Como criar um mundo que respeita as mulheres
Resumo
O episódio começa com relatos dramáticos de casos recentes de violência contra mulheres, incluindo estupro coletivo e feminicídio, destacando a brutalidade e a dor das famílias. A apresentadora Natuzaneri introduz o tema central: como criar um mundo que respeite as mulheres.
A primeira entrevista é com Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapiar, que trabalha com homens autores de violência doméstica em presídios. Ele explica que esses homens geralmente não reconhecem sua responsabilidade, culpam a vítima ou minimizam a violência. O machismo estrutural, que ensina os homens a controlar o corpo das mulheres, é a base desses crimes. Ramos detalha seu método de trabalho, que usa histórias para fazer os homens refletir sobre suas ações e reconhecer a violência, abordando temas como tipos de violência, saúde mental, paternidade e estratégias para não reincidir. Ele menciona uma redução significativa na taxa de reincidência após o programa.
A segunda entrevista é com Ruth Manos, advogada e autora do livro Guia Prático Antimachismo. Ela discute como identificar e combater o machismo no cotidiano, desde comentários aparentemente inocentes sobre imagem até comportamentos mais graves como gaslighting (taxar mulheres como “histéricas” ou “loucas” para deslegitimar suas reações) e a conivência em grupos masculinos (como WhatsApp) onde imagens íntimas são compartilhadas. Ruth também aborda o machismo recreativo (humor que discrimina) e a importância de educar crianças e jovens, especialmente sobre pornografia e consentimento, enfatizando que um “não” durante um ato sexual deve sempre ser respeitado.
O episódio conclui reforçando que mudar essa realidade requer um grande esforço educacional, trabalhando com homens agressores e, principalmente, com meninos desde a infância para desconstruir o machismo e proteger mulheres.
Indicações
Books
- Guia Prático Antimachismo — Livro escrito por Ruth Manos, que explica conceitos básicos como machismo, feminismo, igualdade e privilégio, com objetivo de ajudar pessoas a identificar e desconstruir comportamentos machistas em si mesmas e no cotidiano.
Legal_Concepts
- Legítima defesa da honra — Tese jurídica que foi derrubada pelo STF, que servia para inocentar agressores e assassinos de mulheres alegando que sua honra havia sido ferida. O Código Penal estabelece apenas legítima defesa para repelir injusta agressão à vida, não à ‘honra’.
- Gaslighting — Termo (em inglês) que refere-se a uma manipulação psicológica onde alguém (como um marido) convence outra pessoa (como uma esposa) que ela está louca ou desequilibrada, para deslegitimar suas reações e emoções. Ruth Manos menciona isso como uma prática machista comum.
Organizations
- Instituto Mapiar — Organização que atua em prol da equidade de gênero e racial, dirigida por Luciano Ramos. Realiza trabalho de reeducação com homens autores de violência doméstica em presídios, usando metodologia específica para reduzir reincidência.
Resources
- Central de Atendimento à Mulher (Telefone 180) — Serviço recomendado no início do episódio para quem é ou conhece vítimas de violência doméstica, para buscar ajuda.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Aviso sobre conteúdo sensível e casos recentes — O episódio começa com um aviso sobre conteúdo sensível relacionado à violência doméstica e recomenda buscar ajuda. São apresentados casos brutais recentes: o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro e o feminicídio de Priscila (22 anos) em São Paulo, cometido por seu companheiro. A mãe de Tainara, outra vítima de feminicídio, também dá seu relato. Esses casos ilustram a onda de violência que não parece ter fim.
- 00:04:00 — Introdução do tema e entrevista com Luciano Ramos — Natuzaneri apresenta o tema “Como criar um mundo que respeita as mulheres” e introduz os entrevistados: Luciano Ramos (diretor do Instituto Mapiar) e Ruth Manos (advogada e autora). A conversa com Luciano Ramos começa, focando em seu trabalho com homens autores de violência doméstica em presídios. Ele explica que esses homens geralmente não reconhecem sua responsabilidade, culpando a vítima ou minimizando a violência.
- 00:07:33 — Discussão sobre machismo estrutural e propriedade do corpo — Luciano Ramos discute o machismo estrutural, que ensina os homens a sentir que têm propriedade sobre o corpo das mulheres e a controlá-lo. Quando uma mulher questiona essa norma, o homem age com violência para retomar a autoridade. A violência não é um descontrole emocional, mas parte da norma da masculinidade. Ele menciona a recente decisão do STF que derrubou a tese da “legítima defesa da honra”, que servia para inocentar agressores.
- 00:10:40 — Metodologia de trabalho do Instituto Mapiar — Luciano Ramos detalha o trabalho do Instituto Mapiar em uma cadeia pública. Eles trabalham com grupos de homens autores de violência doméstica em encontros semanais. A metodologia começa com histórias que ilustram homens que não admitem seus erros (como perder a carteira de motorista ou o emprego e culpar a esposa), para fazer os homens refletir sobre sua própria falta de responsabilidade. Posteriormente, trabalham tipificações de violência (sexual, física, psicológica), saúde mental, paternidade, machismo e estratégias para não reincidir.
- 00:17:30 — Resultados e importância da educação — Ramos menciona que o índice de reincidência entre os homens que participam do programa caiu de 16,9% para 1,5%. Ele enfatiza que é crucial trabalhar também com meninos adolescentes e na primeira infância para mudar a cultura. A ministra do STF Carmen Lúcia também é citada, destacando a necessidade de investir na educação de crianças e jovens para combater a cultura da violência.
- 00:20:11 — Entrevista com Ruth Manos sobre o livro Guia Prático Antimachismo — A conversa com Ruth Manos começa. Ela explica que seu livro visa explicar o básico sobre machismo, feminismo, igualdade e privilégio, para ajudar pessoas a reconhecer o machismo em si mesmas e desconstruir comportamentos. O livro é feito para “não pregar para os convertidos”, mas para que cada um identifique onde o machismo reside.
- 00:21:48 — Exemplos cotidianos de machismo — Ruth Manos dá exemplos de comportamentos machistas cotidianos. Começa com comentários sobre imagem (como elogiar uma mulher por “estar envelhecendo bem” ou “emagrecer”, partindo de pressupostos sobre o ideal feminino). Outro exemplo é taxar uma mulher como “histérica” ou “louca” quando ela expressa descontentamento ou raiva, uma prática conhecida como gaslighting, que deslegitima suas emoções.
- 00:24:26 — Machismo estrutural no ambiente profissional — Manos discute o machismo estrutural em empresas, onde homens não percebem que estão em maioria nos cargos de chefia, acham que a presença de uma mulher é um “favor” e sentem desconforto porque precisam moderar comportamentos (como piadas). Isso cria um ambiente onde a pessoa diferente (mulher, pessoa preta, LGBT) é sempre a “visitante”.
- 00:26:05 — Machismo e conivência em grupos (WhatsApp) — Ruth aborda a gravidade de compartilhar imagens íntimas de mulheres sem autorização em grupos de WhatsApp apenas com homens. Isso é um crime (artigos 216b e 218c do Código Penal) e pode levar a processos criminais e indenizações por danos morais. A conivência dos outros homens que não repreendem o ato também é problemática, validando a conduta machista.
