#310 psicanálise incendiária | esquizoanálise, política, deleuze e guattari


Resumo

O episódio começa com a leitura de uma carta escrita pelo Rafael para seu eu do passado, oferecendo recomendações a um jovem estudante que está começando a se interessar pela esquizoanálise e pela obra de Deleuze e Guattari. A carta aborda cinco pontos principais: a aceitação de que nem tudo será compreendido, a natureza aberta e não dogmática da esquizoanálise, a existência da falta e como lidar com ela, a força dos agenciamentos edípicos e a inevitabilidade da tristeza mesmo para o militante ou esquizoanalista.

A partir dessa carta, os participantes – Rafael, Rafael Trindade e Matheus Guimarães – iniciam uma conversa sobre os temas levantados. Eles discutem a relação entre a esquizoanálise e a psicanálise, destacando que o Anti-Édipo não é uma simples recusa, mas uma tentativa de tornar os limites da psicanálise mais permeáveis a outros saberes. A conversa explora o contexto histórico dos livros, como o espírito de Maio de 68 e a influência psicodélica, que moldaram sua escrita performática e experimental.

O diálogo se aprofunda na questão do “militante triste”, citando o prefácio de Foucault para a edição americana do Anti-Édipo. Discute-se como a militância política pode e deve ser um acontecimento de alegria, mesmo diante de circunstâncias tristes, e como a expressão coletiva (como cantar juntos em um ato) pode ser mais contagiante e conectiva do que o discurso puramente informativo. A conversa também aborda a disputa de imaginários, como o das igrejas neopentecostais, e a necessidade de criar linguagens e formas de expressão que ressoem.

A discussão sobre a “falta” é central. Reconhece-se que, ontologicamente, a falta não existe (segundo Spinoza e Deleuze), mas subjetivamente ela é inegável e estruturante. O desafio clínico e ético não é negar a falta, mas localizá-la e entender os agenciamentos que a produzem, usando-a como um indicador de onde a atenção deve se voltar para promover mudanças. A experimentação e a abertura para novos agenciamentos são apresentadas como antídotos para as estruturas edípicas que limitam o desejo.

Por fim, os participantes refletem sobre seus próprios percursos com a esquizoanálise. Rafael Trindade comenta que sua relação com o pensamento de Deleuze e Guattari já se mostrou um pouco esgotada, enquanto ele busca outras linhas como Winnicott. Matheus Guimarães fala sobre continuar agenciando diferentes saberes, misturando leituras diversas, e Rafael expressa curiosidade por ler outras obras de Deleuze. O episódio enfatiza que a esquizoanálise é um saber aberto, que convida ao diálogo e à construção de pontes, sem a pretensão de ser a última palavra ou de fundar uma igrejinha dogmática.


Indicações

Books

  • Anti-Édipo — Obra fundamental de Deleuze e Guattari, descrita como uma ‘bomba’ que explodiu na França dos anos 70, recheada de referências excessivas e com um espírito performático de Maio de 68.
  • Mil Platôs — Outra obra central de Deleuze e Guattari, escrita sob influência psicodélica, proposta como uma leitura experimental que convida a fazer pontes entre diversos campos do saber.
  • Contra-história da Filosofia — De Michel Onfray, mencionada como um exemplo de obra que faz um ‘Fla-Flu’ intelectual (ex: Nietzsche vs. Platão), com ganhos na pesquisa de autores menos lidos, mas com uma abordagem por vezes agressiva e limitante.

Concepts

  • Esquizoanálise — Apresentada como um saber aberto, não dogmático, que convida ao diálogo com diversos campos (arte, política, clínica) e evita a formação de uma ‘igrejinha’ de pensamento.
  • Militante Triste — Figura mencionada por Foucault, discutida como alguém que luta com tristeza e ressentimento. O episódio debate como a militância pode ser um acontecimento de alegria e como evitar a passagem da tristeza ao ressentimento.
  • Complexo de Édipo — Discutido não como um inimigo a ser simplesmente rejeitado, mas como um mecanismo explicativo da estruturação das faltas na sociedade burguesa. A crítica está na sua universalização, que fecha possibilidades, e não em sua descrição.

People

  • Félix Guattari — Destacado por sua ousadia prática, viagens pelo mundo e escuta das forças políticas em movimento (como o movimento negro no Brasil, LGBT, PT), contrastando com um Deleuze mais teórico.
  • Michel Foucault — Citado por seu prefácio à edição americana do ‘Anti-Édipo’, onde elogia a obra como um apelo a uma militância mais alegre, e por frases como ‘decepcionar é um prazer’.
  • Emma Goldman — Anarquista citada pela frase ‘Se eu não puder dançar nessa revolução, então ela não é minha’, ilustrando a ideia de que a política deve incluir alegria e expressão.
  • Vladimir Safatle — Professor mencionado por sua crítica à abordagem ‘Fla-Flu’ de Michel Onfray, argumentando que esse tipo de posicionamento tem um número limitado de frutos.

Linha do Tempo

  • 00:02:35Apresentação do projeto Seminários de Formação — Rafael apresenta o novo projeto ‘Seminários de Formação’, que alia esquizoanálise, filosofia e psicologia, começando em 10 de março. O objetivo é discutir a subjetividade contemporânea a partir de interlocuções entre Deleuze, psicanálise, Foucault e outros filósofos. O projeto é focado no campo da esquizoanálise, mas se abre para diversos lugares, convidando os ouvintes a participarem, com desconto para assinantes do Razão Inadequada.
  • 00:06:05Leitura da carta: recomendações para um jovem estudante — Inicia-se a leitura da carta escrita por Rafael para seu eu do passado. A primeira recomendação é aceitar que não se vai entender tudo, pois ‘Anti-Édipo’ e ‘Mil Platôs’ são livros recheados de referências excessivas e sem critério pedagógico. A segunda é entender que a esquizoanálise é um saber aberto que não formou uma escola dogmática, convidando ao diletantismo e ao diálogo com diversos campos. A terceira trata da constatação da falta e como lidar com ela na prática clínica.
  • 00:11:18Discussão sobre a carta e a posição inicial da esquizoanálise — Os participantes refletem sobre a carta e a reação que um Rafael mais jovem teria. Discutem como o encontro com a esquizoanálise pode levar a uma recusa quase adolescente da psicanálise, mas que essa posição agressiva e de demarcação talvez seja necessária num primeiro momento. A conversa critica a criação de ‘Fla-Flus’ intelectuais (como Nietzsche vs. Platão) e defende uma crítica mais madura que não demonize o outro, lembrando que o Anti-Édipo é mais um diálogo do que uma simples recusa.
  • 00:26:52Contexto histórico e estilo dos livros de Deleuze e Guattari — É destacado que o ‘Anti-Édipo’ foi escrito no espírito de Maio de 68, com um caráter performático e de tomada artística da revolução. Já o ‘Mil Platôs’ foi escrito sob influência psicodélica. Ambos propõem um tipo de leitura experimental, não meramente didática. A esquizoanálise é apresentada como um saber que abre pontes para outros campos, convidando a uma apropriação singular e evitando a formação de uma ‘igrejinha’ dogmática de pensamento.
  • 00:36:35O militante triste e a alegria na política — A conversa se volta para a figura do ‘militante triste’, mencionada no prefácio de Foucault para o Anti-Édipo. Discute-se como a militância política pode ser um acontecimento de alegria, mesmo diante de circunstâncias tristes. É citada Emma Goldman: ‘Se eu não puder dançar, não é minha revolução’. Os participantes refletem sobre a importância da expressão coletiva (como cantar juntos em um ato) para criar conexão e sensibilidade, contrastando com discursos puramente informativos. A disputa de imaginários, como o das igrejas neopentecostais, é levantada como um campo de batalha crucial.
  • 00:59:51A falta: entre ontologia e clínica — A discussão se concentra na ‘inegável sensação de falta’. Reconhece-se que, ontologicamente (segundo Spinoza/Deleuze), a falta não existe, mas subjetivamente ela é real e estruturante. Na prática clínica, não se nega a falta do paciente, mas se localiza onde ela se manifesta para entender os agenciamentos que a produzem. A falta é um ‘nó’ a ser trabalhado, um indicador de onde a atenção deve se voltar para promover abertura e experimentação, rompendo com narrativas e imagens fixas de si.
  • 01:13:05Édipo: descrição, prescrição e uso crítico — Os participantes debatem o complexo de Édipo. Argumenta-se que ele é um mecanismo explicativo útil para descrever como as faltas são estruturadas numa sociedade burguesa e familiar, mas corre o risco de ser universalizado, fechando caminhos. A crítica de Deleuze e Guattari não é jogar Édipo fora, mas tensionar essa universalização, abrindo espaço para a diferença. A orientação ética passa a ser: essa estrutura familiar abre ou fecha fluxos? Aumenta ou limita a capacidade de afetar e ser afetado? O uso de Édipo na clínica deve servir para construir narrativas diferentes, não para fixar uma verdade sobre o passado.
  • 01:22:30Reflexões finais sobre os percursos pessoais — Cada participante reflete sobre sua relação atual com a esquizoanálise. Rafael Trindade comenta que seu interesse por Deleuze e Guattari já se esgotou um pouco, e ele busca agora outras linhas, como Winnicott, embora reconheça a marca profunda deixada. Matheus Guimarães fala sobre continuar agenciando diversos saberes, misturando leituras, e sobre a vontade de reler ‘Crítica e Clínica’. Rafael expressa curiosidade por ler outras obras de Deleuze, como ‘Proust e os Signos’ e ‘Sacher-Masoch’. O episódio se encerra destacando o valor do diálogo e da troca de ideias entre percursos singulares.

Dados do Episódio

  • Podcast: Imposturas Filosóficas
  • Autor: Razão Inadequada
  • Categoria: Society & Culture Philosophy Society & Culture Society & Culture Relationships
  • Publicado: 2026-03-06T03:00:00Z
  • Duração: 01:31:20

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] legal, legal, você tá empolgado

[00:00:04] e é isso mesmo, usa essa empolgação

[00:00:06] porque ela vai ser bem necessária

[00:00:07] porém, não vai ser tudo

[00:00:10] tão preto no branco quanto

[00:00:12] você imagina

[00:00:13] por mais que as circunstâncias sejam

[00:00:18] entristecedoras, por mais que a gente vá se reunir

[00:00:20] pra falar de racismo, pra falar de

[00:00:22] machismo, de misoginia, como é que a gente

[00:00:24] faz então com que

[00:00:26] esse encontro seja

[00:00:28] em ato um acontecimento

[00:00:30] de alegria, sabe

[00:00:31] quais são

[00:00:34] as mercadorias que nos

[00:00:36] são vendidas como ideias daquilo que

[00:00:38] a gente deveria ser, pra não

[00:00:40] sentir essas coisas que são inerentes

[00:00:42] à nossa existência

[00:00:43] e aí

[00:00:55] gente, como vocês estão?

[00:00:58] vocês estão bem? eu tô bem

[00:00:59] vocês estão aqui ouvindo Imposturas Filosóficas

[00:01:02] este podcast

[00:01:04] do site Razão Inadequada

[00:01:05] onde a gente se junta entre amigos

[00:01:08] para conversar sobre aquilo que

[00:01:09] nos apraça a cada momento

[00:01:11] nesta vida tão maluca

[00:01:13] meu nome é Rafael e eu estou aqui com

[00:01:15] meus amigos, primeiro

[00:01:17] Matheus Guimarães, mais uma vez

[00:01:20] entre nós

[00:01:20] prazer, tá aqui novamente

[00:01:24] o prazer é nosso

[00:01:25] e também meu amigo Rafael

[00:01:27] e aí

[00:01:28] gente, não vou imitar

[00:01:30] um velho, porque a gente já estragou

[00:01:31] uma abertura de programa

[00:01:33] mas vocês vão entender porquê

[00:01:35] porque um Rafael velho foi chamado

[00:01:37] a participar

[00:01:38] imita só um pouquinho, vai

[00:01:40] eu tô pedindo assim com aquela cara de

[00:01:43] mas ficou parecido com o Cid Moreira

[00:01:45] foi aí que a coisa foi por água abaixo

[00:01:47] agora eu acho que você precisa

[00:01:49] fazer pras pessoas poderem ver

[00:01:51] se é mesmo o Cid Moreira

[00:01:53] ou é você velho

[00:01:54] eu não sou ator, eu vou abdicar

[00:01:57] mas não precisa

[00:01:58] ser, eu tenho certeza que isso é análise

[00:01:59] vamos experimentar, Rafael

[00:02:01] boa noite

[00:02:04] gente

[00:02:05] tá vendo

[00:02:07] achei perfeito

[00:02:09] um velho

[00:02:11] muito bem atuado

[00:02:13] que gosta da noite, nem falou bom dia

[00:02:16] esse velho, ele não madruga

[00:02:17] tô falando que é o Cid Moreira

[00:02:20] vocês vão entender

[00:02:22] essas piadas ouvindo este texto

[00:02:24] que foi escrito pra uma ocasião de uma conversa

[00:02:26] de esquizoanálise, que foi

[00:02:28] escrito por uma ocasião de

[00:02:29] projetos novos no Razão Adequada

[00:02:32] Rafael vai falar um pouquinho pra vocês

[00:02:34] do novo projeto

[00:02:35] aliando esquizoanálise

[00:02:38] filosofia e psicologia

[00:02:40] a partir de muito em breve

[00:02:42] estamos começando

[00:02:43] exatamente, dia 10

[00:02:46] de março, às 19 horas

[00:02:48] é uma terça-feira

[00:02:49] vai começar o projeto

[00:02:51] Seminários de Formação

[00:02:53] qual é a ideia? A ideia é a gente

[00:02:56] trazer uma compreensão

[00:02:58] do que é a subjetividade contemporânea

[00:03:00] pensando essas interlocuções

[00:03:02] que existem entre Deleuze

[00:03:04] com psicanálise

[00:03:06] com Foucault

[00:03:07] com outros filósofos

[00:03:09] pra gente pensar um pouco

[00:03:11] sobre psicologia e sobre

[00:03:14] filosofia. Esse projeto, Seminários de Formação

[00:03:16] eles são

[00:03:18] uma tentativa de discussão

[00:03:20] de várias dessas áreas

[00:03:22] do conhecimento

[00:03:23] pra pensar quem a gente é

[00:03:26] pra pensar sobre os nossos sofrimentos

[00:03:28] pra pensar sobre o nosso desejo

[00:03:30] eles estão principalmente focados

[00:03:32] no campo da esquizoanálise

[00:03:33] porém, como a gente vai falar no episódio de hoje

[00:03:36] esquizoanálise é algo muito aberto

[00:03:38] então isso vai levar a gente

[00:03:40] pra diversos lugares diferentes

[00:03:42] eu tô extremamente empolgado

[00:03:44] de poder falar sobre esses assuntos

[00:03:46] vai começar dia 10 de março

[00:03:48] e eu conto muito

[00:03:50] com a presença de vocês

[00:03:51] porque não existe filosofar sozinho

[00:03:54] se você tá falando sozinho

[00:03:56] você não tá fazendo isso direito

[00:03:58] é isso, as inscrições estão abertas

[00:04:00] o link tá aí na descrição do episódio

[00:04:03] vocês podem já fazer a inscrição

[00:04:05] e assinantes do Razão Inadequada

[00:04:08] tem desconto pra participar

[00:04:09] desses encontros

[00:04:11] vocês sabem que a gente consegue fazer

[00:04:13] esse trabalho graças às assinaturas

[00:04:16] feitas por pessoas

[00:04:17] que todo mês dão um dinheirinho

[00:04:20] e fazem com que a gente pague as contas

[00:04:21] consiga se concentrar em escrever

[00:04:24] gravar texto, preparar material

[00:04:26] de aula, grupo de estudos e tudo mais

[00:04:27] imitar velho?

