, hiperconservador,
[00:33:48] e cujo clericalismo,
[00:33:51] cuja hierarquia sacerdotal
[00:33:54] é muito parecida com a hierarquia do exército.
[00:33:57] Ainda hoje, a igreja católica,
[00:34:02] no lado clerical,
[00:34:04] ela ainda é uma ordem em que a obediência,
[00:34:09] a disciplina,
[00:34:11] é um dos critérios fundamentais.
[00:34:14] Essa organização clerical da religião,
[00:34:18] Freud tomava como exemplo
[00:34:21] e imbrigadamente nas massas.
[00:34:24] Quanto à religião comunista,
[00:34:26] quanto à religião como um todo,
[00:34:28] por exemplo, o futuro de uma ilusão,
[00:34:30] o mal-estar na cultura,
[00:34:31] e mesmo os animos no terreiro,
[00:34:33] aí eu já tenho minha série de discordância.
[00:34:37] Eu acho que Freud,
[00:34:38] como todo pensador do século XIX,
[00:34:40] e muitos do século XX,
[00:34:43] eles têm uma ideia de religião
[00:34:46] que eu acho que não poderia ser diferente.
[00:34:48] Todos eles tematizaram
[00:34:50] que a religião era a cara do antigo regime.
[00:34:53] Era o trono e o altar.
[00:34:55] Quer dizer, todo pensamento iluminista,
[00:34:59] em particular do século XIX,
[00:35:01] romântico também,
[00:35:03] estudou a religião,
[00:35:05] que era a forma por excelência que eles tinham
[00:35:08] da alienação e da racionalidade.
[00:35:10] Então foi Nietzsche, foi Feuerbach,
[00:35:13] foi Marx, foi Freud, foi Weber.
[00:35:17] Você pega uma grande inteligência
[00:35:20] do século XIX, século XX,
[00:35:22] ele vai criticar aquilo
[00:35:24] que foi, se você quiser,
[00:35:27] a guarda suíça do absolutismo
[00:35:30] e da monarquia mais retrógrada da Europa.
[00:35:35] Freud, quando fala de religiosidade,
[00:35:39] ou ele fala desse clericalismo,
[00:35:42] dessa ordem clerical,
[00:35:44] ele compara a ordem do exército,
[00:35:47] eu acho um pouco diferente,
[00:35:49] até aí eu acho que a analogia serve,
[00:35:53] mas quando ele fala
[00:35:56] do papel da espiritualidade religiosa,
[00:36:00] aí eu não concordo.
[00:36:02] Porque ele se limita
[00:36:05] a dizer que aquilo
[00:36:07] não é cientificamente provável
[00:36:09] e que a espiritualidade
[00:36:11] tem apenas efeito de consolação.
[00:36:15] Que não seja cientificamente provável
[00:36:18] não é só a religião.
[00:36:21] A crença na ciência
[00:36:23] não é cientificamente provável.
[00:36:25] Entende?
[00:36:27] Todos os postulados que você faz
[00:36:29] a respeito do que é científico
[00:36:31] partem do princípio
[00:36:33] de que um dia
[00:36:35] a prova da experiência,
[00:36:38] os critérios de prova científica
[00:36:41] vão resolver.
[00:36:44] Você vê toda a querela
[00:36:46] da falsificação,
[00:36:48] da verificabilidade,
[00:36:50] do paradigma,
[00:36:52] tudo aquilo que tomou
[00:36:54] o universo acadêmico dos anos 70,
[00:36:57] com Popper, com Lácatos,
[00:36:59] com Thomas Comte,
[00:37:01] com Feyerabend, etc.
[00:37:03] Tudo aquilo é para dizer
[00:37:05] que no fim não tem isso.
[00:37:07] Você tem um ponto cego ali
[00:37:09] onde você aposta.
[00:37:11] Bom, isso eu acho que
[00:37:13] é o primeiro critério dele.
[00:37:15] O segundo.
[00:37:16] Não é só consolação.
[00:37:18] Isso também.
[00:37:19] Sem dúvida.
[00:37:21] Não é só consolação,
[00:37:23] mas é sentido da vida.
[00:37:26] É ética.
[00:37:28] O procedimento.
[00:37:30] E depois tem o critério
[00:37:32] da invisibilidade.
[00:37:34] Espera aí.