- 00:28:07 — Machismo recreativo e humor discriminatório — Manos fala sobre o “machismo recreativo”, onde discriminação (machismo, racismo, homofobia, gordofobia) vem travestida de humor. Pessoas que fazem esses comentários muitas vezes se iludem, achando que não estão prejudicando alguém. Ela critica quem precisa diminuir ou humilhar alguém para tentar ser engraçado.
- 00:29:12 — Consentimento e estupro — Ruth Manos discute o caso recente do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana. Ela explica a gravidade de não respeitar o “não” de uma mulher ou seu direito de mudar de ideia durante um ato sexual. Usa um exemplo para homens heteros: se um homem consentiu inicialmente com uma prática sexual, mas durante o ato decide que não quer continuar, ele tem direito de dizer “não”. O mesmo direito deve ser respeitado para mulheres.
- 00:31:03 — Educação sobre pornografia e relações saudáveis — Ruth enfatiza a necessidade de conversar seriamente com pais sobre a pornografia e seu impacto em jovens. A pornografia frequentemente apresenta sexo violento e relativiza o “não”. É importante criar espaços seguros para jovens perguntar sobre o que veem (“isso é normal?”) e educar sobre relações sexuais saudáveis, para que não sejam contaminados por vídeos que normalizam violência.
Dados do Episódio
- Podcast: O Assunto
- Autor: G1
- Categoria: News
- Publicado: 2026-03-06T03:18:04Z
- Duração: 00:33:21
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/o-assunto/9cc32e40-a9cb-0137-fae6-0acc26574db2/como-criar-um-mundo-que-respeita-as-mulheres/761d93b0-7eae-430b-a326-754e945da57c
- UUID Episódio: 761d93b0-7eae-430b-a326-754e945da57c
Dados do Podcast
- Nome: O Assunto
- Tipo: episodic
- Site: https://g1.globo.com/podcast/
- UUID: 9cc32e40-a9cb-0137-fae6-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Antes de começar, um aviso.
[00:00:03] Este episódio tem conteúdo sensível.
[00:00:05] Se você ou alguém que você conhece foi ou é vítima de violência doméstica,
[00:00:10] eu recomendo que você busque ajuda em delegacias especializadas
[00:00:13] ou pelo telefone 180, a Central de Atendimento à Mulher.
[00:00:22] Os casos mais recentes são brutais.
[00:00:26] E por mais que sejam recorrentes, nunca deixam de chocar.
[00:00:30] No Rio de Janeiro, a mãe de uma menina de 17 anos teve de viver o impensável,
[00:00:35] socorrer a filha machucada depois de um estupro coletivo.
[00:00:56] E só catei os documentos e falei,
[00:00:59] vamos para…
[00:01:00] para a delegacia.
[00:01:02] Um crime que não deixa marca só no corpo.
[00:01:05] Ela se sentia muito culpada e…
[00:01:10] dizia que ela desistia da vida por vergonha,
[00:01:18] porque achava que por onde ela passasse,
[00:01:20] todo mundo iria apontá-la como estuprada e como culpada.
[00:01:24] E por mais que eu dissesse para ela que ela não é culpada,
[00:01:30] essa culpa não era dela.
[00:01:34] Em São Paulo, a dor de outra mãe.
[00:01:38] Selma Alves Ribeiro da Silva teve que enterrar a filha Priscila,
[00:01:41] de apenas 22 anos, que foi espancada até a morte.
[00:01:45] Quantas vezes mais uma mãe vai ter que passar numa reportagem agora como eu estou?
[00:01:52] Quantas vezes?
[00:01:53] Como é que eu vou explicar para o meu netinho?
[00:01:55] Vou falar, sua mãe está viajando?
[00:01:58] Sua mãe está atrás?
[00:02:00] Ela foi viajar a trabalho, ele vai ficar na esperança dela voltar
[00:02:03] e eu vou ficar enganando ele até quando?
[00:02:06] O autor do crime foi o companheiro David Bezerra Pereira.
[00:02:09] Ela estava dentro de um relacionamento abusivo, tóxico.
[00:02:13] Fingi tudo para ela sair desse relacionamento.
[00:02:18] Você já tinha pedido ela?
[00:02:20] Já. Dentro de cinco anos que ela ficou com ele.
[00:02:23] Se essa fosse a primeira vez…
[00:02:28] Mas não, teve outras vezes.
[00:02:30] Priscila era amiga de outra vítima de feminicídio,
[00:02:32] Tainara, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por Douglas Alves da Silva
[00:02:37] ao longo de um quilômetro em uma rodovia de São Paulo.
[00:02:41] Ouça agora o relato de Lúcia da Silva, mãe de Tainara.
[00:02:45] Ele foi me matar mesmo, ele não tem coração, não tem justificativa, não tem.
[00:02:51] Tainara é uma menina divertida, gosta de deixar todo mundo feliz, né?
[00:02:58] E é minha filha.
[00:03:00] É um bebezinho, trabalhadora, tem seus filhos.
[00:03:03] Estar lembrando, né?
[00:03:05] Lembrando dela e ensinando ela a andar.
[00:03:08] Uma onda de violência que não parece ter fim.
[00:03:11] E que não poupa nem os filhos.
[00:03:13] A polícia civil não tem dúvidas de que o gerro do prefeito de Itumbiara agiu sozinho e matou os dois filhos enquanto eles dormiam.
[00:03:21] Segundo a polícia, Tales fez uma ligação para a esposa e os dois discutiram.
[00:03:27] O último contato, uma videochamada,
[00:03:30] aconteceu às 8h39 da noite.
[00:03:33] Sara relatou que a conversa foi agressiva e Tales fez ameaças.
[00:03:38] A investigação confirmou que Tales Machado matou sozinho os dois filhos,
[00:03:43] Benício e Miguel, de 8 e 12 anos.
[00:03:46] Isso é a ponta mais trágica de um iceberg.
[00:03:48] Um sistema marcado pelo machismo estrutural.
[00:03:51] Para interromper esse ciclo, não basta indignação.
[00:03:54] É preciso que homens reconheçam o problema e que meninos sejam educados de outra forma.
[00:04:00] A gente tem que ter uma lei que nos proteja.
[00:04:01] A gente tem que ter uma lei que nos proteja.
[00:04:03] A gente tem que ter uma lei que nos proteja.
[00:04:04] A gente tem que ter uma lei que nos proteja.
[00:04:05] Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é
[00:04:09] Como criar um mundo que respeite as mulheres?
[00:04:13] Neste episódio, eu converso com Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapiar,
[00:04:18] organização que atua em prol da equidade de gênero e racial.
[00:04:21] E com Ruth Manos, advogada, doutora em direito internacional e autora do livro Guia Prático Antimachismo.
[00:04:28] Sexta-feira.
[00:04:30] 6 de março.
[00:04:33] Luciano, você
[00:04:33] lidera um projeto
[00:04:36] em presídios, atuando
[00:04:38] diretamente com homens que cometeram crimes
[00:04:40] contra mulheres. Assim que
[00:04:42] esses homens chegam
[00:04:44] ao sistema prisional,
[00:04:46] o que eles dizem sobre
[00:04:48] o crime que eles cometeram?