[00:04:28] imitar velho é lógico, né

[00:04:30] a gente tá fazendo um bom uso

[00:04:33] dos recursos que nos foram passados

[00:04:34] afinal de contas

[00:04:36] escrever e incentivar o uso de drogas

[00:04:39] sei lá

[00:04:41] por dias e outras coisas

[00:04:43] a gente é sério

[00:04:45] você vê, a festa do desejo

[00:04:47] tá aí mesmo, tá ocorrendo

[00:04:49] é isso

[00:04:50] obrigado assinantes

[00:04:52] dito isso, bora pro programa

[00:04:55] vamos lá

[00:04:58] , vamos lá

[00:05:28] vamos lá

[00:05:58] e ficou para trás

[00:05:59] e agora é parte dos livros de história da filosofia

[00:06:02] e da luta antimanicomial

[00:06:04] alguns

[00:06:05] mais afeitos às metáforas

[00:06:08] podem ter dito que o antiédipo

[00:06:10] foi como uma bomba que explodiu

[00:06:12] na França dos anos 70

[00:06:13] mas cujos estilhaços não causaram

[00:06:16] muitos estragos no Brasil

[00:06:17] do século XXI

[00:06:19] entretanto parece que você

[00:06:21] se apaixonou por Deleuze

[00:06:23] e seus comparsas

[00:06:25] me refiro aqui a Foucault

[00:06:27] Becker

[00:06:28] Bergson

[00:06:28] Nietzsche

[00:06:28] e o querido Spinoza

[00:06:30] sendo assim

[00:06:31] eu tenho algumas recomendações

[00:06:33] que podem te ajudar

[00:06:34] neste longo e belo caminho

[00:06:36] que você começou a trilhar

[00:06:38] primeiro

[00:06:42] antes de mais nada

[00:06:44] você não vai entender tudo

[00:06:47] pode ter certeza disso

[00:06:49] de todas as recomendações

[00:06:50] essa é a mais fácil de ser constatada

[00:06:53] logo nas primeiras leituras

[00:06:55] antiédipo e mil platôs

[00:06:58] são livros encharcados

[00:06:59] de referências de todo tipo

[00:07:01] num mesmo capítulo

[00:07:03] você vai encontrar físicos

[00:07:05] pintores, músicos, etnólogos

[00:07:08] antropólogos e psicanalistas

[00:07:10] citados sem o menor

[00:07:12] critério pedagógico

[00:07:13] é uma lógica dos excessos

[00:07:16] é tanta coisa que você nem imagina

[00:07:19] não se preocupe

[00:07:20] as referências ajudam

[00:07:22] mas não são um pré-requisito

[00:07:24] se Deleuze e Guattari

[00:07:26] disseram que uma criança

[00:07:27] não é uma criança

[00:07:28] entenderia o antiédipo

[00:07:30] então talvez seja mais importante

[00:07:32] esvaziar a mente

[00:07:33] do que enchê-la com inúmeros autores

[00:07:36] segundo

[00:07:38] se num primeiro momento

[00:07:40] parece que Deleuze e Guattari

[00:07:42] querem provar a sua erudição

[00:07:44] na história, geografia

[00:07:46] cinema, psicologia

[00:07:48] ciência e religião

[00:07:49] pouco a pouco você vai perceber

[00:07:52] que há um motivo pra isso acontecer

[00:07:54] a esquizoanálise

[00:07:56] é um saber aberto

[00:07:57] a tal ponto que não formou

[00:08:00] uma escola ou abordagem

[00:08:02] aliás, Deleuze e Guattari

[00:08:04] abandonaram inúmeros conceitos

[00:08:06] pelo caminho

[00:08:07] então não cabe a você se apegar

[00:08:10] muito a eles

[00:08:10] saber disso me facilitou continuar

[00:08:14] exercendo meu diletantismo

[00:08:15] estudar berriverismo e psicanálise

[00:08:18] astronomia e mitologia

[00:08:20] platão e diógenes

[00:08:22] sem me apegar a nada em específico

[00:08:25] agradeço ao fato

[00:08:27] de que a esquizoanálise

[00:08:27] análise é um péssimo lugar para fundar uma igrejinha de pensamento dogmático.

[00:08:33] Isso me permitiu estar em constante movimento e diálogo, às vezes de maneira muito tensa,

[00:08:39] com psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e outros policiais do desejo, mas também

[00:08:45] encontrei muitos aliados pelo caminho, na política, na clínica e principalmente na

[00:08:50] arte.

[00:08:51] No fim das contas, descobri que fazer poesia e coquetéis molotovs não é tão diferente

[00:08:58] da prática do esquizoanalista.

[00:09:01] Terceiro, a falta infelizmente existe.

[00:09:07] Essa constatação me tirou de uma posição histriônica que quase todo estudante de

[00:09:12] Deleuze Guattari passa.

[00:09:14] Viva a produção, dane-se a falta, gritam eles a torto e a direito.

[00:09:19] Ontologicamente, a frase faz sentido.

[00:09:24] A falta não é nada.

[00:09:26] Ela é mesmo secundária em relação ao mar de afirmação unívoca que é a realidade.

[00:09:32] Tal qual a substância de espinosa, a existência é pura potência de existir.

[00:09:39] Mas o que fazer com a inegável sensação de falta?

[00:09:43] Em outras palavras, se ela não existe, por que é tão óbvia na prática?

[00:09:49] Simples.

[00:09:50] A falta existe porque somos limitados e é muito difícil nos afirmar em plena potência.

[00:09:58] Mas não se assuste, jovem estudante, a existência da falta, além de evitar que o esquizoanalista

[00:10:05] seja um ingênuo, também se torna um constante lembrete, onde a sensação de falta prevalecer

[00:10:14] é para aí que nossa atenção deve se voltar.

[00:10:17] Quarto.

[00:10:18] Quatro.

[00:10:19] Quatro.

[00:10:20] Seguindo o raciocínio, você aprenderá também a nunca duvidar da força dos agenciamentos

[00:10:25] que Édipo pode criar.

[00:10:28] O famoso triângulo papai-mamãe-filhinho.

[00:10:32] Aqui há uma enorme proximidade entre a orientação ética e o fazer prático.

[00:10:38] O complexo de Édipo é uma zona de enorme atração para o desejo, que pouco a pouco

[00:10:43] se deixa engolir achando que lá encontrará sua completude.

[00:10:48] As máquinas desejam que o desejo seja o mesmo que o desejo.

[00:10:49] As máquinas desejantes fazem conexões livres, mas são seduzidas e capturadas pela dinâmica

[00:10:54] doméstica, que impede a plena afirmação da diferença.

[00:10:58] Veja bem, o problema não é exatamente a psicanálise, é a interpretação que se

[00:11:05] rende à tentação de edipianizar furiosamente e limitar todas as possibilidades de vida.

[00:11:13] O problema é lutar pela servidão, confundindo ela com a liberdade.

[00:11:18] Quando o fazer da psicanálise se rende à interpretação edipiana, ela deixa de ser uma aliada.

[00:11:25] E por último, o esquizoanalista não está imune à tristeza.

[00:11:34] Por isso, é inevitável, às vezes será um militante triste.

[00:11:40] Não por escolha, mas por necessidade.

[00:11:43] Você verá isso na prática.

[00:11:45] A esquizoanálise foi muitas vezes afirmada como uma atitude de desigualdade.

[00:11:46] Por isso, é inevitável, às vezes será um militante triste.

[00:11:47] Não por escolha, mas por necessidade.

[00:11:48] Ela é considerada por mim como uma grande festa do desejo, ilusão.

[00:11:54] Não é e nem poderia ser.

[00:11:56] E o motivo é simples.

[00:11:58] A conjuntura econômica sociopolítica não o permite.

[00:12:04] Você sentirá com cada vez mais força o peso da realidade, que sem filtros nem entolhos

[00:12:11] é intolerável.

[00:12:13] E não cabe a você, nem a mim, jovem esquizonalista, enfrentar sozinha o problema da ilusão.

[00:12:17] enfrentar sozinho este leviatã.

[00:12:21] Deste modo, quanto antes você aceitar a impossibilidade

[00:12:24] de viver uma festa contínua da potência e dos bons encontros,

[00:12:29] melhor.

[00:12:31] Seu caminho é outro,

[00:12:34] muito mais subterrâneo e delicado.

[00:12:37] Cabe a você encontrar as frestas,

[00:12:40] as pequenas aberturas onde o sol possa entrar,

[00:12:42] uma ínfima rachadura onde a semente possa crescer.

[00:12:48] Estas são, querido Rafael,

[00:12:51] as minhas humildes recomendações para fazer do pensamento de Deleuze Guattari

[00:12:55] um aliado nas lutas que você enfrentará ao longo de sua vida.

[00:13:00] O esquizoanalista acredita que existem outros modos possíveis de viver,

[00:13:05] mesmo quando as condições fazem tudo para limitar sua imaginação.

[00:13:09] Seu objetivo é ajudar a fazer

[00:13:12] mundos fugirem.

[00:13:15] Há tantas auroras que não brilharam ainda,

[00:13:18] dizia Nietzsche, e a esquizoanálise permanece uma aliada

[00:13:21] nas lutas de libertação, sejam quais forem,

[00:13:25] para fazer estes mundos virem à tona.

[00:13:28] Em suma, se nenhum autor

[00:13:31] nos salvará dos perigos de viver,

[00:13:34] se nenhum livro pode nos redimir do desamparo

[00:13:37] que é a vida, que ao menos a esquizoanálise

[00:13:40] com sua caixa de ferramentas possa transformar

[00:13:42] a polêmica em uma fonte de afirmação da imanência,

[00:13:45] um oásis de desejo e luta no meio do deserto que é o real.

[00:13:51] Isso basta.

[00:13:53] Meus cumprimentos do sempre seu Rafael Trindade.”

[00:14:07] É isso aí!

[00:14:07] Uma carta de Rafael para Rafael no passado.

[00:14:11] Você acha que Rafael Trindade é alguém que só fazia cansamento com a vida normal.

[00:14:12] Você acha que Rafael Trindade é alguém que só fazia cansamento com a vida normal.

[00:14:12] Você acha que Rafael Trindade é alguém que só fazia cansamento com a vida normal.

[00:14:12] Eltrindade, 10 anos atrás, ia reagir como recebendo essa carta?

[00:14:17] O que ele ia sentir?

[00:14:18] Não sei.

[00:14:20] Talvez recusasse.

[00:14:22] Talvez fosse o tempo das recusas e o tempo dos questionamentos.

[00:14:26] É difícil responder isso.

[00:14:27] Difícil.

[00:14:28] Toda carta que vem de uma posição de…

[00:14:32] Talvez autoridade, né?

[00:14:34] Mas uma posição de quem já viveu certas coisas.

[00:14:37] Ela costuma ser questionada por quem está no começo, né?

[00:14:42] O começo é muito impetuoso.

[00:14:44] Então, acho que tem essa…

[00:14:45] Não sei se o Rafael de 10 anos atrás me ouviria.

[00:14:50] Então, na verdade, é uma carta para o Rafael de 10 anos atrás,

[00:14:53] para o Rafael de 10 anos depois.

[00:14:56] Eu acho que é o melhor jeito de definir.

[00:14:59] Porque, na verdade, é exatamente isso.

[00:15:01] Porque eu estava escrevendo…

[00:15:04] Eu estava conversando muito com o Guima para a gente…

[00:15:07] Sobre esse texto.

[00:15:09] E começou a ficar muito nítido para mim que era uma carta…

[00:15:12] Não era…

[00:15:13] O texto estava diferente.

[00:15:14] O texto era uma carta para alguém.

[00:15:16] E aí começou a ficar meio óbvio que é tipo…

[00:15:17] Não, não é para alguém.

[00:15:18] É para mim mesmo.

[00:15:20] Eu estou escrevendo para mim mesmo.

[00:15:22] Eu estou escrevendo…

[00:15:22] É óbvio que eu estou dando as recomendações de coisas que eu vivi

[00:15:26] para a pessoa que ainda não teve essas vivências.

[00:15:31] E que eu gostaria que soubesse isso naquele tempo.

[00:15:34] Mas que não tinha como ela saber.

[00:15:35] Porque ela tinha que viver exatamente essas coisas.

[00:15:37] Para chegar nesse momento de ter essas recomendações e essas ideias.

[00:15:42] Então é muito louco esse processo, esse ciclo temporal.

[00:15:47] Que, no fim das contas, é necessário.

[00:15:49] A carta acaba virando uma brincadeira exatamente por isso.

[00:15:53] E é uma recusa, então, das recomendações que você mesmo pediu.

[00:15:58] Eu acho que…

[00:15:58] Eu não sei, Guima.

[00:16:00] Você vai entender o que eu estou dizendo.

[00:16:03] Eu acho que a esquiza análise vem numa posição…

[00:16:07] Gente, eu lembro disso na faculdade.

[00:16:10] Que ela vem numa posição muito outsider, muito crítica, muito…

[00:16:13] Eu me afastei muito da psicanálise depois de ler o antiédipo.

[00:16:18] E aí eu acho que essa posição é uma posição de quem está tentando marcar uma…

[00:16:24] Tentando marcar algo.

[00:16:26] Tentando marcar uma crença, né?

[00:16:29] Tentando marcar a força de uma ideia.

[00:16:33] Então…

[00:16:33] E talvez isso seja necessário, né?

[00:16:35] Talvez não.

[00:16:37] É…

[00:16:38] A gente vai ficando mais cansado.

[00:16:40] Então esse primeiro momento é um momento de uma agressividade, de uma impetuosidade.

[00:16:46] Que é muito interessante para consolidar certas coisas.

[00:16:51] Eu acho que o Rafael recusaria, como recusou vários conselhos de vários professores.

[00:16:58] Que eles só podiam olhar e dizer…

[00:17:00] Tá tudo bem.

[00:17:01] Então vai lá, vive sua vida.

[00:17:03] Você vai…

[00:17:04] Algumas coisas você vai aprender.

[00:17:06] Algumas coisas eu posso estar errado mesmo.

[00:17:07] Você vai viver de um outro jeito.

[00:17:09] Eu acho que…

[00:17:10] Eu fico pensando o quanto o antiédipo, o encontro com a esquizoanálise,

[00:17:14] não ajudou a tomar uma decisão de recusa da psicanálise.

[00:17:20] Que é um campo muito sedutor.

[00:17:22] E que, enfim, né?

[00:17:24] É difícil, às vezes, de decidir por uma abordagem.

[00:17:27] Então, sei lá.

[00:17:28] Fico pensando num começo de carreira.

[00:17:30] Muitas pessoas querem munição para poder se defender contra a psicanálise.

[00:17:35] Por um motivo, né?

[00:17:36] Por motivos de que…

[00:17:37] Às vezes, se afirmar em outras linhas, tem lá suas dificuldades também e tal.

[00:17:41] Mas eu fico pensando também o quanto, às vezes, essa recusa quase adolescente, né?

[00:17:47] Isso.

[00:17:47] De se prender à afirmação da recusa, né?

[00:17:52] É.

[00:17:53] Ficar na afirmação da recusa e aí perder um monte de coisa.

[00:17:56] Sendo que o antiédipo não é um livro de recusa da psicanálise.

[00:18:01] É difícil dizer.

[00:18:03] Porque o Guattari, ele passou a vida inteira…

[00:18:07] Chamando o psicanalista e contribuindo muito para o campo da psicanálise.

[00:18:13] O Deleuze, eu sinto que ele abandona num certo momento.

[00:18:17] O Deleuze, ele chega com uma bagagem psicanalítica forte.

[00:18:21] E ele…

[00:18:22] E chega um momento…

[00:18:24] No…

[00:18:24] O seu momento preciso em que isso acontece.

[00:18:27] Que é o Um Ovário dos Lobos do Mil Platôs.

[00:18:29] Eles falam, a gente já está cansado.

[00:18:30] A gente não vai mais se utilizar desse recurso.

[00:18:33] Mas mesmo uma recusa deleuziana, não precisa…

[00:18:36] De modo algum, precisa…

[00:18:37] Precisa ser uma recusa de alguém que está estudando Deleuze.

[00:18:41] Porque eu acho que entra naquele campo da igrejinha.

[00:18:44] E eu lembrei até de uma outra coisa.

[00:18:46] Que foi uma experiência que o Rafael passou.

[00:18:48] Quando estava na faculdade de filosofia.

[00:18:51] Que é com o Michel Onfray.

[00:18:53] Um filósofo francês.

[00:18:54] Que ele escrevia uma contra-história da filosofia.

[00:18:59] E é um livro que até hoje eu tenho uma…

[00:19:03] Até hoje eu guardo elogios para essa ideia.

