A guerra no Oriente Médio e o futuro do regime iraniano


Resumo

O episódio analisa a guerra em curso entre Estados Unidos, Israel e o Irã, desencadeada pelos ataques que resultaram na morte do líder supremo iraniano, Ayatollah Ali Khamenei. A conversa com Hussein Kalou, cientista político, detalha como um conflito inicialmente bilateral se expandiu para a região, com o Irã retaliando contra bases americanas em países do Golfo Pérsico e fechando o estratégico Estreito de Hormuz, impactando os preços globais do petróleo e do gás.

A discussão explora a complexa rede de atores envolvidos, incluindo os aliados regionais do Irã, como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen, e o papel de potências como Rússia e China, que fornecem apoio logístico e militar a Teerã. É destacada a divisão na Europa sobre a legitimidade do conflito, com países como Alemanha, França e Reino Unido apoiando o uso da força, enquanto outros condenam a violação do direito internacional.

Kalou avalia a estratégia militar dos EUA, que planejava uma guerra curta, mas subestimou a capacidade de resistência e retaliação iraniana. Ele discute os custos políticos e econômicos crescentes para o presidente Donald Trump, cuja popularidade pode ser afetada pela duração e pelo custo do conflito, especialmente diante de críticas internas sobre os objetivos da guerra.

Por fim, o episódio se aprofunda nas consequências internas para o Irã. A morte de Khamenei, vista como ‘gloriosa’ e martirizada, unificou o país e sufocou a dissidência. O processo de sucessão, já em andamento, se concentra em uma escolha fundamental entre uma liderança mais aberta ao diálogo com o Ocidente ou uma linha dura e ultraconservadora que poderia se alinhar com a Guarda Revolucionária e buscar acelerar um programa de armas nucleares, tornando o cenário futuro ainda mais obscuro e perigoso.


Linha do Tempo

  • 00:00:00Abertura do conflito e retaliações regionais — Os ataques dos EUA e Israel ao Irã continuam pelo terceiro dia, com promessas de prolongamento por Donald Trump. A retaliação iraniana se expande pelo Oriente Médio, com ataques do Hezbollah a Israel, bombardeios israelenses em Beirute, e ataques a instalações e bases em países como Catar, Bahrein e Arábia Saudita. A ONU pede o fim das hostilidades, enquanto os EUA tentam justificar a ação como uma guerra com fim estipulado, diferente do Iraque.
  • 00:03:53Definição da guerra e seus atores principais — Hussein Kalou define o conflito como uma guerra de agressão e escolha dos EUA e Israel contra o Irã, violando o direito internacional. Ele destaca que o Irã estava em processo de negociação e havia feito concessões, com uma rodada marcada para Viena. A guerra se espalhou pela região devido à presença de bases americanas, que se tornaram alvos da retaliação iraniana.
  • 00:07:08Impacto econômico e fechamento do Estreito de Hormuz — Além dos danos militares, o Irã busca impingir dano econômico, fechando o Estreito de Hormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial. Isso causa um salto no preço do barril, aumento de 50% no gás na Europa e disparo nos seguros de cargueiros, gerando pressão inflacionária global. A campanha militar dos EUA, inicialmente planejada para ser curta, já sofre recalibragens de tempo.
  • 00:09:42A complexidade do regime iraniano e objetivo da guerra — Kalou explica que o regime iraniano é horizontalizado e fragmentado, com múltiplas forças políticas, tornando inviável uma mudança de regime apenas com ataques aéreos. Ele questiona o objetivo declarado dos EUA, que oscila entre acabar com o programa nuclear (que alegaram ter obliterado) e acabar com o regime, uma missão muito mais complexa que exigiria uma invasão terrestre massiva.
  • 00:10:45Aliados regionais do Irã e papel de Rússia e China — São listados os aliados do ‘arco de aliança’ iraniano já em ação: as forças de mobilização popular no Iraque e o Hezbollah no Líbano. Os Houthis no Iêmen são uma possibilidade futura. Rússia e China, embora calados diplomaticamente, estão envolvidos indiretamente, fornecendo armamento, inteligência e apoio logístico ao Irã há meses, pois veem o país como peça-chave para seus interesses estratégicos na região.
  • 00:16:14A divisão da Europa e a paradoxalidade do discurso — A Europa está dividida: países como Noruega, Espanha e Suíça condenam o ataque como violação do direito internacional. Já Alemanha, França e Reino Unido, que criticavam o unilateralismo de Trump, surpreendentemente apoiam o uso da força. Kalou aponta a paradoxalidade deste discurso, que endossa o unilateralismo e criaria um precedente perigoso, justificando ações similares por outros países como a Rússia.
  • 00:20:15Risco de escalada e uso de armas nucleares — Diante da pergunta sobre o ‘pior’ cenário, Kalou avalia que a guerra está em escalada contínua e que EUA e Israel ainda não empregaram todo seu potencial letal. Ele não descarta a possibilidade de Israel usar armas táticas nucleares, dado seu histórico, mas ressalta que isso teria consequências graves. Também destaca que o Irã ainda não usou toda sua capacidade bélica e que houve subestimação de seu arsenal de mísseis.
  • 00:23:24Custo político para Trump e duração da guerra — A guerra gera custo político alto para Donald Trump, com críticas de sua base sobre colocar ‘Israel first’. Quanto mais longa, pior: gera custos econômicos, inflação, baixas militares e desgaste de popularidade. Trump planejou uma vitória rápida, mas subestimou o Irã. Agora, precisa encontrar um momento para sair sendo percebido como vitorioso e negociar uma trégua, enquanto o Irã quer prolongar o conflito para causar o máximo de dano a Trump.
  • 00:26:49Sucessão de Khamenei e transformação da guerra — A morte de Khamenei transformou a guerra de política para religiosa (‘sacrosanta’) no Irã, unificando o país e eliminando a dissidência. O processo de sucessão já estava em andamento, com três nomes em preparação. A escolha do novo líder não será sobre indivíduos, mas sobre uma linha política: dialogar com o Ocidente ou se fechar. Se a linha dura ultraconservadora vencer, ela pode se aliar à Guarda Revolucionária e buscar a bomba atômica.
  • 00:32:08O embate interno e o futuro nuclear do Irã — Kalou revela um embate interno crucial: Khamenei, visto como flexível, contrabalanceava a Guarda Revolucionária, que queria a bomba atômica. Ele até emitiu um decreto religioso contra isso. Se o sucessor for linha dura e se alinhar à Guarda, o caminho será a construção de um arsenal nuclear ‘custe o que custar’. Essa decisão definirá um cenário muito mais obscuro e perigoso para a região e para o Ocidente.

