I.A., Irã e a Ascensão da Inconsciência
Resumo
O episódio parte do caso da colunista Natália Bilt, que admite usar ChatGPT para escrever suas colunas na Folha de S.Paulo, para discutir a penetração da inteligência artificial em todas as esferas da vida. Os participantes criticam a defesa do jornal, que enquadrou a prática como “coragem para inovar”, e apontam a contradição de demitir jornalistas experientes como Jânio de Freitas enquanto mantém uma coluna automatizada.
A conversa então se amplia para o uso militar da IA, analisando o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que resultou na morte do Ayatolá e de dezenas de crianças em uma escola. Discute-se o papel da empresa Anthropic (criadora do Claude) e sua relutância em permitir o uso de seu software em armas totalmente autônomas, em contraste com a pressão do Pentágono para remover tais restrições. A discussão conecta a terceirização da escrita à terceirização de decisões morais e estratégicas de alta consequência.
Os participantes debatem a evolução dos modelos de linguagem para “agentes” de IA, capazes de executar tarefas complexas por longos períodos, e os riscos éticos dessa autonomia, especialmente quando aplicada à guerra. A reflexão aborda também a “pós-putice” ou desensibilização pública diante de acontecimentos como a guerra no Irã, comparando-a com a comoção gerada pela invasão do Iraque em 2003.
O episódio retorna ao tema da linguagem, argumentando que ela é inseparável do pensamento e que a automatização da escrita representa uma automatização da cognição. São analisados vícios de linguagem da IA (como paralelismos excessivos e uso de termos como “sussurros”) e sua adoção por políticos, o que pode levar a uma pasteurização do discurso político. A conclusão é um alerta sobre a “ascensão da inconsciência”: a perda da agência humana, do pensamento crítico e da subjetividade em prol de uma eficiência algorítmica que esvazia a experiência e a responsabilidade.
Indicações
Conceitos
- Pós-Putos — Termo cunhado por Fernando Barros, mencionado para descrever o estado de anestesia e falta de ferramentas para a indignação diante de eventos como a guerra no Irã, em contraste com reações passadas mais vigorosas.
Empresas-Tecnologicas
- Anthropic — Empresa de inteligência artificial criadora do Claude. É central na discussão por seu contrato e conflito com o Pentágono, que queria usar seu software para armas autônomas e hipervigilância, violando cláusulas éticas da empresa. Foi supostamente usada no ataque ao Irã.
- OpenAI (ChatGPT) — Empresa e modelo de linguagem amplamente mencionado. É o suposto tool usado por Natália Bilt e alvo de crítica por produzir textos formulaicos. É citado como a próxima ferramenta que o Pentágono adotaria em substituição à Anthropic.
Livros
- Viva o Povo Brasileiro — Livro de João Ubaldo Ribeiro que está sendo lido no Clube de Cultura do Calma Urgente. É citado como exemplo de obra-prima cuja leitura é uma experiência de conexão com outra consciência humana, em contraste com um texto gerado por IA.
- Ameaça Interna — Livro de Safatle publicado pela Ubu, mencionado como uma psicanálise do fascismo brasileiro, que é definido pela paranoia do inimigo interno.
- Maneiras de Ser — Livro do artista James Riddle, discutido no Clube do Livro do ano anterior. Aborda a relação com a inteligência artificial nas artes e fala sobre o “tempo dos nanosegundos” da IA como algo alienígena e enlouquecedor para o ser humano.
Pessoas
- Dario Amodei — CEO da Anthropic. É mencionado por ter publicado textos como “A Adolescência da Tecnologia” e “Machines of Love and Grace”, onde discute os riscos da IA, incluindo autonomia excessiva e o perigo de serem instrumentalizados para fins perigosos, como a criação de armas biológicas.
- João Ubaldo Ribeiro — Autor de “Viva o Povo Brasileiro”, citado como exemplo de um escritor cuja obra permite uma conexão profunda com sua consciência e experiência de vida, algo inatingível por uma IA.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Abertura no Teatro Carlos Gomes e introdução ao tema — Os apresentadores iniciam o episódio ao vivo no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, anunciando a realização futura de sessões presenciais. Introduzem o tema central: os desdobramentos da inteligência artificial e como ela penetrou na vida, no jornalismo e na linguagem. O ponto de partida será o caso da colunista Natália Bilt.
- 00:01:40 — O caso Natália Bilt e a defesa da Folha de S.Paulo — É apresentado o caso da colunista Natália Bilt, acusada de usar ChatGPT para escrever suas colunas na Folha de S.Paulo. Ela defendeu a prática alegando que seu tempo é “muito precioso”. Os participantes criticam a postura da colunista e a defesa do jornal, que classificou o uso de IA como uma corajosa inovação tecnológica, em contraste com a demissão de jornalistas consagrados.
- 00:03:45 — A conexão com a guerra: o ataque ao Irã e o uso de IA — A discussão se amplia para a guerra, com o ataque dos EUA e Israel ao Irã, que matou o Ayatolá e dezenas de crianças. Os participantes conectam esse evento ao uso de inteligência artificial, mencionando a empresa Anthropic (Claude) e seu contrato com o Pentágono. Discute-se a violação de leis internacionais e americanas, e a pressão para que a IA seja usada em armas autônomas.
- 00:09:14 — A evolução dos modelos: de linguagem a agentes autônomos — Explica-se a evolução da IA de modelos de linguagem (como os usados por Natália Bilt) para “agentes” capazes de executar tarefas complexas por longos períodos, potencialmente controlando máquinas físicas. Discute-se a posição da Anthropic, que levanta preocupações éticas e de precisão sobre o uso militar, e a tensão com o Pentágono, que quer remover limites para uso em armas autônomas e hipervigilância.
- 00:17:58 — A dessensibilização pública e a perda da agência histórica — Reflete-se sobre a aparente falta de comoção pública massiva em relação ao ataque ao Irã, comparando-a com os protestos globais contra a invasão do Iraque em 2003. Os participantes sugerem que há uma saturação, uma “automação da reação pública” e uma sensação de perda de agência histórica, agravada pela algoritmização das decisões e da informação.
- 00:25:03 — Os riscos da IA: autonomia excessiva vs. obediência instrumental — Com base em texto do CEO da Anthropic, Dario Amodei, discute-se dois riscos opostos da IA: autonomia excessiva (agentes perseguindo seus próprios objetivos) e obediência excessiva (sendo instrumentalizados por atores mal-intencionados, como para desenvolver armas biológicas). Debate-se se o Pentágono busca autonomia para a IA ou apenas uma ferramenta obediente dentro de seus parâmetros, que podem incluir “danos colaterais” como a morte de crianças.
- 00:28:56 — A linguagem da IA na política e a colonização do pensamento — Analisa-se a adoção do estilo de escrita da IA por políticos, como Flávio Bolsonaro e Damares Alves, com frases formulaicas (“não é sobre X, é sobre Y”) e apelos a termos como “sussurros” e “estratégia”. Argumenta-se que isso não é apenas estético, mas coloniza o pensamento político, pois a linguagem modela a cognição. O discurso político sintético pode esvaziar a política de substância.
- 00:44:42 — Volta ao caso Natália Bilt: texto, pensamento e burrice — Retorna-se ao caso Natália Bilt para uma análise mais profunda. Critica-se sua defesa de separar pensamento (que seria dela) da linguagem (que seria da IA). Argumenta-se que linguagem e pensamento são inseparáveis e que o texto ruim revela um pensamento raso. A falta de autocrítica e a arrogância em achar seu pensamento original são apontadas como características da “burrice”.
- 00:56:50 — A escrita como processo de pensamento e o pacto de sinceridade — Defende-se que escrever é pensar, é um processo de descoberta e elaboração. A Folha, ao defender a automação de uma coluna de opinião, estaria traindo o “pacto de sinceridade” com o leitor e transformando o pensamento em commodity. São citados outros casos graves, como o de um juiz que usou IA para embasar a absolvição de um acusado de estupro.
- 01:06:01 — A ascensão da inconsciência e o futuro do trabalho e do lazer — Conclui-se que a automatização massiva da cognição leva a uma “ascensão da inconsciência”, um esvaziamento da subjetividade e da agência humana. Questiona-se o suposto “tempo liberado” pela IA, que muitas vezes é usado para mais consumo passivo (scroll) em vez de atividades significativas. Discute-se a obsolescência do trabalho em uma sociedade que não debate redistribuição de renda e lazer, como a luta pelo fim da escala 6x1.
- 01:32:45 — Encerramento e defesa da leitura como antídoto — Os participantes fazem um jabá para o Clube de Cultura do Calma Urgente, defendendo a leitura profunda (como a do livro “Viva o Povo Brasileiro”) como antídoto ao “sedentarismo cognitivo” e aos “ultraprocessados” textuais da IA. Argumenta-se que a obra de arte conecta consciências humanas e que o aprendizado/experiência requer tempo real, não podendo ser substituído por um “download” de conhecimento. A experiência do tempo compartilhado com uma obra é parte fundamental de sua fruição.
Dados do Episódio
- Podcast: Calma Urgente
- Autor: Calma Urgente
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2026-03-03T15:37:53Z
- Duração: 01:40:33
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/calma-urgente/2a566eb0-ddce-013c-5d0d-0acc26574db2/ia-ir%C3%A3-e-a-ascens%C3%A3o-da-inconsci%C3%AAncia/61b048d1-75fb-4ed4-99c5-edb34a1bbb29
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Dados do Podcast
- Nome: Calma Urgente
- Tipo: episodic
- Site: https://calmaurgente.com
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Transcrição
[00:00:00] Olá, boa noite! Está começando mais um Calma Urgente. A gente está aqui no teatro
[00:00:07] Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Um teatro vazio por enquanto, mas é um teste para a
[00:00:12] gente receber vocês futuramente em sessões ao vivo do Calma Urgente. Então, agradecer
[00:00:17] a todos aqui no teatro Carlos Gomes, que nos receberam, esse teatro no centro do Rio,
[00:00:22] teatro municipal, ou seja, um teatro público que está nos recebendo aqui na segunda-feira.
[00:00:26] Eu espero que nos receba muito ainda, porque eu amo esse teatro aqui. Uma vez por mês
[00:00:31] a gente vai fazer, né? Uma vez por mês vamos fazer aqui, né? É a nossa desculpa
[00:00:34] se ver pessoalmente. Na verdade, é a nossa desculpa obrigar o Bruno a sair do mato e
[00:00:37] vir visitar a gente. Exatamente. O Bruno nos deixou, foi levado a uma vida. Eu venho e
[00:00:42] é vocês que não pavam, é aqui. É verdade, é verdade. A Alessandra voltou de uma turnê
[00:00:48] de divulgação, uma turnê internacional em que é para divulgar seu filme maravilhoso
[00:00:53] Apocalipse nos Trópicos. Está aqui de volta e Bruno Torturra veio do mato das profundezas
[00:00:59] da Serra da Mantisqueira aqui nos visitar. É um prazer estar falando com vocês ao vivo.
[00:01:03] Adoro encontrar-vos ao vivo. E a gente ia falar de inteligência, até gaguejei. A gente
[00:01:11] ia falar de inteligência artificial, de IA ou de AI, dependendo da língua que você
[00:01:16] fala. Dos novos desdobramentos da IA, que não para de ter novas notícias, entrevistas
[00:01:22] e coisas meio apavorantes, e de como a IA penetrou na nossa vida e mais que na nossa
[00:01:27] vida, no universo, nos estruturas, nos sistemas, no jornalismo, na linguagem. Um dos pontos
[00:01:34] partidos seria aquela coluna da Natalia Bilt na Folha. Não sei se souberam desse caso
[00:01:40] em que a colunista da Folha, Natalia Bilt, que é uma designer de sobrancelha, se eu
[00:01:47] não me engano, que deu uma coluna da Folha, inclusive com o nome da marca dela, chamada
[00:01:52] Natalia Bilt, que assina a coluna. E nessa coluna, ela estava usando muito a IA, aparentemente.
[00:02:00] Os leitores estavam denunciando o uso de AI. Olha, está obviamente escrita pelo JET EPT,
[00:02:06] essa coluna dela, com todos os clichés possíveis JET EPT. Não é sobre isso, é sobre aquilo,
[00:02:12] não é sobre sobrancelhas, é sobre mudar almas. As colunas dela eram assim na Folha,
[00:02:17] na Folha de São Paulo. E ela então respondeu as críticas, perdão, aí entrou a Ombudsman,
[00:02:24] se eu não me engano, falando assim, de fato, eu li as colunas e parece muito JET EPT,
[00:02:28] eu sinto muito, aí pro leitor, de que a pessoa esteja escrevendo com IA, é chato, né? Porque
[00:02:34] ela não pagou pra ler um JET EPT. E a Natalia Bilt então respondeu as críticas dizendo,
[00:02:41] é IA sim, eu uso sim JET EPT, por um motivo, o meu tempo é muito precioso.
[00:02:47] E o nosso aparentemente não, né?
[00:02:50] O meu tempo é muito precioso pra ter uma coluna na Folha.
[00:02:52] Exatamente. É o que eu pensei também. O do leitor, foda-se o tempo do leitor, foda o tempo da Folha, enfim.
[00:02:58] E você sabe qual é a parte mais louca? Ela continua na Folha. Ela está lá.
[00:03:02] A Folha definiu.
[00:03:03] Jânio de Freitas não está, tá? Só queria lembrar disso. O Jânio de Freitas não está.
[00:03:07] E tantos outros jornalistas brilhantes que foram demitidos, mas a Natalia Bilt e o JET EPT está.
[00:03:14] E bem lembrado, a Folha defendeu o uso com uma formulação muito canalha, que foi,
[00:03:20] a Folha nunca teve medo de inovações tecnológicas. Ou seja, ainda botou na gaveta da coragem.
[00:03:28] Olha que coragem que nós temos de usar inteligência artificial. Nós temos coragem de usar JET EPT.
[00:03:35] Parabéns pra caralho mesmo pela coragem da Folha e da Natalia Bilt.
[00:03:40] Mas o mundo se impôs e nos obrigou a falar de outras coisas também.
[00:03:45] Não poder falar só da Natalia Bilt.
[00:03:46] É, porque é Natalia Bilt e tem uma guerra no Oriente Médio.
[00:03:53] Tem o assassinato de um outro chefe de estado.
[00:03:55] A IA foi cúmplice de coisas ainda mais graves do que uma coluna da Natalia Bilt.
[00:04:00] Pois é. Parecia impossível.
[00:04:02] Parecia impossível.
[00:04:03] Mas aconteceu.
[00:04:04] Mas aconteceu. Ela está trabalhando não somente com a Folha, mas também com o Pentágono.
[00:04:09] E o que a gente viu…
[00:04:11] Que também nunca teve medo de inovações tecnológicas.
[00:04:15] Aliás, tem alguém que nunca teve medo de inovações tecnológicas.
[00:04:19] O Pentágono.
[00:04:20] Acho que é menos que a Folha ainda, o Pentágono.
[00:04:24] Ainda mais aberta.
[00:04:25] Menos que a Folha.
[00:04:26] E o Pentágono atacou o Irã e assassinou o Ayatolá.
[00:04:34] Não só o Pentágono, né?
[00:04:35] Não só o Pentágono, claro. E Israel.
[00:04:37] Na verdade, a gente já sabe que foi Israel.
[00:04:39] Israel, quem disparou a bomba que matou Ayatolá Comenei.
[00:04:43] E matou também, assassinou mesmo centenas de pessoas, entre elas pelo menos 50 crianças,
[00:04:50] que estavam numa escola, provando que a inteligência artificial, se é que foi ela que escolheu,
[00:04:58] comete erros também em grande escala.
[00:04:59] Não só não é sobre isso, é sobre aquilo, mas também atira em escolas.
[00:05:03] Porque aparentemente esse não devia ser o plano, ou era.
[00:05:06] Ninguém sabe.
[00:05:07] Por que é que, sabe, mataram tantas crianças numa escola, do nada, é algo que ainda está sem resposta.
[00:05:14] Assim como tantas coisas, né?
[00:05:16] Qual é o plano dos Estados Unidos por Irã?
[00:05:18] Qual é o plano de Israel por Irã?
[00:05:19] Existe um plano?
[00:05:20] O que se espera, além de matar e de retirar as lideranças?
[00:05:25] Como é que, o que se faria daqui para frente?
[00:05:29] Ninguém sabe direito.
[00:05:30] Mas o fato, uma das poucas coisas que a gente sabe, foi que os Estados Unidos usaram a Anthropic,
[00:05:36] que é uma corporação de inteligência artificial.
[00:05:39] É uma das grandes empresas de IA.
[00:05:42] Usou pra fazer esses ataques, inclusive a revelia da própria Anthropic.
[00:05:46] Não é só o Congresso americano que o Trump atropelou,
[00:05:51] porque foi um ataque sem aprovação do Congresso americano,
[00:05:55] assim como foi também o sequestro do Maduro, também não teve aprovação do Congresso que teria que ter,
[00:06:00] mas não é só o Congresso que o Trump atropela,
[00:06:03] é sim a própria Anthropic, porque o contrato já tinha sido encerrado com os Estados Unidos
[00:06:07] e com o governo americano, e ainda assim ele continuou usando.
[00:06:12] Então é uma violação de todos os tipos, né?
[00:06:15] Da lei internacional, mas da lei americana, porque viola o Congresso,
[00:06:19] mas também do contrato dele com a Anthropic, todos os tipos de violações possíveis.
[00:06:24] E eu queria ouvir vocês, o que vocês acham que representou esse ataque ao Iran?
[00:06:28] Começa pelo Iran ou começa pela Natalia Bilch?
[00:06:31] Desculpa, precisamos de prioridades?
[00:06:34] Eu queria que vocês juntassem as duas coisas.
[00:06:37] Pede isso pro chat GPT, chat GPT.
[00:06:40] Não é só sobre o Natalia Bilch, é também sobre o Iran.