[00:19:06] Para essa ideia.

[00:19:07] Contra-história da filosofia.

[00:19:09] Mas foi um professor…

[00:19:10] Você lembra o nome do professor?

[00:19:12] Que falou, ah, esse negócio de Fla-Flu.

[00:19:13] De ficar fazendo, né?

[00:19:14] Nós contra eles.

[00:19:16] Nietzsche versus Platão.

[00:19:17] É um negócio que tem um número limitado de frutos que pode dar, né?

[00:19:21] Lembro, lembro.

[00:19:22] Chama-se Vladimir Safatle.

[00:19:24] E eu concordo muito com ele.

[00:19:26] Concordo muito com essa opinião.

[00:19:27] Eu acho que o livro do Onfray tem uma contra-história.

[00:19:31] Tem ganhos.

[00:19:32] Eu acho que tem uma pesquisa que se faz de autores menos lidos.

[00:19:37] Dentro da academia.

[00:19:37] Dentro da academia.

[00:19:38] E isso é bem legal.

[00:19:40] Mas o jeito como ele faz é muito agressivo.

[00:19:42] E faz sim um Fla-Flu que é muito…

[00:19:45] Ai, Platão é o inimigo, sabe?

[00:19:47] Ai, tá bom.

[00:19:48] Então tá bom.

[00:19:49] É um negócio que tem suas limitações.

[00:19:50] Porque quando você se põe nessa posição,

[00:19:53] você vai ter limitações no seu movimento, né?

[00:19:55] Vão ter lugares do campo do inimigo que você não vai poder se mover.

[00:19:59] E essa leitura é muito infantil se ela se repete na esquiz…

[00:20:02] Ai, Freud é o inimigo, sabe?

[00:20:04] Isso.

[00:20:05] Tá bom.

[00:20:05] É, ok.

[00:20:06] Então tá bom.

[00:20:07] Então, começando…

[00:20:07] Começamos muito mal, né?

[00:20:08] Eu acho que tem um pouco esse lugar de entender uma crítica de uma forma mais madura, né?

[00:20:14] De uma forma que a gente não precise demonizar

[00:20:18] ou criar uma imagem de espantalho daquilo que a gente quer criticar pra poder criticar, né?

[00:20:24] Eu acho que uma boa crítica começa daí.

[00:20:27] E aí eu acho que isso leva a gente um pouco pras primeiras das recomendações,

[00:20:32] que é, bom, tudo bem, você vai ter que viver a sua vida, né?

[00:20:35] Uma pessoa que tá no começo…

[00:20:37] Uma pessoa que tá na faculdade, uma pessoa que tá formada há 10 anos,

[00:20:41] já vai ter passado por certas experiências e vai ter mudado algumas ideias.

[00:20:46] E é necessário tempo, né?

[00:20:49] É necessário passar por coisas pra que as ideias mudem.

[00:20:53] A gente pode chegar com essa suposta voz da experiência e dizer qual é a verdade,

[00:20:58] mas não é assim que funciona a vida.

[00:21:02] As pessoas têm que passar pelas suas próprias experiências.

[00:21:05] E aí eu acho que as recomendações, elas são…

[00:21:07] São muito mais moderadas, talvez.

[00:21:10] A gente pode pensar um pouco sobre essa palavra,

[00:21:13] mas eu acho que o fogo inicial de uma empolgação com um livro,

[00:21:19] como, por exemplo, o Antiédipo, passou.

[00:21:22] Passou.

[00:21:22] Mas não quer dizer que muita…

[00:21:25] Eu tô lendo o Antiédipo pros seminários de formação.

[00:21:29] Eu tô lendo, de novo.

[00:21:31] Então, mais uma vez, pelo amor de Deus, mais uma vez eu tô lendo.

[00:21:34] E ainda é um livro muito importante.

[00:21:37] Mas eu acho que tem alguma coisa que muda na maneira como você olha

[00:21:43] depois de passado um certo tempo.

[00:21:47] Então, eu acho que tem uma certa moderação na maneira que foi escrita a carta,

[00:21:54] que é legal, legal.

[00:21:57] Você tá empolgado.

[00:21:58] E é isso mesmo.

[00:21:58] Usa essa empolgação porque ela vai ser bem necessária.

[00:22:01] Porém, não vai ser tudo tão preto no branco quanto você imagina.

[00:22:06] Imagina.

[00:22:07] E aí, as recomendações, eu acho que elas vão nesse sentido de tentar trazer um pouco

[00:22:12] dessa moderação que vai vindo com o tempo.

[00:22:18] Eu acho que, de um modo bem geral, é um pouco isso que tá colocado, né?

[00:22:23] Não existe a falta.

[00:22:26] Foda-se, é, tipo, viva o desejo.

[00:22:28] É uns negócios assim que são bordões.

[00:22:30] E eu lembro até do Guimar falando, quando a gente tava trocando ideia do texto,

[00:22:33] que são bordões até meio infantis, de uma certa maneira, né?

[00:22:37] Pensa assim, sabe?

[00:22:38] Não é…

[00:22:40] Acho que talvez um primeiro…

[00:22:42] Apenas num primeiro momento seja possível pensar assim.

[00:22:46] Eu fico pensando que, enquanto espécie, a gente aprende muito por mimes, né?

[00:22:53] Então, às vezes, repetir bordões ou ideias centrais tem a ver com uma certa repetição

[00:23:02] pra tentar se apropriar de algo que é de uma linguagem muito difícil.

[00:23:06] Uhum.

[00:23:07] E…

[00:23:08] Eu não sei…

[00:23:08] Sua experiência falou, né?

[00:23:10] De encontrar alguma coisa que pudesse negar, talvez, o percurso da psicanálise, assim.

[00:23:18] E no meu campo de experiência, eu gostei muito de entrar em contato com a psicanálise.

[00:23:23] Mas eu acho que tem uma questão de linguagem, mesmo que foi, assim, tipo…

[00:23:28] Esse campo, essa estrutura, não tá me cabendo, sabe?

[00:23:33] E aí, outras coisas…

[00:23:34] Eu precisei encontrar em outras coisas.

[00:23:36] E acho que a…

[00:23:37] A psicologia social tinha uma abertura maior.

[00:23:40] E é na psicologia social que desemboca, né?

[00:23:43] Vai acabar no Foucault, vai acabar no Deleuze-Guattari e tal.

[00:23:48] Vai acabar não, né?

[00:23:49] Vai começar.

[00:23:51] E…

[00:23:51] Boa.

[00:23:53] Vai dar.

[00:23:54] Então, eu acho que essa questão de encontrar uma outra linguagem pra você poder se expressar

[00:24:01] com o campo de expressão também encontra a dificuldade que é a linguagem que a gente

[00:24:07] tá…

[00:24:08] Que é usada ali, é uma coisa muito subversiva, assim.

[00:24:12] É difícil de entender.

[00:24:14] É uma coisa de estar entendendo enquanto se está perdido.

[00:24:18] É muito estranho.

[00:24:19] E, ao mesmo tempo, a gente tem uma necessidade de ter algo a dizer.

[00:24:23] E acho que, às vezes, pode-se acabar caindo nesses lugares, nesses jargões, vamos dizer

[00:24:28] assim, que, depois de um tempo, não faz mais sentido você ficar preso neles, né?

[00:24:35] Também nem é esperado, né?

[00:24:36] Seria bom que a gente pudesse entender um pouco melhor do que a galera tá falando, assim.

[00:24:42] É bom como entrada, né?

[00:24:43] Tá, mas se o desejo não é falto, se o desejo é produção, pra onde que isso leva, né?

[00:24:49] Ou mesmo, com o que que tá se conversando, né?

[00:24:52] Quando a gente pensa na primeira página, né?

[00:24:55] Do antiédito, né?

[00:24:56] Do isso caga, isso fode.

[00:24:58] E que erro ter dito isso, que é uma conversa direta com o texto do Freud, né?

[00:25:06] Com o eu e o…

[00:25:06] Com o eu e o isso, né?

[00:25:07] E o…

[00:25:09] É isso, né?

[00:25:09] E, então…

[00:25:11] É isso.

[00:25:13] A gente também entender que ele não tá falando sozinho, que ele tá conversando

[00:25:18] com algumas pessoas, já fala diretamente sobre isso, né?

[00:25:22] Há uma discussão, há uma conversa, tem algo de interessante que foi dito ali, e um

[00:25:27] erro foi encontrado, digamos assim, né?

[00:25:29] Um erro de percurso.

[00:25:31] Mas não quer dizer que, então, jogamos todas as ideias fora, que é um pouco daquela

[00:25:35] ideia, né?

[00:25:36] De que o…

[00:25:37] Daquela pretensão filosófica de ser sempre o último filósofo, né?

[00:25:41] Então, eu tenho…

[00:25:41] Eu encontrei a última verdade e não tem mais nada a dizer depois de mim, assim.

[00:25:47] Perfeito.

[00:25:48] Eu iria exatamente por esse caminho.

[00:25:50] Eu acho que esse é um dos principais pontos do começo do texto, que é…

[00:25:54] Você não vai entender tudo nunca.

[00:25:57] Você não vai ser o último filósofo.

[00:25:58] Você não vai entender tudo.

[00:26:00] Você não vai ser o psicanalista que dá conta de tudo.

[00:26:03] Você não vai dar conta de tudo.

[00:26:05] É um saber aberto.

[00:26:06] Tem milhares de pessoas pesquisando milhares de coisas interessantes.

[00:26:11] Então, se você lê o Pierre Clastres, você vai ver coisas extremamente interessantes aparecendo.

[00:26:16] Se você for estudar Lacan, se você for estudar Lévi-Strauss, se você for estudar,

[00:26:25] sei lá, música, você vai ver que tem milhares de coisas acontecendo e que podem contribuir

[00:26:30] para um enorme campo de diálogo.

[00:26:33] Porque a filosofia é isso.

[00:26:35] E a psicologia também precisa.

[00:26:36] E acho que é menos.

[00:26:38] Os filósofos são melhores nesse ponto.

[00:26:40] É um enorme campo de diálogo.

[00:26:43] Uma coisa de contexto, assim, que eu acho muito importante para quem está começando

[00:26:46] a ler tanto o Antiédipo quanto o Mil Platôs, é considerar dois fatores.

[00:26:52] Primeiro caso, o Antiédipo é um livro feito no espírito de maio de 68.

[00:26:57] Maio de 68 foi um tipo de luta estudantil que contaminou a França, não só a França,

[00:27:05] mas ficou muito famoso na França e tomou também os operários de fábrica, levou a uma greve geral.

[00:27:11] Mas tem um caráter especial desse momento histórico que é uma espécie de performance também.

[00:27:18] Tem uma espécie de tomar artístico da ideia de revolução.

[00:27:23] Isso aparece no texto, isso aparece no Antiédipo.

[00:27:26] Então, essa coisa do você não vai entender tudo, não vai porque a proposta não é tão didática assim.

[00:27:31] A proposta é um pouco performática também.

[00:27:34] Tem um espírito…

[00:27:35] Tem um espírito que toma a letra nesse texto que não pode ser desconsiderado nesse sentido de performance artística.

[00:27:42] Esse livro é um pouco tomado por isso.

[00:27:44] No caso do Mil Platôs, né, passado os anos 70, ali comecinho dos anos 80, psicodelia.

[00:27:49] Esse livro foi escrito, por muito dele é escrito tomado por psicodélicos, né.

[00:27:55] Tem partes do Mil Platôs lá deles falando, enquanto escrevemos, vemos como se fossem formiguinhas na página.

[00:27:59] Né, se você não levar isso em consideração e ficar muito preso à letra do texto,

[00:28:05] querendo entender.

[00:28:05] Cada passagem, talvez você não experimente, né.

[00:28:08] Nos dois livros, tem uma espécie de experimentação a fazer.

[00:28:11] Que eu acho que tem muito da própria proposta da escrita e análise.

[00:28:14] Por isso é consistente.

[00:28:16] Por isso não é uma coisa banal.

[00:28:18] Tem uma experimentação a ser feita através desses textos,

[00:28:20] que não é o tipo de leitura que a gente costuma fazer de textos didáticos ou explicativos ou teóricos.

[00:28:30] Tem um outro tipo de proposta colocada e esses dois conjuntos de textos, né,

[00:28:34] o Antiédipo e o Mil Platôs, são muito diferentes.

[00:28:35] Também nas experimentações que se propõe.

[00:28:38] Mas eu acho que essa primeira recomendação é muito interessante.

[00:28:40] Nesse sentido de que a maneira como a gente se apropria desse texto,

[00:28:45] ela precisa levar em consideração o tipo de texto que é colocado

[00:28:50] para que a gente se sinta confortável na leitura, né.

[00:28:52] Para que a gente se sinta também entendendo mais do que palavra a palavra, parágrafo a parágrafo,

[00:28:58] o que a gente está fazendo quando lê esses textos.

[00:29:01] E aí eu retomo o que o Guimarães falou, que é muito, na minha opinião, muito antiédipo.

[00:29:05] Muito menos uma recusa da psicanálise do que uma tentativa de permear os seus limites,

[00:29:10] de deixar os seus limites mais permeáveis a outros saberes que compõem a prática clínica

[00:29:17] e que compõem o pensamento da psicanálise desde sempre, né.

[00:29:20] Tem uma percepção muito grande de uma ortodoxia psicanalítica que é muito perigosa.

[00:29:27] E eles estão muito preocupados com isso naquele momento.

[00:29:30] E estão tomados por um espírito de fazer isso, né, essa mistura, né.

[00:29:34] Pensem numa manifestação de…

[00:29:35] Uma manifestação de 1,68m, em que tem operário, estudante e gente fazendo performance artística, né.

[00:29:40] No meio, assim.

[00:29:41] Então, tem descrições desse tipo de tomada de universidade, tomada de fábrica, como teatro.

[00:29:49] Então, tem que pensar um pouco nessa permeabilidade entre arte política e prática, né, de trabalho.

[00:29:58] Enfim, seja clínica ou seja qualquer outra.

[00:30:01] O que é diferente de uma leitura bíblica?

[00:30:05] Do Freud, bíblica mesmo, ou bíblica do Freud, por exemplo, né.

[00:30:09] O cara que sabe todas as páginas de cada livro dele.

[00:30:13] E uma leitura, essa leitura psicodélica, que é uma leitura que abre, na verdade.

[00:30:18] É por isso que o mioplatôs e o antiédipo são recheados de referências.

[00:30:23] Porque é uma leitura aberta, uma leitura que procura aliados, é uma leitura que quer acelerar.

[00:30:30] Eu tenho um objetivo, eu acho que eu já falei isso aqui, mas eu vou falar de novo.

[00:30:35] Porque aí eu cobro a mim mesmo, ao longo dos anos.

[00:30:37] Eu tenho um objetivo que era fazer um grupo de estudos chamado ética dos devidos.

[00:30:42] Que é tentando entender onde o pensamento de Deleuze e Guattari levam a gente hoje.

[00:30:50] Quem é herdeiro desses pensamentos? Quem leva esse pensamento adiante?

[00:30:54] Confirmando certas ideias, mas criticando certas ideias.

[00:30:58] Mostrando as limitações que o próprio Deleuze e Guattari tinham quando eles estavam escrevendo.

[00:31:02] Ao falar de feminismo, de…

[00:31:05] Ecologia.

[00:31:06] Ao falar da vida, quais eram os próprios limites que eles tinham ao escrever.

[00:31:11] Mas que de alguma maneira esses pensamentos eles ressoam e abrem.

[00:31:16] E isso é uma coisa que a gente pode elogiar muito, esses dois autores.

[00:31:22] É um saber que abre para outras ideias, abre para outros campos, abre para você ser afetado por outras coisas.

[00:31:30] Então eu sempre li esses autores…

[00:31:33] Querendo fazer pontes.

[00:31:35] E eu sempre me senti muito convidado a fazer essas pontes.

[00:31:40] Eu acho que isso é muito louvável.

[00:31:44] Porque a gente costuma se fechar em certos campos de ideias.

[00:31:48] E isso impede… Isso fica algo hermético.

[00:31:52] E impede outras ideias de entrar.

[00:31:55] Então eu sinto que é impossível fazer uma…

[00:31:57] É impossível não, né? Sempre tem quem consegue.