[00:04:49] Qual é a visão que eles têm
[00:04:51] sobre as mulheres que foram
[00:04:53] vítimas desses homens?
[00:04:56] Então, em geral, Natuza,
[00:04:57] eles chegam não
[00:04:59] reconhecendo que cometeram algum
[00:05:01] tipo de violência. Em geral, eles chegam
[00:05:03] culpabilizando a vítima
[00:05:05] ou minimizando a
[00:05:07] violência que eles praticaram
[00:05:09] ou mesmo justificando
[00:05:12] essas violências.
[00:05:13] Mas eles nunca se
[00:05:15] colocam como alguém
[00:05:17] responsável pela violência que
[00:05:19] cometeram. Então isso é muito importante
[00:05:21] ficar evidente. Ainda que todo
[00:05:23] o sistema de justiça, até
[00:05:25] o momento em que eles entram no
[00:05:27] sistema carcerário, os aponte
[00:05:29] como responsáveis pelo crime
[00:05:31] que eles cometeram, eles não se
[00:05:33] responsabilizam até aquele momento.
[00:05:35] E aí a gente está falando de que tipo
[00:05:37] de crimes aqui? A gente está falando de
[00:05:39] homens que mataram
[00:05:41] mulheres. Dá uma ideia da vida
[00:05:43] real desses homens que cometeram
[00:05:45] crimes. A gente está falando desde
[00:05:47] quebra de medida protetiva,
[00:05:49] de acordo com a Lei Maria da Penha, passando
[00:05:51] por violência física, agressão,
[00:05:54] até chegar ao
[00:05:55] feminicídio. Então a gente está falando
[00:05:57] de homens que praticaram os mais
[00:05:59] diversos tipos de violência
[00:06:01] doméstica. Então eles são de fato
[00:06:03] autores de violência doméstica,
[00:06:05] são homens agressores, mas
[00:06:07] que na prática eles
[00:06:09] não chegam se responsabilizando
[00:06:11] pelo crime que cometeram. E aí
[00:06:13] a gente vai ter as mais diferentes
[00:06:15] frentes desses autores de
[00:06:17] violência. O maior índice
[00:06:19] hoje dos homens
[00:06:21] que eu e a minha equipe, que nós
[00:06:23] atendemos dentro dos grupos reflexivos,
[00:06:25] são homens que quebraram medidas protetivas,
[00:06:27] e homens que
[00:06:29] praticaram violência física.
[00:06:31] Mas quando você fala que eles não reconhecem,
[00:06:33] eles não reconhecem
[00:06:35] porque eles não enxergam aquilo,
[00:06:37] machismo naquilo,
[00:06:39] ou eles não reconhecem porque eles não querem mesmo,
[00:06:41] tendo sido condenados, admitir o crime?
[00:06:43] Os dois âmbitos, eu diria. Primeiro,
[00:06:45] porque o machismo confere
[00:06:47] a esses homens a ideia de que
[00:06:49] eles têm a posse
[00:06:51] sobre o corpo das mulheres. E aí
[00:06:53] está a ideia do controle. O poder
[00:06:55] está posto aí. Então se eu tenho
[00:06:57] o poder sobre esse corpo,
[00:06:59] eu posso fazer o que eu quero com esse
[00:07:01] corpo, porque isso não seria considerado crime
[00:07:03] socialmente. Historicamente, a gente tem
[00:07:04] isso, né? Até há pouco tempo, a
[00:07:06] defesa da honra era considerada
[00:07:09] algo aceitável no Brasil. E
[00:07:11] por outro lado, porque
[00:07:13] esses homens, eles não admitem
[00:07:15] serem presos
[00:07:16] por um crime que eles tenham cometido
[00:07:18] contra as mulheres. Então, alguns homens
[00:07:21] vão até dizer o seguinte, não, mas eu sou
[00:07:23] um bom pai, eu sou o provedor daquela
[00:07:25] família. O Supremo Tribunal Federal
[00:07:27] derrubou uma tese que
[00:07:28] servia de base para a impunidade de
[00:07:31] agressores e assassinos de mulheres.
[00:07:33] Numa decisão unânime
[00:07:34] e histórica, os ministros proibiram
[00:07:37] o uso da chamada legítima
[00:07:39] defesa da honra. Por essa
[00:07:40] tese, um réu agressor poderia, numa
[00:07:42] reação a um adultério, por exemplo,
[00:07:45] alegar que sua honra havia sido
[00:07:47] ferida. No limite, essa
[00:07:48] tese poderia ser usada até
[00:07:50] para inocentar um assassino.
[00:07:53] Mas não há no Código Penal
[00:07:54] nenhuma menção a essa suposta
[00:07:57] legítima defesa da honra.
[00:07:58] O Código Penal estabelece
[00:08:00] apenas que a legítima defesa pode ser
[00:08:02] empregada para repelir injusta
[00:08:05] agressão, atual ou
[00:08:06] iminente, a direito seu
[00:08:08] ou de outrem. Segundo a lei, a defesa
[00:08:11] em questão é a da vida,
[00:08:13] não a da chamada honra.
[00:08:14] Uma espécie de puxadinho
[00:08:16] criado para livrar da condenação
[00:08:18] réus acusados de feminicídios.
[00:08:21] Você menciona
[00:08:22] o homem, historicamente,
[00:08:25] se sentir proprietário do
[00:08:26] corpo da mulher. Isso está por trás
[00:08:29] de todos os crimes
[00:08:30] de feminicídio recentes
[00:08:33] que tomaram conta do noticiário.
[00:08:35] Está por trás da tentativa
[00:08:37] de assassinato de uma
[00:08:39] jovem que é esfaqueada porque ela não
[00:08:41] aceita ficar com o homem,
[00:08:43] namorar com o homem. Está por trás
[00:08:45] de tudo. Você
[00:08:46] entende que todos esses
[00:08:49] homens que você ouve
[00:08:50] no seu trabalho diário
[00:08:52] se sentem mesmo proprietários do
[00:08:55] corpo da mulher? Eu queria entender
[00:08:57] um pouco mais a ideia por trás
[00:08:59] disso. O que eles pensam? O que você ouve?
[00:09:01] Na prática, sim. Esses homens
[00:09:03] são educados, historicamente,
[00:09:06] para praticar
[00:09:07] a violência, uma vez em que
[00:09:09] esse corpo feminino não corresponda
[00:09:11] mais à norma que
[00:09:13] ele tem em relação à mulher.
[00:09:15] Homens são educados para
[00:09:17] terem controle sobre os corpos femininos
[00:09:19] e se em algum momento
[00:09:21] essa mulher questiona
[00:09:23] essa norma, que ela não
[00:09:24] corresponde a essa expectativa
[00:09:27] que ele tem sobre aquele
[00:09:29] corpo dela, ele
[00:09:30] age com violência com essa
[00:09:33] mulher para retomar a autoridade
[00:09:35] sobre aquele corpo. Que toda
[00:09:37] vez que um homem age
[00:09:39] com violência, isso não está
[00:09:41] ligado a um descontrole
[00:09:43] emocional, isso não está ligado
[00:09:45] a uma explosão
[00:09:47] desse indivíduo, mas isso
[00:09:49] corresponde à norma
[00:09:51] da masculinidade. Isso é coerente
[00:09:53] com aquilo que se espera do masculino.