Dados do Episódio

  • Podcast: O Assunto
  • Autor: G1
  • Categoria: News
  • Publicado: 2026-03-03T03:21:27Z
  • Duração: 00:33:33

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Pelo terceiro dia, os Estados Unidos e Israel seguiram os ataques contra o Irã.

[00:00:06] Mais tropas e mais caças já estão a caminho.

[00:00:09] E o presidente americano, Donald Trump, ao contrário do que vendeu para os Estados Unidos durante a eleição,

[00:00:14] disse que não pretende parar tão cedo.

[00:00:17] Nós temos as forças armadas maiores e mais fortes em todo o mundo e facilmente venceremos.

[00:00:25] Vamos levar o tempo que for necessário.

[00:00:28] Desde o início, nós projetamos quatro a cinco semanas, mas nós temos a capacidade de ir mais adiante e vamos fazer isso.

[00:00:37] Junto com os ataques, veio a retaliação, expandindo o conflito pelo Oriente Médio.

[00:00:46] Desde sábado, as notícias traçam no mapa alianças e alvos.

[00:00:50] No Líbano, um novo fronte da guerra foi aberto quando o Hezbollah,

[00:00:55] um dos principais aliados do Irã na região, lançou mísseis e drones contra Israel

[00:01:01] em retaliação à morte de Ali Khamenei.

[00:01:04] Israel respondeu com ataques aéreos em grande escala.

[00:01:07] Nós estamos acompanhando, neste momento, explosões que ocorrem no Líbano,

[00:01:13] no subúrbio de Beirute, capital do país.

[00:01:16] É possível ver essa grande coluna de fumaça, muita destruição aqui.

[00:01:22] Nós vemos prédios imóveis.

[00:01:25] Muitos deles já danificados por explosões anteriores.

[00:01:28] Também houve explosões no Catar, no Bahrein, em Oman e nos Emirados Árabes Unidos.

[00:01:33] Instalações de petróleo e gás na Arábia Saudita foram atingidas.

[00:01:38] E no Kuwait, jatos F-15 dos Estados Unidos foram abatidos por engano pelo exército aliado.

[00:01:45] Durante os ataques de hoje, um drone atingiu uma base militar do Reino Unido no Chipre.

[00:01:49] É uma ilha do Mediterrâneo que faz parte da União Europeia.

[00:01:52] Alemanha, França e Reino Unido admitem intervistas.

[00:01:55] O governo americano está tentando resolver o conflito caso o Teherã continue a bombardear outros países na região.

[00:01:59] Mas é uma ideia, por enquanto, não apoiada pela União Europeia,

[00:02:03] que numa declaração conjunta fez um apelo à contenção e à via diplomática para solucionar a crise.

[00:02:10] O secretário-geral da ONU pediu o fim imediato das hostilidades

[00:02:14] e falou do risco de uma guerra regional ainda mais ampla.

[00:02:18] Do lado americano, o discurso é de afastar o histórico de incursões problemáticas.

[00:02:23] O chefe do departamento de saúde,

[00:02:24] o secretário-geral do departamento de guerra, afirmou inclusive que o conflito com o Irã não será um novo Iraque,

[00:02:29] que esta é uma guerra com um fim estipulado, encerrar o programa nuclear iraniano.

[00:02:35] Para Pete Haxett, o objetivo não é uma mudança de regime, mesmo que este já tenha mudado de comando.

[00:02:41] Mas não foi isso que disse Trump ao anunciar os bombardeios.

[00:02:45] No próprio sábado, ele conclamou a população iraniana a se sublevar.

[00:02:49] Bombas cairão por todos os lados.

[00:02:52] Quando terminarmos, assumam o controle.

[00:02:54] Ele estará pronto para ser tomado por vocês.

[00:02:59] Esta será provavelmente a única chance em gerações.

[00:03:06] A morte de Ali Khamenei há quatro dias coloca o mundo em estado de ansiedade.

[00:03:12] O planeta todo é afetado nas mais diversas frentes.

[00:03:16] Petróleo, malha aérea, transporte marítimo, o preço do ouro e das moedas nacionais e o dólar.

[00:03:24] O que é a crise dos EUA e da Europa?

[00:03:26] O que é a crise dos EUA?

[00:03:28] O que é a crise dos EUA e da Europa?

[00:03:28] O que é a crise dos EUA e da Europa?

[00:03:29] O que é a crise dos EUA e da Europa?

[00:03:29] Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é

[00:03:34] a guerra no Oriente Médio e o futuro do regime iraniano.

[00:03:37] Neste episódio, eu converso com Hussein Kalou, cientista político e conselheiro do SEBRE,

[00:03:43] o Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

[00:03:46] Terça-feira, 3 de março.

[00:03:52] Terça-feira, 3 de março.

[00:03:52] Terça-feira, 3 de março.