[00:32:00] Mas é muito difícil fazer uma igrejinha de Deleuze e Guattari.

[00:32:03] E acho que são esses vários autores, que a gente não entende tudo, que permite esse saber continuar aberto.

[00:32:09] E permite eu, de uma maneira extremamente singular, ser analista do comportamento de formação, entre aspas.

[00:32:18] E amar Deleuze e Guattari.

[00:32:21] E estar lendo Freud, e estar lendo astronomia, e estar lendo mitologia, etc.

[00:32:25] Então isso eu acho que é uma recomendação extremamente importante para quem está começando a entrar nesse campo da esquizoanálise.

[00:32:33] Mas não só, né?

[00:32:34] Eu acho que é uma recomendação que é passível para qualquer um que esteja começando a se interessar muito por algo.

[00:32:42] Quais são as pontes que isso faz? Para onde isso leva a gente?

[00:32:46] Acho que tem algo também bem presente nessa contribuição de vários outros agenciamentos, que é muito presente no antiédipo.

[00:32:57] Que produz esse estranhamento, a princípio.

[00:33:01] Que é de misturar campos de conhecimento, né?

[00:33:04] Tipo, essa coisa da psicologia ou da psiquiatria. Ficar muito dentro disso, assim.

[00:33:10] E eu penso o quanto que a análise institucional não tem influência disso no texto deles, assim, né?

[00:33:18] Pensando quem estava trabalhando dentro das instituições, pensando as instituições.

[00:33:23] Então, essa construção de um viés que precisa ter um olhar mais atento para a sociedade,

[00:33:30] para a ecologia, para vários outros campos de relação que não estão mais tão restritos a pensar o indivíduo, assim.

[00:33:40] Então, mesmo que se pense com a psiquiatria, é pensar os limites da psiquiatria.

[00:33:47] E é legal pensar em alguns exemplos que apareceram dentro da análise institucional.

[00:33:54] Pensando no Guattari fazendo esse papel de supervisão.

[00:33:59] Do quanto que, em alguns momentos, era mais interessante, às vezes, você ter dentro dessas instituições profissionais

[00:34:08] que não eram do campo da saúde mental.

[00:34:10] Porque, justamente, tinham um olhar diferente para isso.

[00:34:15] Não estavam tão presos em algumas coisas dogmáticas, se dá para colocar desse jeito.

[00:34:22] E, por conta disso, também tinham uma abertura maior para lidar com aquela diferença ali.

[00:34:27] Então, o que era comum…

[00:34:29] Era acontecer algumas formações de alguns conceitos que eram básicos

[00:34:33] para que essas pessoas que não tinham essa formação específica

[00:34:38] trabalharem com essas pessoas.

[00:34:41] Então, acho que isso tem um campo de riqueza muito grande.

[00:34:44] Dá para pensar no Fanon também fazendo isso.

[00:34:46] Das reproduções dos campos de desejo das pessoas que estavam institucionalizadas

[00:34:51] e quais eram os interesses, o que elas faziam enquanto elas estavam livres na sociedade.

[00:34:58] Porque aí a gente não pode deixar de esquecer que o manicômio é uma prisão, né?

[00:35:02] Cara, e nesse ponto o Guattari é ótimo, né?

[00:35:05] O Deleuze é muito teórico nesse ponto, né?

[00:35:08] Eu imagino o Deleuze sentado lendo livros.

[00:35:11] Cara, o Guattari, mano, viajando assim…

[00:35:15] Viajando para todo canto, velho.

[00:35:17] Quantas vezes ele veio para o Brasil?

[00:35:19] Para quantos lugares do Brasil ele foi?

[00:35:21] Japão, Itália, Estados Unidos…

[00:35:23] O cara estava querendo ouvir o que estava rolando.

[00:35:27] As forças que estavam rolando, né?

[00:35:29] O que era o movimento negro no Brasil?

[00:35:32] O que era o movimento LGBT crescendo?

[00:35:35] O que era o crescimento do PT, por exemplo?

[00:35:37] Ele queria entender que forças são essas que estão acontecendo.

[00:35:42] Então, eu acho que tem uma sensibilidade na escuta da parte dele que é incrível.

[00:35:48] E eu acho ele, nesse ponto, muito mais ousado que o Deleuze.

[00:35:54] Sabe?

[00:35:55] De…

[00:35:56] O quanto as viagens reais não são devidas.

[00:36:00] Porque a gente costuma falar que pode viajar de várias maneiras.

[00:36:04] Tá, beleza, pode.

[00:36:05] Claro que abrir um livro de literatura te faz viajar.

[00:36:08] Mas o quanto pôr o pé num outro país não faz isso de uma maneira radical.

[00:36:12] E o quanto isso não te modifica.

[00:36:14] E o quanto você não chega na França e fala…

[00:36:16] Mano, a galera ali já está vários passos na nossa frente.

[00:36:20] Que história é essa?

[00:36:21] A gente está fazendo isso aqui e a gente está engatinhando.

[00:36:24] Olha ali aquilo acontecendo.

[00:36:26] Eu acho que você dizer sobre isso me dá vontade de antecipar

[00:36:30] a questão que você traz sobre o militante triste.

[00:36:35] Eu acho que…

[00:36:37] Quando você falou sobre isso, eu fiquei muito provocado de entender.

[00:36:41] Tipo assim, tá, ok.

[00:36:42] Estudar isso não vai te deixar imune à tristeza.

[00:36:45] Mas não necessariamente te faz um militante triste.

[00:36:48] E aí eu fico pensando que não é sobre não sentir tristeza.

[00:36:53] Mas eu imagino que é…

[00:36:55] O quanto é potente sentir alegria por fazer parte de um movimento.

[00:37:00] Fazer parte de um grupo.

[00:37:02] Fazer parte de uma luta.

[00:37:04] Que você vai encontrar momentos de extrema tristeza, de raiva, de revolta.

[00:37:10] Mas também estar em contato com pessoas que você pode celebrar junto.

[00:37:15] Se alegrar junto.

[00:37:16] Encontrar alegria por lutar.

[00:37:18] Que aí eu acho que talvez seria um antídoto para…

[00:37:22] Para esse militante triste.

[00:37:25] Porque me parece que é muito um campo solitário.

[00:37:28] O militante triste quase não tem com quem trocar.

[00:37:31] Eu fiquei um pouco com essa sensação quando eu entrei em contato com aquela parte do texto.

[00:37:38] Essa figura aparece no prefácio que o Foucault escreveu para a edição americana do Antiédipo.

[00:37:44] A figura do militante triste.

[00:37:46] Ele coloca como um dos…

[00:37:48] De forma elogiosa isso ao Antiédipo.

[00:37:51] No momento até em que Foucault e Deleuze estavam meio tretados.

[00:37:55] Foi até um aceno de…

[00:37:57] Eu gosto do que você está fazendo.

[00:37:59] Mas eles já não estavam muito se entendendo no próprio fazer da filosofia.

[00:38:03] Mas ainda assim o Antiédipo foi tomado por elogio.

[00:38:07] Como um apelo a essa militância mais alegre.

[00:38:11] Uma militância que eu acho que tem muito disso que o Guimarães falou.

[00:38:15] Que não é…

[00:38:17] Que pode se afirmar.

[00:38:19] Apesar da tristeza.

[00:38:21] Das lutas.

[00:38:23] Se afirmar de maneira alegre.

[00:38:25] Isso significa que o tipo de encontro de militância.

[00:38:29] O tipo de encontro político.

[00:38:31] Não precisa ser o do…

[00:38:35] Da antiga militância.

[00:38:37] Uma militância que envelheceu digamos assim.

[00:38:39] Até da geração sartreana.

[00:38:41] Um certo marxismo.

[00:38:43] Um certo tipo de…

[00:38:45] Pensem nas assembleias de movimento estudantil.

[00:38:47] Sabe? Né?

[00:38:49] Não precisa ser…

[00:38:51] Um encontro de todo mundo de cara fechada e feia.

[00:38:53] Para fazer política.

[00:38:55] A gente pode fazer festa.

[00:38:57] A gente pode…

[00:38:59] Fazer cinema.

[00:39:01] A gente pode fazer poesia.

[00:39:03] A gente pode tomar…

[00:39:05] E isso é muito claro hoje.

[00:39:07] Quando a gente pensa nos desafios de levar as pessoas até encontros políticos.

[00:39:09] Você vai fazer uma roda de conversa.

[00:39:11] Sobre um autor super importante.

[00:39:13] Que seja Fanon.

[00:39:15] Que seja qualquer…

[00:39:17] Muitas vezes.

[00:39:19] É difícil de levar as pessoas até o lugar.

[00:39:21] Porque uma roda de conversa.

[00:39:23] Nem sempre é o maior atrativo.

[00:39:25] Para alguém num sábado à tarde.

[00:39:27] E aí formalmente.

[00:39:29] Por mais que o conteúdo seja incrível.

[00:39:31] Formalmente isso é um pouco envelhecido.

[00:39:33] Então tem um convite a fazer.

[00:39:35] Vamos fazer um Fanon e fazer uma festa depois.

[00:39:37] Vamos ler o livro.

[00:39:39] E depois a gente tem que comer.

[00:39:41] A gente faz um almoço.

[00:39:43] Como é que a gente transforma a forma do acontecer político.

[00:39:45] E eu acho que isso está tomado.

[00:39:47] Pelo espírito de 1968.

[00:39:49] E o Foucault pensa isso de uma forma muito inteligente.

[00:39:51] De pensar.

[00:39:53] A política como um acontecimento.

[00:39:55] Que tem que ser alegrador.

[00:39:57] Por mais que as circunstâncias.

[00:39:59] Sejam entristecedoras.

[00:40:01] Por mais que a gente vá se reunir para falar de racismo.

[00:40:03] Para falar de machismo, de misoginia.

[00:40:05] Como é que a gente faz então.

[00:40:07] Com que esse encontro.

[00:40:09] Seja em ato.

[00:40:11] Um acontecimento de alegria.

[00:40:13] E aí eu acho que é um pouco esse.

[00:40:15] O desafio.

[00:40:17] E aí realmente o desafio não é não se entristecer.

[00:40:19] O desafio é como fazer da tristeza.

[00:40:21] Como dar lugar para a tristeza.

[00:40:23] Num coletivo que.

[00:40:25] Por estar junto.

[00:40:27] Se afirma de forma mais alegre.

[00:40:29] Esse é o ponto.

[00:40:31] Só que é um ponto bem delicado.

[00:40:33] Eu considero.

[00:40:35] Esse ponto do texto.

[00:40:37] Eu acho que é o ponto mais delicado.

[00:40:39] E eu citei o Foucault.

[00:40:41] Deliberadamente.

[00:40:43] Como provocação.

[00:40:45] O que a gente tem.

[00:40:47] Eu acho que a gente tem um terceiro momento talvez.

[00:40:49] Até um momento de síntese.

[00:40:51] Não sei o que é.

[00:40:53] O primeiro momento dessa militância.

[00:40:55] Aguerrida.

[00:40:57] Segurando o manifesto comunista na mão.

[00:40:59] E dizendo esse mundo é intolerável.

[00:41:01] E eu consigo entender facilmente.

[00:41:03] O proletário russo.

[00:41:05] Fazendo isso.

[00:41:07] E matando o Kizar.

[00:41:09] Entendo essa luta.

[00:41:11] E aí a gente tem o Foucault nesse outro lugar.

[00:41:13] Não há militante triste.

[00:41:15] O militante não precisa ser triste.

[00:41:17] E aí eu brinco com a falta.

[00:41:19] E com a tristeza.

[00:41:21] Para dizer.

[00:41:23] Eu sou triste em vários momentos.

[00:41:25] De novo.

[00:41:27] Eu sinto que é um pouco daquela provocação.

[00:41:29] Da recomendação.

[00:41:31] Para um Rafael de 10 anos atrás.

[00:41:33] Que está dizendo.

[00:41:35] Olha Rafael legal.

[00:41:37] Não existe militante triste.

[00:41:39] Se lê o prefácio.

[00:41:41] Do anti-édipo.

[00:41:43] Para a versão americana.

[00:41:45] Mas por que a gente fica triste tantas vezes.

[00:41:47] E eu acho que nesse ponto.

[00:41:49] Eu tenho um pessimismo um pouco maior que o de vocês.

[00:41:51] Talvez eu esteja um pouco mais isolado.

[00:41:53] Que vocês.

[00:41:55] Seja uma coisa a se pensar.

[00:41:57] Mesmo depois desses 10 anos.

[00:41:59] E mesmo tendo lido o anti-édipo.

[00:42:01] Mais de uma vez.

[00:42:03] Eu sinto esse isolamento.

[00:42:05] E essa tristeza.

[00:42:07] Então a recomendação é.

[00:42:09] A militância não precisa ser triste.

[00:42:11] E eu entendi isso.

[00:42:13] Mas.

[00:42:15] Ainda vai ser as vezes.

[00:42:17] Ainda vai dar errado as vezes.

[00:42:19] Ainda eu vou ficar perdido.

[00:42:21] As vezes.

[00:42:23] Então é quase um lance do tipo.

[00:42:25] Beleza.

[00:42:27] Agora está de noite.

[00:42:29] E vai nascer o sol.

[00:42:31] Mas agora está de noite.

[00:42:33] Agora deu errado.

[00:42:35] É uma tentativa de quebrar um pouco.

[00:42:37] Essa idealização.

[00:42:39] Não haverá lutas felizes.

[00:42:41] Não haverão.

[00:42:43] A gente está vendo o mundo sendo destruído.

[00:42:45] A gente está vendo.

[00:42:47] Aquecimento global e bilionários.

[00:42:49] E é claro que a luta não precisa.

[00:42:51] Ser contaminada de ressentimento.

[00:42:53] Mas tem um tanto de ódio.

[00:42:55] E um tanto de tristeza.

[00:42:57] Que talvez ainda sejam ferramentas.

[00:42:59] Que não passem exatamente.

[00:43:01] Pela militância alegre.

[00:43:03] Sim eu acho que melhor do que Foucault.

[00:43:05] Melhor do que Guattari.

[00:43:07] Quem fez a síntese.

[00:43:09] Discutido aqui.

[00:43:11] É a Emma Goldman.

[00:43:13] Se eu não puder dançar nessa revolução.

[00:43:15] Então ela não é minha.

[00:43:17] É um pouco sobre isso.

[00:43:19] Não é sobre não ser triste.

[00:43:21] É sobre a nossa capacidade de dançar.

[00:43:23] Porque ninguém consegue carregar essa bandeira.

[00:43:25] Se ela for um sacrifício.

[00:43:27] Então é um pouco sobre isso.

[00:43:29] É sobre poder se levantar.

[00:43:31] Em alegria.

[00:43:33] No meio da tristeza.

[00:43:35] Porque afinal de contas.

[00:43:37] Nós estamos lidando com tudo isso.

[00:43:39] E se a gente não puder cantar.

[00:43:41] Não puder dançar.

[00:43:43] Não puder se alegrar.

[00:43:45] Eu lembro quando teve o ato.

[00:43:47] Um dos maiores atos que teve.

[00:43:49] No ano passado.

[00:43:51] Contra o feminicídio.

[00:43:53] Que um dos momentos mais bonitos que eu senti.

[00:43:55] Pelo menos estando nesse ato.

[00:43:57] Foi quando a gente cantou Maria Maria do Milton.

[00:43:59] Foi um dos momentos onde eu senti.

[00:44:01] Que estava todo mundo mais conectado.

[00:44:03] Durante os discursos.

[00:44:05] Com muita raiva.

[00:44:07] Que são fundamentais sim.

[00:44:09] Num ato político desse porte.

[00:44:11] Eu sentia que as pessoas estavam mais dispersas.

[00:44:13] Elas estavam mais…

[00:44:15] O que eu acho é.

[00:44:17] Tem um tipo de manifestação política.

[00:44:19] Que vem pela alegria.

[00:44:21] E o que eles estão dizendo é.

[00:44:23] Isso não é dispensável.

[00:44:25] Isso precisa ser parte do nosso fazer político.

[00:44:27] Eles dizem desse lugar.

[00:44:29] Da luta ser ética, estética e política.

[00:44:31] Que vai caminhar exatamente nessa direção.

[00:44:33] Acho.