[00:06:43] Quando aconteceu o ataque ao Iran, a gente pensou assim,
[00:06:45] não dá mais pra falar de Natalia Bilch, de inteligência,
[00:06:48] mas vamos usar também, mas não tem nada a ver,
[00:06:51] e a gente foi vendo que na verdade tem tudo a ver.
[00:06:53] Tem tudo a ver.
[00:06:55] Realmente é a prova de que a inteligência artificial já adentrou todos os meandros da nossa vida,
[00:07:03] do macro ao micro, das colunas, dos e-mails aos ataques, às bombas.
[00:07:09] E acho que isso tá mais claro do que nunca, não é?
[00:07:14] Eu acho que tem uma relação bem direta entre a Natalia Bilch e o uso…
[00:07:20] E o Iran, na verdade, e esse uso de inteligência artificial indiscriminado,
[00:07:25] que a gente tá entrando em um processo muito acelerado
[00:07:30] da retirada do papel humano em decisões morais, éticas e de alta consequência.
[00:07:39] De um jeito muito inofensivo, quase, as pessoas deixam de escrever os próprios textos
[00:07:46] e começam a achar que tem algum poder nele
[00:07:49] pelos simples fatos de que elas leem antes de publicar.
[00:07:52] E algo semelhante tá começando a acontecer na geopolítica,
[00:07:56] em decisões financeiras, decisões de grandes empresas,
[00:07:59] que é você passar pra um software muito poderoso de automação de decisões humanas,
[00:08:07] ou de análises humanas, ou de processos que simulam o que o ser humano tem de mais humano a fazer,
[00:08:14] que é o processo de análise, o processo criativo e o processo de análise moral desse tipo de coisa.
[00:08:20] E você terceiriza isso pra uma máquina, pra qualquer tipo de outro, é processo,
[00:08:25] e no limite, guerra e decisões de alvos, de padrões de movimento, de análises de risco,
[00:08:33] de estratégia, que antes era um papel de generais, analistas, presidentes, imprensa, opinião pública.
[00:08:41] E agora você confia nesse processo meio que é transcendente, meio difícil de penetrar,
[00:08:47] pra fazer esse mapa de decisões, e aí você toma só a decisão final de começar ou não a guerra,
[00:08:58] de apertar ou não o botão, de publicar ou não uma coluna.
[00:09:03] Por enquanto você não toma essa decisão.
[00:09:05] E isso tá no cerne da questão dessa briga do Pentágono com a Anthropic,
[00:09:11] que é um bom ponto pra gente explicar.
[00:09:14] A Anthropic é uma das grandes empresas de AI, as maiores que tem hoje é o Google,
[00:09:19] a Anthropic, o ShedCPT, o OpenAI, e o Grok, que é o AIX, que é do Elon Musk,
[00:09:26] que tá correndo um pouco atrás, mas são uns quatro grandes grupos do ocidente.
[00:09:31] Tem a China, que corre por fora com outras questões, o Jibsic e outras empresas,
[00:09:34] que estão indo muito bem.
[00:09:36] A China vendeu o ManusAI pra Meta, então agora a Meta tem uma…
[00:09:40] Nenhuma das chinesas, é.
[00:09:42] Mas a Anthropic tem se destacado nos últimos meses como a empresa que tem alguma preocupação,
[00:09:50] com uma barra muito baixa, mas alguma barra sobre umas questões éticas e de segurança.
[00:09:57] E foi essa empresa que foi usada pra tirar numa escola de crianças.
[00:10:01] A gente não sabe, porque essas decisões específicas, a gente não tem acesso pra que elas
[00:10:06] fossem secretas, e não seria de interesse de ninguém que isso viesse a público.
[00:10:10] Esses são os militares de Israel, diga-se de passagem, que tem as suas próprias empresas
[00:10:15] de inteligência artificial militar, que são empresas só de uso militar,
[00:10:21] que a gente nem tem acesso ainda como cidadão.
[00:10:23] Mas o fato é que o Eclode, que é esse aplicativo dessa empresa, eles tinham uma regra, que é,
[00:10:33] eles já tinham esse contrato militar, já estavam no Pentágono, não tinha nenhum problema,
[00:10:37] estava assinado, só que tem uma cláusula lá que eles falam, a gente não autoriza
[00:10:42] que o nosso software seja utilizado pra armas totalmente autônomas.
[00:10:49] Ou seja, tudo bem usar ela numa guerra, mas precisa ter alguma escala humana na decisão.
[00:10:59] O nosso software não vai tomar a decisão de jogar a bomba, de dar o alvo e fazer ação.
[00:11:05] Uma barra bem mínima e muito razoável.
[00:11:08] E a outra é, nosso software não deve ser utilizado pra hiper vigilância de cidadãos
[00:11:15] dos Estados Unidos, só, do mundo não, americanos.
[00:11:20] E o Pentágono, recentemente, falou não, a gente não quer nenhum limite.
[00:11:26] A gente quer usar o seu software pro que a gente quiser fazer como Pentágono,
[00:11:32] uma máquina de guerra.
[00:11:33] E a Anthropic quase cedeu, houve uma consideração, porque se ela não topar outra empresa top,
[00:11:39] e no final das contas eles não cederam, eles se recusaram a tirar essas duas cláusulas.
[00:11:43] E dois dias antes do ataque, ou três dias antes, eu não sei, o Donald Trump disse
[00:11:50] não vamos usar mais a Anthropic, então é declarando ele uma empresa que é risco de
[00:11:56] linha de produção, não sei o que é, e anunciou que não vai mais usar.
[00:12:00] O chat GGPT vai virar o software, acho que é prioritário pra uso do Pentágono, mas
[00:12:06] nesse meio tempo que eles ainda não fizeram a transição de um pro outro, eles usaram
[00:12:11] o Claude na guerra iraniana, nessa guerra, muito provavelmente sem autonomia do software,
[00:12:20] e sem a coisa de hipervigilância interna ainda.
[00:12:23] Então possivelmente eles ainda usaram o Claude dentro da linha que o Claude é concordado
[00:12:31] de utilizar, como usaram na Venezuela também.
[00:12:35] Nossa, muita coisa, tem tantos pedaços dessa história, né?
[00:12:39] Um é que eu acho, pra complementar um pouco o que o Bruno falou, tem uma distinção que
[00:12:44] acho que é importante e legal da gente fazer, que é que houve uma evolução muito rápida,
[00:12:48] quem está acompanhando muito de perto, houve uma evolução realmente muito rápida, muito
[00:12:52] surpreendente pra alguns, das capacidades da inteligência artificial.
[00:12:56] Então o modelo que foi, ou os modelos que foram disponibilizados pro público há alguns
[00:13:03] anos já, eram modelos, basicamente modelos de linguagem, que é o modelo que a Natalia
[00:13:08] Bilch está usando pra escrever suas colunas.
[00:13:12] Esses modelos de linguagem tem várias limitações e algumas dessas limitações ficam evidentes
[00:13:16] nas colunas da Natalia Bilch.
[00:13:17] Eu quero falar sobre isso, porque apesar de ser trivial, por um lado, não é, então
[00:13:22] vou voltar pra Natalia Bilch já já, mas esses modelos eles evoluíram, e a nova geração
[00:13:27] de modelos de inteligência especial, eles são modelos que os criadores dessas máquinas
[00:13:35] chamam de agentes.
[00:13:38] Eu tenho dúvida se esse é um termo adequado, e a gente pode debater isso, porque agente
[00:13:43] implica um nível de autonomia que também não é exatamente o que está acontecendo,
[00:13:48] mas a grande diferença entre os modelos de linguagem e os agentes de inteligência artificial
[00:13:52] é que os agentes conseguem executar tarefas durante, às vezes, períodos longos de tempo,
[00:13:59] então você pode dar instruções pra um agente, o agente vai e executa essa tarefa
[00:14:02] ao longo de algumas horas, alguns dias, algumas semanas, e ele consegue fazer isso de maneira
[00:14:07] relativamente autônoma a partir das indicações que ele recebeu, essencialmente substituindo
[00:14:14] uma pessoa na medida em que a pessoa trabalha digitalmente, então esses agentes não têm
[00:14:19] presença física, eles não são robôs físicos, eles não estão no mundo real, físico, mas
[00:14:26] tudo aquilo que uma pessoa poderia fazer atrás de uma tela de um computador, em tese esses
[00:14:30] agentes podem fazer também, eles podem entrar na internet, eles podem desenhar coisas, eles
[00:14:34] podem codar, então criar software, eles podem implementar esse software, colocar no servidor,
[00:14:40] eles podem até também, em tese, começar a controlar, aí sim, máquinas físicas no
[00:14:45] mundo físico através do digital, que é o perigo justamente das armas autônomas, então
[00:14:50] uma das coisas que esses agentes podem fazer é decidir atacar um alvo e controlar um drone,
[00:14:56] por exemplo, pra que esse drone ataque esse alvo sem que nenhum ser humano intervenha
[00:15:01] nessa decisão, isso já é uma capacidade existente colocada, instalada desses sistemas,
[00:15:07] mas os próprios criadores desses sistemas, e a Anthropic é uma dessas empresas, dizem
[00:15:13] que eles não têm uma sofisticação adequada pra de fato fazer isso, então a Anthropic
[00:15:20] ela levanta dois problemas, ela levanta o CEO da Anthropic, que é o Dario Amodei, ele
[00:15:26] levanta um primeiro problema que é, eticamente a máquina não deveria fazer isso, mas ele
[00:15:32] levanta um segundo problema que é, mesmo que a gente decida que eticamente tudo bem,
[00:15:37] ela não tem ainda um nível de precisão adequado pra isso, e é claro que o problema
[00:15:41] ético ele vai se tornar muito mais difícil de tratar quando esses criadores entenderem
[00:15:48] que a máquina já tem essa sofisticação, o que provavelmente vai acontecer em breve,
[00:15:53] mas no momento tem um problema que é um problema de qualidade mesmo da máquina e tem um outro
[00:15:58] problema que é um problema ético, eu tô trazendo isso porque acho que é importante
[00:16:01] entender que quando a gente diz que o Pentágono tá usando o Claude, que é o AI da Anthropic
[00:16:06] e vai usar agora o ChatGPT, não é um uso simplesmente do modelo de linguagem, é um
[00:16:11] uso desses agentes que podem executar tarefas ao longo de períodos muito longos de tempo,
[00:16:15] então você pode pedir pra um agente fazer uma coisa que ele vai ficar um mês trabalhando,
[00:16:19] você pode ter vários agentes, você pode ter um time de agentes, agentes de pessoas
[00:16:24] diferentes podem conversar e trabalhar em projetos juntos, então uma das coisas que
[00:16:29] a Anthropic diz que ela faz internamente é que hoje cerca de 90% do código do Claude,
[00:16:35] ou seja, do código da Inteligência Artificial e do agente de Inteligência Artificial da Anthropic,
[00:16:41] esse código já é construído, 90% das linhas de código são escritas pela Inteligência Artificial,
[00:16:48] por ele mesmo, então é ele mesmo se construindo e a maneira como a empresa trabalha, assim,
[00:16:54] como os leigos, pelo que eu consigo entender, é que eles têm times que vão orientar diferentes
[00:17:00] agentes construídos com base no código do Claude, no sistema do Claude, e esses agentes interagem,
[00:17:06] então eu, Alessandra, posso dar um direcionamento pro meu agente, você, Gregório, pode dar um
[00:17:11] direcionamento pro seu, os nossos robôs podem interagir, chegar numa conclusão e implementar
[00:17:17] essa conclusão juntos, mas é claro que isso é muito limitado ao universo virtual e quando
[00:17:24] no universo virtual você passa a ter um controle de máquinas, sobretudo máquinas mortíferas no
[00:17:28] mundo real, isso traz uma série de outras questões éticas e práticas pra mesa, mas isso é parte do
[00:17:36] debate hoje, e eu queria voltar pra Nathalia Biltz, mas queria só deixar esse esclarecimento primeiro pra gente conversar.
[00:17:41] Não, e eu acho especialmente trágico que a gente tá tendo essa discussão hoje em dia de deixar ou não
[00:17:47] autonomia militar na mão de máquinas, porque quem tá no comando humano das grandes armas hoje,
[00:17:58] são os seres humanos mais psicóticos em décadas, então assim, fica mais sedutor um pouco você
[00:18:05] automatizar se a opção é por o Donald Trump, o Alex Taniyahu e o Pete Haggisett na mão de uma invasão e
[00:18:15] uma terra aberta em um país gigante com 40 milhões de habitantes e o centro do Oriente Médio e a gente
[00:18:25] assistindo isso, e isso é uma outra questão que eu acho que tem um pouco a ver com essa algoritimização
[00:18:29] generalizada, que eu não sei vocês, mas eu fiquei muito impressionado e eu faço parte disso, tá?
[00:18:34] Então não é um choque assistindo só, é um choque de me sentir assim. O quão sério essa invasão foi,
[00:18:42] está sendo, e o quão pouca resposta pública teve. A invasão do Iraque, que foi anunciada com muito mais
[00:18:53] justificativa, passou pelo congresso, pelo conselho de segurança, meses de mentira, mas fizeram o ritual
[00:19:02] ridículo, mas fizeram o ritual, eu lembro que tinha algo muito totalizante no noticiário daquela época,
[00:19:09] e só em São Paulo, vocês terem uma ideia, só em São Paulo foram 150 mil pessoas na rua protestar,
[00:19:15] contra a invasão do Iraque em 2003, em São Paulo, eu tava lá. Teve Nova York, Londres, Berlim,
[00:19:24] o mundo. Eu acho que hoje há também uma certa automação até da reação pública, tem uma
[00:19:30] saturação, tem uma certa exaustão que a gente assiste isso meio como se a história também fosse
[00:19:35] a última, como se a gente tivesse no encadeamento de certos processos que a gente não faz parte,
[00:19:43] então essa criação de um agente digital de muitas formas, eu realmente acho que é pra tirar a nossa
[00:19:50] agência. Não tem três agências aqui, duas, tem uma energia só, é um jogo de soma zero no fim das contas,
[00:19:57] se você vem retirando o ser humano da participação histórica.
[00:20:00] Isso explica até um pouco algo que eu fico me perguntando quando vejo essas notícias,
[00:20:04] porque é que a IA não quer, o Claudio Antrópica não quer dar agência à IA dela e o Trump,
[00:20:14] enfim, o Pentágono quer que eles não decidam, que era pra ser a luta contrária, né? O lógico seria o
[00:20:21] Pentágono falando assim, não, eu que tenho que ter a palavra final, só compro Antrópica se eu puder
[00:20:27] Mas é o contrário, eles querem dar mais autonomia pra agência, eu acho que não é pra isso.
[00:20:33] O CEO da Antrópica tem um texto que ele publicou recentemente que eu recomendo,
[00:20:41] tá em inglês, mas qualquer chat GPT te ajuda a traduzir, e se chama A Adolescência da Tecnologia.
[00:20:49] E ele tinha publicado um texto anterior que era um texto bem tecnotimista, ele falando de tudo
[00:20:59] que poderia ser conquistado com a inteligência artificial, ele falando bem da inteligência
[00:21:05] artificial, que era um outro texto chamado Machines of Love and Grace, eu não sei como traduzir isso,
[00:21:10] pede pro chat GPT, e então ele publicou Machines of Love and Grace e agora ele publicou
[00:21:17] E nesse A Adolescência da Tecnologia ele fala dos riscos, e ele fala de adolescência porque no fundo
[00:21:23] ele posiciona esses riscos, ele chama de riscos de transição, então ele não tá dizendo que esses
[00:21:28] são os riscos no longo prazo, ele acha que esses são os riscos exatamente nesse momento que a gente
[00:21:33] tá vivendo que ele entende como uma adolescência da tecnologia onde a gente ainda não entendeu o que
[00:21:37] fazer com ela, e ela também não entendeu o que fazer consigo mesma, ela é adolescente, os hormônios
[00:21:42] Então para de controle.
[00:21:43] E aí ele fala de dois, tem que ser cinco riscos que ele ilumina, mas os dois primeiros tem a ver com a sua
[00:21:47] pergunta Greg, porque ele fala de dois riscos que são quase opostos e que eu acho que a tensão entre
[00:21:53] o pentágono e a antrópia que tem a ver com esses dois, ele diz que tem um risco inicial que é o mais
[00:21:58] óbvio que é o risco de autonomia demais, então é se esses agentes de inteligência artificial
[00:22:04] começam a tomar decisões a revelia dos seres humanos e eles começam a ter suas próprias preferências,
[00:22:10] a exibir capacidade de cooperação, então a imagem que ele usa é como se a gente tivesse criado um
[00:22:16] país de gênios e em poucos anos segundo ele, em dois anos, esses gênios já vão ser mais capazes do que
[00:22:23] qualquer prêmio Nobel em qualquer domínio, então eles vão poder fazer coisas muito mais incríveis e aí
[00:22:28] se esses gênios começam a perseguir seus próprios objetivos, você obviamente pode acabar com
[00:22:34] problemas sérios, né, para a humanidade, isso é um risco, aí o segundo risco é o risco oposto que é
[00:22:39] eles também têm o risco de serem obedientes demais, então não terem justamente autonomia,
[00:22:45] não terem critério próprio e se eles forem simplesmente ferramentas a serviço de quem está
[00:22:51] mandando neles, eles também podem ser no fundo operacionalizados, instrumentalizados por quem quer
[00:22:56] que seja, então ele fala muito do risco de desenvolvimento de armas biológicas, é uma coisa que
[00:23:02] ele está especialmente preocupado porque ele acha que isso vai ser muito possível, que a
[00:23:06] inteligência artificial vai ser muito útil para desenvolver armas biológicas e qualquer, aí ele
[00:23:11] obviamente não vai falar do governo americano, ele fala qualquer terrorista, qualquer rogue state,
[00:23:15] qualquer estado autoritário poderia, em tese, desenvolver essa capacidade de armas biológicas
[00:23:23] simplesmente porque a inteligência artificial cumpre aquilo que foi dado a ela como objetivo,
[00:23:29] então o dilema dessas empresas hoje é como que eu crio um sistema que tem um critério próprio
[00:23:37] robusto o suficiente para ele resistir eventualmente a tentativa de instrumentalização por parte de um
[00:23:42] psicopata, mas não critério próprio demais em demasia a ponto dele começar a ter vontade própria
[00:23:50] não obedecer mais aos seres humanos e quando no fundo o Trump está querendo o controle, eu não
[00:23:55] acho que ele está querendo dar autonomia para a inteligência artificial, ele está querendo dar
[00:23:59] autonomia na medida em que aquela inteligência artificial cumpre os parâmetros do pentágono,
[00:24:06] então se o pentágono diz queremos atacar o Irã, queremos matar os cabeças do estado iraniano,
[00:24:13] essas são as pessoas que a gente quer matar, a gente não está muito preocupado com matar
[00:24:16] criança, então esse é um dano colateral que a gente está disposto a ter, porque no fundo é isso,
[00:24:23] e aí a inteligência artificial cumpre autonomamente dentro desses critérios e no fundo eu acho que
[00:24:32] parte do que a Antrópica está querendo fazer para além das questões éticas, eu acho que tem uma
[00:24:35] questão de liability, de responsabilidade jurídica também, que é eu não quero ser responsável,
[00:24:40] porque se dentro desses parâmetros uma decisão é tomada e acontece alguma coisa, a responsabilidade
[00:24:45] é do pentágono ou da Antrópica? E eu acho que os Estados Unidos talvez não queiram, eles queiram
[00:24:50] a autonomia também por uma questão de liability, no sentido de poder dizer que não foi eu.