[00:03:52] Terça-feira, 3 de março.

[00:03:52] Terça-feira, 3 de março.

[00:03:53] A gente viu o que aconteceu no sábado, a extensão dos ataques.

[00:03:58] A gente também viu a reação iraniana, mísseis, drones contra Israel e países do Oriente Médio

[00:04:06] que têm bases americanas por lá.

[00:04:09] Só que de lá para cá a situação piorou e vem piorando hora a hora.

[00:04:14] O Hezbollah atacou Israel, Israel bombardeou Beirute, capital do Líbano.

[00:04:20] Drones iranianos também atingiram agora a infraestrutura no Catar,

[00:04:25] que é um país parceiro dos americanos na região.

[00:04:28] Eu queria, antes de entender quem são todos os atores envolvidos e os interesses nessa história,

[00:04:35] pedir para que você nos esclareça algo importante.

[00:04:39] Já é possível afirmar que estamos diante de uma guerra generalizada no Oriente Médio?

[00:04:45] O que nós temos, primeiro, é uma guerra entre Estados Unidos,

[00:04:50] Estados Unidos e Israel contra o Irã.

[00:04:53] Não se trata de uma guerra de necessidade, é uma guerra de escolha, é uma guerra de agressão.

[00:05:03] Toda guerra de escolha é uma guerra que viola o direito internacional,

[00:05:08] portanto, ela se torna uma guerra de agressão.

[00:05:11] Assim como a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

[00:05:14] Então, estamos diante disso, porque o Irã estava na mesa de negociação,

[00:05:18] o Irã estava negociando.

[00:05:20] O Irã havia feito concessões importantes aos Estados Unidos,

[00:05:25] razão pela qual uma rodada de negociação começaria hoje,

[00:05:30] segunda-feira, dia 2 de março, em Viena,

[00:05:34] para tratar do avanço do diálogo no nível técnico

[00:05:39] quanto à extração do Irã enriquecido a 60% pelos iranianos de Teherã.

[00:05:48] Bom, é isso, é o quadro.

[00:05:49] Portanto…

[00:05:50] Portanto, o que nós temos hoje é uma guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã

[00:05:56] que se espalhou pela região.

[00:05:59] Não é uma guerra regional no sentido do Irã contra os países,

[00:06:03] senão uma guerra que se espalhou pela região

[00:06:06] em função da presença americana por diversos países do Golfo Pérsico.

[00:06:12] Os Estados Unidos possuem bases militares na Arábia Saudita, no Catar,

[00:06:16] nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Iraque,

[00:06:20] na região de Erbil.

[00:06:22] E os iranianos haviam alertado de que, uma vez eles forem agredidos militarmente,

[00:06:28] eles iriam retalhar.

[00:06:30] E a forma de retaliação seria atacar as bases americanas dentro da região.

[00:06:38] O Irã atacou os Emirados Árabes, Catar, Bahrein e Kuwait.

[00:06:42] Todos esses países têm bases americanas no Golfo Pérsico.

[00:06:46] O Iraque e a Jordânia, outros países que também têm bases militares,

[00:06:50] americanas também foram alvo.

[00:06:53] Já a Arábia Saudita afirmou que o Irã atacou a capital Riad e a região leste do país.

[00:06:58] Essa é a forma desuasória que eles encontraram.

[00:07:01] Então, em primeiro momento, eles atacaram essas bases.

[00:07:04] Obviamente, no segundo momento, fecharam o Estreito de Hormuz.

[00:07:08] Obviamente que, além de atacar as bases,

[00:07:10] eles também estão procurando, como passo subsequente,

[00:07:14] atacar os interesses econômicos dos Estados Unidos na região.

[00:07:19] O Irã conta com…

[00:07:20] Uma geografia privilegiada, porque controla o Estreito de Hormuz,

[00:07:25] por onde passa um quinto da produção de petróleo mundial.

[00:07:29] Especialistas apontam que esse fechamento pode fazer o preço do barril de petróleo,

[00:07:33] que já vinha subindo desde o início do ano, superar 100 dólares.

[00:07:38] Uma forma de elevar o coeficiente de pressão sobre os Estados Unidos.

[00:07:43] Não basta somente impingir dano militar, mas também é preciso, de forma concomitante,

[00:07:49] impingir dano econômico.

[00:07:53] E aí a gente vê, por exemplo, o aumento do preço do barril de petróleo.

[00:07:57] O barril de petróleo salta aí da casa dos 70 e poucos dólares,

[00:08:01] já está quase na casa dos 80 e poucos dólares,

[00:08:04] entrando na casa dos 90 dólares.

[00:08:06] O preço de gás na Europa aumentou 50%.

[00:08:09] O preço do seguro dos cargueiros petrolíferos que estão ali parados no Estreito de Hormuz

[00:08:17] disparou excessivamente.

[00:08:19] Então, há…

[00:08:19] Há um dano econômico considerável hoje no mundo que vai gerar um efeito inflacionário.

[00:08:26] Isso da perspectiva econômica.

[00:08:27] Da perspectiva militar, o que a gente vê, os Estados Unidos se organizaram para uma

[00:08:32] campanha militar curta, imaginavam que seria de uma semana, um pouco mais, até de duas.

[00:08:38] Já falam de quatro, cinco semanas, ou talvez mais.

[00:08:42] Ou seja, eles, no curso, no transcorrer desse conflito, já fazem uma recalibragem quanto

[00:08:49] à questão temporal.

[00:08:50] Eles trabalham com duas linhas.

[00:08:52] Ou, ora, eles dizem que querem acabar com o programa nuclear e se contradizem nesse aspecto,

[00:08:58] porque eles haviam afirmado no ano passado que obliteraram o programa nuclear iraniano

[00:09:03] e agora dizem que querem acabar com o regime iraniano.