[00:37:36] Esse critério
[00:37:39] da invisibilidade
[00:37:41] é qualquer coisa que você precisa
[00:37:43] aprofundar mais.
[00:37:44] Quando você lê a Fenomenologia
[00:37:47] de Merleau-Ponty, por exemplo,
[00:37:49] traduz o Bergson,
[00:37:51] vai dizer
[00:37:53] que essa dimensão do invisível
[00:37:55] está sempre presente no visível.
[00:37:57] É o tipo de livro dele, eu acho.
[00:37:59] Belíssimo livro.
[00:38:01] Que a gente não consegue perceber
[00:38:03] sem que de imediato
[00:38:05] a gente acrescenta ao perceptível
[00:38:07] algo que não está ali.
[00:38:11] Que a gente imagina, fantasia, etc.
[00:38:13] Freud devia saber isso.
[00:38:15] Mas ele foi levado
[00:38:17] nisso aí.
[00:38:18] Eu acho um dos pontos fracos.
[00:38:20] Primeira coisa.
[00:38:21] Segunda coisa.
[00:38:23] O Iving Hallowell,
[00:38:25] que é um ótimo psicólogo, eu acho,
[00:38:27] psicólogo,
[00:38:29] ele diz uma coisa que é uma coisa
[00:38:31] que a meu ver é muito eloquente.
[00:38:34] Ele diz que desde que a gente tem
[00:38:36] registro histórico
[00:38:38] de aglomerações humanas,
[00:38:40] nunca a gente encontrou
[00:38:42] histórico ou etnológico,
[00:38:44] não precisa ser escrito,
[00:38:46] nunca a gente encontrou
[00:38:49] uma coletividade
[00:38:51] que tenha se contentado
[00:38:53] em viver
[00:38:55] ao resto dos filmes.
[00:38:57] Que tenha se contentado
[00:38:59] em viver num só plano
[00:39:01] da existência.
[00:39:03] Todas as coletividades
[00:39:05] que a gente conhece, elas criam
[00:39:07] um segundo plano invisível,
[00:39:09] transcendente,
[00:39:11] cujos critérios
[00:39:13] para acreditar ou não,
[00:39:15] não são os mesmos critérios
[00:39:17] que você tem para acreditar
[00:39:19] em verdade sobre o mundo empírico.
[00:39:21] Isso é a generalidade.
[00:39:24] Então, esse impulso
[00:39:26] para você construir
[00:39:28] um duplo do mundo,
[00:39:30] qualquer que seja o valor
[00:39:32] que você dê,
[00:39:34] e que seja qualquer coisa
[00:39:36] que suplemente,
[00:39:38] que seja uma suplência,
[00:39:40] a imanência da materialidade
[00:39:42] ou da funcionalidade
[00:39:44] isso tem que ser respeitado.
[00:39:46] Isso eu acho que
[00:39:48] num analista como o Winnicott,
[00:39:50] ele é mais,
[00:39:52] a meu ver, astuto.
[00:39:54] Ele percebe
[00:39:56] o valor estruturante disso.
[00:39:58] Se você acreditar
[00:40:00] em vida após a morte,
[00:40:02] entende julgamentos,
[00:40:04] é outra história.
[00:40:06] Agora, a crença na espiritualidade
[00:40:08] em algo que ultrapassa
[00:40:10] isso aqui,
[00:40:12] eu não acho que é sólido.
[00:40:14] Sobre a crença no polícia,
[00:40:16] ou como ele achava, melhor dito.
[00:40:18] Freud respeitava.
[00:40:20] Para ele, ele tinha um termo.
[00:40:22] O termo para isso
[00:40:24] era ilusão.
[00:40:26] Não era alucinação,
[00:40:28] não era percepção,
[00:40:30] não era nada inconsciente,
[00:40:32] era a interpretação ilusória
[00:40:34] do mundo.