[00:44:35] É uma crítica a um marxismo.

[00:44:37] Com essa ideia de alienação.

[00:44:39] Se o outro falar a minha linguagem.

[00:44:41] Que é bem colonialista.

[00:44:43] Se a gente parar para pensar.

[00:44:45] Se o outro falar a minha linguagem.

[00:44:47] A gente faz a revolução.

[00:44:49] Porque as pessoas só não fizeram a revolução.

[00:44:51] Porque elas não acessaram esse conhecimento.

[00:44:53] Está todo mundo alienado.

[00:44:55] E aí a gente vai desembocar numa coisa que é.

[00:44:57] Os fascistas não chegaram lá enganando as pessoas.

[00:44:59] O desejo passou por esse lugar.

[00:45:01] Esse desejo foi cooptado.

[00:45:03] Então quando a gente pensa numa luta.

[00:45:05] Que imprime.

[00:45:07] De saída.

[00:45:09] Um campo de expressão.

[00:45:11] A gente vai começar a pensar em outras formas.

[00:45:15] De lidar com a nossa raiva.

[00:45:17] Lidar com a nossa frustração.

[00:45:19] Lidar com a nossa tristeza.

[00:45:21] Então esse exemplo que você fala do cantar.

[00:45:23] Produz nos corpos.

[00:45:25] Algo muito diferente.

[00:45:27] Do que apenas aquele discurso.

[00:45:29] De uma certa conscientização.

[00:45:31] Do que precisa acontecer.

[00:45:33] Da informação.

[00:45:35] Porque no fim das contas.

[00:45:37] Será que a gente está informando?

[00:45:39] Tem algo que eles dizem.

[00:45:41] Que acho que é muito fundamental.

[00:45:43] Do tipo.

[00:45:45] Esse campo da linguagem ser muito mais.

[00:45:47] Algo que está direcionado para uma palavra de ordem.

[00:45:49] Do que algo que realmente informa.

[00:45:51] Então talvez.

[00:45:53] Algo que a linguagem nunca vai chegar.

[00:45:55] Porque os campos são tão diversos.

[00:45:57] Ainda mais quando a gente pensa em lutas populares.

[00:45:59] Seja o campo da expressão.

[00:46:01] Que é algo que conecta a gente.

[00:46:03] Enquanto gente.

[00:46:05] É conseguir.

[00:46:07] Ter essa empatia.

[00:46:09] Conseguir entender e sentir.

[00:46:11] Aquilo que o outro está sentindo.

[00:46:13] Quando você vê alguém triste.

[00:46:15] É difícil você ficar olhando a pessoa triste.

[00:46:17] E estar alegre.

[00:46:19] A não ser que seja um filho da puta.

[00:46:21] Mas no geral.

[00:46:23] É contagiante você.

[00:46:25] Perceber o que o outro está sentindo.

[00:46:27] E isso está muito mais no campo da expressão.

[00:46:29] Do que no campo da linguagem.

[00:46:31] Sim.

[00:46:33] Essa ideia.

[00:46:35] Eu entendo uma certa resistência do Rafael.

[00:46:37] E uma certa crítica de um chileleísmo.

[00:46:39] De tipo.

[00:46:41] Positividade tóxica.

[00:46:43] Vibes positivas.

[00:46:45] O exemplo que eu dei é.

[00:46:47] Um milhão de pessoas.

[00:46:49] Majoritariamente mulheres.

[00:46:51] Cantando juntas.

[00:46:53] Maria Maria é um dom.

[00:46:55] Uma certa magia.

[00:46:57] Uma força que nos alerta.

[00:46:59] Uma mulher que merece viver e amar.

[00:47:01] O que o Guima trouxe é muito importante.

[00:47:03] Que é.

[00:47:05] O programa fascista.

[00:47:07] Ele foi montado.

[00:47:09] Sob uma base.

[00:47:11] Ideológica também.

[00:47:13] De propaganda.

[00:47:15] De organização de expressão.

[00:47:17] Isso.

[00:47:19] Para quem leu o meu platô.

[00:47:21] Tem o platô do microfascismo.

[00:47:23] Eles falam muito sobre isso.

[00:47:25] E tem um filme chamado.

[00:47:27] Um dia especial.

[00:47:29] Que é a vida de uma dona de casa.

[00:47:31] No dia que Hitler vai visitar a Itália.

[00:47:33] E como o rádio está o tempo inteiro ligado.

[00:47:35] E como tem o tempo inteiro.

[00:47:37] Está todo mundo contaminado por aquilo.

[00:47:39] Como uma grande festa.

[00:47:41] É uma grande festa.

[00:47:43] Quando Hitler visita a Itália.

[00:47:45] Ou seja.

[00:47:47] Eles sabem disso.

[00:47:49] Eles também sabem.

[00:47:51] O que eles chamam de alegria.

[00:47:53] É uma máquina suicidária.

[00:47:55] Mas a questão é.

[00:47:57] Como o Guimarães falou.

[00:47:59] Tem uma certa expressão que a gente precisa buscar.

[00:48:01] Que é o que contamina.

[00:48:03] Que é o que produz.

[00:48:05] Isso não é um tileleísmo.

[00:48:07] Isso é a produção de um tipo de imaginário coletivo.

[00:48:09] Isso é a produção de uma sensibilidade coletiva.

[00:48:11] Para os temas que a gente acha que são mais relevantes.

[00:48:13] Eu até lembrei.

[00:48:15] Ontem eu estava assistindo.

[00:48:17] Apocalipse nos Trópicos.

[00:48:19] E tipo. Meu Deus.

[00:48:21] Esquisitíssimo.

[00:48:23] Mas é exatamente sobre isso.

[00:48:25] Há uma linguagem.

[00:48:27] Que existe.

[00:48:29] Aqui no nosso contexto.

[00:48:31] Está se dando muito através da questão.

[00:48:33] Das igrejas neopentecostais.

[00:48:35] Esse ideal.

[00:48:37] Esse imaginário evangélico.

[00:48:39] É toda uma outra linguagem.

[00:48:41] E aí eu acho muito curioso.

[00:48:43] O momento que a Petra Costa comenta.

[00:48:45] Tipo. Eu sei sobre a revolução da Rússia.

[00:48:47] Que eu lembrei do Rafael falando.

[00:48:49] Eu sei sobre isso.

[00:48:51] Mas eu não sei o que diz na Bíblia.

[00:48:53] Quer dizer.

[00:48:55] A gente está convivendo.

[00:48:57] No mesmo espaço.

[00:48:59] Com pessoas que falam linguagens totalmente diferentes.

[00:49:01] Então como é que a gente vai conseguir.

[00:49:03] Acessar.

[00:49:05] Ter acesso a essas pessoas também.

[00:49:07] Para a gente poder trocar.

[00:49:09] Ou fazer algo diferente.

[00:49:11] Porque essas propagandas tem um bombardeamento que é diário.

[00:49:13] Silas Malafaia está todo dia na televisão.

[00:49:15] Falando um monte de merda.

[00:49:17] E não só ele.

[00:49:19] Quantos pastores.

[00:49:21] E não só nas televisões.

[00:49:23] Em todos os lugares.

[00:49:25] Onde as vezes não chegou nada do Estado.

[00:49:27] Mas a igreja já chegou.

[00:49:29] Então.

[00:49:31] Esse campo de disputa também.

[00:49:33] Não sei.

[00:49:35] Parece que o trabalho de base.

[00:49:37] Que a propaganda fascista tem.

[00:49:39] Está muito estabelecido.

[00:49:41] E muito bem empregado.

[00:49:43] Então de alguma forma.

[00:49:45] Acho que eles aprendem.

[00:49:47] Eles sabem a linguagem.

[00:49:49] Eles sabem dos constrangimentos que existem.

[00:49:51] No discurso da esquerda.

[00:49:53] E aí fica muito uma sensação.

[00:49:55] De que eles nos conhecem muito melhor.

[00:49:57] Do que a gente conhece eles.

[00:49:59] Olha.

[00:50:01] Eu acho que tem dois pontos.

[00:50:03] Que eu estou tirando disso.

[00:50:05] Que a gente está conversando.

[00:50:07] O primeiro deles.

[00:50:09] É a famosa.

[00:50:11] Constatação espinozista.

[00:50:13] Do quanto a gente é pequeno.

[00:50:15] Na quarta parte da ética.

[00:50:17] A gente é pequeno.

[00:50:19] A gente vai se frustrar.

[00:50:21] E a gente precisa entender.

[00:50:23] Como isso vai acontecer.

[00:50:25] E como ter recursos para isso.

[00:50:27] Porque as vezes a gente vai ficar triste.

[00:50:29] Então beleza.

[00:50:31] Isso pode acontecer as vezes.

[00:50:33] E aí quais são os recursos que a gente tem.

[00:50:35] Para lutar.

[00:50:37] A esquizoanálise não vai deixar a gente imune a isso.

[00:50:39] Brincando com aquela festa do desejo.

[00:50:41] E a segunda coisa.

[00:50:43] É o quanto essa festa do desejo.

[00:50:45] Tem algo de um tanto.

[00:50:47] E aí o Rafael falou do.

[00:50:49] Cheleleísmo.

[00:50:51] Que eu gostei da expressão.

[00:50:53] Do desejo.

[00:50:55] Ela não é feita puramente.

[00:50:57] De alegria.

[00:50:59] É claro que tem.

[00:51:01] E é claro que é importante.

[00:51:03] Mas o que eu estou tentando trazer no texto.

[00:51:05] É um pouco esse deleuze.

[00:51:07] Que também é um tanto agressivo.

[00:51:09] Um deleuze do mioplatose.

[00:51:11] E do antiédipo.

[00:51:13] São diferentes.

[00:51:15] Existe uma agressividade alegre.

[00:51:17] Talvez a gente possa dizer então.

[00:51:19] Que é um pouco dessa agressividade.

[00:51:21] Mesmo que o inimigo seja.

[00:51:23] Eu vou usar invencível.

[00:51:25] Pensando na nossa finitude.

[00:51:27] Vamos assim.

[00:51:29] Mesmo que o inimigo seja invencível.

[00:51:31] A gente não vai deixar.

[00:51:33] Que a besteira seja dita.

[00:51:35] Continuamente em voz alta.

[00:51:37] Tem um pouco desse prazer.

[00:51:39] Desafinar o coro dos contentes.

[00:51:41] E aí no caso os contentes são eles.

[00:51:43] É isso que eu quero.

[00:51:45] Que eu quero dizer.

[00:51:47] Eu fico um pouco com essas duas ideias.

[00:51:49] Na cabeça que é.

[00:51:51] Existem estratégias que são agressivas.

[00:51:53] E que mesmo estando em um campo.

[00:51:55] De tristeza.

[00:51:57] Elas não se deixam ser ressentidas.

[00:51:59] Nietzsche, Spinoza.

[00:52:01] Tinha uma agressividade bem forte.

[00:52:03] Também nos textos.

[00:52:05] Deleuze e Guattari.

[00:52:07] Tem uma ironia que passa pelos textos.

[00:52:09] Um humor até.

[00:52:11] E talvez pensar.

[00:52:13] Que esses caminhos.

[00:52:15] Eles também estão colocados.

[00:52:17] A gente tem mais de uma estratégia.

[00:52:19] Isso também é possível.

[00:52:21] Acho que eu fui um pouco por aí.

[00:52:23] Temos vários afetos.

[00:52:25] Um militante.

[00:52:27] Um esquizonalista.

[00:52:29] Que é atravessado por vários afetos.

[00:52:31] Ele não se encastelou.

[00:52:33] Num bunker de alegria.

[00:52:35] Sei lá.

[00:52:37] É dele a frase.

[00:52:39] Decepcionar é um prazer.

[00:52:41] É do Foucault eu acho.

[00:52:43] É a cara do Foucault dizer isso.

[00:52:45] Acho que vai muito nessa direção.

[00:52:47] Do tipo.

[00:52:49] Não se submeter também.

[00:52:51] Não se dobrar.

[00:52:53] Não se docilizar pelo que se deseja.

[00:52:55] Acho que o que ele faz com a filosofia.

[00:52:57] O texto dele.

[00:52:59] Vai muito nessa direção.

[00:53:01] Eu não estou preocupado em falar na língua de vocês.

[00:53:03] Nesse sentido.

[00:53:05] É legal.

[00:53:07] Acho que é contagiante.

[00:53:09] É gostoso de entrar em contato.

[00:53:11] Porque são isso.

[00:53:13] São mais ferramentas para a gente pensar.

[00:53:15] Numa luta.

[00:53:17] Para não ficar num campo restrito.

[00:53:19] Imaginando que.

[00:53:21] A revolução só vale a pena.

[00:53:23] Se ela acontecer.

[00:53:25] E for a nível mundial.

[00:53:27] É.

[00:53:29] Eu não estou mais com idade para pensar isso.

[00:53:31] E eu juro que.

[00:53:33] Eu lembro de 2013.

[00:53:35] De uma empolgação enorme.

[00:53:37] Uma sensação bizarra.

[00:53:39] De agora vai.

[00:53:41] Eu acho que a gente teve.

[00:53:43] Em 2013.

[00:53:45] Uma vida que quem estava em maio de 1968 teve.

[00:53:47] E dói.

[00:53:49] Pensar que.

[00:53:51] Na verdade o que a gente conseguiu.

[00:53:53] Com o Supremo e com tudo.

[00:53:55] Foi tirar a Dilma e botar o Bolsonaro.

[00:53:57] Quando você pensa isso.

[00:53:59] É meio desesperador.

[00:54:01] Mas espera aí.

[00:54:03] Calma lá.

[00:54:05] A história também tem suas reviravoltas.

[00:54:07] E a gente está aí.

[00:54:09] Para fazer algo com isso.

[00:54:11] Estar na altura do acontecimento.

[00:54:13] Eu diria.

[00:54:15] Eu acho que tem algo.

[00:54:17] Do nosso campo.

[00:54:19] Que o nosso corpo carrega.

[00:54:21] E falando mais do meu.

[00:54:23] E do Trindade.

[00:54:25] De ser a nata da norma.

[00:54:27] Que é.

[00:54:29] Não existe uma urgência.

[00:54:31] De sobrevivência.

[00:54:33] Na coisa.

[00:54:35] Quantos corpos.

[00:54:37] Não tem outra alternativa.

[00:54:39] A não ser a luta.

[00:54:41] Para continuar vivendo.

[00:54:43] Talvez essa urgência.

[00:54:45] Não nos afete.

[00:54:47] Desse jeito.

[00:54:49] Nos afeta por outras formas.

[00:54:51] Como eu estava falando.

[00:54:53] Na questão da gente sentir isso.

[00:54:55] Quando a gente está próximo.

[00:54:57] De sentir o que o outro sente.

[00:54:59] Mas não tem esse imediatismo.

[00:55:01] Que outros corpos precisam ter.

[00:55:03] Se não viverem.

[00:55:05] Se não encontrarem isso.

[00:55:07] Vão precisar.

[00:55:09] Para a gente não ficar em um campo.

[00:55:11] Vamos ser revolucionários.

[00:55:13] Porque é bonito.

[00:55:15] Para quem quer estar.

[00:55:17] Não sei.

[00:55:19] A gente tem que lembrar.

[00:55:21] Outro fator de alegria.

[00:55:23] Lembrar que.

[00:55:25] Não tem uma luta sendo perdida.

[00:55:27] Tem uma luta sendo lutada.

[00:55:29] Todo mundo fazendo acontecer.

[00:55:31] Vocês ouviram travessias.

[00:55:33] Duas semanas passadas.

[00:55:35] Saiu um travessia sobre.

[00:55:37] As meninas.

[00:55:39] Ocupando uma garagem.

[00:55:41] Na cidade de Tiradentes.

[00:55:43] Para acolher crianças fora de horário de escola.

[00:55:45] É cultura.

[00:55:47] Oferecer acolhimento.

[00:55:49] Isso não é uma luta.

[00:55:51] Que triste.

[00:55:53] Olha só.

[00:55:55] Não temos.

[00:55:57] Estamos precisando.

[00:55:59] Estamos fazendo.

[00:56:01] Tem uma luta sendo lutada o tempo inteiro.

[00:56:03] Isso significa alegria.

[00:56:05] Isso significa.