[00:09:06] É, essa missão me parece muito mais complexa.

[00:09:11] Essa operação de acabar com o regime não se faz somente com ataques aéreos.

[00:09:15] Isso teria que ser a partir de um ataque terrestre, um ataque terrestre involuntário,

[00:09:19] que resolve uma mobilização muito grande.

[00:09:23] Não se resolve num mês e não se resolve somente decapitando o regime, porque a natureza do

[00:09:28] regime iraniano é um regime que é horizontalizado, não é verticalizado.

[00:09:35] É um regime que possui múltiplas forças políticas, muito mais sólido, muito mais

[00:09:41] ideológico.

[00:09:42] O que é que manda no Irã?

[00:09:43] O presidente governa.

[00:09:44] Ele decide os ministérios, qual vai ser a política.

[00:09:48] A política pública de saúde.

[00:09:50] Só que o presidente não controla as forças armadas, que é um elemento fundamental do

[00:09:56] poder.

[00:09:56] É importante entender que o Estado iraniano é organizado de uma maneira em que o poder

[00:10:00] é extremamente fragmentado em diversas estruturas políticas.

[00:10:04] Com a morte do ayatollah Khomeini em 1989, assumiu o ayatollah Ali Khamenei.

[00:10:12] Morto agora nos ataques por inimigos que ele alimentou em quase 40 anos, se opondo a

[00:10:18] hegemonia americana e israelense na região.

[00:10:21] Citou outros personagens como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e por aí vai.

[00:10:29] Quem são os personagens ocultos ou não óbvios desse conflito até aqui?

[00:10:35] Ou, vou avançar até, quem é que pode entrar dando essa escala regional de um conflito

[00:10:43] geral no Oriente Médio?

[00:10:45] O arco de aliança do Irã já está envolvido.

[00:10:48] Quer dizer…

[00:10:48] Você tem o al-Hashti Shabi, que é a força de mobilização popular no Iraque.

[00:10:54] Eles já estão atuando, já estão operando na região de Erbil, atacando, digamos, as

[00:10:59] infraestruturas americanas vinculadas aos curdos na região de Erbil, já estão atuando.

[00:11:06] O Hezbollah no Líbano ontem atacou Israel a partir do sul do Líbano, lançando seis

[00:11:13] mísseis contra o norte de Israel.

[00:11:16] O primeiro-ministro do Líbano condenou…

[00:11:18] Duramente o Hezbollah pela ação contra Israel.

[00:11:22] Não que ele tenha qualquer simpatia pelo Israel.

[00:11:24] Ele não tem.

[00:11:25] Mas o governo libanês e a maioria dos libaneses não querem que o Líbano se envolva em uma

[00:11:31] guerra dos outros.

[00:11:32] Na visão do Líbano, essa é uma guerra do Irã e de Israel.

[00:11:35] O Líbano não tem nada a ver com esse conflito.

[00:11:39] Portanto, não queria esse envolvimento.

[00:11:42] Mas o governo libanês, mesmo sendo contra o Hezbollah, não conseguiu segurar o grupo

[00:11:46] e agora é uma tendência.

[00:11:48] É que continue essa escalada entre Israel e o Hezbollah.

[00:11:52] A gente ainda tem os Houthis que por hora não agiram até o presente momento, mas a

[00:12:00] depender do curso da escalada nos próximos dias ou semanas, podem vir a entrar no contexto

[00:12:07] operacional do conflito.

[00:12:09] Houthis é um grupo rebelde que prega a morte dos Estados Unidos e de Israel.

[00:12:16] Tiveram uma guerra sangrenta com a Arábia.

[00:12:18] Eles são bancados pelo Irã, que também apoia o Hamas na faixa de Gaza.

[00:12:24] E aí você tem Rússia e China, que estão por hora calados, a pente estão se manifestando

[00:12:29] diplomaticamente.

[00:12:31] Mas é óbvio que eles já estão envolvidos de forma indireta, porque eles vêm abastecendo

[00:12:36] o Irã com armamento.

[00:12:38] Antes do início da guerra, eles já vinham abastecendo o Irã com armamentos e também

[00:12:44] com informações de inteligência.

[00:12:48] Informações satelitais de posicionamentos da armada americana e também dos movimentos.

[00:12:55] Inclusive a China, Hussein?

[00:12:57] Inclusive a China, obviamente.

[00:12:58] A China é um aliado estratégico.

[00:13:00] A China não quer ver o Irã cair nas mãos americanas.

[00:13:04] A China é um dos patrocinadores da presença do Irã nos BRICS.

[00:13:08] O Irã é um dos principais fornecedores de petróleo para a China.

[00:13:13] O Irã é uma peça-chave no enquadramento da estratégia.

[00:13:18] A estratégia chinesa do Belt and Road, de cinturão e roda, ou seja, da rota da seda,

[00:13:24] da interligação, digamos, da Ásia para a região euroasiática, vamos dizer assim.

[00:13:30] O Irã é uma peça fundamental, digamos, na engrenagem estratégica da expansão da

[00:13:36] China para o Oriente Médio.

[00:13:39] Embora a China não pretenda se envolver diretamente no conflito, ela se envolve oferecendo aporte

[00:13:48] logístico.

[00:13:48] Por exemplo, 20 cargueiros chineses, digamos, equivalentes ao KC-390 que o Brasil tem, aviões

[00:13:56] similares, desceram em Teherã.

[00:13:59] Estamos falando de um mês e meio para dois meses atrás com armamento.

[00:14:03] Armamento, digamos, mísseis aquáticos que têm por finalidade alvejar navios de guerra.

[00:14:10] Além de sistema de radares, além de sistema de defesa antiaéreo.