[00:40:36] Só que essa interpretação
[00:40:38] ilusória,
[00:40:40] ela, se a gente
[00:40:43] leva a sério
[00:40:44] os pesquisadores de cultura
[00:40:46] ela é ilusória
[00:40:49] e compulsória
[00:40:50] então, alguma função
[00:40:52] estruturante ela deve ter
[00:40:54] é o que o Inigo diz
[00:40:56] não, isso é uma zona de repouso
[00:40:58] é alguma coisa
[00:41:00] você pode usar isso
[00:41:01] de várias maneiras
[00:41:03] mas isso é uma função psíquica
[00:41:06] isso é qualquer coisa
[00:41:08] que você não pode dispensar
[00:41:09] você pode fazer um esforço para dispensá-la
[00:41:13] como eu posso
[00:41:16] fazer um esforço
[00:41:18] para na vida cultural
[00:41:20] eu não exercitar
[00:41:23] toda a demanda
[00:41:24] do meu narcisismo
[00:41:26] egoísta
[00:41:27] e me coloco em primeiro lugar
[00:41:30] mas é espontâneo
[00:41:32] na gente
[00:41:34] é espontâneo que a gente queira se apropriar
[00:41:37] dominar, controlar
[00:41:39] afastar aquilo que frustra
[00:41:41] entende?
[00:41:44] até certo ponto evitar
[00:41:45] concorrência
[00:41:48] naquilo que a gente acredita
[00:41:50] potencialmente que nos dá prazer
[00:41:51] eu posso ter a cese
[00:41:54] e dispensar isso
[00:41:55] ou limitar isso ao mínimo
[00:41:57] mas eu não posso considerar isso
[00:41:59] como sendo qualquer coisa
[00:42:01] que é evitável
[00:42:04] então, em relação
[00:42:05] à religião
[00:42:06] eu acho isso, como você vê
[00:42:09] é uma visão um pouco discriminada
[00:42:11] eu diria derrideana
[00:42:13] quer dizer, eu vou declinando
[00:42:15] o que é
[00:42:17] o invocado do feito religião
[00:42:19] em que jogo de linguagem
[00:42:21] ele entra pra ver qual é o sentido
[00:42:24] e no sentido
[00:42:25] tá entendendo?
[00:42:27] o sentido último
[00:42:28] que eu acho, é o sentido que eu acho
[00:42:31] respeitável
[00:42:32] eu sou gemesiano
[00:42:35] absolutamente nisso
[00:42:37] pra mim
[00:42:38] o meu mentor é o William James
[00:42:40] com o livro dele célebre
[00:42:45] Variedades
[00:42:48] da experiência religiosa
[00:42:51] eu acho absolutamente magistral
[00:42:53] e que ele em última instância
[00:42:55] diz, olha
[00:42:56] é o risco de cada um
[00:42:58] não tem como
[00:43:00] você dizer que pode ou não pode
[00:43:03] só não vai diminuir a importância
[00:43:05] de uma crença que é única
[00:43:08] que é vital
[00:43:09] e que é absolutamente
[00:43:10] relevante
[00:43:13] pra universidade da pessoa que crê
[00:43:15] então, minha
[00:43:18] opinião sobre religião é essa
[00:43:20] eu acho muito importante
[00:43:23] falar disso porque
[00:43:24] o senhor tem um livro
[00:43:25] que marca
[00:43:28] eu acho um marco cultural
[00:43:30] que é a ética e o espelho da cultura
[00:43:33] não tem esse título por acaso
[00:43:35] mas ele aponta pra uma direção
[00:43:36] muito interessante
[00:43:37] que é ver a ética
[00:43:39] como espelho da cultura
[00:43:40] se a religião tem importância central
[00:43:43] na nossa cultura
[00:43:43] temos que pensá-la
[00:43:45] o Eduardo Mendieta
[00:43:48] que morreu há pouco tempo
[00:43:49] faleceu há pouco tempo
[00:43:50] ele foi um dos primeiros
[00:43:52] presidentes da sociedade Richard Hort
[00:43:54] acho que foi o primeiro presidente
[00:43:56] ele tem um texto
[00:43:57] sociedade Richard Hort
[00:44:00] Richard Hort
[00:44:02] ele foi o primeiro presidente
[00:44:05] ele é
[00:44:05] foi
[00:44:06] ele é colombiano
[00:44:07] e ele fez um texto
[00:44:09] sobre o Cornel West
[00:44:11] ele falou da importância do Cornel West