[00:56:07] Alguma coisa acontecendo.

[00:56:09] A despeito de todo um cenário.

[00:56:11] Que é contrário.

[00:56:13] Um cenário que é sim triste.

[00:56:15] Decepcionante muitas vezes.

[00:56:17] Mas a gente acreditar nisso.

[00:56:19] É o que leva ao ressentimento.

[00:56:21] Que elege um Bolsonaro.

[00:56:23] Porque o Bolsonaro.

[00:56:25] Ele vem da melancolia.

[00:56:27] Do ressentimento.

[00:56:29] Dos eleitores do Lula.

[00:56:31] Os bolsonaristas em geral.

[00:56:33] Os mais ferrenhos.

[00:56:35] Pega a história deles.

[00:56:37] Votaram no PT.

[00:56:39] No começo do século.

[00:56:41] Votaram no messianismo.

[00:56:43] Lulista.

[00:56:45] Estavam lá.

[00:56:47] Com o adesivo do PT no peito.

[00:56:49] E é essa descrença.

[00:56:51] É achar que a luta está sendo perdida.

[00:56:53] E que esse inimigo.

[00:56:55] Ele é.

[00:56:57] Ele é invencível.

[00:56:59] É o que leva a gente.

[00:57:01] A deixar de acreditar nas coisas.

[00:57:03] Que a gente consegue fazer.

[00:57:05] E no que a gente precisa fazer.

[00:57:07] É muito bom Guimarães lembrar sobre isso.

[00:57:09] Que é sobre.

[00:57:11] Fazer um mutirão.

[00:57:13] Para levantar uma casa que alguém perdeu.

[00:57:15] Não é.

[00:57:17] A gente não chega lá pensando.

[00:57:19] Deixa eu me implicar com a política na minha comunidade.

[00:57:21] É um outro caminho.

[00:57:23] É um caminho de ação.

[00:57:25] Direta e necessária.

[00:57:27] Por conta de uma realidade.

[00:57:29] Que é política o tempo inteiro.

[00:57:31] A política não é uma escolha para muita gente.

[00:57:33] E aí.

[00:57:35] Eu acho que tem isso a ser colocado.

[00:57:37] E quando a gente olha para isso.

[00:57:39] A gente fica muito decepcionado com a realidade.

[00:57:41] E se implica mais aonde é relevante.

[00:57:43] Do que cair numa depressão.

[00:57:45] De achar que não tem jeito.

[00:57:47] Que não tem volta.

[00:57:49] Ressentimento é a palavra.

[00:57:51] Assim.

[00:57:53] A passagem da tristeza para o ressentimento.

[00:57:55] Para mim é o movimento.

[00:57:57] Que é proibido.

[00:57:59] Acho que.

[00:58:01] A maior tentação.

[00:58:03] O maior perigo é esse.

[00:58:05] Porque.

[00:58:07] Talvez eu esteja insistindo muito nisso.

[00:58:09] É inevitável a tristeza.

[00:58:11] Olha as condições.

[00:58:13] E a gente ainda.

[00:58:15] Privilegiados.

[00:58:17] Mas olha as condições.

[00:58:19] O quanto a gente tem um antídoto para o ressentimento.

[00:58:21] O quanto a gente evita cair nisso.

[00:58:23] Talvez seja esse.

[00:58:25] O movimento.

[00:58:27] Que a gente espera.

[00:58:29] Dentro do desquisito.

[00:58:31] Com certeza é algo a se evitar.

[00:58:33] Com muita força.

[00:58:35] Que é exatamente a passagem.

[00:58:37] Que está ali no texto.

[00:58:39] Que é impossível você não sentir tristeza.

[00:58:41] Talvez seja esse o movimento.

[00:58:43] É que ficou a questão edípica lá no meio.

[00:58:45] Mas a passagem que tem.

[00:58:47] É impossível você não sentir tristeza.

[00:58:49] Mas nada.

[00:58:51] Isso não é um impeditivo.

[00:58:53] Da luta continuar.

[00:58:55] Acontecendo.

[00:58:57] O esquizoanalista não para de ser esquizoanalista.

[00:58:59] Pelo fato óbvio de que ele vai sentir.

[00:59:01] Tristeza.

[00:59:03] Isso não invalida todas as teses.

[00:59:05] Que estão colocadas.

[00:59:07] No livro.

[00:59:09] E que ele ainda pode assinar embaixo.

[00:59:11] E entender isso como algo importante.

[00:59:13] E interessante na vida dele.

[00:59:15] É que eu acho que é uma boa entrada.

[00:59:17] Para a gente falar sobre a falta.

[00:59:19] A falta.

[00:59:21] Só faltava isso.

[00:59:23] Então pronto.

[00:59:25] Agora não falta mais nada.

[00:59:27] Manda ver.

[00:59:29] Não sei.

[00:59:31] Tem édipo aí no meio.

[00:59:33] Olha lá.

[00:59:35] Quem me dera.

[00:59:37] Foi sim.

[00:59:39] Que assim.

[00:59:41] Para a gente retomar isso.

[00:59:43] E iniciar de um jeito curioso.

[00:59:45] Foi outra coisa que me chamou muito a atenção.

[00:59:47] No seu texto.

[00:59:49] Quando você fala sobre o que fazer.

[00:59:51] Com a inegável sensação de falta.

[00:59:53] E aí.

[00:59:55] A resposta é simples.

[00:59:57] E aí eu fiquei tipo assim.

[00:59:59] Caralho.

[01:00:01] Eu adoro textos de mil palavras.

[01:00:03] Simples é fácil.

[01:00:05] Porra simples.

[01:00:07] Só porque eu usei essa palavra.

[01:00:09] Não quer dizer que seja.

[01:00:11] Simples.

[01:00:13] Eu fiquei pensando.

[01:00:15] Quanto de apropriação não teve então.

[01:00:17] Num estudo de espinosa.

[01:00:19] Para você chegar e falar simples assim.

[01:00:21] É tipo assim.

[01:00:23] Pobre Rafael de 10 anos atrás.

[01:00:27] Que difícil é ser tão simples.

[01:00:29] É.

[01:00:31] Eu acho que esse simples.

[01:00:33] De uma orientação.

[01:00:35] Clínica para mim.

[01:00:37] Que é.

[01:00:39] O paciente vem falando do que falta.

[01:00:41] O paciente vem falando do que dói.

[01:00:43] Do que falta.

[01:00:45] Do que ele sente saudades.

[01:00:47] Do que ele anseia.

[01:00:49] Do que ele quer achar.

[01:00:51] Mas não consegue.

[01:00:53] O paciente vem falando disso.

[01:00:55] E é óbvio.

[01:00:57] Que o meu discurso.

[01:00:59] Não é uma oração esquizoanalítica.

[01:01:01] Dizendo que a falta não existe.

[01:01:03] É óbvio que eu não vou fazer isso.

[01:01:05] É óbvio que eu não vou chegar para o paciente.

[01:01:07] E dizer então.

[01:01:09] Você já ouviu falar de Deleuze Guattari.

[01:01:11] A falta não existe.

[01:01:13] Eu não vou fazer isso.

[01:01:15] Porque isso é absurdamente real.

[01:01:17] Para aquela pessoa vivendo aquilo.

[01:01:19] E é real porque é real.

[01:01:21] Ela está sentindo aquilo.

[01:01:23] Então quando eu digo o simples.

[01:01:25] Que incomodou o Guima.

[01:01:27] E eu entendo.

[01:01:29] É porque eu começo a olhar para isso.

[01:01:31] Eu entendo que está.

[01:01:33] Peguei.

[01:01:35] Você chegou.

[01:01:37] Aí está localizada a sensação de falta.

[01:01:39] É aí que a gente tem que se concentrar.

[01:01:41] Porque se a falta é.

[01:01:43] Mas ela não existe.

[01:01:45] Então ela é algum.

[01:01:47] Ela é algum efeito de alguma coisa acontecendo.

[01:01:49] Que é exatamente onde a gente precisa.

[01:01:51] Se concentrar.

[01:01:53] É esse o ponto que a gente precisa olhar.

[01:01:55] Não porque eu vou falar para você.

[01:01:57] Que é uma ilusão.

[01:01:59] Esse é o ponto.

[01:02:01] Esse é o nó.

[01:02:03] A se trabalhar.

[01:02:05] Esse é o buraco.

[01:02:07] A se olhar.

[01:02:09] E entender melhor.

[01:02:11] O que está acontecendo.

[01:02:13] Então é uma simplicidade.

[01:02:15] De saída.

[01:02:17] Eu aprendi a olhar para isso.

[01:02:19] De uma maneira mais direta.

[01:02:21] Pensando que esse é o ponto.

[01:02:23] Que me faz entender.

[01:02:25] Qual é a correlação de forças.

[01:02:27] Que está estabelecida ali.

[01:02:29] Eu tenho que fazer terapia.

[01:02:31] Ou poderia ser qualquer outra coisa.

[01:02:33] Mas nesse caso.

[01:02:35] Eu sou o terapeuta.

[01:02:37] Que a pessoa veio conversar.

[01:02:39] É simples de saída.

[01:02:41] Acho que dá para dizer assim.

[01:02:43] Eu acho que.

[01:02:45] Pensando essa relação.

[01:02:47] Entre ontologia.

[01:02:49] E subjetivação.

[01:02:51] Eu tendo a.

[01:02:53] Ir por um caminho que é.

[01:02:55] A gente só está vivo por conta de uma abundância.

[01:02:57] Por conta de algo que se afirma o tempo inteiro.

[01:02:59] Então ontologicamente.

[01:03:01] Podemos seguir Spinoza.

[01:03:03] Podemos seguir Deleuze.

[01:03:05] Podemos ficar com eles nessa afirmação.

[01:03:07] Mas a gente é estruturado.

[01:03:09] De uma determinada maneira.

[01:03:11] A gente monta a nossa vida.

[01:03:13] Em torno de determinadas imagens de nós mesmos.

[01:03:15] Em torno de determinadas.

[01:03:17] Progressos que a gente imagina.

[01:03:19] Conquistas que a gente imagina.

[01:03:21] E aí eu acho que.

[01:03:23] Se deparar com a falta.

[01:03:25] E tentar trabalhar com ela.

[01:03:27] E perceber também.

[01:03:29] Essas estruturas.

[01:03:31] E aí tentar mexer com essas estruturas.

[01:03:33] E aí eu também acho isso.

[01:03:35] Extremamente difícil.

[01:03:37] E aí a gente vai chegar em Édipo daqui a pouco.

[01:03:39] Porque essas estruturas.

[01:03:41] Elas nos foram colocadas desde o primeiro dia.

[01:03:43] A partir de uma história.

[01:03:45] Que acompanha toda uma família.

[01:03:47] Todo um núcleo.

[01:03:49] Que te transmitiu determinadas ideias de si.

[01:03:51] Ideias de família.

[01:03:53] Ideias de amor.

[01:03:55] Imagens mesmo.

[01:03:57] E são imagens.

[01:03:59] Então eu concordo.

[01:04:01] Eu acho que isso é uma ferramenta.

[01:04:03] Pensar o desejo como produção.

[01:04:05] É uma ferramenta para quebrar algumas imagens.

[01:04:07] Para encontrar brechas mesmo.

[01:04:09] Para encontrar algumas coisas.

[01:04:11] Só que isso.

[01:04:13] São coisas que a gente consegue mexer.

[01:04:15] A verdade dolorosa é pouco.

[01:04:17] A gente com muito esforço.

[01:04:19] A gente consegue se modificar.

[01:04:21] Consegue se abrir.

[01:04:23] Consegue fazer coisas novas.

[01:04:25] Consegue não deixar fazer com que a falta paralise a gente.

[01:04:27] Em uma ideia de nós mesmos.

[01:04:29] Em uma ideia de relação.

[01:04:31] Em uma ideia de vida bem sucedida.

[01:04:33] A gente consegue abrir essas imagens.

[01:04:35] E encontrar relações.

[01:04:37] Voltar a encontrar o mundo.

[01:04:39] E perceber que o mundo e a vida.

[01:04:41] Se afirmam em uma riqueza.

[01:04:43] Em uma multiplicidade interminável.

[01:04:45] Tem muitas maneiras de ser.

[01:04:47] Tem muitas maneiras de viver.

[01:04:49] Mas isso tudo é feito com muita dificuldade.

[01:04:51] Isso tudo é feito com muita dificuldade.

[01:04:53] Então aí eu entendo.

[01:04:55] Essa recomendação.

[01:04:57] Como um lembrete disso.

[01:04:59] De que.

[01:05:01] Dizer que o desejo.

[01:05:03] É produção.

[01:05:05] Não é suficiente.

[01:05:07] É preciso lembrar.

[01:05:09] Que a gente está estruturado.

[01:05:11] De uma determinada maneira.

[01:05:13] Onde as nossas faltas estão localizadas.

[01:05:15] De forma que a gente vai repetir.

[01:05:17] Se dar de frente.

[01:05:19] Encontrar essas carências.

[01:05:21] Múltiplas vezes ao longo da nossa vida.

[01:05:23] E para tentar entender.

[01:05:25] O que é que a gente pode fazer com elas.

[01:05:27] E quem sabe.

[01:05:29] Encontrar algum caminho.

[01:05:31] Mas o otimismo.

[01:05:33] De base ontológico.

[01:05:35] Ele ainda permanece.

[01:05:37] Que é enquanto a gente está vivo.

[01:05:39] Enquanto a gente tem força.

[01:05:41] A gente consegue encontrar caminho.

[01:05:43] Para fazer as coisas.

[01:05:45] Para inclusive.

[01:05:47] Driblar essas faltas.

[01:05:49] Encontrar outros problemas melhores.

[01:05:51] Enfim.

[01:05:53] Substituir determinadas coisas.

[01:05:55] Mas eu acho que a falta tem um lugar de acontecimento.

[01:05:57] Mesmo que é inescapável.

[01:05:59] Eu concordo.

[01:06:01] E mais um adendo.

[01:06:03] É isso que você está falando.

[01:06:05] Que ilusão.

[01:06:07] Se o clínico achar.

[01:06:09] Que ele vai dar conta disso.

[01:06:11] Pelo amor de Deus.

[01:06:13] Não vai.

[01:06:15] A questão se dá muito mais fora.

[01:06:17] Na minha experimentação.

[01:06:19] Porque se o terapeuta acha.

[01:06:21] Que ele está na posição.

[01:06:23] De quem vai conseguir preencher essa falta.

[01:06:25] Do paciente.

[01:06:27] Pelo amor de Deus.

[01:06:29] Já deu merda.

[01:06:31] Eu acho que ele só chega nessa ilusão.

[01:06:33] Quando ele acredita que consegue fazer isso com isso mesmo.

[01:06:35] Com ele mesmo.

[01:06:37] A partir de si mesmo.

[01:06:39] Se ele achar que essa relação.

[01:06:41] A própria relação terapeuta-paciente.

[01:06:43] A própria relação clínica pode ser preenchida.

[01:06:45] Nossa eu sou um grande terapeuta.

[01:06:47] Eu sou incrível.

[01:06:49] Justamente a posição muito vaidosa.

[01:06:51] De uma imagem de si que não quer ter falta nenhuma.

[01:06:53] Sendo que muitas vezes.

[01:06:55] É se deparar com uma repetição.

[01:06:57] Daquele que você está ouvindo.

[01:06:59] Que é muito semelhante a sua.

[01:07:01] E que você também não consegue fazer nada com isso.

[01:07:03] E aí estamos chegando em édipo muito rápido.

[01:07:05] Você está acelerando agora.

[01:07:07] Você está pisando no acelerador.

[01:07:09] Problemas com mamãe.

[01:07:11] Vai estar ali.

[01:07:13] Vai estar aqui. Vai estar em todo lugar.

[01:07:15] Pode deixar de dizer.

[01:07:17] Que essa falta.

[01:07:19] Ela.

[01:07:21] Inicia uma narrativa.

[01:07:23] Que se reinicia sempre.

[01:07:25] Que também estrutura uma ideia.

[01:07:27] Que se tem de si.

[01:07:29] E todo um sofrimento.

[01:07:31] De uma ideia do que a gente gostaria.

[01:07:33] De ser e que não é.

[01:07:35] Então a gente se percebe faltante.