[00:14:14] Então, a China não deseja ver o Irã cair.

[00:14:18] Não deseja cair na malha estratégica do bloco pró-Estados Unidos.

[00:14:25] Nem a Rússia gostaria de ver isso.

[00:14:27] A Rússia também forneceu ao Irã vários materiais velhos e um sistema de defesa antiaéreo

[00:14:33] que é carregado no ombro, cujo qual você consegue, até uma distância de quatro quilômetros,

[00:14:40] atingir alvos móveis próximos, digamos, à órbita de quatro quilômetros.

[00:14:45] Então, esses dois países vêm abastecendo o Irã.

[00:14:48] Armamento, desde junho, desde a guerra de 12 dias do meio do ano passado, de julho do ano passado,

[00:14:55] de forma, digamos, silenciosa.

[00:14:58] Eles não precisam anunciar, mas isso, dentro do contexto do Médio Oriental, já é conhecido.

[00:15:04] Esse apoio bélico, né?

[00:15:06] E esse ataque a que você se refere é o ataque de junho do ano passado,

[00:15:10] quando três unidades do programa nuclear foram abatidas.

[00:15:14] E a gente não sabe a extensão, porque não temos a comprovação

[00:15:17] do quão destrutivo ou destrutivos foram aqueles ataques.

[00:15:22] É, nós, eu e você, Natuza, porque o governo Trump disse que obliterou o programa nuclear iraniano.

[00:15:30] Declaração oficial da Casa Branca.

[00:15:32] As instalações de enriquecimento nuclear irãs foram completamente e totalmente obliteradas.

[00:15:37] Sim, mas é porque a gente não tem prova disso, né? O mundo não tem prova.

[00:15:40] É, o mundo não tem prova, mas o discurso deles é esse.

[00:15:43] Tanto é que eles estão sendo cobrados pelo Partido Democrata,

[00:15:47] pela população e pela mídia americana, inclusive no editorial do New York Times,

[00:15:52] sendo cobrados que, ó, vocês estão dizendo que vão para a guerra

[00:15:56] para destruir o programa nuclear, mas vocês disseram que obliteraram.

[00:16:01] Então, qual é a razão de ir para a guerra?

[00:16:03] Agora, tem um outro personagem nessa história que eu queria muito que você qualificasse,

[00:16:07] porque você já falou de Rússia, já falou de China.

[00:16:10] A Europa está tomando partido de quem?

[00:16:14] A Europa está dividida no que diz respeito a isso.

[00:16:17] Parte da Europa tomou lado do direito internacional

[00:16:20] e parte da Europa, lamentavelmente, tomou lado do unilateralismo.

[00:16:25] Explico isso.

[00:16:26] Países como a Noruega, Espanha e Suíça condenaram o ataque de Israel dos Estados Unidos.

[00:16:35] No entendimento desses países, houve uma violação ao direito internacional,

[00:16:39] trata-se de uma guerra de agressão, assim como Rússia fez na Ucrânia.

[00:16:44] E esses países entendem que o Irã estava negociando,

[00:16:47] estava fazendo concessões.

[00:16:49] Portanto, não havia uma causa que justificasse a agressão.

[00:16:54] Bom, por outro lado, países como Alemanha, França e Reino Unido,

[00:17:01] que estavam criticando o Trump por causa do seu unilateralismo

[00:17:05] no que diz respeito à Grolandia, por exemplo,

[00:17:10] que estavam acusando o Trump de enfraquecer o sistema multilateral,

[00:17:14] que estavam avocando o direito internacional,

[00:17:17] como princípio basilar para a diplomacia mundial

[00:17:23] e para a resolução pacífica das controvérsias,

[00:17:26] surpreendentemente, eles fazem manifestações oficiais

[00:17:32] de apoio ao uso da força de forma unilateral,

[00:17:36] que viola a Carta das Nações Unidas,

[00:17:40] no momento em que o Irã estava negociando,

[00:17:42] apoiam o ataque militar ao Irã,

[00:17:46] e isso significa,

[00:17:47] endossar o unilateralismo.

[00:17:50] Vamos lá para a Assembleia Geral da ONU,

[00:17:51] vamos ver o representante iraniano.

[00:17:53] É uma agressão aberta contra a República Islâmica do Irã,

[00:17:57] os Estados Unidos e Israel.

[00:18:01] Essa guerra que foi iniciada hoje não é uma guerra contra apenas o Irã,

[00:18:04] é uma guerra contra a Carta das Nações Unidas,

[00:18:09] uma guerra contra as leis internacionais,

[00:18:11] uma guerra contra a ordem legal internacional

[00:18:14] sobre a qual o Conselho de Segurança e as Nações Unidas,

[00:18:17] como tudo, vêm sendo construídas há décadas.

[00:18:20] Se você quiser atacar outro país,

[00:18:22] bom, você tem as instituições multilaterais,

[00:18:25] você pode aprovar uma resolução no Conselho de Segurança

[00:18:28] para tal penalidade.

[00:18:30] E isso foi surpreendente,

[00:18:31] porque isso prova a paradoxalidade do discurso,

[00:18:34] prova a paradoxalidade do discurso

[00:18:37] no que diz respeito ao direito internacional.

[00:18:40] Isso significa que o discurso deles com a Rússia

[00:18:43] se torna totalmente ambivalente.

[00:18:45] Por exemplo, se o Putin, nesse momento,

[00:18:47] agora, decidir, por exemplo,

[00:18:50] pegar e mandar uma dúzia de mísseis contra o Palácio do Zelensky,

[00:18:55] matar o Zelensky,

[00:18:56] que nem Israel e Estados Unidos fizeram contra o Ayatollah Ali Khamenei,

[00:19:01] o Putin pode justificar.