[00:44:14] pra América Latina
[00:44:15] na medida que o Cornel West
[00:44:18] é um pragmatista
[00:44:19] profético, religioso
[00:44:21] alguém com formação religiosa
[00:44:22] ele tem muita importância pra América Latina
[00:44:26] justamente pelo lugar que a religião
[00:44:28] ocupa na América Latina
[00:44:30] e a gente não
[00:44:32] o Cornel West
[00:44:33] ele serve no Brasil
[00:44:34] vinculado à teologia da religião
[00:44:37] da libertação
[00:44:38] e a gente não fez esse diálogo
[00:44:41] mas a gente pode pensar no próprio Hort
[00:44:43] o avô do Hort
[00:44:44] era o Walter Hachenbusch
[00:44:45] o criador do evangelho social
[00:44:48] e aí o
[00:44:50] o Cornel West fala assim
[00:44:52] eu sou herdeiro do Hort
[00:44:53] dessa parte da família
[00:44:55] lá atrás
[00:44:57] eu acho isso interessante
[00:45:01] porque o evangelho social
[00:45:03] é a ideia de que
[00:45:04] em última instância a gente luta pra transformar a sociedade
[00:45:07] nossa tentativa de justiça social
[00:45:11] e aí você pode herdar isso
[00:45:13] como religiosidade, como sentido
[00:45:15] é muito importante
[00:45:16] mas eu acho que tem uma pergunta
[00:45:18] que é importante também
[00:45:21] pra gente fechar nosso diálogo
[00:45:23] aqui dentro de mais ou menos de uma hora
[00:45:25] depois eu vou pedir indicações de texto
[00:45:28] se eu puder
[00:45:28] mas eu acho que é interessante pensar nessa questão
[00:45:32] que está acontecendo na psicanálise
[00:45:33] do Brasil hoje
[00:45:34] de um questionamento da própria psicanálise
[00:45:37] como algo
[00:45:39] de condomínio
[00:45:40] como popularizar a psicanálise
[00:45:44] sem que ela perca
[00:45:45] o seu sentido
[00:45:47] como não tornar ela
[00:45:50] algo de massa
[00:45:51] eu acho que isso está em questão
[00:45:53] é sempre uma questão como não transformar a psicanálise
[00:45:55] numa religião no sentido
[00:45:57] que o Freud pensava como ilusão
[00:46:00] ilusão de massa
[00:46:02] como não pensar nela
[00:46:05] como um fator que aliena
[00:46:06] ainda mais a gente
[00:46:07] os indivíduos da condição deles
[00:46:09] eu acho que está havendo
[00:46:11] uma explosão disso
[00:46:12] em particular depois da pandemia
[00:46:14] absolutamente surpreendente
[00:46:17] você vê o tempo inteiro
[00:46:20] propaganda
[00:46:21] pessoas oferecendo cursos
[00:46:23] de dois anos
[00:46:25] eu vi
[00:46:26] um outro dia
[00:46:29] uma exacerbação disso
[00:46:32] com um rapaz
[00:46:33] com o nome eu não guardei
[00:46:35] acho que é um colega psicólogo
[00:46:37] fazendo propaganda
[00:46:39] de um curso de dois anos de psicanálise
[00:46:41] e era em novembro mais ou menos
[00:46:43] e ele dizia
[00:46:46] bom, mas como em novembro agora é o Black Friday
[00:46:48] eu estou fazendo
[00:46:50] uma promoção
[00:46:52] vocês têm um abatimento
[00:46:54] Black Friday
[00:46:55] nesse curso
[00:46:58] de maneira que
[00:46:59] vocês vão pagar muito mais barato
[00:47:01] e vão ter direito à integralidade
[00:47:03] do curso que dá
[00:47:04] em dois anos
[00:47:05] isso
[00:47:07] , eu acho
[00:47:08] que é um lado espetaculoso
[00:47:10] é o lado rede social
[00:47:12] é o lado irrealização
[00:47:15] se você quiser
[00:47:18] do desejo
[00:47:20] e você fazer
[00:47:21] efetivamente o desejo
[00:47:24] ser alguma coisa
[00:47:25] que é de uma concretude
[00:47:27] que circula nesse mundo virtual
[00:47:29] e parece que ele tem vida mesmo
[00:47:31] nessa própria circulação
[00:47:34] não deixa de ser
[00:47:35] um tipo de vida