[00:09:54] Os homens, a partir do modelo machista
[00:09:57] ao qual eles foram educados,
[00:09:59] essa ideia do controle, essa
[00:10:00] ideia do poder, que faz com
[00:10:03] que os homens se organizem
[00:10:05] para a manutenção
[00:10:07] do que eles consideram como o ideal
[00:10:09] feminino, que é a submissão.
[00:10:10] Então a gente tem aí uma
[00:10:12] organização do machismo
[00:10:14] que se dá tendo como a base
[00:10:17] o poder e como
[00:10:19] o ápice dessa pirâmide,
[00:10:20] a violência. A violência, ela
[00:10:22] existe para a manutenção do
[00:10:24] poder e do controle desse indivíduo.
[00:10:27] Eu queria entrar agora no
[00:10:28] teu trabalho, porque você faz
[00:10:31] um trabalho de desconstrução
[00:10:32] que é muito potente. Nesse momento,
[00:10:35] muita gente se pergunta, como
[00:10:37] é que você faz e como é que é
[00:10:38] essa dinâmica de desconstrução?
[00:10:40] Então, o Instituto MAPEAR, que é o
[00:10:43] instituto que eu dirijo no Rio de Janeiro,
[00:10:45] numa cadeia pública
[00:10:46] chamada Patrícia Ascioli,
[00:10:48] onde 40% dos homens
[00:10:51] que estão presos nessa cadeia
[00:10:53] são homens que praticaram
[00:10:54] a violência doméstica. Esses homens
[00:10:57] ficam ali, em média,
[00:10:59] presos entre 3 meses
[00:11:01] e 1 ano. Então a gente
[00:11:02] costuma trabalhar com esses homens
[00:11:04] ao longo de 1 mês, com 2
[00:11:07] encontros semanais. A gente trabalha
[00:11:08] com 8 encontros, com grupos
[00:11:10] de 25 homens. E aí a gente
[00:11:12] criou uma cartilha para poder
[00:11:14] trabalhar passo a passo, metodologicamente
[00:11:17] com esses homens. Vou dar um exemplo
[00:11:18] rápido, mas que eu acho que é super
[00:11:20] importante para a gente entender, porque
[00:11:22] a sua primeira pergunta é muito baseada
[00:11:24] e larga para a gente, é muito importante,
[00:11:26] que é a gente pensar o seguinte, esses homens
[00:11:28] chegam negando a violência. Eles chegam
[00:11:30] negando que cometeram a violência. Então
[00:11:32] a gente não é mais uma voz
[00:11:34] dizendo para eles que eles praticaram a violência
[00:11:36] no primeiro encontro. A gente chega trazendo
[00:11:38] três histórias. Na primeira história
[00:11:40] é uma história de um homem que
[00:11:42] sai de um lugar do Rio para ir
[00:11:44] até outro lugar do estado
[00:11:47] do Rio de Janeiro, e quando ele sai
[00:11:48] de casa e pega o carro, a esposa
[00:11:51] diz para ele colocar o cinto de segurança
[00:11:53] e não dirigir
[00:11:54] com tanta pressa, não dirigir em alta velocidade
[00:11:57] porque ele já perdeu muitos pontos
[00:11:59] na carteira de motorista
[00:12:00] e ele está com risco de perder a carteira.
[00:12:03] Ele não escuta a esposa, ele dirige
[00:12:05] em alta velocidade, ele não coloca
[00:12:07] o cinto de segurança, ele é parado
[00:12:09] por um guarda, ele é multado e ele
[00:12:11] perde a carteira. E ele culpabiliza a esposa
[00:12:13] porque perdeu a carteira. Ele diz que
[00:12:15] se ela estivesse com ele, ele não teria perdido a carteira.
[00:12:17] Na segunda história, a gente
[00:12:19] tem um outro homem que trabalha
[00:12:21] na construção civil. Esse
[00:12:23] homem, ele não
[00:12:24] tem um final de semana, num domingo
[00:12:26] ele toma bebida alcoólica
[00:12:28] além da conta e chega em casa
[00:12:31] três da manhã, ele deveria sair às cinco
[00:12:33] para chegar no trabalho às sete. A esposa
[00:12:35] tentou ligar para ele, chamá-lo
[00:12:36] para ir para casa, ele não foi para casa,
[00:12:39] ele não quis ir para
[00:12:40] casa mais cedo. E aí, ele
[00:12:42] chega no trabalho no dia seguinte alcoolizado,
[00:12:45] atrasado, cai no vestiário
[00:12:47] porque está alcoolizado
[00:12:48] e ele perde o emprego porque já havia sido
[00:12:50] chamado a atenção outras vezes. E ele
[00:12:52] culpabiliza a esposa, ele diz que se a esposa
[00:12:54] tivesse feito um café mais forte
[00:12:56] e tivesse tirado do
[00:12:58] espaço de diversão mais cedo
[00:13:01] ele teria chegado no trabalho
[00:13:03] e não teria sido demitido.
[00:13:05] O terceiro exemplo é de um rapaz
[00:13:06] que perde a prova
[00:13:08] do Enem. A mãe dele saiu na véspera
[00:13:11] da prova do Enem, ele perde a prova
[00:13:12] do Enem e ele diz que a culpa
[00:13:14] de ter perdido a prova do Enem é porque
[00:13:16] a mãe não havia dormido em casa naquela
[00:13:18] noite. E os homens estão ali
[00:13:20] em subgrupos. Então, a gente traz
[00:13:22] para os subgrupos, para que eles leiam
[00:13:24] essas histórias, dialoguem
[00:13:26] um pouco sobre essas histórias e em seguida
[00:13:29] nos apontem, apontem para os outros
[00:13:31] grupos qual foi a percepção
[00:13:32] deles daquelas histórias. Eles
[00:13:34] dialogam, falam muito sobre
[00:13:36] as histórias e etc. Em seguida
[00:13:38] a gente pergunta qual é o ponto comum
[00:13:40] entre as três histórias. E aí esses
[00:13:42] homens rapidamente respondem.
[00:13:44] Esses rapazes ou esses homens das histórias
[00:13:47] não admitem o que fizeram.
[00:13:48] Em seguida a gente pergunta, ok
[00:13:50] e nós, homens, quando nós
[00:13:52] erramos, a gente admite
[00:13:54] os nossos erros? E nós, homens,
[00:13:57] quando cometemos algum
[00:13:58] tipo de violência, a gente admite
[00:14:01] o que fez? E aí eles começam
[00:14:02] a refletir sobre. E a última
[00:14:04] pergunta é, e vocês?
[00:14:06] Quando vocês cometem algum tipo de
[00:14:08] violência, vocês admitem que cometeram?
[00:14:11] Vocês conseguem entender o que
[00:14:12] é violência? E aí a gente para ali,
[00:14:15] eles voltam para as suas celas e
[00:14:16] a gente só volta dois dias depois.