[00:19:03] Estaria justificado pelo discurso europeu.

[00:19:05] Pelo discurso de França, Alemanha e Reino Unido,

[00:19:08] teria justificado.

[00:19:09] Então, há uma paradoxalidade.

[00:19:12] Acaba expondo os países europeus.

[00:19:15] Essa divisão na Europa,

[00:19:16] ela revela o antagonismo de posições

[00:19:20] no que diz respeito aos valores do direito internacional.

[00:19:26] Espera um pouquinho que eu já volto

[00:19:27] para continuar minha conversa com Hussein Kallou.

[00:19:34] Hussein, antes de falar de como essa guerra pode escalar

[00:19:40] ou para que lado ela pode escalar,

[00:19:43] queria só resolver aqui

[00:19:45] um outro ponto contigo.

[00:19:48] O governo iraniano afirmou que um dos seus ataques

[00:19:50] atingiu o gabinete do primeiro-ministro de Israel,

[00:19:53] Benjamin Netanyahu,

[00:19:54] o que o governo israelense nega,

[00:19:57] ataques que teriam se dado no gabinete dele em Jerusalém.

[00:20:00] Aqui no Brasil, o ex-chanceler do governo Lula,

[00:20:05] Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula,

[00:20:09] disse, abre aspas,

[00:20:10] devemos nos preparar para o pior.

[00:20:13] O que é o pior, Hussein?

[00:20:15] É uma guerra que implique ataques nucleares, por exemplo?

[00:20:22] Olha, Natuza, eu acho que uma guerra dessa magnitude

[00:20:28] está em processo de escalada contínua.

[00:20:30] Nós estamos nos dias iniciais.

[00:20:32] Eu acho que os Estados Unidos ainda não empregaram

[00:20:37] o seu potencial letal.

[00:20:40] A tendência é que, com o passar dos dias,

[00:20:43] eles empregam armas mais potentes,

[00:20:45] mais destrutivas.

[00:20:47] Eles têm um banco de alvo robusto no Irã

[00:20:51] e o objetivo, me parece,

[00:20:53] é destruir a infraestrutura militar iraniana por completo.

[00:20:58] Esse é o objetivo, na minha opinião,

[00:21:01] nas próximas semanas.

[00:21:03] Uma vez que, enfim, não é viável destruir o regime,

[00:21:08] não é viável você destruir o programa nuclear por completo.

[00:21:13] Então, você vai destruir a infraestrutura militar.

[00:21:15] Israel é um país que não mede consequências,

[00:21:19] não respeita nenhum tratado internacional.

[00:21:23] Não me surpreenderia, digamos assim,

[00:21:26] se optar por usar armas táticas nucleares.

[00:21:29] Agora, daí, empregar isso também tem consequências, tá?

[00:21:34] E os iranianos, por seu lado,

[00:21:37] também não empregaram as suas melhores capacidades bélicas.

[00:21:41] Há uma leitura, no Oriente Médio,

[00:21:44] de que tanto Estados Unidos quanto Israel

[00:21:46] subestimaram a capacidade de quanto o Irã detém de mísseis.

[00:21:52] Houve um cálculo equivocado de o quanto o Irã detém de mísseis

[00:21:56] e de qual é a capacidade destrutiva desses mísseis.

[00:22:00] Lembrando que o que se diz sobre a capacidade,

[00:22:02] em termos de mísseis do Irã,

[00:22:05] é de que eles teriam uma grande quantidade de mísseis

[00:22:08] de curto e de médio alcance,

[00:22:10] mas não teriam mísseis de longo alcance,

[00:22:13] a ponto de atingir os Estados Unidos, por exemplo.

[00:22:15] Não, eles não têm isso definitivamente,

[00:22:17] mas o objetivo deles não é atingir os Estados Unidos,

[00:22:20] é o quanto que eles podem causar estrago dentro do contexto regional.

[00:22:24] E o tendão de Aquiles do Trump é Israel.

[00:22:27] Israel que fez o Trump ir para a guerra.

[00:22:30] O Netanyahu que fez o Trump ir para a guerra.

[00:22:32] E o Netanyahu que pode fazer o Trump parar a guerra.

[00:22:35] Aliás, esse é um argumento que já vi na imprensa americana

[00:22:40] a partir de republicanos,

[00:22:42] de que Trump está descumprindo uma promessa que ele fez de campanha

[00:22:47] para atender, na visão desses republicanos,

[00:22:50] um interesse de Israel.

[00:22:53] Trump, por exemplo, você já pisou nesse ponto,

[00:22:56] que Trump disse que projetou essa guerra para cinco semanas,

[00:23:01] você também já nos contou que talvez tenham subestimado

[00:23:05] a capacidade de resistência e de retaliação do Irã.

[00:23:09] Então, eu te pergunto diante disso,

[00:23:11] um, qual é a expectativa real do tempo de duração dessa guerra

[00:23:18] e qual é o impacto dela para Donald Trump no seu ambiente doméstico?

[00:23:24] Porque muitos americanos,

[00:23:25] Hussein, é bom que se diga aqui,

[00:23:27] se perguntam agora o que o Irã tem a ver com o preço das casas,

[00:23:32] o que o Irã tem a ver com o preço das coisas,

[00:23:35] da inflação, com falta de plano de saúde,

[00:23:39] com falta de atendimento,

[00:23:40] com corte de gastos, enfim.

[00:23:42] A base maga está dizendo que o Trump está colocando Israel first,

[00:23:46] Israel primeiro, não é America first.

[00:23:49] É isso que está sendo discutido hoje nas redes sociais americanas.

[00:23:53] O custo para Trump é alto,

[00:23:55] quanto maior dura a guerra, pior o custo para ele.