[00:47:36] um tipo de vida
[00:47:36] um tipo de vida
[00:47:37] um tipo de vida
[00:47:37] de existência
[00:47:38] você acredita que fez formação
[00:47:41] porque outro vai dizer que foi
[00:47:43] etc
[00:47:43] algumas dessas pessoas
[00:47:47] tem uma quantidade enorme de seguidores
[00:47:51] eu não sei em que medida
[00:47:53] alguns deles se dizem profissionais
[00:47:56] eu acho
[00:47:57] que esse sucesso
[00:47:59] da psicanálise
[00:48:00] também não é à toa
[00:48:03] em primeiro lugar
[00:48:04] é à toa porque
[00:48:07] eu acho que a ênfase
[00:48:09] no subjetivismo
[00:48:10] ela sempre
[00:48:12] ela sempre ocorre
[00:48:14] em períodos de crise
[00:48:16] da esfera pública
[00:48:17] no Brasil isso ocorreu
[00:48:20] durante a ditadura
[00:48:22] e um sociólogo muito importante
[00:48:24] o Luciano Marquinhos
[00:48:25] escreveu um texto notável
[00:48:28] chamado A Geração Aí Sim
[00:48:30] onde esse retorno
[00:48:33] sobre si
[00:48:34] quando as vias
[00:48:36] para a ação
[00:48:37] para o amor ao mundo
[00:48:38] como diz Hannah Arendt
[00:48:40] estão obstruídos
[00:48:41] esse retorno sobre si
[00:48:44] acaba respingando
[00:48:46] em qualquer teoria
[00:48:48] da subjetividade
[00:48:49] e psicanálise tem o benefício de ser uma clínica
[00:48:52] você tem a vantagem
[00:48:54] não o benefício
[00:48:55] então acho que isso por um lado é isso
[00:48:58] por outro lado
[00:49:00] é também uma maneira
[00:49:02] das pessoas entenderem
[00:49:05] que o que
[00:49:07] acontece na prevaricação
[00:49:09] no desaparecimento de postos de trabalho
[00:49:12] algumas coisas vão permanecer
[00:49:15] e isso é dito
[00:49:17] pela maioria dos coach
[00:49:18] que são profetas desse novo mundo
[00:49:21] né o discípulo né
[00:49:23] ele disse que certas profissões
[00:49:26] essas vão permanecer
[00:49:28] porque os artefatos
[00:49:31] digitais ou mesmo inteligências artificiais
[00:49:35] não vamos saber qual é a sua fonte de energia
[00:49:36] de saber como manejar.
[00:49:38] São profissões
[00:49:40] que lidam com relacionamento,
[00:49:43] que lidam com fronteiras
[00:49:44] pouco claras da emoção
[00:49:46] ou do corpo.
[00:49:48] Então, treinio
[00:49:50] de educação física,
[00:49:53] professores
[00:49:55] de fitness,
[00:49:57] de esporte, de ginástica,
[00:49:59] de vida,
[00:50:00] e aconselhadores, coaches,
[00:50:03] ou analistas,
[00:50:05] ou qualquer outro
[00:50:06] tipo de terapia,
[00:50:08] tem um terreno ainda de expansão grande.
[00:50:11] Isso acabou chamando
[00:50:12] a atenção. Isso é uma coisa.
[00:50:15] Então, a esse
[00:50:17] fenômeno de sucesso da psicanálise,
[00:50:21] somou isso
[00:50:22] que você está dizendo,
[00:50:25] que é uma coisa muito importante,
[00:50:27] que é o desafio do pensamento
[00:50:29] decolonial em psicanálise.
[00:50:32] Que se estende
[00:50:34] não apenas para identidades
[00:50:37] antes excluídas
[00:50:39] do processo
[00:50:41] de produção e reprodução
[00:50:44] analítica, ou seja,
[00:50:45] nem analista, nem analisante,
[00:50:48] era uma fila de classe
[00:50:49] e voltada
[00:50:51] para os autodeclarados brancos
[00:50:53] que poderiam ter existido.
[00:50:56] A síndrome de Jarvis,
[00:50:58] como dizia o Robert Castelo,
[00:51:00] jovem, atraente,
[00:51:02] rico, importante, etc.
[00:51:04] Como ele dizia, não estou irônico,
[00:51:07] então, agora, você teve
[00:51:09] um grande abalo.
[00:51:12] E está havendo ainda,
[00:51:13] está entrando dentro da sociedade.
[00:51:15] Psicanálise é essa só?