[00:14:19] E que resultados
[00:14:20] vocês, a que resultados
[00:14:22] vocês chegam quando eles voltam
[00:14:24] a encontrar vocês?
[00:14:26] Então, aí a ficha caiu na
[00:14:28] coisa. Eles chegam e dizem
[00:14:30] eu nunca tinha parado para pensar
[00:14:32] dessa forma sobre aquilo que eu fiz.
[00:14:34] Eu conversei com os meus colegas de cela
[00:14:36] sobre aquilo que eu fiz. E aí o
[00:14:38] segundo encontro é onde a gente trabalha
[00:14:40] sobre tipificações de violência.
[00:14:42] Aí a gente vai falar sobre violência sexual,
[00:14:44] sobre violência física, sobre violência
[00:14:46] psicológica. E aí a gente começa
[00:14:48] trabalhando as tipificações a partir da lei
[00:14:50] Maria da Penha. E aí esses homens
[00:14:52] vão vendo e compreendendo aquilo que eles
[00:14:54] fizeram. Se antes era por uma
[00:14:56] fé, não compreensão ou não,
[00:14:58] isso a gente não coloca em julgamento.
[00:15:00] Mas a gente vai começando a fazer com que
[00:15:02] eles entendam as violências que eles
[00:15:04] cometeram. E aí, no terceiro
[00:15:06] encontro, a gente já começa
[00:15:08] a trabalhar sobre saúde física e
[00:15:10] saúde mental desses homens até
[00:15:12] para fazê-los entender
[00:15:14] essa construção do machismo.
[00:15:16] Que impactos ela tem na vida
[00:15:18] deles, né? Porque mostrando
[00:15:20] para eles, inclusive, que os homens
[00:15:22] são indivíduos que mais matam,
[00:15:24] mas que também mais se matam
[00:15:26] porque o índice de suicídio nos homens
[00:15:28] é altíssimo no Brasil. E
[00:15:30] mostrando o quanto o machismo
[00:15:32] ele é prejudicial
[00:15:34] para as outras pessoas
[00:15:36] e também para eles. E aí
[00:15:38] no encontro seguinte, a gente trabalha
[00:15:40] sobre paternidades
[00:15:42] e isso é super importante
[00:15:44] porque trabalhar sobre paternidades
[00:15:46] para mostrar para esses homens que
[00:15:48] como eles agem com as mulheres, com as quais
[00:15:50] eles se relacionam no cotidiano,
[00:15:52] impacta na vida dos filhos e
[00:15:54] das filhas deles. Então, a gente
[00:15:56] vai fazendo todas essas conexões
[00:15:58] no encontro seguinte, a gente trabalha
[00:16:00] sobre machismo, o tema é machismo
[00:16:02] e aí no machismo a gente traz
[00:16:04] todos os impactos do machismo
[00:16:06] socialmente, como o machismo
[00:16:08] faz com que as mulheres sejam as vítimas
[00:16:10] dessas violências de forma
[00:16:12] muito grande, mas também
[00:16:14] como isso impacta na própria vida
[00:16:16] deles e nas performances sociais
[00:16:18] que eles têm. E no encontro
[00:16:20] posterior, a gente começa a trabalhar com esses
[00:16:22] homens estratégias, que é
[00:16:24] e agora, como eu lido com isso
[00:16:26] que eu sinto? Como eu posso falar
[00:16:28] sobre os filmes? Como eu posso
[00:16:30] falar sobre controle? Como eu posso
[00:16:32] falar sobre o poder? Como eu posso
[00:16:34] trabalhar todos esses
[00:16:36] elementos para que eu não
[00:16:38] volte a praticar a violência
[00:16:40] doméstica? Porque qual é
[00:16:42] o nosso intuito principal? É de que
[00:16:44] esses homens não reincidam na violência
[00:16:46] doméstica. A gente tem um alto índice
[00:16:48] de punição, mas a gente tem um
[00:16:50] alto índice de reincidência, o que
[00:16:52] significa que o sistema prisional,
[00:16:54] no Brasil, ele não consegue
[00:16:56] resolver esse processo
[00:16:58] de reeducação dos homens. Então
[00:17:00] a gente trabalha com esses homens a estratégia
[00:17:02] da não reincidência da violência.
[00:17:04] E aí a gente trabalha a rede de apoio.
[00:17:06] Quem é a rede que você tem? Quem você pode
[00:17:08] procurar quando você está
[00:17:10] mal, relacionado a ciúme,
[00:17:12] violência, enfim.
[00:17:14] E aí a gente vai trabalhando com
[00:17:16] esses homens, que rede que ele
[00:17:18] pode ter para buscar ajuda. E no
[00:17:20] último encontro, a gente trabalha
[00:17:22] um pouco o que mundo
[00:17:24] que ele acha que o espera quando ele sair
[00:17:26] e o que ele vai fazer a partir dessa
[00:17:28] saída. Para a ministra do STF,
[00:17:30] Carmen Lúcia, a justiça
[00:17:32] precisa de uma atuação urgente no combate
[00:17:34] à violência contra a mulher.
[00:17:36] A ministra acredita ainda que é importante
[00:17:38] investir na educação de crianças
[00:17:40] e jovens para mudar essa cultura
[00:17:42] da violência. É preciso que
[00:17:44] nós da sociedade atuemos
[00:17:46] junto, por exemplo, com o Ministério
[00:17:48] da Educação, para que nós tenhamos
[00:17:50] uma educação que vai mudar
[00:17:52] de forma muito mais
[00:17:54] radical uma cultura brasileira
[00:17:56] de violências, especialmente de violências
[00:17:58] contra as mulheres, que acaba
[00:18:00] explodindo neste quadro que nós estamos
[00:18:02] vivendo agora, que é de barbárie.
[00:18:04] Um ponto importante é o seguinte,
[00:18:06] é que quando a gente entrou
[00:18:08] nessa cadeira pública, na Patrícia
[00:18:10] Scioli, o índice
[00:18:12] de reincidência no momento
[00:18:14] em que a gente chega na cadeira
[00:18:16] de 16,9%.
[00:18:18] No final do ano de 2025,
[00:18:20] esse índice estava em 1,5%.
[00:18:22] E isso a gente fazendo
[00:18:24] monitoramento
[00:18:26] junto com o sistema prisional,
[00:18:28] com a Secretaria de Administração
[00:18:30] Penitenciária do Rio de Janeiro
[00:18:31] e com um pesquisador que trabalha
[00:18:34] conosco, a gente monitorando
[00:18:36] mês a mês, sabe? A partir das
[00:18:38] saídas dos homens. É muito curioso
[00:18:40] porque o que você, me corrija se eu
[00:18:42] estiver errada, o que você faz na prática
[00:18:44] é fazê-los olhar
[00:18:46] para o machismo a partir
[00:18:48] de um olhar externo, como se eles
[00:18:50] não fossem machistas e como se
[00:18:52] eles estivessem avaliando
[00:18:54] um caso que não é o caso deles.