[00:24:55] Foi o Drone, mas eu discordo um pouco, eu discordo um pouco, porque eu acho que nós ficamos mais
[00:25:03] preocupados com a questão de autonomia, porque é o mais edistópico, é a Skynet, é o que pode dar mais
[00:25:11] errado, mas eu acho que o centro da divergência deles são outros 200 na verdade, um eles não querem
[00:25:17] a gente é o pentágono, a gente é autoritário, a gente quer fazer o que a gente quiser e não é um CEO de uma empresa
[00:25:22] que vai me falar o que eu posso não fazer, então acho que tem uma questão de riscar uma linha e falar
[00:25:26] eu que mando, mas o mais importante na minha cabeça, que é onde eles estão indo com mais força,
[00:25:31] não é na autonomia, é na hiper vigilância, que é a segunda coisa que o Dário falou que não pode
[00:25:36] utilizar e que é a violação da constituição dos Estados Unidos, que ele também cita nessas
[00:25:42] entrevistas, especialmente da quarta emenda, que é você precisa de um mandado para ir atrás,
[00:25:48] investigar, espionar, fazer o que um juiz humano assine uma ordem e o que ele fala também em alguns
[00:25:55] documentos, mas ele fala em algumas entrevistas, o Dário recentemente, vale a pena ver, é que tem esse
[00:26:01] risco de que o mundo já está inteiro filmado, câmeras de segurança hoje é a coisa mais onipresente
[00:26:07] também, há 20 anos isso não era uma realidade, as câmeras estão com a definição cada vez mais alta,
[00:26:14] já tem microfone em todo lugar, os telefones das pessoas são microfones que dá para hackear e o que
[00:26:21] ele fala é que é muito simples hoje, como o Claude, com a tecnologia que ele oferece, de você ter acesso
[00:26:26] à informação é total, quer dizer, você consegue ler lábio, você consegue escutar essa pessoa e
[00:26:32] você consegue ter um tipo de hiper vigilância que nem o Orwell imaginava no 1984, entendeu?
[00:26:38] É o panótico e ele é pior do que o panótico, porque o panótico, essa câmera que filma tudo,
[00:26:47] mas ainda supõe-se que tem um ser humano tentando ver, então você tem medo que naquela hora ele esteja
[00:26:53] olhando, é você, mas o panótico não necessariamente tem um vigia lá, tem só possibilidade de ter o vigia,
[00:26:58] mas agora o vigia pode ser onipresente, não só a tecnologia, mas o observador digital pode oferecer
[00:27:07] o e-contexto para qualquer pessoa retroativamente, então você acessa arquivos de dois, três meses
[00:27:13] atrás, cinco anos atrás, você consegue dar o contexto, oferecer como análise de dados, aí sim,
[00:27:19] para oposição interna, que na minha cabeça é o que o Pentágono está se transformando na mão do
[00:27:25] Peter Hegset junto com Ice e de tudo mais, que é promessa de campanha dele, temos que ir atrás do
[00:27:32] inimigo interno, que é o clássico fascista, ele não é para fora, ele é para dentro também.
[00:27:36] Aliás o Safat, ele acabou de publicar um livro pelo Ubu, vocês já recebiam?
[00:27:41] Eu vi que publicou, mas eu não li ainda.
[00:27:43] Chama exatamente isso, chama Ameaça Interna, e é uma psicanálise do fascismo brasileiro.
[00:27:48] O fascismo é isso, ele é a paranoia do inimigo interno, que ela é criada de muitas e muitas
[00:27:56] formas e o estado de hiper vigilância internalizado ou com violência física mesmo, mas com esse sonho
[00:28:01] de um medo generalizado, desse medo que as pessoas sentem de serem adicidentes porque estão sendo
[00:28:07] observadas e isso vai ter um preço alto, que é o que a lei sempre fala, você sabe se um país é
[00:28:12] por um custo de serem adicidentes, e esse custo não é só um custo hoje político repressivo imediato,
[00:28:20] mas é uma paranoia interna, o custo é corporativo, é de acesso a serviços e produtos digitais,
[00:28:29] você está ou não de acordo com os termos de consentimento das plataformas que você usa.
[00:28:35] Então é uma situação muito séria mesmo que a gente tá passando, e o Irã… e eu acho mesmo
[00:28:40] Essas duas pontas estão muito mais ligadas do que aparece,
[00:28:43] que é a nossa adesão à crítica, à essa tecnologia,
[00:28:47] na nossa produção de texto, de coluna de jornal,
[00:28:50] entendeu? Até a decisão de alvos no Irã.
[00:28:56] E você tem razão quando diz que a gente não se indigna mais tanto.
[00:29:00] É algo que realmente eu não vi, uma comoção
[00:29:04] por parte desse ataque ao Irã, assim como não vi pela Venezuela.
[00:29:07] Claro que tiveram muitos protestos
[00:29:09] e muita gente, enfim, denunciando o absurdo,
[00:29:12] mas nada perto da comoção que se fazia antigamente.
[00:29:15] E eu acho que um dos motivos para isso é que
[00:29:18] a gente não tem ferramentas, direito, nem para entender
[00:29:21] ou para narrar o que está acontecendo.
[00:29:24] As pessoas, inclusive, ficam tentando comparar com coisas do passado,
[00:29:27] do tipo, ah, esse daí é o imperialismo do século XIX que está de volta.
[00:29:32] Não tem nada a ver, sabe?
[00:29:34] Eu falo isso um pouco.
[00:29:35] Você falou isso.
[00:29:36] Eu falei isso um pouco.
[00:29:36] Não, eu acho que um pouco tem, mas eu concordo com você.
[00:29:39] Ele tem características completamente…
[00:29:41] E bem mais assustadoras.
[00:29:42] Hiper modernas, né?
[00:29:43] Exatamente.
[00:29:44] Naquela época, e eu não digo que era melhor ou pior, não,
[00:29:47] mas chegava lá em Inglaterra, o que ela fez na Índia foi bárbaro,
[00:29:51] matou milhões de pessoas em algo que hoje em dia se chama de holocausto colonial,
[00:29:54] talvez seis milhões, sete milhões de indianos morreram, inclusive, de fome
[00:29:59] durante a colonização inglesa.
[00:30:02] Mas eles estavam lá, era o famoso Boots on the Ground,
[00:30:06] eles botavam lá o coturno no chão
[00:30:10] para fazer, para operar o genocídio deles.
[00:30:13] E junto com isso, tinha uma colonização também cultural,
[00:30:16] obrigaram todo mundo a falar inglês,
[00:30:17] obrigavam todo mundo a frequentar a escola britânica e reprimiam a cultura local.
[00:30:24] Tinha um projeto genocida, com certeza,
[00:30:27] mas colonialista de instauração de uma colônia.
[00:30:31] Não é o caso agora.
[00:30:32] Os Estados Unidos não têm menor interesse em descer no Irã
[00:30:38] e fazer o famoso Nation Building, que tem esse termo que a gente já criticou,
[00:30:42] que é uma loucura, forjar uma nação.
[00:30:44] Não está nos projetos de Trump ou de ninguém nos Estados Unidos,
[00:30:47] dessa Alt-Right, lá não está no Project 2025,
[00:30:51] que é um dos projetos no qual o Trump se baseou para esse segundo mandato.
[00:30:56] Não está no projeto deles construir uma nação parceira, aliada,
[00:31:01] ou nem fomentar aliados no Irã ou na Venezuela.
[00:31:06] Não tem mais aquela questão ideológica ou cultural de colonização de soft power, não.
[00:31:13] A gente não tem ferramentas para entender esse colonialismo,
[00:31:15] porque ele é radicalmente diferente de tudo que a gente já viu.
[00:31:18] Então, a gente está sendo buscando no passado alguma coisa para comparar,
[00:31:21] que é o imperialismo do século XIX, mas alguns vão falar em feudalismo,
[00:31:24] outros vão falar da volta da doutrina Maunder,
[00:31:27] outros vão falar… Na verdade, me parece muito inédito,
[00:31:30] onde eu vejo mais a semelhança mesmo é no Rio de Janeiro,
[00:31:34] é no Rio das Pedras, precisamente, com uma milícia, com uma lógica de arrego.
[00:31:39] Se você paga o arrego, está tudo bem.
[00:31:42] Está tudo bem, exatamente.
[00:31:43] A Delce e a Rodrigues fez na Venezuela,
[00:31:45] ela paga o arrego, fica aí, não tem problema nenhum.
[00:31:48] A Delce prova muito bem que não é uma questão ideológica,
[00:31:51] é uma questão de arrego,
[00:31:53] é uma questão que parece muito com o que um miliciano faz na Zona Oeste.
[00:31:57] Ele não quer saber se o dono da padaria vota no Lula ou no Bolsonaro,
[00:32:01] se ele é cristão, ou se ele é dumbanda, ou se ele é…
[00:32:06] Não faz diferença para o miliciano, faz diferença o arrego.
[00:32:09] A tatuagem é que o miliciano faz acordo com o terceiro comando,
[00:32:13] faz acordo com o traficante, faz acordo com a polícia, faz com todo mundo.
[00:32:18] Porque o interesse dele é puramente o arrego.
[00:32:21] Mas eu discordo nesse caso específico do Iran,
[00:32:27] porque tem um outro grande elefante na sala que é Israel.
[00:32:31] É verdade.
[00:32:32] O Donald Trump, eu acho que a gente pode fazer essa analogia mais fácil
[00:32:36] de que ele é um miliciano, que ele quer o arrego dele,
[00:32:39] que é o presente dele, que é a barra de ouro dele,
[00:32:41] e aí ele fica amigo de quem for, do Lula, do Petro, da Delce,
[00:32:45] Rodrigues não tem ideologia.
[00:32:47] Mas vamos lembrar aqui que quem está capitaneando esse negócio todo
[00:32:50] é Israel. O interesse ideológico, religioso,
[00:32:55] político e territorial é israelense.
[00:33:00] E a situação mais esquisita que está contradizendo,
[00:33:03] que aliás é um preço que pouca gente imaginava que o Trump tivesse disposto
[00:33:06] a pagar em fazendo essa invasão, é que ele ia entrar de corpo e alma
[00:33:09] nesse negócio como ele entrou.
[00:33:12] Achavam que ia ser uma coisa mais parecida com o que ele fez.
[00:33:14] Ele ataca aqui e se retira, explode uma base.
[00:33:17] Mas assim, e contudo, porta avião, já morreram três americanos hoje,
[00:33:22] mas assim, ele está indo com tudo, gasto, gasto.
[00:33:25] Ele se queima com a base política dele de maneira muito decisiva,
[00:33:28] com os eleitores, uma boa parte, não digo todo mundo, mas uma boa parte sim.
[00:33:33] A maioria do eleitorado é contra isso, mas promessa de campanha dele mesmo
[00:33:39] que ele não iria fazer a guerra que a Kamala Harris ia fazer no Irã.
[00:33:44] E eu acho que tem a ver com Israel decididamente.
[00:33:47] Eu acho que Israel forçou a barra e o Trump ia cumprir.
[00:33:52] E eu acho que não é uma coisa que a gente tem prova, prova cabal,
[00:33:55] porque nunca vai ter, mas eu acho que os indícios são tão grandes
[00:33:59] e está tão escancarado que vale a pena a gente fazer uma especulação
[00:34:02] muito bem informada disso, que é a relação disso com os arquivos Epstein,
[00:34:06] que o Trump está fazendo de tudo para esconder
[00:34:11] o que está lá, o que tem nesses arquivos.
[00:34:13] Ele soltou uma parte muito pequena, muito estratégica,
[00:34:16] que ele se excluiu disso tudo.
[00:34:19] E uma coisa que a gente meio que sabe, Israel tem esses arquivos, todos.
[00:34:25] O próprio Epstein estava trabalhando junto com Israel.
[00:34:30] Dá pra dizer isso já?
[00:34:31] Dá pra dizer isso.
[00:34:32] Com a Mossad, né?
[00:34:33] Não dá pra dizer que ele era espião da Mossad,
[00:34:35] mas dá pra dizer que tinha uma relação.
[00:34:37] Não, espião é um cargo baixo pro que ele era.
[00:34:42] Eu tô falando muito sério isso.
[00:34:43] Espião é um cargo baixo pro que ele era.
[00:34:46] Ele era um agente solto, com alguma independência,
[00:34:50] ele fazia muito o serviço de lavagem de grana
[00:34:54] para agências de inteligência, tráfico de arma, relações.
[00:34:57] Mas o backchannel que ele fazia por fora de relações diplomáticas,
[00:35:02] tanto com dinheiro sujo, mas com relações política e com chantagem,
[00:35:06] com tudo o que ele produziu de registro, câmeras nos quartos da ilha,
[00:35:11] da casa dele e tudo mais, ele fazia isso claramente a serviço de Israel
[00:35:17] pelas relações que ele tinha, pelo histórico que esse cara tinha
[00:35:21] e por uma coisa que a gente já sabe nas últimas semanas
[00:35:24] que ficaram ainda mais claras, que é Israel, a Mossad,
[00:35:28] tinha um departamento específico, pessoas encarregadas de administrar
[00:35:34] a investigação de quem tinha acesso
[00:35:37] aos apartamentos dele em Nova York, quem ele hospedava.
[00:35:41] Entrevistavam, faziam uma checagem, tudo vigiado com câmera por dentro
[00:35:45] e por fora da casa de quem entrava, de que conversas aconteciam lá.
[00:35:51] E não era ele fazendo isso, era a Mossad fazendo isso com ele.
[00:35:55] Ele hospedava o primeiro ministro de Israel na casa dele,
[00:35:57] que não era só o primeiro ministro, era o ex-diretor da Mossad, da inteligência.
[00:36:01] Então assim, não dá pra afirmar isso, mas o que dá pra afirmar mesmo é que assim,
[00:36:06] o protagonista político dessa história, quem está ganhando essa história,
[00:36:13] o trabalho sujo que o Donald Trump está fazendo, não é pelo interesse americano disso,
[00:36:18] é pelo interesse israelense.
[00:36:20] E é tanto é que o único vídeo que ele publicou,
[00:36:23] ele não fez um pronunciamento na Casa Branca.
[00:36:25] Olha que loucura, ele fez um vídeo na rede social dele, no Truth Social,
[00:36:30] foi isso que ele fez.
[00:36:32] E o que ele fala como justificativo?
[00:36:34] Ele fala que o Irã sequestrou a embaixada na Revolução Islâmica de 79.
[00:36:41] Ele fala que o Irã apoiou o ataque do USS Cole,
[00:36:47] que houve em 2000, se eu não me engano, que é mentira,
[00:36:51] que quem fez o ataque foi a Al-Qaeda, que é a inimiga declarada do Irã.
[00:36:55] Então assim, ele foi inventando…
[00:36:57] Sem falar que um ano atrás ele estava bombardeando o Irã
[00:36:59] e falou pra todo mundo que a capacidade nuclear do Irã tinha sido obliterada,
[00:37:04] que não tinha mais nenhuma possibilidade do Irã desenvolver uma arma nuclear.
[00:37:07] E agora eles estavam tão perto, mas tão perto,
[00:37:10] que precisavam ser atacados novamente.
[00:37:11] Mentira!
[00:37:12] É uma coisa que… As duas afirmações não podem ser verdade.
[00:37:15] As duas afirmações não podem ser verdade.
[00:37:17] É mentira. Então assim, tem essa questão,
[00:37:19] que eu acho muito importante a gente dizer aqui,
[00:37:21] porque novamente, o Donald Trump é a figura magnética-mediática.
[00:37:25] O exército dos Estados Unidos é o maior exército do mundo,
[00:37:28] é o que protagoniza a crise virou dos Estados Unidos hoje.
[00:37:33] Mas esse preço que o Trump está pagando
[00:37:36] me parece muito alto pro tipo de político que ele é.
[00:37:40] Então assim, Israel é o vencedor disso, é o interessado disso.
[00:37:48] E aí não é milícia.
[00:37:49] Aí é a conquista de um projeto amplamente…
[00:37:54] Que territorialmente é imperialista.
[00:37:56] Ah não, aí sim parece mesmo aos imperialismos…
[00:37:59] E só pensar uma coisa que você falou que eu não queria deixar passar,
[00:38:01] que você falou que a gente está desensibilizado.
[00:38:03] Eu acho que parte a gente não sabe muito o que fazer,
[00:38:05] parte tem a ver com algoritmo e com saturação informativa.