[00:51:17] É a figura icônica?
[00:51:19] Não é só o analista privado
[00:51:21] num consultório privado com paciente primário?
[00:51:23] Isso aí é Decalco de Viena,
[00:51:26] isso aí
[00:51:27] é o Marra de Casa,
[00:51:29] é patriarcalismo branco, etc.
[00:51:31] Não deixa de ter razão.
[00:51:34] E eu acho que,
[00:51:34] não é a primeira vez que a psicanálise
[00:51:36] passa por isso.
[00:51:38] Quando a Elisabeth Danto, agora,
[00:51:40] há dois ou três anos, publicou um livro
[00:51:42] que foi escandaloso, que são
[00:51:43] a ideia das clínicas públicas de psicanálise,
[00:51:47] ela mostrou como havia
[00:51:48] toda essa atuação social
[00:51:50] que acabou com o nazismo.
[00:51:54] E esse exercício, que era feito
[00:51:56] sobretudo na Hungria,
[00:52:00] com analistas
[00:52:01] como Reich, Ferenczi,
[00:52:03] Otto Fench,
[00:52:04] tudo isso foi quase ocasionando
[00:52:08] cisão dentro da sociedade de psicanálise.
[00:52:11] E que quem terminou com a experiência
[00:52:14] foi o nazismo.
[00:52:16] E quando a psicanálise
[00:52:17] foi para a Inglaterra,
[00:52:20] e o Freud foi para lá,
[00:52:21] basicamente,
[00:52:23] na Inglaterra, sobretudo,
[00:52:26] a condição do
[00:52:27] Ernest Jones, que foi uma das pessoas que são
[00:52:29] orgulhosos de Freud,
[00:52:30] foi que esse lado da psicanálise
[00:52:32] fosse absolutamente excluído.
[00:52:34] Na verdade, a psicanálise
[00:52:37] já tinha sofrido isso,
[00:52:39] essa balança, essa mutação.
[00:52:41] A primeira mudança foi o desafio
[00:52:43] de Jung,
[00:52:45] a do Adler, que era socialista,
[00:52:47] ou a do Otto Rank.
[00:52:50] E, de fato,
[00:52:51] conservou-se uma certa ortodoxia,
[00:52:55] uma certa margem,
[00:52:57] e que agora é mais um desses passos
[00:52:59] a serem superados.
[00:53:03] Nesse sentido,
[00:53:04] é muito mais perigoso.
[00:53:05] Olha, se Freud não tem condição
[00:53:08] de aceitar um desafio desse,
[00:53:10] então, bom,
[00:53:12] a tarefa dele já foi cumprida.
[00:53:13] Da lua é a outra.
[00:53:15] Eu acredito,
[00:53:17] do jeito que eu acredito,
[00:53:19] eu sou realmente um leitor
[00:53:21] de Freud convicto,
[00:53:23] porque eu acho que é uma obra que vale a pena,
[00:53:25] de uma riqueza imensa.
[00:53:27] Imagino, sei lá, que algumas pessoas
[00:53:29] fazem isso com Nietzsche, com Kant,
[00:53:31] com Marx.
[00:53:33] Mas, para mim,
[00:53:34] é importante, porque tem dimensão clínica.
[00:53:37] Eu acho que ele suporta esse abalo.
[00:53:41] Eu vejo no equipamento teórico
[00:53:44] e na possibilidade clínica de Freud
[00:53:47] o modo da gente, digamos,
[00:53:50] imaginar como, por exemplo,
[00:53:53] você criticar a branquitude,
[00:53:56] como fazer intervir temas
[00:53:59] como traumatismo racial,
[00:54:01] eu acredito,
[00:54:02] tem que mudar,
[00:54:03] da mesma maneira,
[00:54:04] a psicanálise de rua,
[00:54:06] de ocasião, de praça,
[00:54:08] como a gente está vendo surgir no Brasil inteiro.
[00:54:11] Eu conheço bem
[00:54:12] a de Recife, porque eu sou pernambucano,
[00:54:15] alguns do Rio,
[00:54:16] em São Paulo, porque também está próximo
[00:54:18] do pessoal, mas imagina
[00:54:20] que isso tem em outros centros.
[00:54:23] Eu acho
[00:54:24] que isso
[00:54:26] cabe.