[00:23:58] Primeiro, é um custo econômico da guerra,

[00:24:00] os custos econômicos da guerra são grandes,

[00:24:03] porque ele está usando o imposto do contribuinte americano.

[00:24:07] Dois, o impacto econômico gera inflação,

[00:24:10] que vai gerar inflação, não tenha dúvida disso.

[00:24:13] Terceiro, você tem o impacto das baixas,

[00:24:17] dos soldados mortos, do maquinário destruído.

[00:24:21] Então, isso vai começar a chegar e vai ter impacto

[00:24:24] na opinião pública americana.

[00:24:26] Isso já vai gerar crítica da base e dos dois partidos.

[00:24:30] A popularidade dele está baixa.

[00:24:33] Então, partindo desse prospecto que se desenha,

[00:24:38] o Trump planejou uma vitória rápida e decisiva.

[00:24:42] Ele subestimou a resistência e a capacidade bélica do Irã.

[00:24:47] Então, qual é a tendência?

[00:24:49] Se ele recuar, fica péssimo para ele.

[00:24:54] E se ele avançar e não consegue ter resultado concreto,

[00:24:58] também fica ruim para ele.

[00:25:00] A questão é, durante o transcorrer dessas quatro semanas,

[00:25:04] ele precisa encontrar, e essa é a avaliação que ele deve estar fazendo,

[00:25:07] o momento certo de tentar parar.

[00:25:11] O momento certo em que ele possa ser percebido como vitorioso,

[00:25:17] possa ser percebido, não que ele vai ser vitorioso.

[00:25:20] Possa ser percebido, possa criar a imagem de vitorioso

[00:25:23] para ele sair do combate e negociar uma trégua com os iranianos.

[00:25:28] Donald Trump afirmou que a nova liderança do Irã

[00:25:32] está disposta a retomar as negociações.

[00:25:35] Trump disse ainda que esse acordo

[00:25:37] está aberto ao diálogo,

[00:25:39] mas não confirmou quando a conversa vai acontecer.

[00:25:42] Mas diante do relato, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã,

[00:25:47] Ali Larijani, já negou e disse que o país não vai negociar com os Estados Unidos.

[00:25:53] A questão é, os iranianos quererão parar?

[00:25:56] Na minha opinião, os iranianos quererão arrastar esta guerra

[00:26:00] para o maior tempo possível, para o maior prazo possível,

[00:26:05] para o maior tempo possível,

[00:26:07] gerar o maior dano possível para o Trump.

[00:26:10] Essa que é a questão.

[00:26:12] Porque eles já precificaram a perda.

[00:26:14] Eles estão sob sanções, Natuza.

[00:26:16] Eles não perdem mais nada, tá entendendo?

[00:26:18] Antes de matar o Khamenei, para eles a guerra era uma guerra de efeito político.

[00:26:22] Quando você mata o Khamenei, que é o líder supremo,

[00:26:25] que tem uma função, veja bem, mais religiosa do que política.

[00:26:29] A guerra para eles agora é uma guerra religiosa,

[00:26:32] não é uma guerra política mais.

[00:26:33] É uma guerra de inspiração religiosa.

[00:26:36] É uma guerra sacrosanta.

[00:26:38] Então, eles estão dispostos a ir até o limite.

[00:26:41] É o que eles estão dizendo agora.

[00:26:43] Go all out.

[00:26:45] Ir para tudo ou nada.

[00:26:47] Isso eu queria te perguntar.

[00:26:49] Como é que vai se dar o processo de sucessão do Ali Khamenei?

[00:26:55] Você já disse que essa se transforma internamente

[00:27:00] numa guerra sacrosanta.

[00:27:02] Pelo menos para o exército iraniano.

[00:27:04] Como é que se dá, número um, a sucessão do Ali Khamenei?

[00:27:09] Qual é o nível de abalo com sua morte para o sistema?

[00:27:15] E qual vai ser o papel da guarda revolucionária iraniana,

[00:27:19] como é o nome dela, nesse processo?

[00:27:22] Veja bem, o Irã é um país muito complexo, multifacetado politicamente,

[00:27:25] embora se pareça um regime monolítico.

[00:27:28] Não é monolítico no sentido, digamos, verticalizado.

[00:27:31] Ele é um regime composto por múltiplas forças políticas, certo?

[00:27:36] Você tem lá os teocratas, você tem lá os reformistas, os moderados,

[00:27:42] você tem lá a guarda revolucionária.

[00:27:45] Tudo isso compõe lá o mosaico do sistema político iraniano.

[00:27:49] Então, assim, é muito difícil você desmantelar a estrutura do regime, entendeu?

[00:27:56] Então, se o Trump acha que eliminando as lideranças,

[00:27:59] na expectativa de novas lideranças da guarda chegarem

[00:28:02] para cujo qual ele pode negociar com elas,

[00:28:05] ele está muito enganado, ele não conhece o Irã, entende?

[00:28:08] Ele não conhece.

[00:28:09] Ou não está ouvindo nos Estados Unidos as pessoas certas que conhecem o Irã.

[00:28:13] Porque tem pessoas que conhecem.

[00:28:15] O Irã não é um país, é uma civilização.

[00:28:18] Os Estados Unidos é um país, mas não é uma civilização.

[00:28:20] É importante entender isso.

[00:28:22] Os caras são os persas.

[00:28:23] Agora, como é que vai se dar o processo de sucessão?

[00:28:26] O Khamenei era um homem de 86, 87 anos.

[00:28:29] Ele já estava adoentado.

[00:28:31] Ele já estava, digamos, sabendo que estava nos últimos,

[00:28:35] nos seus últimos dias de vida.

[00:28:37] Então, o processo de transição já se deu no Irã há um tempo.

[00:28:41] Os seus sucessores já estavam sendo preparados.