[01:07:37] Inclusive naquilo que a gente gostaria de ser.

[01:07:39] E não consegue ser.

[01:07:41] Porque muitas vezes é essa narrativa.

[01:07:43] Essa fantasia.

[01:07:45] Essa falta.

[01:07:47] E aí a gente vai repetindo.

[01:07:49] A gente vai entrando nas histórias.

[01:07:51] Encontrou a insegurança.

[01:07:53] E aí de novo.

[01:07:55] Puts.

[01:07:57] Se eu fosse daquele jeito.

[01:07:59] Isso não iria acontecer.

[01:08:01] E repete.

[01:08:03] E repete.

[01:08:05] E aí exatamente sobre isso.

[01:08:07] De aprender a narrar.

[01:08:09] Ou expressar outras coisas.

[01:08:11] Quando essa falta aparece.

[01:08:13] Quando não vai nos entregar tudo o que a gente quer.

[01:08:15] No momento que a gente quer.

[01:08:17] Antes da gente começar a gravação.

[01:08:19] A gente estava brincando aqui.

[01:08:21] Como é que a gente falou.

[01:08:23] Que seria simples.

[01:08:25] Fácil, fácil.

[01:08:27] É só todo mundo fazer o que eu quero.

[01:08:29] É simples.

[01:08:33] E aí como não é isso.

[01:08:35] Como mamãe.

[01:08:37] Ou outras pessoas.

[01:08:39] Que estão ali nos cuidando.

[01:08:41] Que tem suas próprias vidas.

[01:08:43] Tem seus próprios desejos.

[01:08:45] Nem sempre vão querer estar ali.

[01:08:47] Nos servindo.

[01:08:49] O que seria isso.

[01:08:51] Mais do que desejar ser um rei.

[01:08:53] É se deparar que.

[01:08:55] Império no império.

[01:08:57] É se deparar que.

[01:08:59] A gente não é.

[01:09:01] E que ninguém está ali para a gente.

[01:09:03] E nem vai estar sempre.

[01:09:05] E como que a gente se reorganiza nisso.

[01:09:07] Como que a gente não faz.

[01:09:09] Para que o nosso ego.

[01:09:11] Não se submeta a um super ego.

[01:09:13] Ao ideal da sociedade.

[01:09:15] Achando que é isso.

[01:09:17] Que vai resolver os nossos problemas.

[01:09:19] Aí entra um campo muito interessante.

[01:09:21] Que é a gente poder fazer uma crítica social.

[01:09:23] De quais são as mercadorias.

[01:09:25] Que nos são vendidas.

[01:09:27] Como ideias daquilo que a gente deveria ser.

[01:09:29] Para não sentir essas coisas.

[01:09:31] Que são inerentes a nossa existência.

[01:09:33] E aí eu acho que a gente volta.

[01:09:35] Para o convite.

[01:09:37] Do anti-édito.

[01:09:39] É quais são suas máquinas desejantes.

[01:09:41] É o convite.

[01:09:43] More da esquizoanálise.

[01:09:45] É um convite de experimentação.

[01:09:47] Que faça naufragar.

[01:09:49] Aquilo que você acha que é.

[01:09:51] Para tentar fazer emergir.

[01:09:53] E aí eu vou usar de um jeito que vai ficar ruim.

[01:09:55] Mas aquilo que você realmente é.

[01:09:57] Não no sentido de uma essência.

[01:09:59] Mas no sentido de.

[01:10:01] Como essas máquinas funcionam.

[01:10:03] Como você se conecta.

[01:10:05] O que faz sentido para você.

[01:10:07] Fazer tal coisa.

[01:10:09] Mas o que você realmente quer.

[01:10:11] É ver o samba tocando ali.

[01:10:13] No bar no fim de semana à noite.

[01:10:15] É o barulho do pandeiro.

[01:10:17] Que se conecta com você.

[01:10:19] Isso que é interessante.

[01:10:21] Você não sabia.

[01:10:23] Não te deixaram experimentar.

[01:10:25] Mas quando você passa.

[01:10:27] Vai experimentar.

[01:10:29] Sempre dizendo com prudência.

[01:10:31] Tem que sobrar um resto de corpo.

[01:10:33] Tem que ter um lastro de organismo.

[01:10:35] Mas se você experimenta.

[01:10:37] Com esse cuidado.

[01:10:39] Você cria.

[01:10:41] Esses caminhos.

[01:10:43] Um exemplo que deixa eles putos.

[01:10:45] É o pequeno Hans.

[01:10:47] Que quer brincar.

[01:10:49] Ele quer brincar.

[01:10:51] Ele vê as crianças brincando na estação.

[01:10:53] De trem.

[01:10:55] E ele quer sair para brincar.

[01:10:57] E ele não pode.

[01:10:59] Porque ele é uma criança burguesa.

[01:11:01] Que tem que ficar em casa.

[01:11:03] Isso também não pode.

[01:11:05] Você quer deitar na cama com a sua mãe.

[01:11:07] E ele fica tipo.

[01:11:09] O que eu posso?

[01:11:11] Você pode desejar a sua mãe.

[01:11:13] Mas você nunca pode ficar com ela.

[01:11:15] Essa brisa da experimentação.

[01:11:17] Que nunca é permitida.

[01:11:19] Porque experimentar.

[01:11:21] É bem perigoso mesmo.

[01:11:23] Para uma estrutura social rígida.

[01:11:25] Pensando em uma estrutura.

[01:11:27] Que só quer lucrar cada vez mais.

[01:11:29] Experimentação é quase absurda.

[01:11:31] E eu acho que várias.

[01:11:33] Vários campos do pensamento.

[01:11:35] Inclusive a psicanálise.

[01:11:37] São capazes de desfazer.

[01:11:39] Esses fantasmas.

[01:11:41] E capazes de.

[01:11:43] Incentivar.

[01:11:45] Essas experimentações.

[01:11:47] Por isso que grande parte da terapia.

[01:11:49] Não acontece na clínica em si.

[01:11:51] Acontece fora.

[01:11:53] O cara sai com uma pulga atrás da orelha.

[01:11:55] Da sessão.

[01:11:57] Mas a grande parte da cura.

[01:11:59] Da mudança.

[01:12:01] Acontece fora.

[01:12:03] Quando você vê tal pessoa.

[01:12:05] Aí sim.

[01:12:07] Puts, viajei para tal lugar.

[01:12:09] Ouvi tal música.

[01:12:11] Experimentei tal droga.

[01:12:13] Me demiti.

[01:12:15] Falei com meu chefe.

[01:12:17] Falei com meu marido.

[01:12:19] Falei com não sei quem.

[01:12:21] São esses movimentos.

[01:12:23] Que é o movimento do mecânico.

[01:12:25] Eles brincam.

[01:12:27] É um mecânico.

[01:12:29] Você mexe aqui.

[01:12:31] Você passa protetor.

[01:12:33] Você dorme até mais tarde.

[01:12:35] Você faz o que?

[01:12:37] O que você faz?

[01:12:39] Qual a função disso tudo?

[01:12:41] Como isso está amarrado?

[01:12:43] E qual é o efeito de uma vida dessa?

[01:12:45] Que efeito isso gera?

[01:12:47] Efeito de eu quero morrer.

[01:12:49] Ou não.

[01:12:51] Eu viveria isso de novo.

[01:12:53] Mais uma vez.

[01:12:55] Eu viveria isso.

[01:12:57] Eu afirmo isso.

[01:12:59] Quanto isso é existencial?

[01:13:01] Para concluir, acho que a gente pode

[01:13:03] concluir nesse ponto do édipo.

[01:13:05] Porque está no nome do livro também.

[01:13:07] Antiedipo.

[01:13:09] E aí tentar entender um pouco.

[01:13:11] Acho que essa recomendação sua pode servir

[01:13:13] para a gente entender um pouco em linhas gerais

[01:13:15] o que isso quer dizer.

[01:13:17] E aí os meus dois centavos sobre esse assunto

[01:13:19] é o seguinte.

[01:13:21] Na minha leitura sobre esse conflito.

[01:13:23] Édipo, antiedipo.

[01:13:25] É basicamente o seguinte

[01:13:27] que eles estão dizendo.

[01:13:29] Édipo é um mecanismo explicativo

[01:13:31] de como as nossas faltas

[01:13:33] são estruturadas.

[01:13:35] Que corre às vezes o perigo de ser universalizado.

[01:13:37] Quando é universalizado

[01:13:39] ele deixa de ser interessante.

[01:13:41] Porque ele começa

[01:13:43] justamente a fechar os caminhos

[01:13:45] que podem serem

[01:13:47] abertos a partir

[01:13:49] do olhar esse universal

[01:13:51] que ele é múltiplo e aberto.

[01:13:53] Ele não é um universal fechado e estruturado.

[01:13:55] Então tem todo um uso de antropologia,

[01:13:57] um uso de música, de estética, de várias coisas

[01:13:59] para tentar tensionar

[01:14:01] essa tendência de universalização

[01:14:03] de um mecanismo explicativo.

[01:14:05] Porém, isso não significa

[01:14:07] que esse mecanismo explicativo seja ruim.

[01:14:09] Isso não ruim no sentido de que

[01:14:11] muito do que

[01:14:13] esse mito

[01:14:15] o uso desse mito

[01:14:17] ele foi

[01:14:19] ele coube muito bem

[01:14:21] a sua época.

[01:14:23] A uma época vitoriana e burguesa.

[01:14:25] Mas a gente vive

[01:14:27] num tipo de sociedade, de mundo

[01:14:29] que permanece

[01:14:31] pautado por um jeito

[01:14:33] de pensar e viver que é

[01:14:35] moralista e burguês.

[01:14:37] Então, como não

[01:14:39] ter édipo? Como expulsar

[01:14:41] édipo? Não dá pra expulsar.

[01:14:43] Então, é muito mais

[01:14:45] sobre não deixar com que ele tome

[01:14:47] se torne um universal.

[01:14:49] Da experiência e da

[01:14:51] maneira como a gente interpreta

[01:14:53] a experiência, porque senão a gente acaba reconduzindo

[01:14:55] a diferença, a repetição.

[01:14:57] E não é essa a ideia. No entanto, não se trata

[01:14:59] de jogar ele no lixo porque senão

[01:15:01] a gente vai estar sendo muito ingênuo.

[01:15:03] Vai estar basicamente

[01:15:05] negando que a estrutura nuclear

[01:15:07] das nossas famílias

[01:15:09] aonde pai e mãe

[01:15:11] se colocam

[01:15:13] numa relação de triangulação

[01:15:15] com filhos muito próximos e etc.

[01:15:17] E a gente não tem uma estrutura de filiação

[01:15:19] aberta, comunitária

[01:15:21] que seria o que mudaria realmente

[01:15:23] essa estrutura de fato, a partir da base.

[01:15:25] Seria negar isso.

[01:15:27] Seria ser muito

[01:15:29] ingênuo ao ponto

[01:15:31] achar que a gente vive numa aldeia comunitária

[01:15:33] onde o meu vizinho aqui

[01:15:35] é super meu amigo

[01:15:37] e aqui o meu bairro é uma grande…

[01:15:39] Não!

[01:15:41] Na nossa história majoritária

[01:15:43] na nossa organização social

[01:15:45] é a história de pequenos núcleos familiares

[01:15:47] que regem

[01:15:49] toda uma moralidade, que regem

[01:15:51] todo um costume e que

[01:15:53] estrutura a sociedade de forma tal que muito

[01:15:55] do que foi pensado como

[01:15:57] problemas derivados de um complexo de

[01:15:59] édipo permanece totalmente

[01:16:01] atual. Então

[01:16:03] é muito mais uma questão de

[01:16:05] vamos enfrentar isso no

[01:16:07] pensamento para que isso não se torne um universal?

[01:16:09] Vamos entender o que é que tem para além disso?

[01:16:11] Quais são as bases desse

[01:16:13] pensamento? Por que ele se afirma dessa

[01:16:15] forma? Do que simplesmente

[01:16:17] jogar fora. E inclusive

[01:16:19] não jogar fora porque muitas vezes a gente vai precisar

[01:16:21] desses conceitos e dessas ferramentas que foram

[01:16:23] pensadas a partir de édipo para

[01:16:25] poder enfrentar os nossos próprios problemas

[01:16:27] que são edípicos muitas vezes.

[01:16:29] E a gente não pode deixar isso de lado.

[01:16:31] Se não, é isso. A gente acaba

[01:16:33] jogando fora o bebê junto

[01:16:35] com a água do banho.

[01:16:37] Concordo com você. Vou

[01:16:39] tentar levar adiante

[01:16:41] expondo de um outro jeito.

[01:16:43] Quando eu estava

[01:16:45] com um grupo de estudos

[01:16:47] tornar-se psicanalista

[01:16:49] onde a gente estava lendo Freud.

[01:16:51] E uma coisa que sempre me confundia

[01:16:53] na leitura de Freud em específico

[01:16:55] não Lacan, eu queria

[01:16:57] falar em separado primeiro. É que

[01:16:59] era muito difícil para mim

[01:17:01] entender quando o Freud

[01:17:03] estava descrevendo e quando ele

[01:17:05] estava prescrevendo. Eu acho que

[01:17:07] nem ele sabia direito o que ele estava

[01:17:09] fazendo em alguns momentos. Às vezes

[01:17:11] ele parecia estar descrevendo algo.

[01:17:13] E aí ele estava falando sobre uma cultura

[01:17:15] que criava édipo. E que

[01:17:17] criava neurose. E que criava histeria.

[01:17:19] Que criava isso. Uma cultura que

[01:17:21] fazia isso aparecer. No entanto

[01:17:23] e aí eu acho que a crítica do

[01:17:25] Deleuze-Guattari incidem aí é

[01:17:27] é diferente você descrever

[01:17:29] algo acontecendo. Então isso existe

[01:17:31] ok. Percebemos.

[01:17:33] Somos capazes de descrever esse

[01:17:35] funcionamento e prescrever.

[01:17:37] E aí o Freud

[01:17:39] trazia a possibilidade

[01:17:41] de melhora

[01:17:43] dentro de édipo.

[01:17:45] Mais édipo.

[01:17:47] Mais territorialização

[01:17:49] dentro da família.

[01:17:51] A saída está em o tempo

[01:17:53] todo esse rebatimento

[01:17:55] nas imagens familiares.

[01:17:57] Eu acho que esse é o ponto

[01:17:59] que tem um afastamento

[01:18:01] da psicanálise

[01:18:03] que é um ponto que pra mim ainda é

[01:18:05] estranho dentro de Lacan.

[01:18:07] Porque o

[01:18:09] anti édipo é crítico a Lacan

[01:18:11] mas ele não é como acontece

[01:18:13] com Freud. O rompimento com Freud é

[01:18:15] bem mais forte do que com

[01:18:17] Lacan. A passagem do imaginário

[01:18:19] para o estrutural

[01:18:21] o Deleuze-Guattari vão dizer não é o bastante

[01:18:23] para resolver toda essa situação

[01:18:25] de édipo. É preciso de alguma

[01:18:27] maneira quebrar esse triângulo e abandonar

[01:18:29] ele. Eu acho que isso aparece

[01:18:31] já em Lacan com a travessia

[01:18:33] da fantasia. Então

[01:18:35] de alguma maneira o que parece que está

[01:18:37] acontecendo é que você precisa constatar

[01:18:39] mas você precisa constatar

[01:18:41] de uma maneira que você consiga desmontar

[01:18:43] isso e não se

[01:18:45] submeter ou

[01:18:47] pior ainda, prescrever

[01:18:49] isso. Então essa constatação

[01:18:51] ela tem que acontecer.

[01:18:53] É uma ilusão se você achar que o

[01:18:55] cara vai ter

[01:18:57] questões que não

[01:18:59] passam pela família. Vão passar porque

[01:19:01] a família é extremamente importante.

[01:19:03] Agora a orientação ética

[01:19:05] seria de essa família

[01:19:07] ela fecha os fluxos ou

[01:19:09] ela abre? Ela permite aumentar

[01:19:11] a capacidade de afetar e de ser

[01:19:13] afetado ou ela limita?