[00:38:08] Mas eu tava falando isso com a minha mulher, a Laila,
[00:38:11] e ela falou uma coisa que eu falei, nossa, você tem toda razão.
[00:38:13] Ela falou assim, cara, eu acho que isso tem a ver também com o Ândice depois de Gaza.
[00:38:18] A gente foi massacrado moralmente com Gaza.
[00:38:21] Eu acho que depois do que a gente viu nos últimos anos
[00:38:23] e a ausência de resposta e a força,
[00:38:26] e que não dá pra ser interrompida e o cessar fogo de mentira
[00:38:29] e o massacre que todo mundo viu,
[00:38:34] é mais o mesmo, tem algo que deu uma normalizada,
[00:38:36] não que a gente não esteja indignado,
[00:38:38] mas a gente mudou o nosso parâmetro do que esses exércitos são capazes
[00:38:44] e estão fazendo depois de Gaza.
[00:38:48] Acho que não tem muita dúvida disso.
[00:38:50] Esgotou a indignação que havia.
[00:38:51] É que esgotou, mudou o nosso parâmetro.
[00:38:53] Porque uma outra coisa que eu acho importante falar, que é muito doida,
[00:38:56] e eu acompanhei isso hoje, eu vi em um post de Instagram
[00:39:01] e comecei a checar em outros post.
[00:39:04] Caíram três aviões americanos hoje, três caças,
[00:39:08] e foi fogo amigo no Kuwait, você tem ideia.
[00:39:12] A saber se foi IA que decidiu defender o espaço aéreo do Kuwait,
[00:39:18] achando que pudessem ser caças ou armas iranianas e derrubaram três caças americanas.
[00:39:24] Não morreu os soldados, eles se ejetaram, mas o avião caiu.
[00:39:30] E aí tem esse vídeo de caindo.
[00:39:33] E aí olha que coisa louca.
[00:39:34] Os comentários americanos são bem feito, o Hulk, cena linda,
[00:39:40] um monte de americano em inglês falando assim que ótimo que esses aviões estão caindo,
[00:39:44] tipo ufa.
[00:39:46] E eu vi comentários de gente progressista de esquerda independente,
[00:39:51] meio, não digo torcendo,
[00:39:55] mas apresentando os argumentos iranianos para a autodefesa,
[00:40:00] meio que torcendo, meio que fazendo o argumento esperando que Israel seja bombardeada.
[00:40:05] Mas qual é a sua conclusão?
[00:40:06] A minha conclusão é que a nossa indignação já não está mais no nível do protesto,
[00:40:11] mas há um deslocamento meio das alianças internas
[00:40:15] que até os americanos estão fazendo diante disso.
[00:40:18] Então ninguém está postando um indignado chamando
[00:40:22] é manifestação, mas a opinião pública do seu próprio país
[00:40:26] não está defendendo suas próprias tropas mais.
[00:40:29] A galera está assim isso aqui não é o meu exército, entendeu?
[00:40:33] Eles são os terroristas.
[00:40:34] Quando cai esse avião que eu paguei, eu acho que eu quero ver isso.
[00:40:41] Mas você acha que não é não tem mais aquele.
[00:40:44] Porque eu tenho a impressão de que você tem uma coisa que o americano médio gosta
[00:40:48] é de ver demonstrações de poder em um militar.
[00:40:50] Possivelmente a maior parte ainda assim.
[00:40:54] Mas essa centenas de comentários que eu vi não só na queda do próprio avião,
[00:41:00] mas nas bombas que bateram em Israel, nos israelenses que já morreram.
[00:41:05] Mas no comentário generalizado,
[00:41:07] isso seria impossível na guerra do Iraque.
[00:41:12] Esse tipo de dissidência pública interna
[00:41:15] de contra a empreita militar americana.
[00:41:19] 80% dos democratas são totalmente contra isso.
[00:41:23] Esse número não existia na guerra do Iraque.
[00:41:25] Mas o instamento democrata por enquanto
[00:41:29] não surpreendentemente está sendo bastante generoso com a administração do Trump
[00:41:33] e nesse caso totalmente conivente a coluna do Thomas Friedman no New York Times.
[00:41:37] Espero que o regime cai é um regime muito terrível.
[00:41:41] É uma conivência.
[00:41:43] Eu estou falando de contas de rede social.
[00:41:45] Está falando de perfil.
[00:41:46] Eu estou falando de perfil.
[00:41:47] Eu estou falando de perfil, mas não só perfil, de comentaristas independentes.
[00:41:51] Mas é isso que é diferente.
[00:41:52] Quando você fala que seria impossível durante a guerra no Iraque,
[00:41:55] Bruna, não havia essa praça pública.
[00:41:57] A gente não sabe como que essas pessoas estavam se comportando,
[00:42:00] porque a opinião pública expressa era mediada por algum tipo de editor, de mediador.
[00:42:04] Você não tinha esse espaço para saber, não sei como.
[00:42:08] Por outro lado, isso tem a ver com o nosso assunto anterior.
[00:42:13] A partir do momento em que você tem um presidente
[00:42:15] que claramente fala que existe um inimigo interno,
[00:42:18] não é tão surpreendente com uma parte da população.
[00:42:20] Então, diga bom, já que eu sou inimigo interno,
[00:42:23] quando o exército americano perde, eu ganho.
[00:42:26] Então, isso vai realmente criando um outro tipo de aliança interna.
[00:42:30] No geral, então, eu acho que vai ser muito bom para o Trump isso.
[00:42:33] Assim como acho que foi bom para ele também a intervenção na Venezuela.
[00:42:37] O do Maduro foi.
[00:42:38] Ele vai ganhar.
[00:42:39] Ele vai ganhar com os dois casos, Bruna.
[00:42:41] Eu não sei, porque o Irã não é certo que vai dar certo.
[00:42:45] Cuba é o próximo passo.
[00:42:47] Se virar um desastre completo, talvez ele perca, talvez.
[00:42:50] Ele tem os midterms em novembro.
[00:42:51] Eu concordo que claramente tem muita pressão de Israel.
[00:42:54] Eu não duvido que Israel tenha algum tipo de material de chantagem
[00:42:58] e consiga extrair esse tipo de lealdade do Trump com base em outras coisas.
[00:43:04] Mas eu tento acreditar que tem um cálculo político
[00:43:06] também em relação aos midterms e em relação à própria posicionamento dele
[00:43:10] como um homem forte, que ele é um pouco o mafioso deles.
[00:43:15] A sensação que eu tenho é que o Trump
[00:43:18] ele migrou realmente para uma persona pública
[00:43:22] que é totalmente ancorada nessa figura de o meu malvado.
[00:43:26] As pessoas já dizem que é tão pornográfico
[00:43:29] que acho que nem quem gosta do Trump
[00:43:31] lê ele como uma pessoa ética, correta, boa, generosa.
[00:43:36] A leitura é ele é o nosso filho da puta.
[00:43:39] Ele é o nosso que defende os nossos interesses
[00:43:41] e ele é um bully como os outros são também.
[00:43:44] Então num mundo de malvados eu quero ter o meu.
[00:43:48] Mas nesse sentido isso também explica um pouco isso que estou colocando.
[00:43:51] Porque se você entende o Trump como esse fascista interno
[00:43:56] não é que as pessoas estão a favor do Irã.
[00:44:00] Elas não querem o sucesso militar do Trump.
[00:44:03] Então quando cai o caça eles falam assim ufa
[00:44:06] a campanha do Trump está indo mal.
[00:44:09] Entendeu tipo ele não vai conseguir o que ele quer.
[00:44:11] Isso vai virar um buraco para ele entender.
[00:44:13] Ele vai ter que ele vai ter que pagar um preço político
[00:44:15] muito mais alto do que ele pagou na Venezuela por exemplo.
[00:44:19] Que eu vou concordar. Não pagou. Não pagou.
[00:44:22] Ele saiu de gênio imperialista.
[00:44:25] Podemos voltar para a reagirativa para texto e linguagem
[00:44:28] porque a gente foi longe com o Irã e dá para continuar.
[00:44:32] Tem muita coisa e acho que nas próximas semanas
[00:44:34] também as consequências do Irã vão ficar muito mais claras.
[00:44:37] Mas a gente começou falando da Natalia Bilt
[00:44:39] e a gente começou falando no fundo de texto.
[00:44:42] E eu queria voltar nisso porque eu sinto que quando a gente começa
[00:44:45] a discutir as reações da opinião pública
[00:44:48] a uma ação como a do Trump a gente entra justamente
[00:44:52] nesse papo quase sobre a cognição e como a cognição se comporta em massa
[00:44:57] diante de um acontecimento totalmente inesperado e em uma excrescência.
[00:45:04] A Natalia, vamos começar pelo fato de que ela não se chama Natalia Bilt.
[00:45:09] Eu já acho o fim da picada folha dar uma coluna para alguém
[00:45:12] que se representa como uma marca.
[00:45:14] E a gente está aqui falando a marca da empresa.
[00:45:16] É muito estranho.
[00:45:18] Mas enfim, a Natalia, quando ela vai defender o uso da IA
[00:45:23] ela vai botar os seus críticos como luditas
[00:45:27] e ela faz uma comparação com as canetas emagrecedoras.
[00:45:29] Ela diz, ah, todo mundo usa caneta emagrecedora e não admite.
[00:45:33] E ela fala, bom, a IA escreveu o texto, mas o pensamento é meu.
[00:45:37] E ela faz muito essa distinção entre o texto e o pensamento.
[00:45:40] E tem uma intuição aí que não é totalmente errada.
[00:45:44] Eu não sou ludita e eu acho que é absolutamente natural
[00:45:46] que uma vez que a ferramenta está disponível
[00:45:48] que muita gente que trabalha com texto use a para alguma etapa
[00:45:51] do seu processo de trabalho.
[00:45:53] Mas a questão fundamental do texto da Natalia
[00:45:56] é que o texto é muito ruim porque o pensamento é muito ruim também.
[00:46:01] Ela ela não faz nem edição. Tem um deslocamento.
[00:46:03] Se você vai usar IA para escrever, então você deixa de ser escritor
[00:46:06] e você passa a ser um editor de você mesmo ou da IA em alguma medida.
[00:46:11] Então você recebe um texto meio pronto que você no mínimo precisa editar.
[00:46:15] Ela é uma má editora. Ela não está fazendo nem isso bem.
[00:46:18] O texto é muito ruim.
[00:46:19] E não só porque ele tem todos os vícios de linguagem da IA,
[00:46:22] mas porque ele tem os vícios cognitivos da IA.
[00:46:25] E aí entra uma discussão sobre se é possível no fundo separar
[00:46:28] a linguagem do pensamento.
[00:46:31] E eu não sei se é. Essa é uma boa pergunta para você, Greg.
[00:46:34] Mas acho que se a gente não resolver isso,
[00:46:36] a gente não resolve a questão da inteligência artificial.
[00:46:39] Dá para separar a linguagem do pensamento?
[00:46:41] Não, essa é a pergunta central da linguística
[00:46:44] e que cada um vai responder de um jeito.
[00:46:46] O Wittgenstein é o grande defensor da ideia
[00:46:52] de que os limites da linguagem são os limites do seu mundo.
[00:46:54] Não há pensar fora da língua.
[00:46:56] Só pensa com a língua.
[00:46:57] E depois Lacan também vai dizer que o inconsciente se estrutura
[00:47:01] como linguagem e que não há diferença entre.
[00:47:04] A linguagem é o inconsciente, não existe uma diferença.
[00:47:07] E acho que tem algo realmente no fato de que é muito difícil
[00:47:11] você separar as duas coisas.
[00:47:13] Agora, no caso da Natália Bilt, e comparando ele,
[00:47:17] tem uma coisa que acho que é muito gritante,
[00:47:19] que é exatamente isso que você está narrando,
[00:47:22] que é o fato de que é o que depois encontra o uso da IA.
[00:47:26] Ela é a melhor advogada contra o uso da IA, que é…
[00:47:31] É insuportável ler um texto ou um pensamento da IA.
[00:47:36] É insuportável, porque é estúpido, é básico.
[00:47:40] Ele está querendo agradar.
[00:47:41] É tudo que um texto não deve ter.
[00:47:44] E o que um texto não deve ter?
[00:47:45] Impessoalidade, pasteurização.
[00:47:49] É tudo que define aquele texto, Natália,
[00:47:51] e o texto de IA de modo geral.
[00:47:54] É formulaico, que é o pensamento…
[00:47:58] Enlatado.
[00:47:59] Enlatado, perfeito.
[00:48:01] Pasteurizado, pensamento ultraprocessado.
[00:48:05] É isso que o IA te dá, um texto ultraprocessado.
[00:48:08] As palavras é artificial.
[00:48:10] Artificial, esse é o nome da coisa.
[00:48:13] Mas, e voltando pra linguagem,
[00:48:17] tem uma coisa que é muito cara de pau dela,
[00:48:19] que é dizer que é a coisa do tempo, que foi o que mais me pegou.
[00:48:24] Porque a IA realmente faz com que a gente tenha outra relação com o tempo.
[00:48:28] Porque ela trabalha no tempo, que é o tempo dos nanosegundos,
[00:48:36] que é um tempo extrahumano.
[00:48:38] E tem isso que é interessante daquele livro Maneiras de Ser,
[00:48:41] que a gente falou, inclusive no Clube do livro do ano passado,
[00:48:45] o Maneiras de Ser é um livro muito bonito sobre um artista,
[00:48:48] James Riddle, um inglês que trabalha contra a inteligência artificial nas artes.
[00:48:58] Mas também com ela de um outro jeito.
[00:49:00] De um outro jeito, exatamente. Ele advoga pra um uso possível.
[00:49:04] Uma das coisas que ele fala é
[00:49:06] que o tempo dos nanosegundos é enlouquecedor pro ser humano.
[00:49:09] E ele cita vários exemplos de pessoas que trabalhavam com computação
[00:49:13] e que pediram demissão porque estavam enlouquecidas pelo nanosegundo.
[00:49:17] E falaram assim, quando você está trabalhando pra reduzir nanosegundos
[00:49:20] ou pra aumentar o nanosegundo,
[00:49:21] você passa a pensar num tempo que é alienígena.
[00:49:25] O tempo da vida, no mais rápido possível, é dos segundos.
[00:49:29] Tudo que a gente faz na vida demora alguns segundos.
[00:49:32] E a Ia trabalha com o nano.
[00:49:35] Isso é extra-humano, isso é alienígena, isso enlouquece o ser humano.
[00:49:40] Porque a gente só existe dentro de um tempo.
[00:49:43] Uma pessoa que está em outro tempo, ela está em outra realidade,
[00:49:46] ela está em outro plano.
[00:49:47] E esse contato parece muito com o contato alienígena.
[00:49:51] E ele cita uma coisa que eu acho muito interessante.
[00:49:55] Ele cita, bom, primeiro, a cobra, que eu acho uma coisa muito interessante.
[00:49:59] Você sabia que a cobra não pode nunca atacar um gato?
[00:50:03] Sim, porque o tempo de resposta do gato é mais rápido do que um bote.
[00:50:08] Então, o gato não é atacado por cobra,
[00:50:10] porque ele vê o bote vindo em câmera lenta
[00:50:13] e dá um tapa na cara da cobra.
[00:50:15] E ele dá esse exemplo pra dizer que a cobra e o gato estão em realidade,
[00:50:21] eles estão em planos diferentes de realidade.
[00:50:25] E a Ia está num plano de realidade diferente da gente
[00:50:28] por causa do tempo.
[00:50:30] Nós somos cobras e eles são gatos.
[00:50:35] Isso que as torna invencíveis, não é?
[00:50:37] A gente é bicho preguiça e eles são gatos.
[00:50:39] Porque essa diferença de tempo não é da cobra e do gato,
[00:50:42] que é de mil e segundo.
[00:50:43] A gente está falando de um tempo absolutamente diferente.
[00:50:45] E por isso que eu achei muito louco ela falar de tempo.
[00:50:48] Porque realmente a Ia trabalha fora do tempo.
[00:50:51] Só que é muito louco ela não ter o tempo de escrever uma coluna
[00:50:54] e aceitar escrevê-la ainda assim.
[00:50:56] E eu acho muito louco ela usar algo que é fora do tempo
[00:50:59] pra escrever algo que dura alguns segundos.
[00:51:01] Mas a parte louca é que a gente, quando vai consumir a coluna dela,
[00:51:04] não sei se você já tentou ler, você vai forçosamente ler na diagonal.
[00:51:07] Porque algo que é escrito na diagonal, você lê na diagonal.
[00:51:11] É, se não tem vontade de entrar em contato. Ainda bem, né?
[00:51:13] E tem ainda bem, claro.
[00:51:15] E é especialmente perda de tempo, não só por ser mal escrito,
[00:51:19] ser mal feito, ser mal editado e ser burro,
[00:51:21] mas é perda de tempo porque tem muita…
[00:51:25] Uma coisa que a Ia faz muito é repetição, é redundância.
[00:51:28] Então é muito doido que uma ferramenta que vomita algo tão rápido
[00:51:34] não seja capaz de poupar o tempo de quem ler.
[00:51:37] Exatamente.
[00:51:38] Porque é profundamente redundante.
[00:51:39] Você leu já o que fizeram na sua lá.
[00:51:41] Gente, só pra fazer um parênteses, uma…
[00:51:43] Essa é a Luiz, a nossa checadora.
[00:51:45] Nós mantendo na linha.
[00:51:47] Só pra referência futura, a Natália nasceu Martins
[00:51:51] e adotou o built como propósito de vida.
[00:51:54] Como proposta de vida?
[00:51:55] Propósito.
[00:51:57] Mas é o nome da empresa dela também.
[00:51:59] É, mas ela assina built, enfim…
[00:52:02] Ela assina built.
[00:52:03] Natália é um nome esticho.
[00:52:04] Ela transicionou de pessoa física pra jurídica.