[00:18:56] Exatamente isso. Porque se eu falo
[00:18:58] do caso deles, eles ficam na
[00:19:00] defensiva. Então, eu preciso
[00:19:02] fazê-los olhar de fora
[00:19:04] e quando eles se olham de fora
[00:19:06] eles olham para si mesmos.
[00:19:08] Ou seja, me parece que há saída
[00:19:10] mas não há saída
[00:19:12] sem educação, sem um
[00:19:14] esforço muito grande de muita
[00:19:16] gente para mudar
[00:19:18] essa realidade, porque
[00:19:20] o seu trabalho é a prova
[00:19:22] de que é possível melhorar.
[00:19:24] Exatamente isso. E um ponto
[00:19:25] que a gente tem trabalhado muito na TUSA
[00:19:27] é não só trabalhar com
[00:19:30] os homens autores de violência doméstica.
[00:19:32] A gente tem trabalhado também com
[00:19:34] os meninos adolescentes
[00:19:35] em escolas, trabalhado muito
[00:19:38] com meninos na primeira infância
[00:19:40] também, porque é quando a gente
[00:19:42] entende que a gente só vai
[00:19:44] virar esse jogo, a gente só vai
[00:19:46] mudar a história se a gente trabalhar
[00:19:48] um processo de reeducação
[00:19:50] com meninos, rapazes e homens.
[00:19:52] Aí a gente consegue proteger,
[00:19:54] proteger as meninas e as mulheres.
[00:19:55] Luciano, parabéns pelo trabalho. Muito obrigada
[00:19:58] por topar falar com a gente.
[00:19:59] Obrigado, Ana Filipe.
[00:20:02] Espera um pouquinho que eu já volto
[00:20:04] para falar com a Ruth Manos.
[00:20:11] Ruth, no seu livro
[00:20:12] Guia Prático Antimachismo,
[00:20:14] você
[00:20:15] propõe uma
[00:20:17] incursão que me parece
[00:20:19] muito importante, que é
[00:20:22] aprender a identificar
[00:20:24] o machismo, aprender
[00:20:26] a reconhecer o machismo,
[00:20:28] para poder mudar comportamentos
[00:20:29] machistas. Então vou te pedir primeiro
[00:20:31] para que você nos diga o que você conta
[00:20:34] no livro. Esse livro,
[00:20:36] o Guia Prático Antimachismo, ele foi um livro
[00:20:38] muito pensado para
[00:20:39] quebrar barreiras, para não pregar
[00:20:42] para os convertidos. Ele é um livro que se propõe
[00:20:44] a explicar o básico, desde o que
[00:20:46] é machismo, o que é feminismo, o que é
[00:20:48] luta por igualdade, o que é privilégio,
[00:20:50] para a gente tentar desconstruir
[00:20:52] aquilo que a gente tem de machismo,
[00:20:54] em nós. E quando eu digo a gente, eu estou
[00:20:56] falando efetivamente de todos nós,
[00:20:58] inclusive de mim, que sou mulher,
[00:21:00] que sou vítima do machismo,
[00:21:01] mas que a gente é contaminado por
[00:21:04] um consciente coletivo, por uma cultura
[00:21:05] patriarcal. Então a intenção do livro
[00:21:08] é que cada um de nós seja capaz de
[00:21:10] reconhecer onde o machismo reside
[00:21:12] em cada um de nós e como é que a gente
[00:21:14] faz para começar a mexer com isso.
[00:21:15] Entendi. Eu queria então te fazer um convite
[00:21:18] para você levar a gente para dentro
[00:21:20] do seu livro e nos explicar
[00:21:22] situações cotidianas,
[00:21:24] que são machistas
[00:21:26] e que as pessoas ainda
[00:21:28] reproduzem nos dias de hoje.
[00:21:30] Então, você quer começar
[00:21:32] por que aspecto? Eu acho que vale a pena
[00:21:34] a gente dar exemplos dos seus
[00:21:36] ensinamentos nos livros, do mais
[00:21:38] simples, do machismo
[00:21:39] mais corriqueiro e mais
[00:21:42] encontrado até o mais
[00:21:44] complexo. Começando pelo mais
[00:21:46] simples. O que é machismo?
[00:21:48] Uma atitude machista
[00:21:49] que muita gente reproduz e
[00:21:51] muitas vezes não percebe. Eu acho
[00:21:53] que a gente pode começar de uma forma
[00:21:55] óbvia por questões relativas
[00:21:58] à imagem. Então a gente
[00:22:00] muitas vezes
[00:22:01] na tentativa de elogiar uma mulher
[00:22:04] e isso pode partir de homens ou de mulheres
[00:22:06] a gente faz elogios do tipo
[00:22:08] nossa, mas você está envelhecendo muito bem
[00:22:10] nossa, parabéns, você emagreceu
[00:22:12] parte de pressupostos muito
[00:22:14] básicos do que é um ideal
[00:22:15] de mulher, sem se perguntar
[00:22:17] se esse é o ideal dessa mulher, se essa
[00:22:20] mulher emagreceu porque ela quis ou porque ela está
[00:22:21] doente ou porque ela está deprimida.
[00:22:23] Como é que é esse processo de envelhecimento pra ela?
[00:22:26] Então assim, a gente, na questão da imagem
[00:22:28] é super básico, né? São coisas
[00:22:30] que muitas vezes partem das próprias mulheres
[00:22:32] esse tipo de comentário
[00:22:34] machista. Um outro ponto aqui
[00:22:36] quando um homem chama
[00:22:37] uma mulher de histérica
[00:22:40] quando ele diz que ela
[00:22:41] está louca
[00:22:43] explica pra gente porque
[00:22:45] isso é machismo e
[00:22:47] a gravidade disso. A gente tem um conceito
[00:22:50] um termo que só existe em inglês
[00:22:51] chamado gaslighting. Ele vem de um
[00:22:53] filme com a Ingrid Bergman, chamado
[00:22:55] gaslighting, a luz de velas no Brasil
[00:22:57] a meia-luz, que é um filme no qual
[00:22:59] o marido convence a mulher de que ela está
[00:23:01] louca porque ela tem um patrimônio
[00:23:04] muito grande que ele quer ser o responsável
[00:23:06] por gerir.
[00:23:15] Então, o que que acontece? A gente
[00:23:17] muitas vezes taxa de
[00:23:19] louca, desequilibrada, maluca,
[00:23:21] histérica, uma mulher que na verdade
[00:23:23] ela está manifestando
[00:23:25] descontentamento delas, ela está brava
[00:23:28] ela está furiosa, ela está
[00:23:29] com raiva de alguma situação
[00:23:31] e a gente transforma isso em
[00:23:33] uma espécie de distúrbio
[00:23:35] que é nomeado por alguém que provavelmente
[00:23:37] não tem CRM nem CRP
[00:23:39] e que está dizendo que essa mulher está
[00:23:41] desequilibrada e não brava. Então, a gente tem dois
[00:23:43] problemas aí. Então, em primeiro lugar
[00:23:45] a gente está deslegitimando
[00:23:47] uma coisa que é um
[00:23:49] manifesto dessa mulher. Então, a mulher que chega em casa
[00:23:52] e encontra tudo uma zona,
[00:23:53] ninguém preparou jantar, é sapato
[00:23:55] no meio do caminho, é louça suja no
[00:23:57] meio da sala. Essa mulher quando fica brava
[00:24:00] e alguém fala, você está louca,
[00:24:02] você está desequilibrada, você é maluca
[00:24:03] vai se tratar, a gente está esvaziando
[00:24:06] o lugar dela de razão
[00:24:07] por estar brava e está dando um falso
[00:24:09] diagnóstico de loucura. E o pior é que a gente
[00:24:11] cai na tusa, o pior é que a gente fala
[00:24:13] tomar um suco de maracujá, vou me acalmar
[00:24:16] e daqui a pouco eu volto. Só que acontece
[00:24:17] você volta e a bagunça está exatamente
[00:24:19] igual, porque você estava brava, você não
[00:24:21] estava nervosa, são duas coisas muito diferentes.