[00:54:29] Eu acho que a teoria
[00:54:30] é suficientemente rica
[00:54:33] para poder entender,
[00:54:34] e não incorporar esses dados.
[00:54:36] Porque tem certas coisas,
[00:54:38] certos referentes,
[00:54:40] que persistem.
[00:54:42] A divisão do sujeito,
[00:54:45] a dependência do outro,
[00:54:46] a formação da subjetividade,
[00:54:49] o circuito corporal linguístico
[00:54:50] como determinante da fantasia de cada um.
[00:54:54] A expressão que pode ser um sintoma,
[00:54:57] uma sublimação.
[00:54:58] Esses elementos eu mantenho
[00:55:00] como sendo minhas coordenadas,
[00:55:03] minha bússola,
[00:55:04] leste a leste. Agora, aqui no
[00:55:06] meio, está entendendo?
[00:55:10] Cada um vai para cá, para lá, sobe,
[00:55:12] desce, e o meu
[00:55:14] conselho é o do
[00:55:16] Paulinho da Viola. Quem é leste não sabe.
[00:55:23] Eu fiz a entrevista com
[00:55:25] o Christian Dunker sobre
[00:55:27] Lacan, e aí eu estava
[00:55:30] com as perguntas escritas.
[00:55:32] Meu amigo estava lendo as perguntas
[00:55:34] e o Christian, não, vamos provocar, vamos fazer
[00:55:36] filosofia aqui, vamos
[00:55:37] pensar, vamos pensar. Eu falei, tá bom,
[00:55:40] tá bom. Professor, o que
[00:55:42] você acha da
[00:55:44] avaliação do
[00:55:45] Lacan, essa busca dele por ser
[00:55:47] reconhecido como científico, como um
[00:55:49] sintoma? Essa busca dele
[00:55:52] de colocar as coisas em forma,
[00:55:54] isso seria um sintoma? O que
[00:55:55] você acha dessa avaliação do Jurandir
[00:55:57] Friedkoster?
[00:55:58] Ele respondeu,
[00:56:02] mas esses
[00:56:03] inquéritos,
[00:56:04] quantas é que dão densidade, né?
[00:56:06] A gente debate, a gente vai para o espaço
[00:56:08] público, a gente provoca e faz
[00:56:10] o diálogo acontecer.
[00:56:12] Então, o Paulinho da Viola diz,
[00:56:14] olha, no samba
[00:56:16] dele é argumento, tem uma hora que ele diz, olha,
[00:56:19] tá legal, eu aceito
[00:56:20] o argumento, carará, papapá, ele vai
[00:56:22] levando, depois ele diz, olha,
[00:56:24] faça feito velho marinheiro, durante
[00:56:26] o nervoeiro, toca o barco devagar.
[00:56:30] Eu acho que a gente
[00:56:32] está vivendo uma época de nervoeiro,
[00:56:34] como velho marinheiro,
[00:56:36] o que eu faço é tocar o barco devagar, eu escuto,
[00:56:39] né? As pessoas,
[00:56:40] a geração jovem, estava agora
[00:56:42] com um colega jovem,
[00:56:44] ele, o Thaís, ele é um
[00:56:46] colega negro,
[00:56:48] tivo, inteligente,
[00:56:50] cheio de ideias,
[00:56:52] discute, me faz repensar,
[00:56:55] claro, né?
[00:56:58] Eu vou ficar onde agora?
[00:57:00] Não, se quer, no meu…
[00:57:02] Professor, eu queria pedir,
[00:57:04] indicações de leitura de música,
[00:57:06] o que o senhor quiser indicar para a gente,
[00:57:08] para os ouvintes?
[00:57:10] O senhor falou de um livro
[00:57:11] recente, que o senhor gostou
[00:57:14] também,
[00:57:16] eu vou dar uma indicação já,
[00:57:18] que é esse livro, Além do Princípio do Podor,
[00:57:21] e o Ética
[00:57:22] no Espelho da Cultura,
[00:57:24] que é, para quem quiser
[00:57:26] fazer, da academia,
[00:57:28] quiser fazer um jogo, pegue o Ética
[00:57:30] no Espelho da Cultura, e
[00:57:32] Razões Públicas e Emoções Privadas,
[00:57:34] e lê depois o
[00:57:35] Forte, o Filosofia e Espelho da Natureza,
[00:57:38] Contingência e Ironia e Sonderidade,
[00:57:41] você vai ver ali
[00:57:42] uma redescrição
[00:57:44] para pensar o Brasil,
[00:57:47] e aí
[00:57:47] a gente dá um armamento
[00:57:49] interessante, dá um contexto interessante
[00:57:52] para a gente entender a nossa cultura.