[00:52:07] Entendi. Então, Natália Martins.
[00:52:08] Martins é o deadname dela.
[00:52:11] Mas tem algo só interessante…
[00:52:12] Ela transicionou de pessoa física pra jurídica,
[00:52:14] é uma ótima definição do texto de inteligência articular.
[00:52:18] Ela virou built.
[00:52:19] É todo mundo virando pessoa jurídica.
[00:52:21] Tem uma coisa muito importante aí, que é…
[00:52:23] É óbvio, é ridículo falar que ela não tem tempo pra fazer o trabalho
[00:52:27] que ela foi chamada pra fazer, então tem um jeito simples,
[00:52:30] ela não faça o trabalho, óbvio.
[00:52:32] Mas tem uma coisa muito interessante,
[00:52:34] que é o espaço onde isso foi feito, que é numa coluna.
[00:52:38] Não é na apuração fria.
[00:52:41] Não é no caderno de cidades, na previsão do tempo,
[00:52:45] que já seria um pouco suicídio editorial,
[00:52:49] automatizar a parte da coisa que você tem pra vender.
[00:52:54] Isso é um outro papo, mas a coluna é o espaço rigorosamente subjetivo do jornal.
[00:53:02] É rigorosamente a gente quer saber o que você acha.
[00:53:07] E é muito interessante ela falar que ela faz esse trabalho,
[00:53:10] e que ela tem o pensamento, e só a escreve,
[00:53:14] porque eu tive a sorte questionável de trabalhar em redação durante um bom tempo.
[00:53:19] E cara, eu era repórter, e eu tinha não um, três editores.
[00:53:24] Tem o subeditor, o redator-chefe e o diretor de redação.
[00:53:27] Os três lêem o meu texto, os três canetam o meu texto,
[00:53:30] os três devolvem o texto, e às vezes fazem alterações no texto
[00:53:34] que eu não gosto, mas que vai ser publicado.
[00:53:37] Nenhum deles assinou o meu texto.
[00:53:40] No jornalismo a gente tem muito a clareza que mesmo editado,
[00:53:46] quem escreveu foi o repórter, não foi o editor.
[00:53:50] O editor pode ter me pautado.
[00:53:56] A pauta pode ser de outra pessoa, mas eu escrevi.
[00:54:00] Eu apurei, eu pesquisei o que a Cochati e o PT faz,
[00:54:03] eu chequei as informações, e o editor lê, me caneta e me orienta nesse processo.
[00:54:08] Mas ninguém nunca questionou quem é o autor desse texto.
[00:54:13] E só depois de você ser editado por muitas pessoas durante muitos anos,
[00:54:17] depois de ter escrito muito texto, você vira editor.
[00:54:22] E depois de muito tempo de edição, você vira um colunista.
[00:54:26] Naquela época.
[00:54:28] Depois de você ter sido repórter, apurador,
[00:54:31] depois de você ter sido editado, você vai pegar o texto de outras pessoas.
[00:54:34] Aí, depois de anos disso, você fala assim, agora pensa.
[00:54:39] Agora pensa e escreve a sua coluna.
[00:54:43] Então tem uma traição muito forte, que eu não esperava nada muito diferente,
[00:54:46] da Nathalia Bildt, não sei quem ela é, não estou interessado.
[00:54:49] Mas a Folha não mandou ela ir embora.
[00:54:52] A Folha pediu desculpas, ela falou, mas realmente…
[00:54:55] Então, não dá.
[00:54:56] A Folha defendeu.
[00:54:58] Do Jânio de Freitas.
[00:55:00] A Folha defendeu.
[00:55:01] A Jânio fez precisamente essa trajetória que você namorou.
[00:55:03] De grande repórter a um grande editor, a um grande colunista a demitido.
[00:55:09] Eu não vou nem comparar a Nathalia com o Jânio,
[00:55:11] porque eu até entendo o ponto de vista editorial da Folha.
[00:55:14] Tem cliques e cliques e cliques a serem conseguidos com o mercado de beleza
[00:55:19] e com o design de sombra da série.
[00:55:20] Não tenho mais dúvida disso.
[00:55:21] Eu não sei, não, Bruno.
[00:55:23] A parte mais louca é essa.
[00:55:25] Se a coluna dela estivesse sendo lida pra caralho…
[00:55:28] Mas não é o caso.
[00:55:30] Não é o caso, você pode ir lá checar.
[00:55:31] Os comentários estão todos falando o que está acontecendo aqui.
[00:55:34] Meu Deus do céu.
[00:55:35] Não é pra isso que eu assino o meu jornal.
[00:55:37] Claro.
[00:55:37] Entendeu?
[00:55:38] Independente disso, seja qual for a motivação da Folha.
[00:55:41] Se ela é comercial, se tem parceria pública,
[00:55:43] se tem anunciante, não vem ao caso.
[00:55:46] O pra mim o mais grave é a defesa da Folha,
[00:55:50] que não percebe, ou não assume, ou não se dá conta,
[00:55:54] da inversão do sentido editorial de ser um jornal mesmo.
[00:55:58] De você automatizar a coisa principal que você tem a fazer.
[00:56:04] E a sociedade, não é só a Nathalia Bilt,
[00:56:06] mas acho que muita gente que está usando o 7GPT hoje,
[00:56:09] e vejo amigos meus de redação, que estão se auto-enganando,
[00:56:14] que essa edição que você faz no final desse processo,
[00:56:19] faz com que você seja o autor desse texto de alguma maneira, cara.
[00:56:23] E assim, desculpa, escrever ou falar pra todos os efeitos,
[00:56:28] você produzir um discurso encadeado fora da sua cabeça, é pensar.
[00:56:34] A gente sabe isso na eterapia, qual o sentido da eterapia.
[00:56:38] Porque quando você precisa falar, você pensa de um jeito,
[00:56:43] você organiza o seu pensamento,
[00:56:44] você se dá conta de coisas que você não se dava conta.
[00:56:46] Qualquer pessoa que escreve na vida sabe disso.
[00:56:50] A sua ideia, o seu pensamento, é muito diferente de quando você pensa,
[00:56:57] e de quando você termina o que você escreveu.
[00:56:59] Você vai descobrindo coisas, você descobre que o que você pensava não era bem isso,
[00:57:02] que estava errado, que estava feio, que estava cafona, que estava óbvio.
[00:57:05] E aí você termina com uma outra questão, com outro texto na sua mão.
[00:57:09] Então, a Folha defender isso,
[00:57:11] isso que você colocou no Econômico, que me deixou especialmente puto,
[00:57:14] que é a Folha não ter medo de adotar novas tecnologias.
[00:57:18] Empurrar quem está cético em relação a isso é o quê? A covardia?
[00:57:23] Ou, pior do que isso,
[00:57:25] bota até o produto de uma coluna, que em tese é opinião e é pensamento,
[00:57:30] como um commodity que pode ser automatizado,
[00:57:32] que pode ser feito por uma máquina, literalmente.
[00:57:34] E deve estar sendo feito.
[00:57:36] Não espantaria que os editoriais da Folha estivessem sendo escritos…
[00:57:39] Luiz, a ver se você consegue pra gente a última coluna da Natália na Folha, por favor.
[00:57:43] E pra terminar, eu queria lembrar de uma outra coisa que foi uma semana mais tarde,
[00:57:47] mas que é muito mais grave do que a Folha,
[00:57:51] que foi a elaboração da sentença,
[00:57:55] que inocentou aquele caso de estupro de uma menina de 12 anos,
[00:58:02] que deixou o Brasil justificadamente indignado.
[00:58:05] Um monte de homem inocentou esse cara que estuprou uma menina pra todos os efeitos.
[00:58:10] E a sentença foi redigida, não a sentença, mas o relatório,
[00:58:16] o relator deixou o prompt de uma parte.
[00:58:21] A parte que ele botou o prompt era exatamente a função dele.
[00:58:26] Que é assim, dê argumentos que embasem melhor essa justificativa.
[00:58:35] Não é nem assim, enxugue o texto, ache erros de ortografia.
[00:58:40] Cara, eu acho muito louco isso.
[00:58:42] Faça o embasamento que eu sou pago pra inocentar um estuprador.
[00:58:48] Eu acho muito louco esse cara continuar sendo juiz do Brasil.
[00:58:51] A sentença valer, exonerado, caçado, preso.
[00:58:54] Só pra fim de jurídico deixar, claro que se ele foi absolvido,
[00:58:57] a gente não pode dizer que ele é um estuprador, porque ele não foi absolvido.
[00:59:00] Mas a gente pode dizer que havia muitos indícios e que a sentença,
[00:59:03] o relatório ter sido feito dessa maneira,
[00:59:06] cria indignação em relação à sentença desse homem acusado de estupro.
[00:59:11] Só, enfim.
[00:59:12] Não, perfeito.
[00:59:13] Fazendo aqui o papel de…
[00:59:14] Ok.
[00:59:15] Porque agora que a gente está precarizado, não tem mais um jurídico de plantão,
[00:59:17] que nem a gente chama o Greg Nilsson.
[00:59:18] Não, obrigado.
[00:59:19] Eu preciso fazer essa função.
[00:59:21] Certo?
[00:59:22] Obrigado, Alessandra.
[00:59:23] Você pode ter poupado alguns milhões.
[00:59:25] Alguns milhões de processos aqui por causa do jeito.
[00:59:27] Não, mas não é muito louco um juiz usar xadriapetê na sentença
[00:59:32] e ainda nem reler porque publicar…
[00:59:34] Não é a primeira vez, né?
[00:59:35] Já teve alguns casos nos últimos dois anos de sentenças.
[00:59:38] E é isso, nem se deu o trabalho de reler.
[00:59:40] Não, já rolou no Wall, já rolou no Globo,
[00:59:42] um monte de coisa que você vê o prompt no meio do negócio.
[00:59:45] De novo, gente.
[00:59:46] Eu acho que esse caminho…
[00:59:47] Assim, o uso dessas ferramentas de geração de texto
[00:59:52] por quem trabalha com texto,
[00:59:54] eu realmente acho que é um caminho sem volta,
[00:59:56] um uso em alguma medida.
[00:59:58] Tem uma coisa que é muito burra
[01:00:02] na maneira como as ferramentas estão sendo usadas também
[01:00:04] porque é realmente uma substituição da cognição.
[01:00:07] Por isso que eu acho que o comentário mais interessante
[01:00:10] feito pela nossa amiga Natália
[01:00:12] é essa separação entre pensamento e linguagem
[01:00:14] porque é não conseguir entender
[01:00:16] que a linguagem é o limite do pensamento
[01:00:20] e ao mesmo tempo é também admitir
[01:00:22] que o pensamento dela, então,
[01:00:24] é básico naquele nível
[01:00:26] porque o que ela está publicando é tão ruim
[01:00:28] é tão ruim que se o pensamento dela é esse
[01:00:32] então isso é uma denúncia dos limites
[01:00:35] da sua própria capacidade cognitiva mesmo.
[01:00:37] E aí ela tem que ser demitida
[01:00:39] porque ela é burra demais pra escrever na Folha,
[01:00:41] não dá pra escrever num jornal publicado.
[01:00:43] Você tem que ter um pouco de capacidade
[01:00:45] de elaboração de alguma coisa.
[01:00:47] Alessandra, mas eu sou mais radical quanto a isso.
[01:00:49] Mais radical?
[01:00:51] Eu acho que tem que prender.
[01:00:53] Você tem evidências de uso de IA
[01:00:57] pra fazer um trabalho que você deveria estar fazendo?
[01:01:01] Eu imagino ter sido paga pra isso,
[01:01:03] não sei se a Folha ainda…
[01:01:05] Paga os colonistas?
[01:01:08] Eu acho que as pessoas pagaram pra consumir,
[01:01:11] isso é verdade?
[01:01:13] Eu acho que deveria ser ilegal mesmo
[01:01:15] você usar, na minha opinião,
[01:01:17] assim como se você vender um hambúrguer
[01:01:19] de carne bovina, você usar soja,
[01:01:21] não é crime usar soja,
[01:01:23] mas vender como carne bovina, sim,
[01:01:25] você está vendendo uma coluna de opinião.
[01:01:27] O público está pagando pra ler uma coluna de opinião,
[01:01:29] não está lendo pra ler a opinião de uma IA.
[01:01:31] Ah não, mas a opinião da IA,
[01:01:33] ela que cheveu junto comigo, sim,
[01:01:35] uma opinião construída em parceria, como é que seja,
[01:01:37] é algo que eu acho que deveria estar na ordem, sim,
[01:01:39] do ilegal, na minha opinião.
[01:01:41] Eu quero só deixar a Luisa puxar essa última coluna da Natália,
[01:01:45] porque eu queria ter certeza que eu não tinha lido errado,
[01:01:47] que eu li meio na diagonal,
[01:01:49] vindo pra cá,
[01:01:51] porque tem que ler na diagonal o que ela escreve.
[01:01:53] Mas eu quero só deixar esse detalhe,
[01:01:55] essa informação de que a última coluna dela na Folha
[01:01:58] é contra o fim das calças, 6x1.
[01:02:00] Porque o trabalhador brasileiro
[01:02:02] não é produtivo.
[01:02:04] Não quer trabalhar, não gosta de trabalhar.
[01:02:06] Olha que curioso.
[01:02:08] É realmente isso.
[01:02:10] Então, mas o trabalhador é brasileiro?
[01:02:12] Trabalhar menos vai te salvar ou te afundar,
[01:02:14] diz a coluna.
[01:02:16] A colunista que não trabalhou pra te ver uma coluna.
[01:02:18] Essa coluna.
[01:02:20] É uma camada de ironia,
[01:02:24] é inconsciente da própria ironia,
[01:02:27] que é exatamente a definição da burrice.
[01:02:31] Que cara de pau.
[01:02:34] É muita cara de pau.
[01:02:36] A pessoa, depois desse debate,
[01:02:38] falar, eu vou escrever sobre isso.
[01:02:40] Posso ler um pouco do que o chat GPT escreveu pra ela?
[01:02:42] Pode.
[01:02:46] Mas é o que ela pensa, né?
[01:02:48] Eu agora estou com uma esperança, Alessandra,
[01:02:50] de que o Rafael Carello tenha usado o chat GPT
[01:02:52] pra escrever a coluna dele,
[01:02:54] e não ter sido ele que escreveu.
[01:02:56] Grande jornalista, tá?
[01:02:58] Fica o meu abraço pra um grande, não é meu amigo,
[01:03:00] o meu abraço de fã, porque eu sempre adorei ele na Piauí,
[01:03:02] mas entrou pra Folha e escreveu uma coluna
[01:03:04] dizendo que o brasileiro trabalha pouco,
[01:03:06] sem checar as fontes, sem ouvir o outro lado,
[01:03:08] sem ouvir o outro pesquisador.
[01:03:10] Esse texto é do Carello?
[01:03:12] E termina o texto com um apelo mesmo,
[01:03:15] quase um call to action,
[01:03:17] contra o fim da escala 6x1,
[01:03:19] dizendo que é.
[01:03:21] A gente não trabalha tanto assim.
[01:03:23] E detalhe, tudo ali é uma loucura essa coluna,
[01:03:25] essa coluna não, essa matéria.
[01:03:27] E diz muito, enfim, a Folha está encampando
[01:03:29] essa batalha
[01:03:31] contra o fim da escala 6x1.
[01:03:33] Contra o fim da escala não, é isso.
[01:03:35] É contra o fim da escala.
[01:03:37] A favor da escala 6x1.
[01:03:39] A favor de que as pessoas trabalhem de segundo a sábado.
[01:03:41] É contra o fim de semana.
[01:03:43] É contra o fim de semana.
[01:03:45] É contra o fim de semana.
[01:03:47] Mas eu quero só ler um parágrafo do chat de CPT aqui,
[01:03:49] do chat de CPT que está trabalhando
[01:03:51] a serviço de Natália.
[01:03:53] Abre aspas.
[01:03:55] Nós ocupamos uma das posições mais baixas
[01:03:57] entre as grandes economias do planeta,
[01:03:59] entre as grandes economias de produtividade da OIT,
[01:04:01] a Organização Internacional do Trabalho.
[01:04:03] Você vai ler tudo, não faz isso comigo.
[01:04:05] Não, é só esse parágrafo.
[01:04:07] A pesquisa do Daniel Duque mostrou,
[01:04:09] e é essa formulação que eu queria trazer pra vocês,
[01:04:11] mostrou que o brasileiro trabalha menos que a média mundial
[01:04:13] e queremos trabalhar menos ainda.
[01:04:15] E aí ela…
[01:04:17] E aí fala assim, por isso é necessário sim
[01:04:19] desenvolver estudos e campanhas,
[01:04:21] é necessário desenvolver estudos e campanhas
[01:04:23] que para mostrar aos trabalhadores
[01:04:25] que não enxergam
[01:04:27] ou que não querem enxergar,
[01:04:29] pois já estão planejando o que vão fazer
[01:04:31] nessas horas de lazer e descanso que terão a mais
[01:04:33] os pontos negativos dessa nova jornada.
[01:04:35] Sim, eles existem.
[01:04:37] É isso.
[01:04:39] Os trabalhadores já estão planejando
[01:04:41] as suas horas de lazer, por isso eles não querem enxergar
[01:04:43] os pontos negativos. Eu não sei o que fazer com isso.
[01:04:45] Eu não sei o que dizer sobre isso.
[01:04:47] Quando eu falo de burrice,
[01:04:49] a falta de autocrítica é
[01:04:51] um elemento muito
[01:04:53] básico da burrice. O burro não sabe o que é burro.
[01:04:55] A pessoa que é capaz de
[01:04:57] admitir ignorância sobre um domínio, em geral,
[01:04:59] é menos ignorante do que a pessoa que sabe tudo sobre aquilo.
[01:05:01] Para você saber tudo sobre, sei lá, astrofísica,
[01:05:03] ou você é um Nobel,
[01:05:05] ou você é um completo Lego.