[00:28:44] Não é uma coisa, ah, vamos esperar morrer para ver quem assume.

[00:28:48] Não é assim que funciona dentro da conformação do regime iraniano.

[00:28:52] E ali está afunilando para três nomes, basicamente.

[00:28:55] É isso aí.

[00:28:56] Não tem.

[00:28:57] Vai ser uma escolha entre três nomes.

[00:28:59] Que já vinham sendo preparados, tá?

[00:29:01] Assim, da perspectiva do regime, a morte do Khamenei como foi,

[00:29:06] ela foi, assim, magnífica, entendeu?

[00:29:09] Assim, é meio hilário dizer isso, mas é isso.

[00:29:11] Foi magnífica.

[00:29:12] Porque o Khamenei poderia morrer daqui a uma semana,

[00:29:15] daqui a um mês, doente, numa cadeira de rodas,

[00:29:17] no leito de hospital.

[00:29:19] Mas morreu de uma forma como ele foi.

[00:29:21] Ele morreu de forma gloriosa na perspectiva dos iranianos.

[00:29:25] É importante entender a cultura.

[00:29:27] A cultura persa e a cultura religiosa associada à cultura persa.

[00:29:32] Ele morreu de forma gloriosa.

[00:29:34] Mártir, assassinado pelos seus piores inimigos da forma como foi.

[00:29:40] Porque a morte dele, ela matou a mobilização da dissidência iraniana

[00:29:46] que foi celebrar.

[00:29:47] Quando saíram os apoiadores do regime em comoção,

[00:29:53] isso matou os manifestantes.

[00:29:55] Quer dizer, a oposição que tentou celebrar.

[00:29:57] Acabou, entendeu?

[00:29:59] Na verdade, o Trump acabou fazendo um grande serviço ao regime.

[00:30:02] E desencadeou o processo de sucessão de forma gloriosa.

[00:30:06] Agora, como é que vai ser?

[00:30:08] A escolha não vai depender de uma pessoa.

[00:30:11] Ah, vamos escolher o fulano A ou o beltrano B.

[00:30:16] Não é isso.

[00:30:18] A escolha vai ser assim.

[00:30:19] Nós queremos dialogar com o Ocidente.

[00:30:21] Nós queremos nos fechar para o Ocidente.

[00:30:25] Assim que vai ser a escolha.

[00:30:27] Isso é o que você chama de linha moderada e linha dura.

[00:30:30] Aí é essa que vai ser a escolha.

[00:30:32] Porque a gente fica, digamos, absorvendo informações vindas dos centros, digamos, ocidentais.

[00:30:41] E a gente olha para o Khamenei como um cara linha dura.

[00:30:44] Na verdade, assim, dentro da percepção oriental,

[00:30:48] o Khamenei era um cara flexível, aberturista.

[00:30:52] Tanto que durante o seu, digamos, período,

[00:30:55] de governo, de liderança lá,

[00:30:58] você teve um presidente linha dura, que é o Ahmadinejad.

[00:31:02] Mas todos os outros eram, digamos, ou moderados ou reformistas.

[00:31:07] O Rafsanjani era moderado.

[00:31:09] O Khatami era reformista.

[00:31:11] O Rouhani era moderado, que abriu o diálogo para o programa nuclear com o governo Obama.

[00:31:20] O Pesachian é um reformista, que está dialogando.

[00:31:24] O diálogo com o Ocidente, para negociação, etc.,

[00:31:28] não acontece sem autorização do líder supremo.

[00:31:31] Então, é importante ter essas nuances,

[00:31:34] que a gente não tem muitas vezes aqui.

[00:31:36] É só se estudar muito.

[00:31:37] Mas, voltando para o ponto.

[00:31:39] Então, a decisão vai ser, é,

[00:31:41] nós vamos ter alguém mais aberturista,

[00:31:45] ou seja, alguém que vai manter a linha para um diálogo com o Ocidente, ou não?

[00:31:52] Ou nós vamos ter alguém linha dura, ultraconservador?

[00:31:55] Porque se a escolha for assim,

[00:31:57] a escolha vai recair sobre uma pessoa,

[00:32:00] que vai fechar o diálogo com o Ocidente.

[00:32:02] O Irã vai virar endógeno e não vai dialogar.

[00:32:04] E o caminho vai ser o quê?

[00:32:06] Construção de um arsenal nuclear.

[00:32:08] Não tenha dúvida disso.

[00:32:10] Custe o que custar.

[00:32:13] E o Khamenei era o quê?

[00:32:15] Qual é o embate do Khamenei com a Guarda Revolucionária?

[00:32:18] Ele tentava contrabalancear a Guarda Revolucionária.

[00:32:21] A Guarda queria a bomba atômica.

[00:32:24] O Khamenei que não queria.

[00:32:26] Tanto que ele teve que fazer um decreto religioso.

[00:32:29] Então, é isso que precisa ser compreendido.

[00:32:31] Esse é o embate.

[00:32:33] Se a escolha for por alguém linha dura,

[00:32:36] essa linha dura, ultraconservador,

[00:32:38] ele vai acabar se alinhando com a Guarda Revolucionária.

[00:32:41] Está entendendo?

[00:32:43] E aí, eu acho que o cenário fica muito mais, na minha opinião, obscuro.

[00:32:47] Na minha opinião, para a região e para o Ocidente.

[00:32:50] Hussein, muito obrigada pelas explicações todas.

[00:32:54] Bom trabalho para você nessa observação constante do mundo neste momento.

[00:33:00] Natuza, muito obrigado, querida.

[00:33:02] Sempre é um prazer estar com você.

[00:33:20] Eu sou Natuzaneri e fico por aqui.

[00:33:22] Até o próximo assunto.