[00:24:23] Um homem está numa empresa,
[00:24:26] ele olha em volta e
[00:24:27] só percebe nos cargos
[00:24:30] de chefia, pessoas como ele,
[00:24:32] portanto, homens,
[00:24:34] por que isso é
[00:24:36] machismo estrutural?
[00:24:37] Primeiro pelo fato deles nem perceberem isso.
[00:24:40] A gente sempre fala que é o
[00:24:41] diferente. Então, assim, numa mesa
[00:24:43] com 20 pessoas brancas e uma pessoa
[00:24:46] preta, com 20 pessoas cis e uma pessoa
[00:24:48] trans, com 20 pessoas,
[00:24:50] enfim, 20 homens e uma mulher,
[00:24:51] quem vai sentir que é o diferente
[00:24:53] ali é o visitante, a pessoa
[00:24:55] que está em menor número numérico.
[00:24:57] Os outros sentem que está tudo
[00:24:59] bem. E é assim que os homens vêm
[00:25:01] se sentindo no ambiente de trabalho
[00:25:03] ao longo de quase toda a história, sobretudo
[00:25:05] se a gente está falando de trabalhos privilegiados.
[00:25:07] O fato deles nem perceberem
[00:25:09] que existe essa diferença é o primeiro ponto.
[00:25:12] O segundo ponto é eles
[00:25:13] acharem que a presença dessa
[00:25:15] pessoa diferente é um favor
[00:25:17] e não um ganho de pensamento para uma equipe.
[00:25:19] E o terceiro grande problema
[00:25:21] é o desconforto que isso
[00:25:23] gera neles. Por quê? Se tem
[00:25:25] uma mulher, eu não posso fazer as piadas que
[00:25:27] eu sempre fiz. Se tem uma pessoa
[00:25:29] preta, eu tenho que me preocupar se alguma
[00:25:31] fala que eu estou fazendo é racista. Se tem uma
[00:25:33] pessoa LGBT, eu tenho que me preocupar
[00:25:35] se essas brincadeiras que eu faço
[00:25:37] são ou não adequadas. Isso quando a gente está falando
[00:25:39] de pessoas minimamente civilizadas que se
[00:25:41] preocupam com seus comportamentos. Então,
[00:25:43] quando a gente diagnostica
[00:25:45] esses três problemas juntos,
[00:25:47] que eu acho que é o que eu faço o mês inteiro
[00:25:49] de março na Faria Lima, em Alphaville,
[00:25:51] no Parque da Cidade, em todos esses
[00:25:53] ambientes empresariais que eu frequento para palestrar,
[00:25:55] a gente está falando de começar
[00:25:57] a mexer na base menor
[00:25:59] da estrutura, porque depois a gente tem um prédio
[00:26:01] inteiro para corrigir em cima. Um outro
[00:26:03] ponto que eu queria te perguntar.
[00:26:05] Num grupo de WhatsApp
[00:26:07] só de homens,
[00:26:09] um deles manda
[00:26:11] foto de
[00:26:13] uma mulher nua
[00:26:15] despida. Explica pra
[00:26:17] gente o machismo que mora nessa
[00:26:19] atitude, mas também o fato de
[00:26:21] nenhum outro homem
[00:26:23] repreender esse ato.
[00:26:24] Eu acho que aí a gente até sai de uma esfera
[00:26:27] de falar só de machismo
[00:26:29] e a gente passa para uma esfera criminal.
[00:26:31] Aí eu acho que eu saio da skin
[00:26:32] escritora para a skin advogada, que você
[00:26:35] tem uma divulgação, uma exposição
[00:26:37] de uma imagem não autorizada, a gente está
[00:26:39] falando de um problema jurídico. Mas se a gente
[00:26:41] for voltar um pouquinho para essa esfera
[00:26:43] moral, acho que a gente nem precisa ir
[00:26:45] tão longe de ser uma exposição de uma foto
[00:26:47] íntima. O simples fato de um
[00:26:49] homem fazer algum tipo de observação
[00:26:51] desrespeitosa sobre uma mulher num
[00:26:53] grupo onde ele se sente 100%
[00:26:55] seguro, tem toda a pesquisa da Valesca
[00:26:57] Zanello sobre os grupos de
[00:26:59] WhatsApp como lugares muito seguros
[00:27:01] para os homens exercerem machismo
[00:27:03] e outros tipos de comportamento
[00:27:05] eticamente, juridicamente
[00:27:07] questionáveis, a gente tem uma
[00:27:09] situação análoga ao dos
[00:27:11] cúmplices na esfera criminal.
[00:27:12] O artigo 216b do
[00:27:15] Código Penal, ele penaliza
[00:27:17] toda e qualquer pessoa
[00:27:19] que pega uma imagem
[00:27:20] e manipula,
[00:27:23] altera, divulga
[00:27:25] com o nu de uma prática
[00:27:27] sexual ou qualquer outro tipo de
[00:27:29] nu verdadeiro ou não.
[00:27:31] E também tem o crime
[00:27:32] do artigo 218c
[00:27:35] que é o de pegar a imagem
[00:27:37] com a nudez e divulgar
[00:27:39] da publicidade, compartilhar
[00:27:41] em WhatsApp. Além do processo criminal
[00:27:43] existe ainda a possibilidade de
[00:27:45] punição na esfera cível, como
[00:27:47] por exemplo, o pagamento de indenização
[00:27:49] por danos morais. Então, se um
[00:27:51] homem silencia ou só
[00:27:53] manda um rá rá rá pra uma coisa
[00:27:55] que é evidentemente desrespeitosa
[00:27:57] a gente tá falando de conivência
[00:27:59] com o machismo, então você tá validando
[00:28:01] essa conduta. Ruth, eu queria que você
[00:28:02] explicasse também o que é o machismo
[00:28:05] recreativo e como
[00:28:07] ele reforça práticas
[00:28:09] muito violentas
[00:28:12] ao longo do tempo
[00:28:13] ao longo da história. Eu sempre
[00:28:15] falo que a gente
[00:28:17] tem grandes perigos
[00:28:18] quando eles, tanto o
[00:28:21] machismo, quanto o racismo, quanto a homofobia
[00:28:23] gordofobia, quando eles vêm travestidos
[00:28:25] de humor. Quando a gente acha que é
[00:28:27] só uma brincadeira, mas o mundo tá
[00:28:29] ficando chato, esse tipo de discurso
[00:28:31] porque as pessoas que fazem
[00:28:32] esses comentários, muitas vezes elas se
[00:28:35] iludem, elas realmente se
[00:28:36] convencem de que elas não estão sendo
[00:28:39] alguém que discrimina, que elas não estão
[00:28:40] prejudicando ninguém. Eu sempre digo que
[00:28:42] a pessoa que precisa diminuir alguém
[00:28:44] pra ser engraçada, ela tem que descobrir que ela
[00:28:46] realmente não é engraçada. E tudo bem, nem todo mundo
[00:28:49] é engraçado. Tem pessoas que são engraçadas, tem pessoas
[00:28:50] que não são. Mas se você precisa,
[00:28:52] necessariamente, humilhar
[00:28:54] ou reduzir ou oprimir alguém
[00:28:56] pra tentar fazer humor, a gente
[00:28:58] tá chegando a um diagnóstico de problema
[00:29:00] sobre quem fala, não sobre a vítima da piada.