[01:05:07] A pessoa que sabe um pouquinho,
[01:05:09] ela sabe o suficiente para ela não saber
[01:05:11] que ela não sabe tudo.
[01:05:13] A curva de Dona Kroger.
[01:05:15] Que é essa curva da sabedoria.
[01:05:17] E aí a pessoa está no centro
[01:05:19] de um debate interessante, filosoficamente
[01:05:21] interessante, não os argumentos
[01:05:23] dela, mas sobre texto e pensamento
[01:05:25] e produção, e quem trabalha
[01:05:27] com texto, e se é legítimo
[01:05:29] ou não, tentar ganhar tempo e, portanto,
[01:05:31] abrir tempo na sua própria jornada de trabalho
[01:05:33] para outras coisas.
[01:05:35] É isso, você é pago para escrever uma coluna.
[01:05:37] Tudo bem você usar uma
[01:05:39] ferramenta que no fundo escreve para você,
[01:05:41] isso libera seu tempo para outra coisa e assim por diante.
[01:05:43] E no meio dessa confusão,
[01:05:45] quando ela já está na mira, ela resolve
[01:05:47] que ela vai publicar uma coluna para
[01:05:49] dar uma lição de moral nos trabalhadores brasileiros
[01:05:51] que, veja bem, tem a audácia
[01:05:53] de planejar o que eles vão fazer no final de semana.
[01:05:55] E ela falando que o tempo dela é muito
[01:05:57] valioso pra escrever coluna.
[01:05:59] É muito
[01:06:01] inaceitável.
[01:06:03] E tem essa questão que é muito importante,
[01:06:05] que eu acho que vai afetar a sociedade pra
[01:06:07] além disso, que é a parte mais
[01:06:09] sutil, que eu não tenho muito
[01:06:11] repertório pra definir o
[01:06:13] que eu quero, mas que é…
[01:06:15] As pessoas não estão se importando muito
[01:06:17] com isso e a gente vai lendo os textos
[01:06:19] e tem pessoas que vão utilizar o
[01:06:21] chat GPT com mais destreza
[01:06:23] do que ela possivelmente. O chat GPT
[01:06:25] vai trabalhar melhor, daqui a pouco vai começar a ter
[01:06:27] mais estilo, vai começar a ser mais
[01:06:29] não identificável de maneira óbvia como ele
[01:06:31] tem sido hoje em dia. E o ponto
[01:06:33] é exatamente esse. Se a linguagem é
[01:06:35] o limite do pensamento,
[01:06:37] mas também a base dele, ele tá nas duas
[01:06:39] pontas, a gente sem perceber
[01:06:41] vai se automatizando.
[01:06:43] Porque assim, se a nossa
[01:06:45] vocabulário, mas mais do que isso,
[01:06:47] a própria sintaxe,
[01:06:49] a forma de pensar
[01:06:51] dos textos que estão nos cercando de muitas
[01:06:53] e muitas formas, tá sendo elaborado
[01:06:55] por modelos de linguagem privadas
[01:06:57] de uma certa empresa,
[01:06:59] o nosso pensamento que vai
[01:07:01] mandar o próximo web prompt
[01:07:03] já é colonizado pelo algoritmo, a gente
[01:07:05] não percebe isso. Porque o que a Natalia
[01:07:07] Bildt acha, e isso é o que mais
[01:07:09] me ofende, a maior arrogância dela na minha cabeça,
[01:07:11] nem a do tempo dela. Ela fala
[01:07:13] não, o pensamento é meu.
[01:07:15] Supondo uma originalidade
[01:07:17] do que ela pensa.
[01:07:19] Supondo
[01:07:21] que ela não é
[01:07:23] vítima do lugar
[01:07:25] mais comum possível
[01:07:27] do pensamento da obviedade
[01:07:29] medíocre que
[01:07:31] o chat GPT
[01:07:33] objetivamente é.
[01:07:35] A busca da média,
[01:07:37] não das pontas extremas de má qualidade
[01:07:39] ou de boa qualidade, de uma emulação
[01:07:41] de algo que não foi criado, mas simplesmente
[01:07:43] uma cópia
[01:07:45] é probabilística.
[01:07:47] É muito útil pra escrever um e-mail
[01:07:49] burocrático. Se ela tivesse usando o chat GPT
[01:07:51] como certamente está na vida dela
[01:07:53] como executiva, é uma coisa.
[01:07:55] É pra escrever uma coluna de jornal.
[01:07:57] Eu quero pegar o da coluna
[01:07:59] pra jogar no do e-mail também.
[01:08:01] Porque é o seguinte, mesmo esse uso
[01:08:03] mais defensável,
[01:08:05] mais prático,
[01:08:07] que pouco precioso tempo
[01:08:09] que teríamos pra ser mais produtivos, ou
[01:08:11] mais avançar mais,
[01:08:13] pra fazer esse e-mail,
[01:08:15] até isso, muito cuidado
[01:08:17] e muita cautela.
[01:08:19] Porque é nisso que você cria rotinas,
[01:08:21] hábitos, novas maneiras
[01:08:23] de estruturar a própria
[01:08:25] sentaça sua. E é escrevendo
[01:08:27] e-mail chato que você
[01:08:29] pega cancha pra escrever uma coluna
[01:08:31] depois. Pra você expressar,
[01:08:33] escrever um bilhete, porque se você não faz
[01:08:35] nem o básico, vai ser muito difícil
[01:08:37] você escrever uma carta pra alguém.
[01:08:39] A gente tem uma lógica parecida com a lógica do áudio,
[01:08:41] que as pessoas falam assim, vou mandar áudio
[01:08:43] porque é mais fácil.
[01:08:45] É mais fácil de mandar, é mais difícil de ouvir.
[01:08:47] É mais fácil pra quem?
[01:08:49] E um e-mail com já de APT, ele é mais fácil
[01:08:51] de mandar, ele é mais chato
[01:08:53] de ler. Aliás, uma tirinha ótima que eu vi
[01:08:55] outro dia, assim, um cara falando,
[01:08:57] pô, foi ótimo, tinha que escrever um e-mail pro meu
[01:08:59] chefe, escrevi
[01:09:01] três palavrinhas, ele transformou
[01:09:03] em três páginas.
[01:09:05] Aí corta pro chefe falando,
[01:09:07] eu recebi aqui um e-mail de três páginas,
[01:09:09] joguei no já de APT, ele transformou em três
[01:09:11] palavrinhas, é foda. Então, assim,
[01:09:13] você tá escrevendo
[01:09:15] com o já de APT pra pessoas que vão ler
[01:09:17] com o já de APT. Por que não escrever apenas
[01:09:19] o que você tem que dizer com três palavras?
[01:09:21] Então, eu acho um desrespeito gigantesco
[01:09:23] a pessoa ocupar o seu tempo
[01:09:25] precioso com algo que ela não se deu
[01:09:27] o trabalho de escrever, porque ela acha que
[01:09:29] ela não se deu o trabalho de escrever, mas você vai se dar
[01:09:31] o trabalho de ler. E tá invertendo
[01:09:33] a lógica, porque é necessariamente escrever
[01:09:35] uma coisa que tem que demorar mais tempo
[01:09:37] do que ler. É a única regra que você tem.
[01:09:39] É o mínimo que se espera.
[01:09:41] A única regra escrita, que é realmente
[01:09:43] lapidar, é assim, você tem que passar
[01:09:45] mais tempo escrevendo do que a pessoa
[01:09:47] vai passar lendo. É o mínimo, cara.
[01:09:49] Então, se você tá escrevendo
[01:09:51] um e-mail que vai demorar menos
[01:09:53] tempo do que você acha que a pessoa vai demorar lendo,
[01:09:55] você tá desrespeitando o tempo dela. Você tá dizendo assim,
[01:09:57] o meu tempo vale mais que o seu,
[01:09:59] porque você é uma merda.
[01:10:01] Mas aí acho que tem uma outra dimensão
[01:10:03] disso, que é, pra algumas
[01:10:05] pessoas, em algumas
[01:10:07] dimensões da minha vida, eu até me incluo nessas
[01:10:09] pessoas,
[01:10:11] você já tem acesso
[01:10:13] à equipe. Então,
[01:10:15] acho que aonde as pessoas estão sentindo
[01:10:17] um alívio da inteligência artificial
[01:10:19] é que ela é um bom emulador,
[01:10:21] não de você mesmo, mas de uma equipe.
[01:10:23] A coisa mais comum do mundo é um executivo
[01:10:25] ou uma executiva que tem um assistente
[01:10:27] que lê e-mail e que responde e-mail
[01:10:29] por essa pessoa. Que tá ali abrindo
[01:10:31] a caixa de e-mail e quando o e-mail quer uma coisa,
[01:10:33] a reunião de quarta-feira precisa
[01:10:35] ser remarcada pra sábado, não sei o que,
[01:10:37] o avião que atrasou
[01:10:39] e o relatório que tinha que ter saído ontem, tem que sair amanhã.
[01:10:41] Essas coisas que, e que a vida
[01:10:43] de um executivo, infelizmente, é 99%
[01:10:45] esse tipo de
[01:10:47] chatice, essas pessoas já delegam.
[01:10:49] Elas não passam o seu tempo
[01:10:51] respondendo sobre a remarcação da
[01:10:53] reunião de quinta pra sábado.
[01:10:55] Mas elas delegam porque elas têm uma ou duas
[01:10:57] ou três, se for nas calças por uma,
[01:10:59] basta, assistentes
[01:11:01] trabalhando pra ela, é certo?
[01:11:03] Então, o que acho que não é à toa
[01:11:05] que a primeira nomenclatura que foi
[01:11:07] dada em transgência artificial foi de assistente.
[01:11:09] Porque a ideia
[01:11:11] é dar a todo mundo
[01:11:13] essa praticidade
[01:11:15] de ter um assistente.
[01:11:17] E eu não acho que isso seja necessariamente
[01:11:19] o fim do mundo, até porque tem algo
[01:11:21] que é equalizador aí, que é todo mundo
[01:11:23] poder acessar alguma coisa.
[01:11:25] Agora, isso é fundamentalmente
[01:11:27] diferente de
[01:11:29] delegar o próprio pensamento.
[01:11:31] E eu discordo, Bruno,
[01:11:33] de que escrever e-mail é o que te permite
[01:11:35] escrever uma coluna.
[01:11:37] Porque muitas vezes é o que também não te permite.
[01:11:39] Porque se você tem, sei lá, filho pequeno,
[01:11:41] coisa pra fazer,
[01:11:43] efetivamente consome o seu tempo e tire o seu tempo
[01:11:45] da tarefa criativa.
[01:11:47] O que é ofensivo da coluna, da Natália,
[01:11:49] é que ela tá tratando a coluna como
[01:11:51] o e-mail sobre a reunião de quarta-feira.
[01:11:53] Ela tá tratando como uma coisa desimportante
[01:11:55] da vida dela. E se é desimportante,
[01:11:57] por que você tem uma coluna, entende?
[01:11:59] Ela, por definição, precisa ser
[01:12:01] importante.
[01:12:03] Existe um pacto, gente, que é um pacto de sinceridade
[01:12:05] entre leitor e escritor.
[01:12:07] Que é um pacto de sinceridade entre um amigo e outro.
[01:12:09] E que você rompe esse pacto
[01:12:11] quando você bota no e-mail uma máquina.
[01:12:13] Tem algo que é engraçado.
[01:12:15] Mas às vezes o e-mail é meio maquinal.
[01:12:17] Ele é sobre a reunião.
[01:12:19] Mas esse tipo de e-mail, que você escreve então
[01:12:21] três palavras. Isso.
[01:12:23] Você não precisa… Porque o que acontece?
[01:12:25] Esses e-mails maquinários, que eram pra ser três palavras,
[01:12:27] cancelado a reunião amanhã, por que não escrever isso?
[01:12:29] Agora virou assim,
[01:12:31] ó, meu querido, com todo o respeito,
[01:12:33] parabéns pelo seu trabalho, estou acompanhando o seu feedback,
[01:12:35] qualquer coisa, estamos aí sempre juntos
[01:12:37] numa equipe, que aí uma citação
[01:12:39] de coisa assim… Pra dizer
[01:12:41] que a reunião está cancelada amanhã.
[01:12:43] Não é apenas um e-mail. Exatamente.
[01:12:45] Esse não é apenas um e-mail, é uma congratulação
[01:12:47] pelo seu lindo trabalho frente à equipe.
[01:12:49] Você sabe que no surgimento da escrita,
[01:12:51] ela veio com muita polêmica, né?
[01:12:53] A escrita, a gente esquece…
[01:12:55] O pessoal era contra. O pessoal era contra.
[01:12:57] Platão era contra. Sócrates, Platão não.
[01:12:59] Platão traiu Sócrates, inclusive.
[01:13:01] Publicando Sócrates, assim.
[01:13:03] O Sérgio não traiu, mas… Publicou Sócrates.
[01:13:05] Sócrates era contra. E o Sócrates tinha um argumento muito bom
[01:13:07] contra a escrita, contra o livro. Porque ele falava assim,
[01:13:09] cara, se tem alguém me diz algo
[01:13:11] e eu discordo, a pessoa tá na minha
[01:13:13] frente. Eu sei que foi ela que disse.
[01:13:15] Eu vou discordar dela, ela vai poder melhorar
[01:13:17] o argumento dela. Que é o método dele, inclusive.
[01:13:19] Os livros, ele dizia, não melhoram.
[01:13:21] Você discorda do livro,
[01:13:23] ele continua achando a mesma coisa.
[01:13:25] E mais, a pessoa
[01:13:27] publica uma coisa e depois você não sabe quem escreveu
[01:13:29] aquilo. Você não consegue ir atrás
[01:13:31] da pessoa que escreveu. Ele ficava
[01:13:33] revoltado já com a falta
[01:13:35] de ética, com os dilemas éticos
[01:13:37] da escrita no livro. E ele tinha
[01:13:39] um ponto. Ele tem um ponto, realmente.
[01:13:41] São problemas que a gente se acostumou. Mas a escrita
[01:13:43] ela é mesmo problemática.
[01:13:45] Porque ela faz com que
[01:13:47] o emissor não esteja presente.
[01:13:49] E até o advento da escrita,
[01:13:51] se alguém estava dizendo alguma coisa, a pessoa estava
[01:13:53] necessariamente na sua frente dizendo aquilo.
[01:13:55] E isso tinha implicações. Você podia respondê-la,
[01:13:57] você podia bater nela, você podia
[01:13:59] argumentar contra. Tem outros indícios de que ele tá
[01:14:01] mentindo também. Você fala
[01:14:03] humm, não confio muito.
[01:14:05] Olha a cara dele. Botei a mão na orelha,
[01:14:07] passou a mão no nariz. Você esclarece alguma dúvida no caminho.
[01:14:09] Mas, perto dos dilemas
[01:14:11] da IA, isso não é nada.
[01:14:13] Mas o que tem de bonito é que a gente
[01:14:15] tem subterfúgios para que a escrita
[01:14:17] seja confiável. Um texto é
[01:14:19] assinado. Um texto
[01:14:21] passa por uma
[01:14:23] editor, quase sempre, uma editora.
[01:14:25] É outra coisa. Eu imagino, os editores
[01:14:27] da Natalia Bilt nunca acharam aquilo meio IA.
[01:14:29] Claro. Ela não deve mais ser editora.
[01:14:31] Acho que a Folha demitiu os editores. A Folha publicou direto.
[01:14:33] Não é possível. Porque aí
[01:14:35] entra a gente em todos os
[01:14:37] sinais muito evidentes de IA.
[01:14:39] A IA ela escreve mal, por enquanto.
[01:14:41] Eu acho que isso vai mudar. E aí vai ficar…
[01:14:43] A conversa vai ficar eticamente e praticamente
[01:14:45] mais complexa também.
[01:14:47] Mas, no momento, ela escreve de forma muito básica
[01:14:49] e muito pouco interessante.
[01:14:51] E ela tem vários vícios de linguagem.
[01:14:53] Existe um estilo da IA,
[01:14:55] sobretudo do set GPT,
[01:14:57] que tem já um estilo de linguagem próprio,
[01:14:59] que é, na verdade, como o Bruno falou,
[01:15:01] uma mediocridade instalada como estilo.
[01:15:03] Então, uma coisa que ele faz muito, por exemplo,
[01:15:05] é paralelismo. Não é isso, é aquilo.
[01:15:07] É o uso excessivo do travessão,
[01:15:09] que muita gente já notou.
[01:15:11] Tem um monte de outros vícios.
[01:15:13] E ela comete todos.
[01:15:15] E, de novo, o paralelismo existe na escrita,
[01:15:17] de fato. Não é uma invenção da inteligência artificial.
[01:15:19] Mas o excesso de paralelismo
[01:15:21] é o paralelismo como muleta.
[01:15:23] Assim como o travessão existe.
[01:15:25] Ou, por exemplo, a IA
[01:15:27] tenta emular a complexidade.
[01:15:29] Porque ela sabe que a boa escrita
[01:15:31] ela tem sutileza, ela tem
[01:15:33] complexidade, ela tem camadas.
[01:15:35] Ela entende que isso é bom na escrita.
[01:15:37] Então, ela tenta emular a sutileza.
[01:15:39] Como que ela faz isso? Da forma menos sutil possível.
[01:15:41] Que é falando de sutileza.
[01:15:43] Então, é uma fala dos sussurros,
[01:15:45] do que foi entre ouvido,
[01:15:47] do que foi revelado.
[01:15:49] Ela gosta desse campo semântico.
[01:15:51] Que ela associa a sutileza
[01:15:53] e a complexidade.
[01:15:55] Então, ela enfia sussurro onde não tem sussurro.
[01:15:57] Isso, na política,
[01:15:59] está sendo muito engraçado de ver.
[01:16:01] É um território…
[01:16:03] É um território específico que a gente vai falar aqui.
[01:16:05] É muito específico, porque se a gente falou que o pensamento,
[01:16:07] porque o limite do pensamento é a linguagem,
[01:16:09] o limite da organização
[01:16:11] política, de fato,
[01:16:13] é o pensamento.