[01:19:15] E aí com essa orientação

[01:19:17] ética na mão tanto faz

[01:19:19] se você é psicanalista ou não. Tanto faz

[01:19:21] se édipo existe ou não. A questão

[01:19:23] é como você vai a partir do momento

[01:19:25] que você encontra essas dificuldades

[01:19:27] botar essa orientação prática

[01:19:29] fazer

[01:19:31] valer isso.

[01:19:33] Édipo existe eles dizem

[01:19:35] o tempo todo isso. Édipo existe

[01:19:37] não se iluda

[01:19:39] porém que que a gente faz com

[01:19:41] isso que existe? Eu daria

[01:19:43] um passo atrás que eu acho que tem algo

[01:19:45] muito interessante que houve numa aula

[01:19:47] do Safásoli que é

[01:19:49] sobre como que

[01:19:51] não somos nós que

[01:19:53] inventamos e narramos mitos

[01:19:55] mas como são os mitos que nos

[01:19:57] inventam. Éééé.

[01:19:59] E aí pensar nas narrativas que o Freud estava pegando, né?

[01:20:04] E aí tem toda a questão com a mitologia grega, ok.

[01:20:08] Hoje a gente poderia pensar isso ampliando, né?

[01:20:12] Com a filosofia Yorubá, né?

[01:20:16] Com todos esses outros campos de conhecimento

[01:20:18] que aí daria pra gente explodir e fazer muitas coisas legais.

[01:20:21] Que subjetividades brotam daí, né?

[01:20:24] Puta, pergunta fome.

[01:20:25] Exatamente.

[01:20:25] Exatamente, mas pra além disso é pensar que é a história de alguém

[01:20:31] que está tentando reconstruir a própria história.

[01:20:34] Se a gente deixar de lado o papai, se a gente deixar de lado a mamãe,

[01:20:38] é alguém que está nessa busca incessante por tentar reconstruir

[01:20:42] quais foram os passos, o que me aconteceu.

[01:20:45] E nessa tentativa de reconstrução disso, de voltar pra trás

[01:20:50] pra explicar o que se acontece, é que ele vive a própria tragédia.

[01:20:54] É.

[01:20:55] Então tem um esforço da gente poder olhar pra nossa história

[01:20:59] e entender algo que nos aconteceu,

[01:21:02] mas não pra chegar numa verdade sobre nós,

[01:21:05] mas de poder narrar de formas diferentes sobre aquilo.

[01:21:10] Se a gente ficar preso na ideia de tentar voltar e dizer

[01:21:12] eu sou assim, por isso eu sou assim, lascou-se.

[01:21:16] Então eu acho que tem uma coisa que é

[01:21:19] como que a gente usa édipo pra fazer algum movimento

[01:21:23] na construção da narrativa.

[01:21:25] Porque se for pra retomar e tentar…

[01:21:28] Não tem como resolver nada no passado.

[01:21:30] Até porque o passado tá aqui.

[01:21:33] Então o que a gente vai resolver, o que a gente vai fazer de diferente

[01:21:36] é no agora.

[01:21:37] Mas entender como algumas coisas do passado

[01:21:40] ainda se fazem presentes,

[01:21:44] aí isso é fundamental.

[01:21:45] Isso não tem como abrir mão.

[01:21:46] E aí acho que esse é um bom uso.

[01:21:49] E que eu não sei se…

[01:21:51] Se a galera tá tão equivocada assim na…

[01:21:55] No trato com o édipo, assim.

[01:21:57] Acho que talvez isso já tenha sido bem criticado

[01:22:01] ao longo de muitos anos e que…

[01:22:04] Eu acho que eu tenho uma certa confiança

[01:22:06] de que a Quirica esteja entregando coisas melhores.

[01:22:11] Sim, sim.

[01:22:12] É, tem claramente uma quebra com uma psicanálise ortodoxa

[01:22:16] que é muito interessante, né?

[01:22:19] É, por isso que tá no texto

[01:22:21] os psicanalistas não são os inimigos.

[01:22:24] Não é essa a questão.

[01:22:25] Até conheço uns muito legais.

[01:22:29] É isso.

[01:22:30] Chegando então nos finalmentes,

[01:22:33] a gente teve uma carta de Rafael para Rafael

[01:22:37] que também se pretende uma carta de Rafael

[01:22:41] para jovens estudantes de psicologia, eu acho.

[01:22:44] E também um diálogo entre nós

[01:22:48] sobre os nossos próprios caminhos,

[01:22:51] muito diferentes, aliás.

[01:22:54] Temos aqui três…

[01:22:55] Três pessoas que estudaram esquizoanálise bastante, né?

[01:22:59] E que foram por caminhos completamente diferentes.

[01:23:02] A dizer de mim mesmo, quero…

[01:23:04] Tô bem distante, assim.

[01:23:05] E tô bem tranquilo em relação a isso, assim.

[01:23:08] Eu acho que eu estaria muito mais pra…

[01:23:09] Se eu fosse voltar a estudar hoje

[01:23:11] o campo da psicanálise, eu voltaria

[01:23:12] talvez pra Winnicott, talvez pra algo assim.

[01:23:16] Mas de Delos Guatari, sinto que minha cota foi…

[01:23:19] Minha passagem pra eles foi interessante,

[01:23:22] mas não tenho no momento a intenção de voltar.

[01:23:25] Acho que isso já ficou claro, né?

[01:23:26] Pelos caminhos que eu tenho feito.

[01:23:28] Ainda assim, não posso negar que

[01:23:30] me marcou muito e é um dos pilares

[01:23:34] do jeito como eu penso e vivo, especialmente.

[01:23:37] Eu acho que pra além de Delos Guatari,

[01:23:39] o Spinoza mesmo, como vocês sabem,

[01:23:41] e aí a leitura dele mesmo, por ele mesmo, purinho,

[01:23:43] é muito mais uma coisa que segue comigo muito forte.

[01:23:47] Mas é isso, as coisas que passam pela gente,

[01:23:49] mas que continuam lá, ficam com a gente,

[01:23:52] porque são muito relevantes, né?

[01:23:53] Então, esse é o meu comentário,

[01:23:54] essa é a minha relação com esse pensamento,

[01:23:57] que foi muito importante,

[01:23:59] mas que já também, ao mesmo tempo,

[01:24:01] já se mostrou um pouco esgotada pra mim.

[01:24:05] Eu tenho buscado outras coisas,

[01:24:07] tenho buscado outras linhas, tenho buscado outros caminhos.

[01:24:10] Como é que tá pra você, Guima? Tô curioso.

[01:24:13] Eu acho que…

[01:24:15] Eu sigo fazendo um pouco

[01:24:18] do que eles sugerem, assim,

[01:24:20] num sentido de…

[01:24:22] Continuo agenciando com outras coisas.

[01:24:24] Falar sobre esse tema me lembrou um pouco do meu TCC, né?

[01:24:29] Que foi agenciar um livro sobre a fome,

[01:24:32] agenciar o experimento dos parques dos ratos,

[01:24:35] agenciar a revolução dos bichos do Warwheel.

[01:24:39] Então, tipo, de toda essa mistura,

[01:24:41] e acho que hoje continua.

[01:24:42] O que eu tô lendo esse ano,

[01:24:45] que eu comecei a ler agora,

[01:24:46] é Brasil, uma biografia.

[01:24:48] Que é tipo…

[01:24:49] Então, vai entrando em contato,

[01:24:51] ao mesmo tempo que tô lendo outras coisas.

[01:24:53] Eu tava lendo…

[01:24:54] Tô lendo alguns mitos,

[01:24:55] tô lendo algumas coisas de Shakespeare.

[01:24:58] Então, tipo, tem essa coisa dessa mistura, assim,

[01:25:02] de ver como as coisas vão agenciando,

[01:25:04] e isso vai fazendo sentido, assim,

[01:25:06] na construção, né,

[01:25:08] de algum pensamento diferente.

[01:25:10] Mas, ao mesmo tempo,

[01:25:12] pensando em voltar, assim.

[01:25:14] Ontem mesmo, eu fiquei com muita vontade

[01:25:16] de ler Crítica e Clínica de novo, assim.

[01:25:20] Então…

[01:25:20] É isso.

[01:25:20] A gente vai passear por outras coisas,

[01:25:24] e aí, em algum momento, volta.

[01:25:25] Dá uma voltinha.

[01:25:26] É!

[01:25:28] Ah, eu entendo plenamente vocês.

[01:25:31] Eu entendo o esgotamento que o Rafael fala,

[01:25:34] até porque é muito esquizofrênico também, né?

[01:25:37] É uma leitura que não é prazerosa, né?

[01:25:40] Isso é um ponto muito ruim, assim.

[01:25:42] Eu, pelo menos, considero isso, assim.

[01:25:44] A leitura de Deleuze não é uma leitura prazerosa, assim.

[01:25:46] É diferente, né?

[01:25:47] De um autor que pensa muito mais a escrita

[01:25:50] do que algo que acontece aos turbilhões.

[01:25:53] É…

[01:25:53] Eu falo que, com a psicanálise,

[01:25:55] eu tenho umas dívidas não pagas,

[01:25:56] que eu acho que eu saí muito rápido

[01:25:59] antes de tirar certas conclusões.

[01:26:02] Eu não sinto isso com Deleuze.

[01:26:03] Eu acho que tem algumas curiosidades

[01:26:05] não resolvidas ainda, né?

[01:26:08] Eu queria ler o Proust e o Signos,

[01:26:10] eu queria ler o Empirismo e Subjetividade,

[01:26:13] eu queria ler o Sachar Mazok.

[01:26:15] Então, tem algumas coisas que eu ainda

[01:26:16] tô curioso com Deleuze

[01:26:19] pra entender como isso me afeta,

[01:26:23] como filósofo e como psicólogo.

[01:26:26] Então, enfim.

[01:26:27] E esses movimentos vêm e vão, né?

[01:26:29] Esses movimentos, eles têm que acontecer mesmo, assim.

[01:26:32] Eu tenho vontade de ler muitas coisas,

[01:26:35] não só Deleuze.

[01:26:36] Mas, no momento, agora, com os seminários de formação,

[01:26:40] eu tô mais inclinado e tô relendo

[01:26:44] e lendo algumas coisas novas sobre ele.

[01:26:48] O Sachar Mazok vai ser legal de você ler,

[01:26:51] até pra ser uma boa entrada,

[01:26:53] no campo do BDSM,

[01:26:54] que vocês estavam conversando na semana passada.

[01:26:58] Não lembro disso!

[01:26:59] Não tô sabendo disso, não!

[01:27:00] Que história é essa?

[01:27:01] Vai ficar mais fácil a gente levar pra uma festa e ser amada.

[01:27:04] Exato!

[01:27:05] Não tô sabendo disso!

[01:27:09] Aí você já vai ter um pouquinho mais de ambientação.

[01:27:13] Mano, me dá a palavra…

[01:27:15] A palavra…

[01:27:17] Como é que é a palavra de segurança agora,

[01:27:19] que eu já vou dizer.

[01:27:20] Qual que é?

[01:27:22] Banana.

[01:27:23] Não, essa não pode.

[01:27:28] Pô, vai tirar.

[01:27:30] E o diálogo é muito bom, né?

[01:27:32] Isso é uma coisa que eu fico pensando, assim,

[01:27:34] porque é uma carta pra eu dialogar comigo há 10 anos atrás,

[01:27:38] mas como essa carta nunca vai chegar ao Rafael de 10 anos atrás,

[01:27:42] ela chega em quem ouviu o podcast,

[01:27:44] ela chega em vocês, pra gente trocar ideia, né?

[01:27:48] Pra eu falar com vocês, né?

[01:27:49] Porque isso tem muito a ver com o episódio passado,

[01:27:53] também, que é…

[01:27:54] Dá vontade de falar!

[01:27:55] Dá vontade de falar, olha isso!

[01:27:57] Tipo, isso ainda faz sentido?

[01:27:58] Não, isso eu já cansei, isso não faz mais sentido.

[01:28:01] Mas e isso?

[01:28:01] Porra, isso ainda faz sentido.

[01:28:03] Então, e aí, né?

[01:28:04] Esses diálogos, eles são muito interessantes,

[01:28:06] porque até pensando que a gente tá seguindo caminhos

[01:28:10] cada vez mais singulares, né?

[01:28:12] Então, bora conversar.

[01:28:13] Então, onde você tá agora?

[01:28:15] Porra, me fala, então, onde você tá agora?

[01:28:17] Porque quem sabe eu vou querer aí te ver,

[01:28:19] e quem sabe você vai querer vir aqui me ver,

[01:28:21] e a gente trocar essas ideias.

[01:28:23] É muito bom.

[01:28:32] Esse foi o Imposturas 310.

[01:28:35] Fazendo a capa, o Felipe Franco,

[01:28:38] nosso sempre amigo e ilustrador.

[01:28:40] Na edição de áudio, Pedro Jankzur,

[01:28:43] do Semibreves, edição de podcasts.

[01:28:45] Na assistência de produção,

[01:28:47] Bru Almeida,

[01:28:48] que além de ajudar em tudo que a gente faz nesse site,

[01:28:51] também tem projetos maravilhosos,

[01:28:53] como Travessias.

[01:28:54] Conheçam aí, agora também no YouTube.

[01:28:56] O texto de hoje, escrito pelo Rafael Trindade.

[01:29:00] E nos acompanhando nessa conversa hoje,

[01:29:02] mais um amigo pra somar,

[01:29:04] Matheus Guimarães.

[01:29:06] Estamos aqui.

[01:29:07] E se você gostou,

[01:29:09] se você gostou dessa capa,

[01:29:10] dessa edição, dessa distribuição,

[01:29:13] dessa conversa desses participantes,

[01:29:16] saiba que tudo isso acontece

[01:29:18] graças a três modos.

[01:29:21] De você ajudar a gente.

[01:29:23] O primeiro deles é o mais simples de todos.

[01:29:26] É uma doação.

[01:29:27] Você pode doar pra gente

[01:29:29] através do Pix.

[01:29:30] Rafael, arroba, razão inadequada.com

[01:29:34] O segundo deles

[01:29:35] é o que a gente mais gosta,

[01:29:36] porque você vira nosso amigo.

[01:29:38] Que nem o Guimarães, por exemplo.

[01:29:40] É virando um assinante.

[01:29:41] Os assinantes se aproximam.

[01:29:43] Não é essa bagunça também. Calma lá.

[01:29:45] Que pra ser meu amigo,

[01:29:47] eu preciso fazer mais do que isso aí.

[01:29:49] Os assinantes,

[01:29:51] os assinantes já ganham mais,

[01:29:53] já tem mais chance, já.

[01:29:55] Eles têm meu número no WhatsApp, vai.

[01:29:57] É isso. A gente troca uma ideia,

[01:29:59] troca umas referências no grupo.

[01:30:00] O Guimarães é um assinante plus, né? Diferente.

[01:30:03] O Guimarães é mais, muito mais que isso,

[01:30:05] meu amigo querido.

[01:30:06] Tudo bem. Existe uma diferença entre amizade

[01:30:09] e criar uma comunidade filosófica.

[01:30:11] Isso a gente pode falar

[01:30:13] que a gente faz bem, né?

[01:30:14] Se você vira um assinante, você se torna mais próximo da gente.

[01:30:17] Você apoia o nosso trabalho,

[01:30:19] você ganha vários benefícios,

[01:30:21] em troca, como, por exemplo, descontos

[01:30:23] para os seminários de formação,

[01:30:25] que vão começar no dia 10 de março,

[01:30:28] e as oficinas

[01:30:29] de produção escrita,

[01:30:31] que já começaram, inclusive.

[01:30:33] Então, corre lá pra saber mais.

[01:30:35] E, pra finalizar,

[01:30:37] nem tudo é dinheiro nessa vida, claro.

[01:30:39] Então, você pode apoiar a gente

[01:30:41] de uma última maneira, que é

[01:30:42] partilhando. Partilhando

[01:30:45] todos os conteúdos que você acha

[01:30:47] que são interessantes com

[01:30:49] pessoas que podem gostar.

[01:30:51] Fazer pontes entre aquilo que a gente

[01:30:53] produz e aquilo

[01:30:54] que pode interessar a essas

[01:30:57] pessoas. Certo?

[01:30:58] Certíssimo. Muito obrigado, gente.

[01:31:01] Um abraço. Fiquem bem.

[01:31:02] Até breve.