[00:29:02] A gente tem observado,
[00:29:05] testemunhado casos
[00:29:06] muito dramáticos
[00:29:08] nos últimos tempos.
[00:29:10] Parece que a coisa tá piorando.
[00:29:12] O caso mais recente
[00:29:14] foi o estupro coletivo de
[00:29:16] uma adolescente de 17
[00:29:18] anos em Copacabana
[00:29:20] por três adultos, três homens
[00:29:22] adultos e um menor
[00:29:24] de idade. Pois bem,
[00:29:26] eu fiz um comentário
[00:29:28] na Globo News explicando que
[00:29:30] não era o caso dessa
[00:29:32] menina, não era o caso dessa adolescente.
[00:29:34] Porque ela disse não, né?
[00:29:36] Ela disse não pra qualquer
[00:29:38] ato sexual com os
[00:29:40] três adultos. Mas mesmo que
[00:29:42] uma mulher, num primeiro momento,
[00:29:44] tenha consentido ter um ato
[00:29:46] sexual com um homem, e no meio
[00:29:48] ela querer parar,
[00:29:50] por qualquer que fosse a razão,
[00:29:52] se o homem não para, é estupro.
[00:29:54] E aí, um comentário
[00:29:56] me chamou a atenção nas redes sociais.
[00:29:58] Um homem diz, mudar de ideia?
[00:30:01] Eu queria que você
[00:30:02] explicasse a gravidade
[00:30:04] de que
[00:30:06] o não de uma mulher
[00:30:08] não é respeitado, nem o direito
[00:30:10] a mudar de ideia no meio de um
[00:30:12] ato sexual. Eu acho que a gente tem um
[00:30:14] exemplo muito fácil pra maioria dos homens,
[00:30:16] especialmente os homens héteros, entenderem.
[00:30:18] Se a gente entra num quarto com um
[00:30:20] homem e ele está ok pra esse
[00:30:22] ato, e de repente a mulher resolve
[00:30:24] que quer, né? Ela tem um vibrador
[00:30:26] no quarto, e que ela quer fazer alguma
[00:30:28] brincadeira anal com esse homem,
[00:30:30] ele tem direito a mudar de ideia? Ele tem direito
[00:30:32] a dizer que não? E que isso ele não quer?
[00:30:34] E que isso pra ele não é legal? Acho que nenhum
[00:30:36] homem hétero tem dúvidas de que
[00:30:38] eles teriam direito a dizer que não, embora eles
[00:30:40] tivessem alinhado no começo, chegou
[00:30:42] num ponto que eles não querem continuar,
[00:30:44] que eles não querem que isso seja consumado.
[00:30:46] Então, assim, se isso não for
[00:30:48] claro o suficiente pra eles, eu não sei o que que é.
[00:30:51] E aí eu acho que a gente
[00:30:52] precisa falar de forma muito
[00:30:54] séria, sobretudo com
[00:30:55] pais de meninos e meninas,
[00:30:58] sobre como a gente tem que estar perto
[00:31:00] dos nossos filhos em relação à indústria
[00:31:02] da pornografia. Não vamos
[00:31:03] falar que, ai, não,
[00:31:06] mas meus filhos não veem. Todos vão ver,
[00:31:08] meninos e meninas, o acesso é facilitado,
[00:31:10] isso se não vier através deles, vai vir
[00:31:12] através de amigos, vai vir através de colegas.
[00:31:14] E o que a gente tem na indústria
[00:31:16] pornográfica é
[00:31:17] o sexo violento, é
[00:31:19] o não sendo relativizado,
[00:31:22] o tempo todo. Então,
[00:31:24] eu sempre digo isso, né, a gente
[00:31:26] precisa criar com os nossos
[00:31:28] filhos, nossos sobrinhos, nossos netos,
[00:31:30] nossos enteados, relações muito diferentes
[00:31:32] das que existiram há 30, 50
[00:31:34] anos atrás. A gente precisa ter liberdade
[00:31:36] pra falar com eles do tipo, cara, se você
[00:31:38] vê algum vídeo que você acha esquisito,
[00:31:40] tenha liberdade de perguntar pra gente
[00:31:42] se isso é normal. Tenha a liberdade
[00:31:44] de virar pra alguém, às vezes não vai ser a mãe,
[00:31:46] vai ser o pai, não vai ser o pai, vai ser um irmão mais velho,
[00:31:48] vai ser um primo, mas que haja
[00:31:50] alguém na vida de um jovem,
[00:31:52] de um adolescente, de uma jovem, de um adolescente
[00:31:54] que seja um espaço seguro pra essa
[00:31:56] pessoa virar e falar, eu vi um vídeo
[00:31:58] aqui num site, eu vi um pornô,
[00:32:00] e isso ser uma coisa naturalizada
[00:32:02] porque que atira a primeira pedra quem nunca
[00:32:04] fez isso, e que eles perguntem
[00:32:06] isso aqui é normal? Isso aqui é
[00:32:08] uma coisa que eu devo reproduzir em algum
[00:32:10] contexto? É muito esquisito, Natuz,
[00:32:12] a gente ter que falar sobre isso, mas a gente
[00:32:14] tem que ter clareza e sinceridade sobre
[00:32:16] a sociedade na qual a gente vive. Se a gente
[00:32:18] fechar os olhos, a gente tá endossando
[00:32:20] que todos os nossos jovens e adolescentes
[00:32:22] não tenham espaço seguros pra
[00:32:24] falar sobre isso e sejam contaminados por
[00:32:26] vídeos de violência, que eles podem
[00:32:28] em algum momento achar que isso
[00:32:30] faz parte da relação sexual
[00:32:32] saudável e não faz. Ruth, muito
[00:32:34] bom te ouvir, muito
[00:32:36] obrigada, a gente só pincelou
[00:32:37] alguns dos pontos que você trata
[00:32:40] no seu livro, mas eu espero
[00:32:42] que ele comece a abrir os
[00:32:44] ouvidos das pessoas sobre
[00:32:46] as práticas do dia a dia
[00:32:48] do machismo, né? Tão
[00:32:50] eloquentes. Bom trabalho pra você.
[00:32:52] Obrigada, pra vocês também.