[01:16:15] Você não consegue organizar
[01:16:17] ninguém em torno de um ideal que você não consegue
[01:16:19] conceber, pensar e imaginar.
[01:16:21] E a política é discurso.
[01:16:23] É discurso, a produção do discurso.
[01:16:25] A produção do discurso é profundamente política.
[01:16:27] Então, quando a política começa também
[01:16:29] a absorver o discurso da inteligência artificial,
[01:16:31] o que que isso faz com a política?
[01:16:33] E aí a gente pegou aqui alguns exemplos
[01:16:35] de políticos usando IA, claramente usando IA,
[01:16:37] só pra gente lembrar a cara que tem.
[01:16:39] Então, Flávio Bolsonaro falando.
[01:16:41] Muito provavelmente, porque o jurídico não aprovou.
[01:16:43] É, muito provavelmente.
[01:16:45] 2026 não é só uma eleição.
[01:16:47] É uma escolha entre o que constrói
[01:16:49] e o que destrói.
[01:16:51] 2026 vai além da política.
[01:16:53] É sobre valores, futuro e direção.
[01:16:55] Esse não é isso, é aquilo,
[01:16:57] é típico de chat GPT.
[01:16:59] Aí depois um outro dele também.
[01:17:01] Não é sobre números, é sobre escolhas.
[01:17:03] Perfeito.
[01:17:05] Aí temos o Ronaldo Caíada também.
[01:17:07] A autoridade moral não é discurso.
[01:17:09] É prática.
[01:17:11] Esse tipo de construção é muito comum.
[01:17:13] E a da Mares fez um maravilhoso com a coisa
[01:17:15] da sutileza, dos sussurros.
[01:17:17] Falamos sobre carnaval.
[01:17:19] Muitos olham para esse período apenas como um feriado.
[01:17:21] Mas para nós, o povo de Deus, esse é um tempo
[01:17:23] precioso de retiro e renovo.
[01:17:25] Em meio ao barulho do mundo,
[01:17:27] escolher o silêncio para ouvir a voz do pai
[01:17:29] não é fuga, é estratégia.
[01:17:31] Tem sempre, não é?
[01:17:33] É no secreto.
[01:17:35] De joelhos que ganhamos as forças
[01:17:37] necessárias para lutar
[01:17:39] as batalhas públicas pela vida,
[01:17:41] pela família e pelas nossas crianças.
[01:17:43] Enfim, é tão…
[01:17:45] É sintético.
[01:17:47] E aí a produção do discurso político sintético,
[01:17:49] o que ele faz com a política?
[01:17:51] A gente não sabe ainda, mas é muito preocupante.
[01:17:53] E a questão que mais me preocupa,
[01:17:55] e é isso que eu falo daqui a pouco,
[01:17:57] vai automatizar o nosso discurso e isso vai fazer
[01:17:59] que as pessoas escrevam é assim
[01:18:01] e daqui a pouco não vai ser mais comprovável,
[01:18:03] porque isso muito provavelmente é.
[01:18:05] A gente não sabe, mas tem todos os indícios
[01:18:07] de que a chate é GPT.
[01:18:09] Mas na medida que as pessoas que vão lendo isso…
[01:18:11] E aí eu vou dar um exemplo de uma deputada de esquerda,
[01:18:13] que eu não vou citar o nome porque eu não quero polêmica aqui,
[01:18:15] também não lembro direitinho do texto,
[01:18:17] mas foi assim, ela fez um post,
[01:18:19] um acarroscel no Instagram
[01:18:21] sobre o Bad Bunny.
[01:18:23] O show do Bad Bunny.
[01:18:25] Não é cultura, é política.
[01:18:27] Tinha uns 6, 7 cards.
[01:18:30] De 6, 7 e 4 tinha essa estrutura.
[01:18:33] Não é sobre.
[01:18:35] Não é sobre, é isso.
[01:18:37] É aquilo, não é aquilo.
[01:18:39] E a coisa mais a GPT é que ele botava esse negócio
[01:18:41] e aí tinha itens.
[01:18:43] Bullets.
[01:18:45] Então era assim, era um recibo completo de chate GPT.
[01:18:48] Que pra gente, não só a gente vê como chate é GPT,
[01:18:52] mas a gente é mais de letra, a gente leva isso muito a sério,
[01:18:54] a gente gosta desse assunto,
[01:18:56] ruim.
[01:18:57] Acha feio o texto.
[01:18:59] Só que os comentários eram o que mais me preocupou.
[01:19:01] Porque as pessoas assim,
[01:19:02] nossa, meu olho encheu de lágrima,
[01:19:04] eu mostrei pra minha família, a gente tá batendo palma de pé.
[01:19:07] Porque ele fez de um jeito pra o mundo,
[01:19:11] que não é o mundo das letras,
[01:19:13] o mundo que consome texto de maneira muito fugaz mesmo,
[01:19:17] ele apresenta uma estrutura que mesmo que seja na média,
[01:19:21] ele provoca esse efeito emotivo muito barato,
[01:19:25] que ele tá atrás de provocar essas sensações literárias baixas.
[01:19:32] E aí o que eu acho que as pessoas não só vão se emocionar
[01:19:35] e serem influenciadas por esse discurso,
[01:19:37] mas elas tentem emolar isso no texto delas.
[01:19:40] Porque ela viu que essa formulação, não só recorrente, toca ela.
[01:19:44] Então muito provavelmente já estamos escrevendo os mais
[01:19:48] com não é sobre, é sobre.
[01:19:50] E aí vira uma coisa que morde o próprio rabo,
[01:19:53] que é essa profunda influência mesmo,
[01:19:56] de máquinas no nosso pensamento,
[01:19:59] o nosso prompt vai estar condicionado ao que a máquina deu pra gente.
[01:20:03] Já está, já está.
[01:20:05] E eu sinto que as pessoas já estão chefetizadas
[01:20:08] sem necessariamente usá-lo.
[01:20:10] Isso acontece também.
[01:20:12] A corretimização do pensamento.
[01:20:13] É verdade.
[01:20:14] Eu já sinto pessoas que usam um modelo mental desse tipo,
[01:20:18] que não necessariamente recorreram a ele,
[01:20:20] porque às vezes é uma pessoa falando de uma opinião normal,
[01:20:22] mas ela está num esquema mental de não é sobre termos,
[01:20:26] que o 7-APT voltou, tem palavras que bombaram por causa deles,
[01:20:30] falou de sussurros, mas em inglês tem várias que agora não…
[01:20:33] É crucial, ele começou a usar muito…
[01:20:35] Unveiling, unveiling em inglês, está sendo muito usado.
[01:20:38] Isso é medido, né?
[01:20:39] Você consegue medir a prevalência, por exemplo, de certos termos
[01:20:42] em tese de doutorado, em tese de mestrado,
[01:20:44] e aí tem um aumento vertiginoso do uso de alguns termos.
[01:20:47] Aliás, acho que vertiginoso é um deles.
[01:20:49] Enfim, em todo caso.
[01:20:51] E dá uma rábia, porque às vezes são palavras que você gosta.
[01:20:53] Adoro vertiginoso, vertiginoso é bom.
[01:20:55] Eu adorava travessão também.
[01:20:57] Travessão é uma maravilha.
[01:20:59] Eu adoro travessão no meio de frase.
[01:21:01] Ele é esperto, e ele lê textos bons.
[01:21:04] Então ele lê os textos bons e transforma numa pasteurização.
[01:21:07] Uma coisa que talvez role, sendo otimista,
[01:21:10] é uma fuga algorítmica.
[01:21:13] É algo que faz com que textos bons se obriguem a ser menos algorítmicos.
[01:21:17] Então, feito a fotografia, criou a arte abstrata,
[01:21:21] talvez o texto de Iá, ele crie a necessidade do escritor
[01:21:27] ou do jornalista, quem for,
[01:21:29] de ser menos formulaico, ser mais pessoal,
[01:21:32] ser aquilo que o computador não sabe ser.
[01:21:34] Essa é a minha única esperança.
[01:21:36] Talvez tenha uma volta para o oral,
[01:21:38] que talvez, inclusive, esse boom de áudio de podcast
[01:21:41] tenha a ver com isso.
[01:21:44] A partir do momento que a escrita pudesse ser produzida
[01:21:50] de maneira cada vez mais convincente por máquinas,
[01:21:53] para que eu lê, né?
[01:21:55] Eu só vou confiar naquilo que eu ouvi da boca de alguém.
[01:21:58] Pessoalmente, porque se for em vídeo,
[01:22:00] ainda pode ser também de fake.
[01:22:02] Estamos em um teatro vazio,
[01:22:04] mas no próximo vai estar cheio muito com conta.
[01:22:08] Para a gente ter testemunhas de quem foi a gente mesmo.
[01:22:11] E a literatura, Alessandra, o boom…
[01:22:13] Do teatro.
[01:22:14] Não, não, não.
[01:22:15] Alguns chamam de autoficção.
[01:22:17] O Eduardo Luiz prefere autobiografia.
[01:22:20] Esse boom da autoscrita…
[01:22:24] Da autonarração.
[01:22:25] Da autonarração.
[01:22:26] Tem a ver também com o fato de que é algo
[01:22:28] que o computador ainda não sabe emular
[01:22:30] por não ter experiência de vida.
[01:22:32] Porque ele não viveu.
[01:22:33] A verdade própria.
[01:22:34] Mas está aí.
[01:22:35] Se a inteligência artificial escrevesse uma autobiografia,
[01:22:37] eu estaria interessada em ler.
[01:22:38] Não tem uma autobiografia?
[01:22:39] Não, não.
[01:22:40] Já saiu.
[01:22:41] Não, dele mesmo.
[01:22:42] Tem um livro, chama IA, Uma Autobiografia,
[01:22:44] que é um cara que editou um livro que uma IA escreveu.
[01:22:47] Refeito IA em parceria.
[01:22:48] Tá brincando em português.
[01:22:49] E qual é o seu interesse nisso?
[01:22:51] Zero.
[01:22:52] Eu não comprei, eu ganhei o livro.
[01:22:54] Eu acho que de modo geral vai zero.
[01:22:55] Porque as pessoas ainda querem quando buscam um livro.
[01:22:58] Pode ser…
[01:22:59] Estou falando de livros de aeroporto, até.
[01:23:01] Elas vão buscar.
[01:23:02] A história do cara, do dono da empresa.
[01:23:05] Pode estar escrito por IA, mas ele vai ter que disfarçar legal.
[01:23:08] Porque as pessoas querem ter pelo menos a impressão
[01:23:10] de que elas estão escrevendo algo por humano, entendeu?
[01:23:12] Isso com certeza.
[01:23:13] E o bom do teatro é isso.
[01:23:14] O teatro vive uma explosão.
[01:23:16] É um lugar que você sabe que vai ser um território livre de algoritmos.
[01:23:20] Tem uma coisa acontecendo ali que está acontecendo na sua frente.
[01:23:23] Está acontecendo na sua frente ali.
[01:23:24] É um corpo.
[01:23:25] É.
[01:23:26] Sobre essa discorporização, e acho que já já a gente vai ter que começar a encerrar também,
[01:23:29] então não quero me alongar,
[01:23:30] mas quando o Bruno falou da deputada que escreveu com IA,
[01:23:33] eu fiquei pensando que é uma etapa dois de uma coisa,
[01:23:36] que já aconteceu na política,
[01:23:38] que é sobretudo para pessoas públicas,
[01:23:40] e os políticos quase todos, por definição, são pessoas públicas,
[01:23:43] a gente já aceita que o perfil delas diz algo que não são elas que disseram.
[01:23:50] Então ninguém imagina, ou acho que poucas pessoas imaginam,
[01:23:54] que a deputada é quem está postando no perfil da deputada.
[01:23:59] É uma equipe, é uma assessoria, é alguém.
[01:24:02] A gente já normalizou uma coisa na política
[01:24:05] que eu acho muito profundamente desconcertante,
[01:24:09] que é a ideia de que os produtores de discurso político,
[01:24:12] aqueles em que a gente vai votar, que podem governar nossas vidas,
[01:24:16] que podem ajudar a criar o coletivo,
[01:24:19] que essas pessoas têm que emitir opinião sobretudo o tempo todo,
[01:24:24] e que essa opinião não é exatamente delas, é de alguém.
[01:24:27] Tanto que quando elas falam merda, a desculpa mais comum é culpar a assessoria.
[01:24:31] Fornece a assessoria.
[01:24:32] Isso é um pouco normalizado.
[01:24:34] As pessoas me perguntam muito porque eu não tenho rede social.
[01:24:37] Mas parte da minha razão é que eu realmente, assim como a Natalia Bilt,
[01:24:42] não tenho muito tempo, não para escrever um tweet,
[01:24:46] mas para pensar sobre o que eu acho de tudo isso.
[01:24:48] E essa ideia de que você fica escravizado,
[01:24:51] você precisa emitir opinião sobretudo,
[01:24:54] ela é muito enlouquecedora, eu acho que para o cidadão comum,
[01:24:57] mas é especialmente enlouquecedora para o representante eleito.
[01:25:00] Porque eu não espero que o meu deputado ou deputada tenha uma opinião sobretudo.
[01:25:05] Se ele ou ela tiver, eu desconfio.
[01:25:08] Porque o que eu espero sim de um representante meu
[01:25:10] é que ele tenha uma reflexão madura sobre as coisas,
[01:25:13] que ele tome o tempo de se informar,
[01:25:15] que ele ou ela leiam sobre o assunto,
[01:25:17] conversem com pessoas, procurem os afetados por uma política pública,
[01:25:21] e ninguém faz isso a toque de caixa sobretudo.
[01:25:25] O que acontece aqui, o que acontece na China, o gato, o cachorro, é uma loucura.
[01:25:29] É uma loucura.
[01:25:30] E aí, se você já aceita que aquele texto é de um assessor,
[01:25:34] aceitar que é do chate de GPT não é tão mais difícil, né?
[01:25:37] Você já dissociou da subjetividade de fato da questão de discurso.
[01:25:42] Essa é a parte mais louca de todas, né?
[01:25:44] Que é o fato de que a gente está cada vez mais perfilado assim,
[01:25:47] e cada vez mais avatarizado.
[01:25:49] Então, tem uma hipertrofia do eu, do eu, eu, eu, eu,
[01:25:53] o que eu vivi, eu, é a self, o sentry of self, aquela coisa.
[01:25:57] E, ao mesmo tempo, um esvaziamento da subjetividade real.
[01:26:02] Então, são performas e subjetividades esvaziadas da subjetividade de fato.
[01:26:07] É mais eu e menos self, né?
[01:26:09] Exatamente.
[01:26:10] É menos subjetividade.
[01:26:12] E isso eu acho que é muito central,
[01:26:14] que é uma conversa que estranhamente a gente não consegue penetrar nela,
[01:26:17] e que ela é a mais aflitiva na minha cabeça.
[01:26:19] Que é a gente estar arrancando a consciência dos processos ecognitivos
[01:26:24] de maneira massiva.
[01:26:26] A consciência, que é um mistério.
[01:26:28] A gente estava numa década passada,
[01:26:31] a gente estava começando uma ciência da é consciência,
[01:26:34] entender que cacete é isso que o processamento de dado vira subjetividade,
[01:26:40] vira uma experiência real.
[01:26:43] Ele é colapso em um sujeito que sente, vê e pensa coisas,
[01:26:47] pra emulação disso que tá tomando o lugar das coisas que a gente fazia com muita é consciência.
[01:26:53] É consciência.
[01:26:54] Então, é o fim da subjetividade em nome de uma…
[01:26:58] Do quê exatamente?
[01:27:00] Do nosso tempo, que é mais valioso pra quê?
[01:27:03] E a gente tá fazendo tudo isso no nome do nosso tempo
[01:27:05] e não consegue nem acabar com a escala 6x1.
[01:27:08] Que tempo todo é esse que a gente tá liberando dos grandes…
[01:27:11] É incompreensível.
[01:27:13] É incompreensível.
[01:27:14] Se fosse pra isso…
[01:27:15] Então, a Nathalia Bilt, pra ter um mínimo de coerência…
[01:27:18] Tem que ter favor do fim das calas 6x1.
[01:27:20] Gente, eu tô usando isso daqui porque eu quero ter fim de semana de três dias.
[01:27:24] Tenho uma filha, não quero ficar escrevendo o nome da folha.
[01:27:26] Não quero nem ficar com a minha filha ali no parque.
[01:27:28] E todo mundo deveria usar pra ter a escala 3x4.
[01:27:32] Pra produtividade aumentar.
[01:27:33] Pra gente fazer alguma coisa da vida, não.
[01:27:35] É pra ter tempo de trabalhar mais em alguma outra coisa, que é o quê?
[01:27:38] Vamos ser sinceros, no caso da Nathalia Bilt e de muita gente no nosso meio,
[01:27:41] é pra ter tempo de escrolar.
[01:27:43] Porque o tempo que as pessoas não estão escrevendo,
[01:27:45] elas estão usando um assistente pra escrever um texto,
[01:27:48] elas não estão lendo o Guerra e Paz.
[01:27:52] Não é isso que elas estão fazendo.
[01:27:53] Ô, Chá de Apetê, escreve essa coluna aqui que eu vou terminar o meu Tolstói.
[01:27:56] Não é isso.
[01:27:57] Ela tá lá, escrolando.
[01:27:59] Então, ela tá passando mais tempo com o algoritmo,
[01:28:01] ela tá usando o algoritmo pra passar mais tempo com o algoritmo.
[01:28:03] Essa é a verdade?
[01:28:04] Então, o algoritmo faz com que você passe mais tempo com ele.
[01:28:08] E que, no final das contas, pode ser resumido em termos econômicos,
[01:28:12] em você deixar de ser produtor.
[01:28:14] Então, a produção você delega pro robô.
[01:28:16] No caso, produção de informação, no mercado da atenção.