[00:57:55] É, desses textos
[00:57:56] aqui atuais, evidente,
[00:57:58] tem, eu acho,
[00:58:00] a produção recente
[00:58:01] do
[00:58:01] Christian Dunker,
[00:58:04] do Vladimir Safat,
[00:58:06] que também é interessante,
[00:58:08] o Dutades Absaber,
[00:58:10] o Soldado Antropofágico,
[00:58:12] que eu acho uma coisa monumental,
[00:58:14] o livro do Contardo,
[00:58:16] o Grupo e o Mal, eu também tenho
[00:58:18] uma admiração enorme, eu acho que é
[00:58:20] superinteressante,
[00:58:22] esses que eu citei agora,
[00:58:24] esse que eu citei agora, foi porque eu acabei
[00:58:26] de ter a referência,
[00:58:29] que é
[00:58:29] o Iluminismo,
[00:58:31] o Iluminismo das Sombras,
[00:58:34] do Arnaud Miranda,
[00:58:36] esse é um
[00:58:37] belo livro,
[00:58:39] e eu penso que
[00:58:41] tem
[00:58:43] coisa muito interessante,
[00:58:45] por exemplo,
[00:58:48] em matéria de
[00:58:53] psicanálise decolonial,
[00:58:56] por exemplo,
[00:58:57] o livro do Davidson Faustino,
[00:58:59] eu acho,
[00:59:01] eu acho que é sobre Fanon,
[00:59:03] em Cruzilhadas,
[00:59:05] eu não me lembro exatamente do título,
[00:59:08] mas é um livro muito curioso,
[00:59:09] é um livro bem inteligente,
[00:59:12] é um livro
[00:59:12] de quem pensa, é um livro
[00:59:15] que leva a gente a
[00:59:17] a pensar
[00:59:19] duas vezes, sobre aquilo que a gente
[00:59:21] está fazendo e o futuro de uma teoria.
[00:59:26] O senhor
[00:59:27] tem uma frase do Santo Agostinho,
[00:59:30] o homem não nasce para morrer,
[00:59:31] mas para começar.
[00:59:33] É da Arendt.
[00:59:37] É da Arendt,
[00:59:38] é da Arendt, olha,
[00:59:39] estou citando errado, desculpa.
[00:59:41] É,
[00:59:43] ela é notável, ela diz isso.
[00:59:45] O homem, embora deva morrer,
[00:59:47] não nasce para morrer,
[00:59:49] mas para recomeçar.
[00:59:51] Para mim, esse um lema,
[00:59:53] o do Agostinho é outro, né?
[00:59:55] É que dizer, não existe sabedoria
[00:59:57] sem paciência.
[00:59:59] Entende?
[01:00:00] Eu ia chamar essa frase da Arendt
[01:00:04] para o seu recado final,
[01:00:06] para você deixar seu recado
[01:00:07] na nossa conversa.
[01:00:08] Eu acho que é um mote…
[01:00:10] A gente nasce para recomeçar.
[01:00:12] Nosso futuro não é a morte,
[01:00:14] a morte é morte.
[01:00:16] Nosso futuro é o recomeço.
[01:00:18] E como ela diz, cada vida nova
[01:00:20] é um milagre.
[01:00:22] É impossível de ser previsto.
[01:00:24] Poderia não ter acontecido.
[01:00:26] E a gente não sabe
[01:00:28] exatamente predizer o que vai ser.
[01:00:30] Então,
[01:00:32] é a natalidade,
[01:00:34] a esperança.
[01:00:36] É o recomeço do nosso estilo.
[01:00:38] Isso que eu acho que nela
[01:00:40] é maravilhoso
[01:00:42] e que ela chama de amor ao mundo.
[01:00:44] Né?
[01:00:46] Eu acho uma descoberta fantástica.
[01:00:50] Então, muito obrigado, então,
[01:00:52] por o diálogo.
[01:00:54] Fantástico.