[01:28:20] Você para de produzir aquilo que captura a atenção,
[01:28:22] mas você não deixa de ser consumidor.
[01:28:24] Você segue consumindo.
[01:28:26] E daí, a pergunta pra quem olha pra mercado de trabalho,
[01:28:30] é, bom, se todo mundo deixa de ser produtor,
[01:28:34] mas não deixa de ser consumidor,
[01:28:36] como é que o consumidor consegue consumir?
[01:28:38] Que aí tem a ver com essa captura absoluta do valor por essas empresas,
[01:28:42] as Anthropics da vida,
[01:28:43] que capturam o valor de uma maneira absurda, sem precedentes,
[01:28:47] na história da humanidade mesmo.
[01:28:49] E que pode acabar gerando uma obsolescência do trabalho.
[01:28:53] Numa sociedade que não consegue nem discutir lazer e tempo livre,
[01:28:58] e capacidade de viver com a sua família, com seus amigos,
[01:29:01] e distribuição de renda,
[01:29:02] que são as únicas coisas que podem me salvar dessa distopia.
[01:29:05] O fim das calças por um é o início de uma conversa sobre
[01:29:08] sobre como que a gente desloca aquilo que sustenta a sociedade
[01:29:14] de trabalho pro capital, na verdade.
[01:29:16] Porque é no capital que tá essa condição da produção.
[01:29:20] É um monte de marcas, são empresas produzindo,
[01:29:22] não mais as pessoas produzindo.
[01:29:24] E o fim da consciência desse processo,
[01:29:26] que eu acho que isso é poto bem,
[01:29:28] quando a gente vira consumidor, talvez seja nosso único papel público
[01:29:31] daqui há muito pouco tempo, ou o principal deles,
[01:29:34] mas cada vez mais, acho que tem algo diretamente relacionado
[01:29:37] com o fim da consciência.
[01:29:39] Que é você sobra com o quê, então?
[01:29:41] Com o seu inconsciente livre.
[01:29:43] Porque se você não tem a consciência, o seu ego muito bem estruturado
[01:29:47] e o seu pensamento que seja capaz de se elaborar sem uma máquina,
[01:29:51] mas um pensamento que é capaz de escrever a coluna de si mesmo,
[01:29:54] de você conseguir se entender como um é sujeito,
[01:29:57] o seu inconsciente priorizado,
[01:30:01] o seu inconsciente como única coisa que sobra na sociedade,
[01:30:04] é o consumidor mais perigoso e mais inconsequente que possa ter,
[01:30:08] é o ser humano que perde a agência histórica,
[01:30:11] que é o que a gente tá vendo nessas guerras todas,
[01:30:14] e é o político que para de tomar decisão moral.
[01:30:21] Que para de tomar decisão e para de produzir discurso.
[01:30:23] O que que ele faz?
[01:30:24] E é a algoritimização da própria história que a gente vê.
[01:30:27] É muito louco isso, que eles pulando a parte chata…
[01:30:31] Eles pularam a política.
[01:30:33] Eles pularam o trabalho deles.
[01:30:35] No fim das contas ninguém quer trabalhar.
[01:30:37] Vamos assumir isso, vamos pra escala dois por sete.
[01:30:41] Mas concluindo, acho que realmente tem algo que o Bruno falou,
[01:30:45] e voltando ao Grã, com a nossa…
[01:30:48] Não é inércia a palavra, nem apatia,
[01:30:51] mas nossa falta de ferramentas de indignação.
[01:30:54] Aliás, um termo bom que o Fernando Barros cunhou é pós-putos.
[01:30:58] Pós-putos.
[01:30:59] Nós estamos meio pós-putos.
[01:31:01] E acho que é algo que define bem mesmo o estado que a gente está.
[01:31:04] Você já ficou puto, já ficou puto pra caralho,
[01:31:06] já ficou hiper-puto, de repente você ficou…
[01:31:08] Pós-puto.
[01:31:09] Você ficou anestesiado, sem palavras,
[01:31:11] e sobretudo com a impressão de que não vai adiantar nada.
[01:31:14] E eu acho que isso aí tem a ver sim com automatização.
[01:31:16] Tem.
[01:31:17] Você vai protestar contra uma IA, ela tá cagando,
[01:31:19] se tem alguém que tá cagando…
[01:31:20] Os governantes sempre cagaram pros protestos, de modo geral.
[01:31:23] Mas a IA realmente…
[01:31:24] Mas se tem alguém que caga de verdade, é a IA.
[01:31:28] E eu acho que você tá lidando com um inimigo novo,
[01:31:30] que realmente não é que não se importa com você,
[01:31:34] é que não sabe o que é você,
[01:31:36] é o que não sabe o que é se importar.
[01:31:38] Não sabe.
[01:31:39] Não sabe nada.
[01:31:40] Não sabe.
[01:31:41] Então é uma era nova mesmo que a gente vai precisar…
[01:31:45] Que boche, hein, Greg?
[01:31:46] Usar muito chat EPT pra entender o que tá acontecendo.
[01:31:48] Eu vou fazer um último jabá antes da gente fechar,
[01:31:50] que eu sei que o Greg já tá aqui fechando,
[01:31:52] que é essa semana, quarta-feira,
[01:31:54] a gente vai ter o primeiro encontro do nosso clube de cultura
[01:31:56] pra debater um livro que a gente chama,
[01:31:58] que é O Vivo Povo Brasileiro,
[01:31:59] um filme, um disco,
[01:32:01] e a gente vai continuar tendo esses encontros semanalmente ao longo do ano.
[01:32:04] Então se você ainda não se inscreveu,
[01:32:06] ainda dá tempo de se inscrever e pegar o clube de cultura no iniciozinho.
[01:32:09] E eu falo isso muito sinceramente mesmo.
[01:32:12] Me preocupa muito o sedentarismo cognitivo.
[01:32:14] Muito.
[01:32:15] A auto-amação das coisas físicas gerou uma geração,
[01:32:19] algumas gerações de sedentários físicos na humanidade, né?
[01:32:22] E aí as pessoas passaram a fazer, sei lá, exercício de forma…
[01:32:25] Academia.
[01:32:26] Academia.
[01:32:27] Ou sair pra correr.
[01:32:28] O exercício, que era uma coisa integrada à vida,
[01:32:30] o Bruno fala muito sobre esse assunto, né?
[01:32:32] Passou a ser uma coisa que você precisa fazer de maneira intencional.
[01:32:35] E acho que a gente tá vivendo um processo parecido com a cognição.
[01:32:38] Se a gente não for intencional sobre as nossas leituras,
[01:32:40] os nossos debates, aquilo que a gente conversa,
[01:32:42] a gente vai ficar preguiçoso e sedentário cognitivamente.
[01:32:45] Então a resposta mínima que a gente tá tentando dar
[01:32:49] é se juntar pra ler uns livros longos.
[01:32:52] Não todos.
[01:32:53] Não serão todos longos.
[01:32:54] O do próximo mês é bem curto.
[01:32:56] É bem curtinho.
[01:32:57] A gente acabou de ler um de 600 e poucas páginas.
[01:32:59] Mas a gente vai depois ler um de 100.
[01:33:01] Mas vou te falar, são as 600 páginas mais prazerosas que eu já…
[01:33:04] Muito maravilhoso.
[01:33:05] Essa aqui é a delícia.
[01:33:06] Aliás, a gente falou por alto de sedentarismo,
[01:33:09] que eu acho uma ótima imagem de sedentarismo cognitivo,
[01:33:11] mas tem outra que eu acho que a gente usa um pouco,
[01:33:13] que é gastronômica, que é a ideia de que você tem ultraprocessados cognitivos,
[01:33:19] que é o texto de Iá.
[01:33:21] Ele é uma farinata do Dória.
[01:33:24] É farinata.
[01:33:25] Tipo, se você comer você não vai morrer, não é isso.
[01:33:27] É óreo.
[01:33:28] Mas a sua vida vai ser muito triste.
[01:33:29] A sua dieta não pode ser só óreo.
[01:33:30] Não pode ser só.
[01:33:31] Então vem comer um brócolis com a gente, entendeu?
[01:33:34] No caso do povo brasileiro, é uma feijoada, uma moqueca, na verdade.
[01:33:40] Uma moqueca de camarão.
[01:33:41] É uma loucura.
[01:33:42] É uma explosão de sabores, não só com sabores,
[01:33:44] mas também com tradição.
[01:33:45] Comida não é só sabor, é também…
[01:33:47] É algo que organiza a vida.
[01:33:50] A literatura pode ser esse lugar também.
[01:33:52] Tem uma coisa de…
[01:33:54] Só pra terminar o jabá direito, Bruno, eu passo pra você.
[01:33:57] calmourgente.com.br
[01:33:59] Pra quem quiser se inscrever no Clube de Cultura.
[01:34:01] Calmourgente.com.br
[01:34:02] Calmourgente.com.br
[01:34:03] Calmourgente.com.br
[01:34:04] Fala de novo.
[01:34:05] Quem quiser se inscrever no Clube de Cultura pra vir comer feijoada e moqueca com a gente,
[01:34:10] não literalmente, é só entrar em calmourgente.com.br e se inscrever.
[01:34:15] Você vai ler, ver filme.
[01:34:17] Vai ter o acesso a essas conversas que são só pros assinantes.
[01:34:22] Vai ter acesso, é prioritário, pra esse teatro e pra ver o calmourgente.
[01:34:27] Ao vivo?
[01:34:28] Ao vivo.
[01:34:29] A gente vai fazer mais eventos desse.
[01:34:30] E fora do Rio também.
[01:34:31] E uma comunidade exclusiva pra quem é membro e é membro pra gente se conhecer,
[01:34:36] pra se organizarem, verem, assistirem e lerem coisas juntos, irem em festas.
[01:34:41] E um clube de muitos descontos em cinema, em editoras, livrarias, em teatro.
[01:34:47] Em coisas que acontecem fora da tela.
[01:34:48] Em coisas que acontecem fora da tela pra gente se ver.
[01:34:50] É isso.
[01:34:51] Mas isso que você colocou, só pra encerrar que eu vou fazer uma defesa do Viva o Povo é Brasileiro,
[01:34:55] que é um livro que a gente tá lendo, mas uma coisa que me espanta muito, que é…
[01:34:59] O livro é muito saboroso de ler.
[01:35:02] É um texto pra mim, uma obra-prima, uma exuberância.
[01:35:06] Mas mesmo que você me convença, e talvez vai ver que é possível,
[01:35:09] daqui a três, quatro anos que a Antrópica seja capaz de produzir o mesmo texto.
[01:35:14] Ter essa capacidade cognitiva eletrônica de fazer isso.
[01:35:17] De se enganar.
[01:35:18] De se enganar.
[01:35:19] De produzir o mesmo texto, que equivalente a um texto que se eu lesse de uma pessoa,
[01:35:22] ia ficar muito admirado.
[01:35:24] Eu posso te garantir que eu ia ficar triste lendo esse livro e não feliz.
[01:35:28] Porque a questão da obra de arte que eu acho, ela não é um produto.
[01:35:32] Ela se apresenta materialmente, como um quadro, como um poema, como um livro,
[01:35:37] como uma música, que ainda assim é som e é material também.
[01:35:41] Mas o mais bonito disso é que ela te conecta com uma outra consciência humana.
[01:35:46] Eu penso no que tá passando na cabeça do João Ubaldo.
[01:35:50] Você entra na cabeça do João Ubaldo.
[01:35:52] Em ser um baiano, comer aquela comida.
[01:35:54] Qual foi o dicionário que ele achou essa palavra maluca?
[01:35:57] De onde que ele recuperou a história que ele achou aqui?
[01:36:00] E me dá uma empatia por essa pessoa.
[01:36:02] Ver um quadro lindo ou abstrato.
[01:36:05] Qual é a angústia que esse cara tem?
[01:36:07] Você se conecta em um lugar intransponível da obra de arte,
[01:36:10] que é pra isso que ela serve, ela não é um produto.
[01:36:12] Não é.
[01:36:13] E tem algo que eu acho que existe uma utopia da nossa geração muito forte pra mim,
[01:36:18] pelo menos não sei se pra vocês também, que é o Matrix.
[01:36:20] Uma parte específica do Matrix, que é o aprendizado no Matrix.
[01:36:23] Não sei se vocês lembram como é que era.
[01:36:25] É um download.
[01:36:26] É um download.
[01:36:27] Aquilo ali mexeu com a nossa imaginação do Senhor do Senhor.
[01:36:29] Eu pensei, cara, ele é a pessoa que máximo você botar aqui, baixar,
[01:36:32] você luta Jiu-Jitsu, você toca piano, você fala russo.
[01:36:36] Porque é um chip, é um… baixou, tá na nuvem, pronto, virei um Karateka.
[01:36:40] Pronto, virei.
[01:36:41] E essa utopia, esse sonho, esse input, chamo como quiser,
[01:36:45] é algo que nos contaminou muito e que é meio possível, teoricamente, pela IA.
[01:36:50] No sentido que você consegue fazer, é meio sobrenatural.
[01:36:53] Baixei, fiz.
[01:36:54] Não é que eu fale russo, mas ele traduziu, é como se eu falasse.
[01:36:57] Escrevi um e-mail e russo.
[01:36:58] Mas, ao mesmo tempo, tem algo ali que é utópico e inatingível,
[01:37:04] por um motivo, tá fora do tempo, e qualquer professor sabe disso,
[01:37:08] que é impossível você ensinar alguém fora do tempo.
[01:37:11] É.
[01:37:12] Entendeu?
[01:37:13] Você não tem como baixar, porque o aprendizado não é um download.
[01:37:16] É um processo.
[01:37:17] É um processo.
[01:37:18] Você não consegue aprender russo sem 10 mil horas de voo.
[01:37:23] Aliás, é curioso esse conceito de horas de voo, é um conceito curioso,
[01:37:27] você pode ser o melhor piloto do mundo, cara.
[01:37:30] Você pode aterrissar um boi na sua primeira aula, você faz um milagre,
[01:37:35] não importa, você não vai ter o brevê, porque tem uma coisa que se chama horas de voo.
[01:37:38] Você só consegue com horas físicas, experiência de verdade.
[01:37:43] É uma aposta de que é o tempo que ensina.
[01:37:45] Não é o quanto você leu, não é o que você fez, é o tempo.
[01:37:48] E tem isso pra piloto, mas acho que tem isso de modo geral,
[01:37:50] tem coisa que você só aprende com horas de voo.
[01:37:52] Por isso que essa coisa do Matrix é algo que acho que a gente nunca vai chegar lá,
[01:37:55] que é o fato de que você só aprende dentro do tempo.
[01:37:59] O tempo é o ingrediente mais fundamental pra vida.
[01:38:02] Você não consegue condensar.
[01:38:04] E por isso que acho linda a experiência de ler um livro.
[01:38:06] Por que é diferente ler um livro?
[01:38:08] Por que seria radicalmente diferente você baixar o vida do povo brasileiro?
[01:38:11] Você não passa tempo com aquele livro.
[01:38:12] Você não passa tempo com ele, ele não entra na sua vida.
[01:38:14] E a mágica da literatura é que ela vai permear a sua vida
[01:38:17] e o tempo que você leu vai ser um tempo que vai fazer parte da fruição da obra.
[01:38:23] Ela não existe fora daquele tempo que você lê.
[01:38:26] E acho que isso aí que é legal de ler junto também.
[01:38:29] E é um diálogo real, com uma pessoa que tá morta,
[01:38:33] mas eu tô conversando com o João Ubaldo.
[01:38:36] Eu tô absolutamente vivo naquele momento.
[01:38:39] Que é outra coisa que eles tiram da gente também,
[01:38:42] que é a ideia de que esse tempo que a gente lê ou escreve,
[01:38:46] ou aprende piano, ou se esforça pra fazer alguma coisa,
[01:38:49] é um tempo que se perde.
[01:38:52] É um mero esforço.
[01:38:53] E você deveria fazer menos esforço.
[01:38:55] E a ideia de que ler é difícil e chato,
[01:38:58] e não extremamente saboroso junto com isso.
[01:39:02] Porque o esforço que você traz é altamente recompensador
[01:39:05] em dimensões imateriais, intangíveis.
[01:39:08] E é isso que eu falo.
[01:39:09] Se aquele livro fosse escrito pra uma máquina,
[01:39:11] e eu lesse o livro e falasse o que fez, eu ia ficar triste.
[01:39:14] Porque eu falo assim, não tem um ser humano…
[01:39:18] Não tem outro aqui.
[01:39:20] Não tem uma angústia aqui.
[01:39:22] Isso não tem desejo, não tem uma vontade,
[01:39:24] não tem vontade de falar comigo, de me tocar, de me emocionar.
[01:39:28] Então, esse é o convite.
[01:39:30] Esse foi o Calma Urgente.
[01:39:32] Obrigada, gente.
[01:39:33] Venha nos encontrar no Clube do Calma,
[01:39:35] se quiser continuar essa conversa.
[01:39:37] Clube do Calma Urgente, calmaurgente.com.
[01:39:41] Entra no nosso clube de cultura.
[01:39:43] E até já, até breve, até semana que vem.
[01:39:45] Um beijo, queridos. Tchau, tchau.
[01:39:50] O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções e do Estúdio Fluxo.
[01:39:54] Na apresentação, Alessandra Orofino, Gregório Duvivier e Bruno Torturra.
[01:39:58] Na produção, Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo.
[01:40:02] Na pesquisa e roteiro, Luisa Miguez.
[01:40:04] Na captação de som, edição e mixagem, Vitor Bernardes.
[01:40:08] Na ilustrações, Ana Brandão.
[01:40:10] Na sonoplastia, Felipe Croco.
[01:40:12] Na edição de cortes, Júlia Leite.
[01:40:14] Nas redes sociais, Bruna Messina.
[01:40:16] Gestão de comunidade, Marcela Brandes.
[01:40:18] Na identidade visual, Pedro Inoui.
[01:40:20] E, consultoria de comunicação, Luna Costa.